Revista Casa Marx

A indústria nacionalizada e a administração operária

Leon Trótski

Publicado na Fourth Internacional (Quarta Internacional), em agosto de 1946. Não foi assinado. Quando foi publicado o artigo na Quarta Internacional se calculava que havia sido escrito em maio ou junho de 1938 (no manuscrito não tinha data). Entretanto, no original que está nos arquivos de Trotsky em Harvard tem a data de 12 de maio de 1939. Trotsky escreveu esse artigo depois que o governo Cárdenas expropriou a indústria petroleira e ferroviária, dando aos sindicados grande responsabilidade em sua administração. Um funcionário da CTM, Rodrigo García Treviño, neste momento adversário dos stalinistas, perguntou a Trotsky sua opinião sobre a atitude que deveriam tomar os sindicatos sobre a participação na administração. Trotsky aceitou escrever um memorando e vários dias depois entregou esse artigo a Treviño. Retirado da versão publicada nos Escritos, Tomo X, pág. 482, Editora Pluma. Trotsky, Leon.

Imagem: Pablo Esteban O’Higgins
Estampas de la revolución Mexicana, nº 11, 1947

 

Nos países industrialmente atrasados, o capital estrangeiro cumpre um papel decisivo. Vem daí a relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. Isso cria condições especiais de poder estatal. O governo oscila entre o capital estrangeiro e o nacional, entre a relativamente débil burguesia nacional e o relativamente poderoso proletariado. Isso dá ao governo um caráter bonapartista sui generis, de índole particular. Se eleva, por assim dizer, acima das classes. Na realidade, pode governar ou se convertendo em um instrumento do capital estrangeiro e submetendo o proletariado às correntes de uma ditadura policial, ou manobrando com o proletariado, inclusive chegando a fazer concessões, ganhando a possibilidade de dispor de certa liberdade em relação aos capitalistas estrangeiros. A atual política (do governo mexicano, NdT – Nota do Tradutor) se localiza na segunda alternativa; suas maiores conquistas são a expropriação das ferrovias e das companhias petroleiras.

Estas medidas se enquadram totalmente nos marcos do capitalismo de estado. Entretanto, em um país semicolonial, o capitalismo de estado se encontra sob grande pressão do capital privado estranjeiro e de seus governos, e não pode se manter sem o apoio ativo dos trabalhadores. Isso é o que explica o porquê, sem deixar que o poder real escape de suas mãos, (o governo mexicano) trata de dar às organizações operárias uma considerável parte de responsabilidade na marcha da produção dos ramos nacionalizados da indústria.

Qual deveria ser a política do partido operário nessas circunstâncias? Seria um erro desastroso, um completo engano, afirmar que o caminho ao socialismo não passa pela revolução proletária, e sim pela nacionalização que fez o estado burguês em alguns ramos da indústria e suas transferência às organizações operárias. Mas essa não é a questão. O governo burguês levou a cabo por si mesmo a nacionalização e se viu obrigado a pedir a participação dos trabalhadores na administração da indústria nacionalizada. É claro que se pode fugir à questão argumentando que a menos que o proletariado tome o poder, a participação dos sindicatos no manejo das empresas do capitalismo de estado não pode dar resultados socialistas. Entretanto, uma política tão negativa de parte da ala revolucionária não seria compreendida pelas massas e reforçaria posições oportunistas. Para os marxistas não se trata de construir o socialismo com as mãos da burguesia, mas de utilizar as situações que se apresentam dentro do capitalismo de estado e fazer avançar o movimento revolucionário dos trabalhadores.

A participação nos parlamentos burgueses já não pode oferecer resultados positivos importantes; em determinadas situações, pode inclusive conduzir à desmoralização dos deputados operários. Mas isso não é argumento para que os revolucionários apoiem o antiparlamentarismo.

Seria inexato identificar a participação operária na administração da indústria nacionalizada com a participação dos socialistas em um governo burguês (o que se chama de ministerialismo). Todos os membros de um governo estão ligados por laços de solidariedade. Um partido representado no governo é responsável pela política do governo em seu conjunto. A participação no manejo em um certo ramo da indústria proporciona, por outro lado, uma ampla oportunidade de oposição política. Em casos de que os representantes operários estão em minoria na administração, têm todas as oportunidades para proclamar e publicar suas propostas rechaçadas pela maioria, lavá-las ao conhecimento dos trabalhadores, etc.

A participação dos sindicatos na administração da indústria nacionalizada pode comparar-se com a dos socialistas nos governos municipais, onde às vezes ganham a maioria e estão obrigados a dirigir uma importante economia urbana, enquanto a burguesia continua dominando o estado e seguem vigentes as leis burguesas de propriedade. Na municipalidade, os reformistas se adaptam passivamente ao regime burguês. No mesmo terreno, os revolucionários fazem tudo o que podem em interesse dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, os ensina a cada passo que, sem a conquista do poder do estado, a política municipal é impotente..

A diferença é, sem dúvida, que no governo municipal os trabalhadores ganham certas posições por meio de eleições democráticas, enquanto que na esfera da indústria nacionalizada o próprio governo os convida a tomarem cargo de determinados postos. Mas essa diferença tem um caráter puramente formal. Em ambos casos, a burguesia se vê obrigada a conceder aos trabalhadores certas esferas da atividade. Os trabalhadores as utilizam a favor de seus próprios interesses.

Seria tolice não levar em conta os perigos que surgem de uma situação em que os sindicatos desempenham um papel importante na indústria nacionalizada. O risco reside na ligação dos dirigentes sindicais com o aparelho do capitalismo de Estado, na transformação dos representantes do proletariado em reféns do estado burguês. Por maior que possa ser esse perigo, apenas constitui uma parte do perigo geral, mais exatamente, de uma doença generalizada: a degeneração burguesa dos aparatos sindicais na época do imperialismo, não somente nos velhos centros metropolitanos, mas também nos países coloniais. Os líderes sindicais são, na esmagadora maioria dos casos, agentes políticos da burguesia e de seu estado. Na indústria nacionalizada podem voltar, e já estão voltando, seus agentes administrativos diretos. Contra isso não há outra alternativa que lutar pela independência do movimento operário em geral; e em particular pela formação nos sindicatos de firmes núcleos revolucionários que, uma vez que defendem a unidade do movimento sindical, sejam capazes de lutar por uma política de classe e uma composição revolucionária dos órgãos dirigentes.

Outro perigo reside no fato de que os bancos e outras empresas capitalistas, das quais dependa economicamente um ramo determinado da indústria nacionalizada, possa utilizar, e sem dúvida o farão, métodos especiais de sabotagem para colocar obstáculos no caminho da administração operária, desacreditá-la e empurrá-la ao desastre. Os dirigentes reformistas tratarão de evitar o perigo se adaptando servilmente às exigências de seus provedores capitalistas, particularmente aos bancos. Os líderes revolucionários, por outro lado, da sabotagem bancária extrairiam a conclusão de que é necessário expropriar os bancos e estabelecer um único banco nacional, que levaria a contabilidade de toda a economia. Ou seja, essa questão deve estar indissoluvelmente ligada à da conquista do poder pela classe trabalhadora.

As distintas empresas capitalistas, nacionais e estrangeiras, conspirarão inevitavelmente, junto das instituições estatais, para colocar obstáculos na administração operária da indústria nacionalizada. Por sua vez, as organizações operárias que dirigem distintos ramos da indústria nacionalizada devem se unir para trocar experiências, dar apoio econômico mútuo e atuarem unidas diante do governo, pelas condições de crédito, etc. Então, essa direção central da administração operária dos ramos nacionalizados da indústria deve estar em estreito contato com os sindicatos.

Para resumir, pode-se afirmar que esse novo campo de trabalho implica as maiores oportunidades e os maiores perigos. Estes consistem em que o capitalismo de estado, por meio dos sindicatos que controlam, possam conter os operários, explorá-los cruelmente e paralisar sua resistência. As possibilidades revolucionárias consistem em que, baseando-se em suas posições nos ramos industriais de excepcional importância, os operários realizem o ataque contra todas as forças do capital e do estado burguês. Qual destas possibilidades triunfará? E em quanto tempo? Naturalmente, é impossível prever. Depende totalmente da luta das diferentes tendências na classe operária, da experiência dos próprios trabalhadores, da situação mundial. De qualquer modo, para utilizar essa nova forma de atividade no interesse dos trabalhadores e não da burocracia e da aristocracia operária, se necessita somente de uma condição: a existência de um partido marxista revolucionário que estude cuidadosamente todas as formas de atividade da classe operária, critique cada desvio, eduque e organize aos trabalhadores, ganhe influência nos sindicatos e assegure uma representação operária revolucionária na indústria nacionalizada.

Tradução: Fabricio Gonzalez

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