O genocídio na Palestina e as guerras no Irã, Líbano e Ucrânia são sinais de um capitalismo decadente. Incapaz de administrar a crise econômica aberta em 2008 e aprofundada com a pandemia de 2020, assim como pressionado pela competição entre potências, o imperialismo empurra mais uma vez a humanidade para o abismo, destruindo fábricas, pontes, escolas, hospitais e universidades, enquanto as mortes se contam às dezenas de milhares. O desenvolvimento tecnológico — drones, inteligência artificial, big data, foguetes, aviação, enriquecimento de urânio — não é utilizado para melhorar a vida das pessoas, aumentar o tempo livre ou garantir a provisão universal de produtos básicos como água ou vacinas. Enquanto o poder continuar nas mãos de uma elite de super-ricos — um grupo de cerca de 56.000 pessoas que possui três vezes mais riqueza do que os 4 bilhões mais pobres do planeta e que utiliza seus Estados como máquinas de guerra — o futuro é sombrio.
No entanto, contra o futuro apocalíptico vendido por Hollywood e o bombardeio de más notícias difundido pelos grandes meios de comunicação, também existe resistência desde baixo. A Flotilha Global Sumud, composta por 70 embarcações e cerca de 3.000 participantes de mais de 100 países, é uma expressão da solidariedade operária que persiste. Nela embarcaram mais de 1.000 profissionais de saúde, entre os quais se encontra Iara Salerno, do PTS e da Corrente Revolução Permanente. Também participaram Leandro Lanfredi, dirigente sindical do setor petroleiro no Brasil, e Mariona Tasquer, ativista do movimento estudantil catalão. As ocupações de universidades ao redor de todo o mundo, de Harvard a Sydney a partir de 2024, e a greve geral na Itália de 2025, liderada pelo movimento “Blocchiamo tutto”, mostraram que, para milhões, o genocídio na Palestina não é indiferente.

A seguir, apresentamos alguns marcos da luta internacional dos trabalhadores e do povo que podem servir como inspiração para o momento atual, por sua capacidade de coordenação em todo o mundo em torno de um objetivo comum e por seus efeitos. Propomos, assim, uma revisão da primeira manifestação internacional do 1º de maio de 1890, da Revolução Russa, da Guerra Civil Espanhola, da Guerra do Vietnã e do movimento de mulheres. Por fim, busca-se responder à pergunta inicial: pode a coordenação internacional dos trabalhadores e do povo em luta ser capaz de frear a distopia à qual o capitalismo conduz?
O fio vermelho do internacionalismo
Como parte da fundação da Segunda Internacional socialista em 1889, decidiu-se realizar, no ano seguinte, uma jornada internacional de luta com protestos de rua, atos e manifestações no dia 1º de maio. A principal reivindicação era a redução da jornada de trabalho para 8 horas e a homenagem à luta dos mártires de Chicago, um grupo de trabalhadores que foi condenado à morte nos Estados Unidos por ter sido protagonista das grandes manifestações que ocorreram em 1886 sob o mesmo lema. No entanto, o método de protesto não era inocente: fazia parte de uma perspectiva internacionalista que entendia que a luta começava na fábrica, no local de trabalho ou de estudo, devia se elevar ao plano nacional e se completar no internacional. Compreendia-se que a única forma de lutar contra um sistema de exploração internacional do trabalho como o capitalismo só poderia ser alcançada com uma luta na mesma escala e com a coordenação dos trabalhadores e do povo de diferentes países.

Naquela ocasião, as manifestações mais importantes ocorreram em Londres, com cerca de 300 mil pessoas; em Viena, onde se conseguiu paralisar a produção em diversos setores da economia; e em Barcelona, que declarou greve geral. Baltimore, Nova York e Detroit tiveram fortes protestos de rua e, inclusive em Buenos Aires, realizou-se um ato com oradores que discursaram em espanhol, italiano, alemão e francês.
Esse marco deu início a uma forte tradição internacionalista que chega até os dias atuais. Diante de guerras, revoluções e diferentes processos de luta, o internacionalismo aparecia como uma resposta prática aos desafios da realidade. Inclusive durante a Primeira Guerra Mundial, quando vários partidos socialistas, como o alemão, traíam seus princípios e decidiam apoiar as ações imperialistas de seu próprio país, ocorreram episódios como a confraternização entre soldados alemães, franceses e britânicos durante a noite de Natal de 1914, na qual cerca de 100 mil soldados cantaram canções natalinas, trocaram presentes e até jogaram uma partida de futebol. Uma insubordinação massiva diante de uma guerra interimperialista conduzida pelas classes dominantes da Europa, que enviavam operários vestidos de soldados para matar operários de outros países.
No movimento socialista, a principal reação se deu a partir das conferências de Zimmerwald e Kienthal, das quais participaram figuras como Lenin e Trotsky, que denunciavam o caráter criminoso da guerra. Lenin, além disso, propunha transformar a guerra imperialista em guerra civil, direcionando os esforços contra as classes dominantes de cada país. Com a Revolução Russa de 1917 e a fundação da Internacional Comunista, ou Terceira Internacional, o polo internacionalista seria amplamente reforçado. Lenin e Trotsky consideravam que a vitória definitiva da revolução só poderia ser alcançada na medida em que o processo se expandisse pelo mundo e ganhasse força em algumas das potências da época, como a Alemanha.

Algum tempo depois, com a eclosão da Guerra Civil Espanhola em julho de 1936, desencadeou-se um dos episódios mais grandiosos de internacionalismo em todo o mundo. Três anos antes, Hitler havia chegado ao poder na Alemanha e Mussolini já estava consolidado na Itália. O fascismo aparecia como uma ameaça real, e o levante de Francisco Franco na Espanha fazia parte de uma mesma ofensiva, mas que, ao mesmo tempo, havia despertado a ocupação de terras, o controle operário de setores estratégicos da economia e o armamento de comitês operários e camponeses para se defender dos golpistas.
O caso do Estado espanhol parecia colocar em jogo o destino da humanidade entre o avanço do fascismo ou a revolução. Foi assim que surgiu a iniciativa das Brigadas Internacionais, com combatentes voluntários provenientes de mais de 50 países, que viajavam à Península Ibérica para efetivar sua posição e enfrentar o fascismo, chegando a reunir até 60 mil pessoas. Por outro lado, em todo o mundo, multiplicavam-se arrecadações de fundos, alimentos e roupas para aqueles que lutavam contra o franquismo. Na França, nos Estados Unidos e na Argentina ocorreram alguns dos movimentos de solidariedade mais potentes, com manifestações e organização de comitês em inúmeras cidades.

Em 1938, a bandeira do internacionalismo seria assumida pela Quarta Internacional, orientada por Leon Trotsky. Esse agrupamento surgiu no contexto da burocratização da União Soviética, liderada por Stalin, e de sua teoria de que era possível construir o socialismo em um só país. O objetivo da nova organização era atuar como um partido internacional que lutasse pela revolução socialista em todo o mundo.
Algumas décadas depois, nos anos 1960, diante da intervenção norte-americana no Vietnã, ocorreria um dos mais fortes movimentos internacionais de protesto até então. Com epicentro nos Estados Unidos, a partir de 1965 começaram ocupações de universidades, a queima coletiva de cartões de recrutamento e a unificação das reivindicações por direitos civis com a comunidade afro-americana. Ao mesmo tempo, sindicatos como os de professores e de trabalhadores da saúde organizavam greves e manifestações. Em países como a Austrália, que participaram ativamente da guerra, ocorreram greves de estivadores para impedir o envio de suprimentos, enquanto no Maio Francês, na Itália, na Inglaterra, no México e na Argentina, entre outros, a oposição à guerra fez parte das demandas e articulou um anti-imperialismo crescente, sobretudo entre os jovens.
Mas não é preciso ir tão longe no tempo para encontrar exemplos desse tipo. Mais recentemente, o movimento “Me Too”, denunciando diversos casos de violência contra as mulheres nos Estados Unidos, e o “Ni Una Menos” na Argentina desde 2014, foram catalisadores de um processo de mobilização massiva em toda a América Latina e na Europa. As bandeiras eram a igualdade de gênero, a oposição à violência de gênero e ao patriarcado, a diversidade sexual e a educação sexual. A partir disso, retomou-se com força a tradição do 8 de março como dia internacional de luta das mulheres trabalhadoras, sobretudo na América Latina e na Europa.

Mais recentemente, diante do genocídio do Estado de Israel na Palestina, com a cumplicidade dos Estados Unidos e de outros Estados que garantem a cadeia de suprimentos de uma máquina de extermínio, a resposta se fez ouvir. Primeiro, as ocupações de universidades em todo o mundo, de Harvard a Sydney a partir de 2024, enquanto se sucediam fortes mobilizações. Depois, a formação da Flotilha Global Sumud, composta em sua versão mais recente por 70 embarcações e cerca de 3.000 participantes de mais de 100 países, da qual participam mais de 1.000 profissionais de saúde. Além disso, na Itália ocorreu um dos movimentos mais profundos, com a greve geral liderada pelo movimento “Blocchiamo tutto”, que repudia o genocídio e exige o fim da cumplicidade do Estado italiano.
Os diferentes casos aqui revisados são expressão de uma forte tradição internacionalista que se manteve ao longo do tempo, apesar das pressões do nacionalismo estatal das classes dominantes e do sindicalismo corporativo. Nem mesmo o hiperindividualismo neoliberal conseguiu derrotar a força da solidariedade e a capacidade dos povos de se sensibilizarem diante dos grandes desastres da humanidade, como as guerras de conquista ou aquelas motivadas pela competição entre potências. Repetidas vezes essa sensibilidade emerge, mas, separada de uma estratégia política, essa energia se dispersa e se dissipa.
Uma estratégia para vencer
O contexto atual, em que o imperialismo ameaça destruir civilizações inteiras para avançar com seus planos de dominação e colonização, impacta milhões de pessoas que veem pela televisão e pelas redes sociais como ficam as cidades devastadas após os bombardeios, ou a fúria de centenas de pais ao descobrirem que suas filhas morreram enquanto estudavam em uma escola no Irã. Para além dos interesses geopolíticos, as principais potências da Europa tiveram que se manter à margem das aventuras militares de Trump e Netanyahu, já que a oposição à guerra na Europa alcança entre 50% e 70% da população naEspanha, Itália, França, Alemanha e Reino Unido. Enquanto isso, nos Estados Unidos cresce o descontentamento com Trump diante da escalada dos preços do petróleo, e ele já havia sido abalado pelo escândalo Epstein e pelo movimento “No Kings”.
Os crimes de Trump e Netanyahu empurram novas gerações a expressar sua rejeição e abrem a possibilidade de que surja um novo movimento anti-imperialista. O genocídio na Palestina já gerou ocupações de universidades com epicentro nos Estados Unidos, mas também nas mais diversas regiões do mundo. Também despertou a juventude trabalhadora italiana, que convocou a greve geral, provocou a formação da Flotilha Global Sumud, assim como manifestações massivas em diferentes países. São expressões de um sentimento internacionalista e anti-imperialista que tende a emergir: milhares de jovens que sentem que não podem permanecer indiferentes enquanto se prepara um futuro distópico para milhões de famílias.
Em 20 de abril, pela primeira vez na história, uma ação civil em alto-mar protagonizada pela Flotilha Global Sumud conseguiu desviar um carregamento de suprimentos militares no Mediterrâneo que se dirigia ao Estado de Israel. Na Itália, além das greves gerais, os portos de Gênova, Livorno, Trieste, Ravena, Ancona e Bari participaram de bloqueios seletivos coordenados com estivadores da Grécia, Turquia e Espanha para deter navios de empresas como a ZIM, suspeitos de transportar material bélico. Essas ações afetam o abastecimento israelense, já que, como mostrou o relatório de Leandro Lanfredi no Esquerda Diário, 9% do petróleo utilizado por aeronaves, tanques e outras máquinas militares de Israel provêm da extração realizada pela Petrobras no Brasil e posteriormente refinada na Itália.
Embora os governos imperialistas tenham a capacidade de iniciar ou encerrar uma guerra, eles dependem do funcionamento da produção e do transporte controlados por trabalhadores do setor petrolífero, metalúrgico, estivadores e marinheiros, entre muitos outros. Dependem também do conhecimento produzido nas universidades e em diversos centros de pesquisa. Está nas mãos dos trabalhadores e trabalhadoras, do movimento universitário e do povo mobilizado a capacidade de afetar a máquina de guerra, retomando as melhores tradições internacionalistas.

Diante da inflamação do “orgulho nacional” promovida pelos governos, abre-se a possibilidade de desenvolvimento de um internacionalismo que não seja indiferente ao genocídio e às guerras. Assim, ressoam mais uma vez as palavras do deputado socialista Karl Liebknecht durante a Primeira Guerra Mundial: “o inimigo principal está em nosso próprio país”. Junto à defesa das nações agredidas pelo imperialismo, coloca-se a necessidade de atacar os mecanismos capitalistas em cada país que permitem o funcionamento de um sistema criminoso que transforma a guerra e a exploração em um negócio a serviço de interesses privados. A relativa fraqueza do imperialismo norte-americano, expressa no caso do Irã, pode ser uma oportunidade para os trabalhadores e o povo dos países oprimidos que, retomando o fio vermelho da tradição internacionalista, em uma aliança que ultrapasse fronteiras, possam enfrentar o desastre da guerra e apresentar uma saída própria.