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A crescente onda de greves na China

Por André Barbieri |
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Esse artigo foi publicado originalmente em inglês na página do CRP News Asia no dia 20/07/2026

A classe trabalhadora chinesa já não está disposta a aceitar passivamente sacrifícios impostos de forma unilateral. As greves voltaram, e estão se multiplicando. Neste artigo, buscamos identificar e documentar a ascensão da tendência de greves operárias na China, acompanhando suas transformações desde 2022.

A China continua sendo a capital mundial das greves de trabalhadores. Esse fato nem sempre é visível ou percebido como tal. O governo de Xi Jinping, para satisfação dos capitalistas, reprime as greves operárias com grande severidade. No entanto, por trás da fachada de uma potência global unificada e altamente tecnológica, o país enfrenta profundas tensões sociais. As autoridades frequentemente tentam varrer esses conflitos recorrentes para debaixo do tapete, mas a realidade é incontornável e torna impossível ocultá-los.

A luta de classes na China, ao longo das últimas décadas, desenvolveu-se no contexto dos impressionantes ciclos de crescimento econômico do país. Na primeira década dos anos 2000, as lutas no campo ganharam destaque em meio à intensa migração de trabalhadores rurais para as cidades voltadas à exportação. Pequenos agricultores e trabalhadores rurais entraram em conflito com governos locais em torno da expropriação de suas terras, do avanço da especulação imobiliária e da expansão do agronegócio nos moldes estadunidenses.

Nas cidades, entre 2004 e 2008, o movimento grevista combinou as características distintas do Cinturão da Ferrugem (Rust Belt), no Norte — onde os trabalhadores do antigo sistema de grandes danwei (unidades de trabalho) lutavam contra as demissões e a reestruturação das empresas estatais —, e do Cinturão do Sol (Sun Belt), no Sul — onde trabalhadores rurais migrantes exigiam o fim dos atrasos salariais, a abolição dos castigos corporais e da disciplina militarizada na produção, além da melhoria das condições de trabalho nas modernas indústrias voltadas à exportação.

Como explica Ching Kwan Lee, nesses "cinturões da ferrugem e do sol", que abrangem sistemas produtivos distintos, greves prolongadas, como a paralisação de dois meses realizada por 6.000 trabalhadores da fábrica têxtil Tianwang, em Xianyang, província de Shaanxi, frequentemente eram acompanhadas por greves mais curtas no Delta do Rio das Pérolas, coração da indústria chinesa de baixo valor agregado, as quais eram rapidamente reprimidas pela polícia, conforme relata Ching Kwan Lee em Against the Law: Labor Protests in China's Rustbelt and Sunbelt (Berkeley: University of California Press, 2007).

Essa onda de greves atingiu seu auge em 2010 com a greve na Honda de Foshan, em Guangdong, na qual os trabalhadores conquistaram aumentos salariais e derrotaram a multinacional japonesa. Essa vitória influenciou greves posteriores em outras montadoras, como Toyota e Mitsubishi, bem como na Foxconn, que ganhou notoriedade pelos suicídios de trabalhadores em meio às precárias condições de trabalho em suas fábricas. Desde a posse de Xi Jinping, em 2013, observou-se um recrudescimento significativo da coerção estatal e da repressão às greves; como destaca Manfred Elfstrom, a onda grevista de 2010 foi seguida por um declínio gradual da agitação trabalhista. O discurso oficial da "unidade nacional para a ascensão da China como potência" consolidou-se ao mesmo tempo em que se encerrava o ciclo de crescimento exponencial do PIB chinês, em meio à crise econômica global.

A economia chinesa entrou em um período de "novo normal", caracterizado pela desaceleração do crescimento e pela retração de segmentos importantes do PIB, especialmente o setor imobiliário, afetado por uma crise demográfica e pela estabilização dos fluxos de migração para as cidades. Para amortecer choques econômicos inesperados em um contexto de renovada competição com os Estados Unidos, Xi adotou uma postura de repressão total às formas de resistência econômica dos trabalhadores, desmantelando iniciativas de criação de sindicatos independentes, como ocorreu durante a greve da Jasic Technologies, em 2018, que contou com a solidariedade de estudantes enquanto contribuía para elevar a média nacional dos salários, que partia de níveis muito baixos.

Desde o fim das restrições da política de "Covid Zero", a agitação trabalhista na China registrou um expressivo aumento ao longo de vários anos, impulsionado principalmente pela desaceleração econômica, pelos calotes no setor imobiliário e por uma onda de fechamento e transferência de fábricas.

Como o governo chinês não publica estatísticas oficiais sobre greves e proíbe a existência de sindicatos independentes, os dados mais confiáveis provêm de organizações da sociedade civil que monitoram esses conflitos, sobretudo o China Labour Bulletin (CLB), sediado em Hong Kong, e o China Dissent Monitor (CDM), da Freedom House.

A seguir, apresentamos um panorama da tendência geral desses dados e das greves de maior repercussão ocorridas nos últimos anos.

Tendências Gerais das Greves de Trabalhadores (2022–2025)

O ano de 2023 marcou o maior aumento das mobilizações operárias desde o fim da grande "onda de greves" chinesa, em 2016. Segundo os dados disponíveis, o China Labour Bulletin (CLB) registrou 1.789 greves e ações coletivas de trabalhadores em 2023, um salto de 216% em relação a 2022, quando foram contabilizados 830 casos. Mais de 90% dos incidentes registrados foram classificados como greves defensivas. Em vez de reivindicarem melhores benefícios, os trabalhadores recorreram às paralisações para exigir o pagamento de salários atrasados e das indenizações legais obrigatórias após falências repentinas de empregadores.

Detalhamento por Setores-Chave (Dados do CLB 2023)

Setor

% de greves

Causa primária

Construção

53% (945 casos)

Calotes em massa de gigantes do setor imobiliário (como Evergrande e Country Garden) deixam trabalhadores migrantes sem pagamento.

Manufatura

24% (438 casos)

Desacoplamento da cadeia de suprimentos global; fechamento rápido de fábricas ou realocações silenciosas para províncias do interior ou para o Sudeste Asiático.

Serviços e Varejo

12% (208 casos)

Fechamento de redes de varejo, academias e operações de logística ligadas ao setor de tecnologia.

Logistica & Transporte

6% (115 casos)

Redução da remuneração por tarefa para trabalhadores de plataformas e entregadores.

Embora milhares dessas ações ocorram em pequena escala — geralmente envolvendo de algumas dezenas a poucas centenas de trabalhadores, a fim de evitar uma repressão policial mais severa —, vários episódios de grande dimensão provocaram interrupções nas cadeias globais de suprimentos ou estabeleceram precedentes importantes.

Os distúrbios na fábrica da Foxconn em Zhengzhou, responsável pela montagem de iPhones, constituíram o episódio mais importante da luta de classes na China desde o início da pandemia de Covid-19. Dezenas de milhares de trabalhadores participaram dos intensos confrontos contra a empresa e a polícia. Na maior fábrica de montagem de iPhones do mundo, o rígido sistema de quarentena em "circuito fechado" (closed-loop) implantado durante a pandemia gerou um clima de forte tensão. Quando a Foxconn adiou o pagamento dos bônus prometidos aos trabalhadores recém-contratados — recrutados para manter as linhas de produção em funcionamento —, eclodiram protestos em massa. Os trabalhadores enfrentaram abertamente a tropa de choque. Diante da escalada do conflito, a Foxconn acabou recuando, oferecendo 10.000 yuans (cerca de US$ 1.400) a cada trabalhador recém-contratado que aceitasse deixar a fábrica de forma pacífica. A produção foi interrompida, provocando sérios impactos na cadeia global de fornecimento da Apple para as vendas de fim de ano. O governo de Pequim também interveio na tentativa de conter o descontentamento.

Greve de Zhengzhou de 2022

Outro episódio de destaque foi a greve dos entregadores da Meituan em Shanwei, em abril de 2023, considerada um marco após os acontecimentos de Zhengzhou. Centenas de entregadores locais da economia de plataformas, apoiados por uma ampla rede de solidariedade online em todo o país, paralisaram suas atividades. A Meituan, principal plataforma chinesa de entrega de refeições, havia eliminado subsídios pagos aos entregadores e reduzido a remuneração por entrega na cidade de Shanwei, na província de Guangdong. A greve durou mais de uma semana. O episódio ganhou relevância porque a empresa tentou quebrar o movimento trazendo entregadores de outras regiões e oferecendo-lhes remunerações superiores. Em resposta, os trabalhadores locais organizaram um boicote agressivo, enquanto consumidores aderiram ao movimento em solidariedade, configurando um raro exemplo de resistência coordenada na fortemente vigiada economia de plataformas da China.

Também merece destaque a greve na fábrica de calçados Bao Chen, em novembro de 2023, quando milhares de trabalhadores em Yangzhou, província de Jiangsu, paralisaram a produção. A Bao Chen Corporation, importante fornecedora global que fabrica calçados para grandes marcas internacionais de artigos esportivos, decidiu reduzir suas operações na China para transferir investimentos para a Índia. Com o objetivo de diminuir o valor das indenizações rescisórias previstas em lei, a empresa reduziu deliberadamente os salários-base dos trabalhadores nos meses que antecederam o fechamento da unidade. O resultado foi uma greve de grandes proporções, que obrigou a direção da empresa e os órgãos locais de administração do trabalho a intervir. O caso evidenciou uma prática cada vez mais comum entre fornecedores multinacionais que buscam deixar as regiões costeiras da China reduzindo ao máximo os custos trabalhistas de sua saída. A resposta do Estado às mobilizações trabalhistas tornou-se altamente sistematizada sob a presidência de Xi Jinping. Embora os trabalhadores tenham aprendido a utilizar táticas diversas e localizadas — como ocupações, bloqueios de portões de fábricas e o uso de grupos no WeChat e no QQ para coordenar rapidamente suas ações —, o monitoramento estatal é intenso e a repressão, severa. Somente em 2023, há confirmação de que a polícia de choque chinesa interveio em pelo menos 181 greves documentadas, resultando na detenção de diversos trabalhadores e na condenação à prisão de destacados ativistas que monitoravam conflitos trabalhistas, como Wang Jianbing, numa tentativa de impedir a formação de um movimento operário nacional unificado.

Entretanto, as condições que alimentam a insatisfação são generalizadas. Um sistema de horas extras compulsórias tornou-se prática normalizada entre os trabalhadores de escritório, apesar de a legislação chinesa estabelecer oficialmente uma jornada de oito horas diárias e limitar a semana de trabalho a 44 horas. No setor de tecnologia, consolidou-se a prática conhecida como "996", na qual os empregados trabalham das 9 horas da manhã às 9 horas da noite, seis dias por semana. Esse regime de trabalho está intimamente ligado à discriminação etária, uma vez que trabalhadores com mais de 35 anos são frequentemente considerados incapazes de suportar jornadas tão extenuantes e, por isso, enfrentam discriminação nos processos de contratação. Ao mesmo tempo, a República Popular da China continua negando aos trabalhadores o direito de organizar sindicatos independentes.

Essas condições levaram parte da juventude chinesa a desenvolver novas formas de contestação. Surgiram, em 2021, os conceitos de tang ping (躺平, "deitar-se" ou "ficar deitado") e bai lan (摆烂, "deixar apodrecer" ou "deixar degringolar"), expressões populares entre os jovens que representam uma rejeição à cultura da hipercompetitividade e ao ritmo exaustivo imposto pelo modelo de trabalho 996. O primeiro conceito expressa a opção por um estilo de vida de baixas aspirações materiais, como forma de escapar das intensas pressões sociais; o segundo representa o abandono deliberado de objetivos considerados inalcançáveis quando as condições se deterioram. Em vez de dedicar toda a vida à busca por moradia, casamento e ascensão profissional, seus adeptos optam por fazer apenas o necessário para sobreviver, priorizando o descanso e o bem-estar pessoal.

Segundo o National Bureau of Statistics, a taxa de desemprego urbano entre jovens de 16 a 24 anos, excluindo estudantes, caiu para 14,9% em junho de 2026, abaixo dos 15,6% registrados em maio, atingindo o menor nível dos últimos doze meses. Em 2023, essa taxa havia alcançado 21,3%.

Essas novas formas de descontentamento passaram a coexistir com formas clássicas de protesto, sobretudo as greves operárias. De acordo com os dados anuais compilados pelo China Labour Bulletin (CLB), a agitação trabalhista na China manteve-se, ao longo de 2024, em níveis elevados quando comparados ao período anterior à pandemia. Embora o número total de ações documentadas tenha recuado ligeiramente em relação ao pico histórico registrado após o fim das restrições sanitárias em 2023, os dados revelam uma mudança particularmente significativa: as greves no setor manufatureiro atingiram seu maior nível em quase uma década.

O número total de incidentes — categoria que engloba greves e outras formas de protesto coletivo de trabalhadores — permaneceu elevado. O CLB registrou 1.509 ações coletivas de trabalhadores em 2024, uma pequena redução em relação às 1.794 registradas em 2023. A principal reivindicação continuou sendo, de forma esmagadora, o pagamento de salários atrasados: 88% de todas as disputas trabalhistas em 2024 tiveram como origem salários não pagos e demissões abruptas sem o pagamento das indenizações rescisórias previstas em lei. A agitação trabalhista concentrou-se principalmente nas províncias costeiras voltadas à exportação, embora o endividamento dos governos locais também tenha provocado mobilizações no interior do país. Guangdong liderou com 346 incidentes, consolidando-se como o principal epicentro dos fechamentos de fábricas. Em seguida vieram Shandong, com 106 casos, e Zhejiang, com 101. Entre as províncias do interior, destacaram-se Henan (80 incidentes), Hebei (69) e Shaanxi (59), onde os protestos foram impulsionados sobretudo pelas restrições orçamentárias do setor público e pela paralisação de obras da construção civil.

Detalhamento por setor (Dados do CLB de 2024)

Setor

% de greves

A realidade econômica de 2024

Construção

48,6% (733 casos)

Uma queda em relação a 2023, mas ainda o patamar mais alto. Uma retração impressionante de 17,1% nas vendas de imóveis novos deixou gigantes do setor imobiliário totalmente sem liquidez, deixando trabalhadores migrantes desamparados e sem receber.

Manufatura

30% (452 casos)

Um aumento em relação aos 438 registrados em 2023. Empresas multinacionais cortaram custos e diversificaram suas cadeias de suprimentos para além da China, levando ao fechamento repentino de fábricas de eletrônicos e vestuário.

Serviços e Varejo

9,8% (148 casos)

Mudanças no comportamento do consumidor e a ascensão agressiva do comércio eletrônico levaram ao colapso de lojas físicas tradicionais e de redes de academias.

Logistica & Transporte

4,2% (64 casos)

As guerras de preços entre plataformas de transporte por aplicativo e de entrega expressa pressionaram diretamente a remuneração por tarefa dos trabalhadores da gig economy.

A greve das fazendas florestais estatais de Heilongjiang, no inverno de 2024, foi amplamente considerada a maior paralisação isolada do ano, envolvendo milhares de trabalhadores de empresas estatais de exploração florestal no nordeste da China. Tratou-se de uma rara mobilização de grande escala dentro de uma empresa estatal (SOE – State-Owned Enterprise), motivada pela deterioração das condições de trabalho e pelos cortes de benefícios, rompendo o padrão habitual das pequenas mobilizações localizadas que caracterizam a maior parte dos protestos trabalhistas chineses.

Outro episódio relevante foram os bloqueios aos conjuntos residenciais da Vanke em Shenzhen, em dezembro de 2024. Trabalhadores da construção civil bloquearam completamente os acessos a condomínios residenciais recém-construídos pela Vanke, uma das maiores incorporadoras imobiliárias da China. O caso teve grande repercussão porque a Vanke era considerada, durante muito tempo, uma incorporadora relativamente sólida e estável, em contraste com a falida Evergrande. Os bloqueios demonstraram que a crise dos salários não pagos já havia alcançado até mesmo as empresas de primeira linha do mercado imobiliário chinês.

Talvez o episódio mais significativo tenha sido a onda de fechamentos de fábricas de eletrônicos e vestuário em Guangdong. Dezenas de fornecedores de médio porte dos setores eletrônico e têxtil, localizados principalmente em Dongguan e Shenzhen, interromperam discretamente suas linhas de produção, reduziram drasticamente as horas extras — das quais muitos trabalhadores dependem para complementar sua renda — ou tentaram transferir suas operações para províncias do interior sem quitar os fundos habitacionais acumulados nem as contribuições para a seguridade social de seus empregados. Esse processo impulsionou o maior número de greves no setor manufatureiro em dez anos. Em vez de lutarem por aumentos salariais, a marca distintiva das greves fabris de 2024 foi uma dura batalha jurídica para garantir o recebimento de salários e direitos trabalhistas antes que os proprietários simplesmente desaparecessem.

O próprio sistema jurídico oficial chinês vem demonstrando sinais de sobrecarga diante dessa situação. Segundo o China Dissent Monitor, da Freedom House, o número de disputas trabalhistas formalmente registradas junto aos órgãos governamentais locais atingiu 665 mil casos em 2024, representando um aumento de 510% em comparação com 2007. Esse crescimento ocorreu apesar da população economicamente ativa da China ser atualmente cerca de 3% menor do que naquele período, indicando uma intensificação expressiva dos conflitos trabalhistas.

O Grande Pico de 2025

Mas 2024 não marcou o fim desse processo. Ao contrário, acompanhar as greves na China tornou-se consideravelmente mais difícil. Um importante ponto de inflexão ocorreu quando o China Labour Bulletin (CLB) — principal organização independente dedicada ao monitoramento das greves no país — foi abruptamente dissolvido por ordem direta de Pequim. Com isso, o China Dissent Monitor (CDM), da Freedom House, passou a ser a principal fonte para o acompanhamento das ações coletivas de protesto na China.

Os dados revelam uma escalada dramática da agitação social em todo o país. Em vez de diminuir, o descontentamento público atingiu novos patamares à medida que a desaceleração econômica se aprofundava. Como observa Andrea Ferrario:

"Segundo dados da Freedom House citados pela Bloomberg, em 2025 os protestos de trabalhadores aumentaram 44% em relação ao ano anterior, tendo Guangdong como principal epicentro da agitação. Trata-se de uma província que, sozinha, exporta mais do que a Holanda e que há décadas constitui o motor industrial do país, mas que ficou abaixo do crescimento nacional durante quatro anos consecutivos, pressionada pela crise do mercado imobiliário e pela guerra de preços que vem corroendo as margens de lucro das empresas."

O China Dissent Monitor registrou 5.343 eventos de protesto em 2025, um aumento impressionante de 44% em comparação com os 3.704 eventos documentados no ano anterior. Os trabalhadores protagonizaram 54% de todas as manifestações ocorridas na China, superando amplamente protestos de proprietários de imóveis e de moradores das áreas rurais. As mobilizações por salários atrasados atingiram um nível recorde. A forte desaceleração da economia chinesa deixou milhares de empresas incapazes de quitar os salários de seus empregados, provocando um aumento de 60% nas manifestações por pagamento de salários às vésperas do Ano Novo Lunar. A província de Guangdong permaneceu como o principal foco dos conflitos, concentrando 16% de todos os protestos, seguida por Henan, Hunan, Shaanxi e Zhejiang.

Ao mesmo tempo, a economia de plataformas (gig economy) — que engloba entregadores de aplicativos como Meituan e Ele.me, motoristas da Didi e trabalhadores de redes de entrega operadas por aplicativos — expandiu-se para cerca de 280 milhões de pessoas, correspondendo aproximadamente a 44% da força de trabalho chinesa.

À medida que os setores imobiliário e manufatureiro eliminaram milhões de postos de trabalho, uma massa crescente de desempregados migrou para a economia de plataformas como uma espécie de "rede de proteção". Essa rápida expansão provocou saturação do mercado, redução dos rendimentos e uma proliferação de greves. Como o governo considera empregada qualquer pessoa que trabalhe ao menos uma hora por semana, as autoridades passaram a incentivar agressivamente esse tipo de ocupação. No entanto, o enorme aumento da oferta de mão de obra superou em muito o crescimento da demanda por serviços.

Os trabalhadores da economia de plataformas — especialmente motoristas de aplicativos e entregadores — passaram, assim, a constituir um segmento central da classe trabalhadora chinesa. Como observou a revista The Economist, dezenas de milhões de jovens chineses dependem atualmente de plataformas digitais para conseguir empregos temporários. Cerca de 200 milhões de pessoas, o equivalente a 40% da força de trabalho urbana, vivem de alguma forma de trabalho flexível.

Mais recentemente, esse modelo de contratação também se disseminou pelo próprio setor manufatureiro chinês. O proletariado tradicional das fábricas vem sendo parcialmente substituído por milhões de trabalhadores temporários contratados sob demanda, que transitam continuamente entre diferentes unidades produtivas conforme a orientação de grandes plataformas de recrutamento. Essa forma extremamente flexibilizada de organização do trabalho se encaixa no projeto econômico de Xi Jinping: uma economia altamente tecnológica combinada com crescente precarização do trabalho. Muitas dessas ocupações exigem apenas habilidades mínimas — frequentemente, apenas o conhecimento do alfabeto latino — e os trabalhadores permanecem nelas por poucas semanas ou até mesmo poucos dias. Pesquisadores estimam que esse contingente já alcance cerca de 40 milhões de pessoas, aproximadamente um terço da força de trabalho manufatureira chinesa e mais de três vezes o tamanho do setor manufatureiro dos Estados Unidos.

A situação desses trabalhadores precários — muitos dos quais enfrentam dificuldades para adquirir moradia ou acessar serviços públicos e benefícios sociais — tende a moldar profundamente a economia e a sociedade chinesas nos próximos anos.

Também no terreno da luta de classes, esse novo contingente passou a desempenhar um papel crescente. Embora os entregadores tenham obtido um pequeno aumento em sua remuneração por hora, os motoristas de aplicativos sofreram uma redução média de 1,8% em seus rendimentos. Essa compressão salarial desencadeou sucessivas ondas de "greves de desconexão" (log-off strikes), nas quais grupos de motoristas em grandes centros como Shenzhen, Xangai e Chongqing desligavam simultaneamente seus aplicativos. Durante esses protestos, era comum que estacionassem coletivamente seus carros ou motocicletas em frente a terminais de transporte, manifestando-se contra alterações nos algoritmos das plataformas que reduziam a remuneração por quilômetro percorrido.

Um dos episódios mais emblemáticos da insatisfação desses trabalhadores foi desencadeado pela ampla circulação de um vídeo em que um entregador de comida aparecia ajoelhado diante de um segurança de um shopping center, implorando autorização para entrar e não perder o prazo imposto pelo algoritmo da plataforma. A imagem provocou forte indignação e desencadeou paralisações localizadas e concentrações espontâneas de centenas de entregadores, que passaram a se recusar coletivamente a retirar pedidos em determinadas áreas comerciais.  

Os trabalhadores passaram a direcionar suas reivindicações contra a "armadilha algorítmica" invisível — sistemas automatizados que reduzem a remuneração ou penalizam a pontuação interna dos motoristas e entregadores por atrasos provocados por fatores completamente alheios ao seu controle, como a espera por elevadores, os protocolos de segurança de shopping centers ou a demora dos restaurantes na preparação dos pedidos.

À medida que setores tradicionais, como a indústria de transformação e a construção civil, eliminaram milhões de postos de trabalho, a economia de plataformas — que reúne entregadores de aplicativos, motoristas de transporte por aplicativo e trabalhadores de redes de entrega — expandiu-se até absorver cerca de 44% da força de trabalho chinesa. Esse enorme afluxo de trabalhadores transformou a economia de plataformas de uma espécie de rede de proteção contra o desemprego em um mercado de trabalho extremamente saturado. Com um número excessivo de trabalhadores disputando uma quantidade insuficiente de pedidos, as plataformas passaram a ajustar seus algoritmos para reduzir a remuneração por quilômetro ou por entrega, convertendo os conflitos envolvendo trabalhadores de aplicativos em um dos principais motores da crescente agitação social nas cidades chinesas.

Entre 2023 e 2024, destacaram-se duas importantes mobilizações na economia de plataformas: a greve dos entregadores da Meituan em Shanwei e a greve dos motoristas da T3 Mobility em Wuhan.

A primeira, como já mencionado, foi desencadeada pela eliminação dos subsídios pagos aos entregadores, pela redução das tarifas por entrega e pela aplicação de penalidades algorítmicas durante períodos de mau tempo. Centenas de entregadores da Meituan, na cidade de Shanwei, província de Guangdong, desconectaram-se simultaneamente do aplicativo, recusando-se a aceitar novos pedidos por mais de uma semana.

A segunda envolveu centenas de motoristas da T3 Mobility — uma das maiores plataformas chinesas de transporte por aplicativo, apoiada pelo Estado e principal concorrente da Didi. Os trabalhadores organizaram uma grande paralisação, estacionando coletivamente seus veículos diante da sede da empresa e de repartições públicas municipais em Wuhan. Em meados de 2024, o mercado de transporte por aplicativo da cidade encontrava-se tão saturado que muitos motoristas precisavam trabalhar até 14 horas por dia apenas para cobrir o custo do aluguel dos veículos, sem obter qualquer rendimento líquido. Diante da recusa da empresa em reduzir as taxas mensais de locação ou limitar a entrada de novos motoristas na plataforma, os trabalhadores iniciaram uma paralisação coordenada.

À medida que os trabalhadores da economia de plataformas se consolidavam como uma força capaz de organizar ações coletivas, o aparato estatal controlado pelo Partido Comunista Chinês (PCC) intensificou a repressão contra seus canais de comunicação. Ao longo de 2024, diversas redes locais de apoio aos trabalhadores — como o Riders' Rights Concern Group — foram obrigadas a encerrar suas atividades sob forte pressão política. Ativistas que monitoram plataformas como o Douyin (a versão chinesa do TikTok) observaram que cerca de dois terços das publicações relacionadas a greves presenciais e detenções de trabalhadores eram sistematicamente apagadas poucas horas após serem publicadas, numa tentativa de impedir que os protestos se disseminassem para outras cidades.

“A onda de greves dos trabalhadores de plataformas obrigou Pequim a promover uma importante mudança de orientação política. As autoridades passaram a elaborar um amplo conjunto de normas sobre remuneração mínima, indenizações obrigatórias em caso de acidentes de trabalho e limites para a pressão exercida pelos algoritmos das plataformas. Embora essas medidas buscassem aliviar justamente as tensões que haviam impulsionado as paralisações, elas não eliminaram suas causas fundamentais, ao mesmo tempo em que a organização sindical independente continuou totalmente proibida.”

Em 2026, o setor da construção civil voltou a ser palco de intensas mobilizações. Dezenas de ocupações e protestos com faixas ocorreram diante dos escritórios de incorporadoras imobiliárias em dificuldades financeiras nas províncias de Henan, Guangdong e Shaanxi. Trabalhadores bloquearam os acessos aos canteiros de obras ou subiram nos andaimes das edificações exibindo faixas com a inscrição: "Paguem o dinheiro do nosso sangue e suor", expressão amplamente utilizada na China para reivindicar salários atrasados.

Como observa Andrea Ferrario:

"O canal independente de monitoramento Yesterday, sediado no Canadá e dedicado a reunir testemunhos publicados nas redes sociais chinesas, documentou cinquenta episódios de protesto coletivo apenas em janeiro de 2026. A natureza dessas mobilizações retrata uma sociedade em que as divisões se multiplicam em várias frentes. Os trabalhadores — a grande maioria empregada na construção civil — representam cerca de um terço dos casos, com reivindicações concentradas quase inteiramente em salários não pagos, fechamento ou transferência de fábricas sem aviso prévio e reduções salariais sem qualquer justificativa."

Também se multiplicaram as ocupações de fábricas para impedir a retirada de máquinas e equipamentos. Nos principais polos manufatureiros do litoral, especialmente em Zhejiang e Guangdong, trabalhadores migrantes passaram a ocupar continuamente o interior das fábricas depois que empresários tentaram realizar "transferências clandestinas" (stealth relocations), removendo equipamentos durante a noite para escapar do pagamento das indenizações rescisórias previstas em lei. Paralelamente, a economia de plataformas continua alimentando a tendência de crescimento das greves em 2026, com novas paralisações envolvendo trabalhadores da Meituan, Ele.mi e Didi

Novas tendências

Há um padrão relativamente claro na evolução recente das greves na China: uma transição de reivindicações "ofensivas" para reivindicações "defensivas", tendência que se aprofundou durante o governo de Xi Jinping. Isso não significa que essa seja uma regra absoluta — na economia de plataformas, por exemplo, as greves vêm crescendo justamente para conquistar novos direitos trabalhistas. Durante o ciclo de expansão econômica da década de 2010, os trabalhadores entravam em greve para exigir aumentos salariais, melhores benefícios ou condições de trabalho mais seguras. Essas reivindicações continuam existindo hoje. Entretanto, como resultado da principal orientação do Partido Comunista Chinês (PCC) — ampliar as concessões ao capital nacional e estrangeiro — cerca de 90% das mobilizações trabalhistas passaram a ter um caráter defensivo: os trabalhadores lutam para recuperar meses de salários atrasados ou garantir o pagamento das indenizações rescisórias previstas em lei diante de empresas à beira da falência.

A própria composição das greves no setor manufatureiro também se transformou. Se antes os conflitos estavam ligados à expansão da produção e às reivindicações por melhores salários, hoje predominam disputas relacionadas ao fechamento e à transferência de fábricas. À medida que empresas multinacionais diversificam suas cadeias produtivas, deslocando parte da produção para o Sudeste Asiático, a Índia ou o México, fábricas localizadas em polos industriais costeiros, como Guangdong, encerram suas atividades ou são discretamente transferidas para províncias do interior. Os trabalhadores passaram a reconhecer que medidas como a redução das horas extras ou dos turnos costumam anunciar o abandono definitivo da unidade produtiva. Por isso, muitas greves atuais assumem a forma de bloqueios preventivos destinados a impedir a retirada de máquinas e ativos antes que os proprietários desapareçam.

Ao mesmo tempo, novos segmentos da classe trabalhadora passaram a protagonizar mobilizações. Durante muito tempo, as greves na construção civil eram vistas como conflitos localizados envolvendo trabalhadores rurais migrantes empregados por pequenas empreiteiras predatórias. Contudo, a prolongada crise do mercado imobiliário levou os calotes a atingir até mesmo as maiores incorporadoras do país. Greves e bloqueios de canteiros de obras passaram a dirigir-se regularmente contra grandes empresas do setor, muitas delas apoiadas pelo Estado e anteriormente consideradas "grandes demais para quebrar". Isso abalou profundamente o mito da estabilidade do mercado imobiliário chinês e transformou os conflitos da construção civil em um problema econômico sistêmico, com repercussões diretas sobre o sistema financeiro.

Como já mencionado, a economia de plataformas — formada por motoristas de aplicativos, entregadores e outros trabalhadores digitais — também vem alterando profundamente o panorama das greves na China. A natureza dessas mobilizações evoluiu dos piquetes tradicionais para formas de resistência digitais e algorítmicas. Como esses trabalhadores não compartilham um local físico de trabalho, passaram a organizar as chamadas "greves de desconexão" (log-off strikes). Grupos de entregadores e motoristas coordenam-se por meio de grupos criptografados para desligar simultaneamente seus aplicativos em regiões comerciais estratégicas. Dessa forma, atingem diretamente o funcionamento dos algoritmos das plataformas, criando escassez artificial de trabalhadores em determinadas áreas e obrigando as empresas, ainda que temporariamente, a alterar sua política de preços e remuneração para restabelecer a operação.

Historicamente, a agitação trabalhista na China esteve quase exclusivamente concentrada entre os operários da indústria. Uma das transformações mais importantes dos últimos anos foi a disseminação dos atrasos salariais para o setor público e para segmentos da classe média. O agravamento da crise fiscal dos governos locais deixou diversas administrações praticamente insolventes, provocando reduções salariais e cortes de benefícios para professores da rede pública, profissionais da saúde e empregados de empresas estatais. Esse processo rompeu um antigo pacto social segundo o qual o emprego estatal garantia estabilidade econômica — algo que, na prática, já vinha sendo corroído há muitos anos, uma vez que as empresas estatais passaram a adotar estratégias empresariais semelhantes às do setor privado. Como consequência, um número crescente de trabalhadores de colarinho branco passou a recorrer aos protestos públicos.

Para sobreviver ao aparato de vigilância interna mais sofisticado do mundo, os trabalhadores também modificaram profundamente a escala e a duração de suas mobilizações. As grandes greves envolvendo milhares de participantes foram, em larga medida, substituídas por mobilizações-relâmpago altamente localizadas, normalmente reunindo menos de cem pessoas. Os trabalhadores concentram-se rapidamente diante de prédios públicos ou sedes empresariais, registram e divulgam suas reivindicações nas redes sociais para ampliar temporariamente sua repercussão e dispersam-se antes que a polícia de choque consiga organizar uma operação repressiva em grande escala — embora, em muitos casos, essa repressão acabe ocorrendo posteriormente.

O fechamento de organizações independentes da sociedade civil e de centros de assistência jurídica aos trabalhadores obrigou os conflitos trabalhistas a assumirem formas cada vez mais diretas de enfrentamento entre trabalhadores, empresas e Estado. A dissolução de importantes redes independentes de monitoramento dos conflitos sociais, combinada com a repressão crescente contra advogados trabalhistas, eliminou os poucos mecanismos de mediação existentes. Sem intermediários confiáveis para negociar acordos, os conflitos tendem a escalar rapidamente para ações públicas mais disruptivas, uma vez que muitos trabalhadores passaram a considerar que o sistema jurídico formal funciona inteiramente em favor das empresas e do Estado.

O governo chinês demonstra crescente preocupação em conter problemas que se tornaram recorrentes — como reduções salariais unilaterais, demissões sem indenização, transferências compulsórias para outras províncias sem compensação financeira e falências decorrentes da relocalização da produção — por receio de que esses fatores desencadeiem uma nova onda de agitação social em um contexto de crescente ciclo de protestos em diversos países asiáticos, do Nepal à Indonésia e de Bangladesh às Filipinas.

Os trabalhadores chineses ainda não estão organizados como uma classe em escala nacional e enfrentam o obstáculo adicional de combater uma das burocracias estatais mais poderosas e reacionárias do mundo. Ainda assim, algo começa a se mover no interior da sociedade chinesa em meio ao atual período de desaceleração econômica. A consciência social está em transformação, e novas formas de resistência emergem. A classe trabalhadora chinesa já não aceita passivamente sacrifícios impostos unilateralmente. A greve deixou de ser percebida como um gesto excepcional e isolado para tornar-se, cada vez mais, um instrumento legítimo de defesa diante dos ataques aos direitos dos trabalhadores.

É provável que o retorno da luta de classes na China assuma formas novas e não tradicionais, compatíveis com a estrutura contemporânea da classe trabalhadora produzida pela industrialização tecnológica. Essas formas tendem a incorporar também as atuais mobilizações da juventude e das mulheres chinesas, nas quais questões como opressão, precarização e desigualdade ocupam posição central. Embora esses movimentos precisem enfrentar as dificuldades impostas pela ausência de instituições independentes de organização, contam também com novas possibilidades de articulação proporcionadas pelas tecnologias de comunicação e pelas redes sociais. A própria necessidade objetiva da luta poderá favorecer o surgimento de formas de auto-organização que escapem ao controle da federação sindical oficial e desafiem o monopólio organizativo exercido pelo Partido Comunista Chinês.