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A história de Sandalio Junco: fundador do trotskismo em Cuba

Texto publicado originalmente em espanhol em Ideas de Izquierda.

Publicamos um texto de Sandalio Junco, disponível no Arquivo Nacional de Cuba, no Fundo Especial. Apenas pesquisadores podem acessá-lo. Tivemos acesso a esse documento em 2016 e o transcrevemos integralmente para sua leitura e divulgação. São poucos os documentos escritos por esse operário padeiro.

Em 1925, Julio Antonio Mella e Carlos Baliño participaram da fundação do primeiro Partido Comunista de Cuba (PCC), nos dias 16 e 17 de agosto. Entre seus fundadores estavam José Miguel Pérez, José Rego, José Peña Vilaboa e Alejandro Barreiro. Entre a fundação do partido e a Revolução de 1933, o PCC manteve influência no movimento operário, participando da criação da Confederação Nacional Operária de Cuba (CNOC) e da Federação Operária de Havana (FOH). Fundada em 1925, a CNOC chegou a reunir cerca de 400 mil trabalhadores em toda a ilha.

O PCC afirmava contar com pelo menos 300 membros em 1930, após o assassinato de Mella no México. Em 1933, reivindicava possuir 5 mil membros, uma Liga da Juventude Comunista e a direção da CNOC. Em 1930, o PCC adotou a orientação aprovada no VI Congresso da Internacional Comunista (IC), conhecida como política de Classe contra Classe, que defendia a necessidade de uma revolução agrária anti-imperialista, mas rejeitava a unidade de ação com outras forças de esquerda opositoras ao governo de Machado.

Ainda em 1930, o movimento operário participou da primeira greve geral organizada pela CNOC e pela FOH sob a direção do poeta e dirigente comunista Rubén Martínez Villena. Em 1931 surgiu, dentro do PCC, a Oposição Comunista de Esquerda (OCI), organizada por Sandalio Junco, Juan Ramón Bréa, Marcos García Villarreal, Pedro Varela, Carlos González Palacios, Luis Busquets, Roberto Fontanillas e outros. Junco participava da luta revolucionária no movimento sindical desde a década de 1920 e havia mantido uma relação muito próxima com Mella durante o exílio deste no México.

A OCI construiu comitês distritais em Havana, Santiago, Matanzas, Oriente, Guantánamo, Victoria de las Tunas e Puerto Padre. Seus militantes exerceram influência na direção da FOH durante a greve de 1933 e também no Comitê de Greve de Guantánamo. Até que ponto podemos rastrear essa influência?

Entre os principais militantes da OCI estavam Pedro Varela, Juan Pérez, Roberto Fontanillas, Pedro Rivero, José Díaz Ortega, Carlos Martínez Padrón, Carlos González Palacios, Juan Ramón Bréa, Jorge Quintana Vargas, Idalberto Ferrer Acosta, Ramón Miyares, entre outros. Seus principais dirigentes foram Sandalio Junco, Marcos García Villarreal e Juan Ramón Bréa.

Sandalio Junco foi preso em 1925 no mesmo processo judicial que envolveu Julio Antonio Mella. Em junho de 1928, mudou-se para o México, onde militou no Partido Comunista Mexicano (PCM) e ingressou na Associação dos Novos Emigrados Revolucionários Cubanos (ANERC), dirigida pelo estudante cubano. Em 1929 participou do Congresso da Conferência Sindical Latino-Americana e da I Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina.

Naquela época, dirigentes centrais da Internacional Comunista, como Vittorio Codovilla e Ricardo Martínez, consideravam Julio Antonio Mella — que militava ao lado de Sandalio Junco — um "trotskista". Essas desqualificações impediram que Mella fosse eleito representante latino-americano na Internacional Sindical Vermelha (ISR), resultando na eleição de Martínez, que posteriormente seria considerado um "agente encoberto dos Estados Unidos". Essa eleição provocou descontentamento no próprio Rubén Martínez Villena, pois impediu que ele ocupasse a vaga no organismo central da ISR.

Segundo as cartas citadas por Caridad Masson, Villena tinha reservas em relação a Martínez e criticou a publicação de um artigo que apresentava Mella como um "militante imaturo, típico de sua época".

As divergências de Villena com o Birô do Caribe — órgão criado em 1929 pela Internacional Comunista para tratar das questões da América Latina — remontavam a esse período. Contudo, elas só explodiriam em 1933.

Como demonstra Christine Hatzky em Julio Antonio Mella: uma biografia (1903–1929), Mella havia sido expulso do PCC após a greve de fome realizada durante sua prisão em Cuba. As polêmicas e discussões entre Mella e os membros do PCM (sobre a política sindical) e do PCC (sobre a possibilidade de uma ação armada) levaram o revolucionário cubano a abandonar ambos os partidos em 1928, poucos meses antes de sua morte. Isso deu origem, inclusive, a debates sobre a possibilidade de seu assassinato ter sido executado por agentes do próprio stalinismo.

Antes do assassinato de Mella, enquanto este era duramente criticado pelo Comitê Central do PCC, Sandalio Junco saiu em sua defesa, considerando-o o principal comunista cubano por compreender os problemas da América Latina. Também criticava os dirigentes da Internacional Comunista, especialmente os do Birô do Caribe, qualificando-os como "carreiristas no movimento operário". Suas críticas a Martínez e ao Birô antecederam as divergências de Villena.

Segundo Junco, desde 1927 ele já criticava os métodos burocráticos de tomada de decisões existentes nos organismos internacionais.

De acordo com Junco:

"Já em 1928, quando triunfou a candidatura do burocrata ligado ao lovestonismo, Martínez, contra a de Julio Antonio Mella para membro do Comitê Executivo da ISR, vimos claramente que era necessário travar uma verdadeira luta contra o burocratismo."

Alguns anos depois, Junco participou como representante de Cuba, em 1929, do Congresso da Conferência Sindical Latino-Americana e da I Conferência dos Partidos Comunistas da América Latina, ocasião em que José Carlos Mariátegui também foi acusado de ser "trotskista".

Nesse congresso, Junco apresentou as primeiras teses marxistas sobre a questão racial (a questão negra e indígena) na América Latina. Essas teses divergiam das posições defendidas pelos membros do Partido Comunista da América (PCA), que impuseram a equivocada consigna — posteriormente adotada pelo PCC durante a década de 1930 — da "autodeterminação da faixa do Oriente". Junco sustentava que a luta contra o racismo deveria ser compreendida sob um ponto de vista de classe.

Sandalio Junco foi rotulado como "anarcossindicalista". Ainda assim, permanecia membro do partido e era um dos principais interlocutores de Martínez Villena dentro do PCC.

Na Segunda Reunião dos Partidos Comunistas da América Latina, realizada em Moscou, Junco começou a discutir as tarefas da revolução cubana. Segundo historiadores como Angelina Blanquier e Caridad Masson, durante um debate com Villena, este último "adulterou" o relatório que deveria ser apresentado.

Na discussão entre Junco e Villena colocou-se uma questão estratégica da época: a revolução em Cuba seria socialista ou democrático-burguesa? Em uma carta dirigida a Junco, Villena reconheceu que a revolução cubana seria socialista. Entretanto, em 1933, durante a greve de agosto, o poeta voltou a defender a posição etapista, segundo a qual Cuba ainda não estaria preparada para uma revolução socialista contra Machado.

Essa carta, publicada em 2005, evidencia tanto a heterodoxia do próprio Villena quanto o diálogo político que mantinha com Sandalio Junco. Ela também revela que essa questão já começava a constituir um importante ponto de divergência entre aqueles que mais tarde formariam a Oposição Comunista de Esquerda (OCI).

Segundo Villena, em carta dirigida a Junco em 1931:

"Agora quero explicar melhor, de acordo com a tese, qual é o meu conceito da Revolução em Cuba e por que empreguei a expressão ditadura do proletariado e governo operário e camponês de uma forma que reconheço ser obscura e inadequada. No Programa da Internacional Comunista (VI Congresso), ao tratar (Cap. IV, nº 8) dos tipos esquemáticos fundamentais da transição para a ditadura do proletariado, afirma-se, em relação aos países coloniais e semicoloniais, que ela é "possível, como regra geral, somente através de uma série de etapas preparatórias, como resultado de todo um período de transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista" (p. 54, ed. La Internacional, Buenos Aires). Os destaques em "como regra geral" são meus, para indicar que, segundo o Programa, é possível — fora da regra geral — que não existam etapas preparatórias. Quando isso seria possível? O próprio parágrafo responde implicitamente: "Quando não for necessário todo um período de transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista." Ou seja, no caso em que ambas as etapas da Revolução se confundam, se misturem, se coloquem simultaneamente e paralelamente, segundo a expressão do meu relatório. E isso é possível? No próprio Programa e no mesmo capítulo e número (p. 53), ao tratar dos países de "nível médio de desenvolvimento do capitalismo", afirma-se que em alguns deles "é possível um tipo de revoluções proletárias com um grande contingente de objetivos de caráter democrático-burguês". Esse é o caso de Cuba, embora Cuba seja uma semicolônia, porque nada impede que existam semicolônias que sejam "países de nível médio de desenvolvimento do capitalismo". De modo que, na realidade, não "inventei" nada em minha tese a respeito de Cuba, cujas conclusões estão de acordo com o Programa da Internacional Comunista. O que fiz foi aplicar esse Programa às condições peculiares de Cuba, que são, aliás, as mesmas de outros países latino-americanos. Apenas que os que falam do caráter da revolução democrático-burguesa consideram que ela se transforma posteriormente em revolução proletária graças à hegemonia do proletariado. Eu creio que há países coloniais e semicoloniais em que isso não ocorrerá dessa forma e que Cuba é um desses países."

Em 1931, Junco foi orientado a regressar a Cuba, assim como todos os comunistas cubanos que se encontravam no exterior. Durante sua permanência na União Soviética, Junco solicitava à Internacional Comunista que ambas as posições fossem ouvidas. Finalmente, Villena, tanto no relatório quanto na carta citada, reafirmou que Junco "alterou alguns trechos conceituais sobre as tarefas da revolução em Cuba".

Ao retornar, Sandalio Junco passou a divergir da política "sectária" do PCC em relação à CNOC e aderiu diretamente às ideias trotskistas. Agrupou-se com Juan Ramón Bréa e Marcos García Villarreal, ambos combatidos pelo Comitê Central do PCC. Segundo as memórias de Joaquín Ordoqui, citadas por Angelina Blanquier, ao regressar a Cuba Junco foi preso pela polícia e "negociou sua libertação em troca de fornecer informações públicas sobre sua não participação na greve, sendo acusado de passividade política e de afastamento do partido". Essas acusações podem ser explicadas por sua oposição à linha dirigente. Não há, entretanto, fontes confiáveis que comprovem a veracidade dessa acusação.

Segundo Junco,

"Todas essas enormidades que se observam no movimento operário revolucionário de todos os nossos países têm sua origem nas diversas teorias que surgiram ultimamente para justificar a política termidoriana seguida pela Internacional Comunista. A estratégia revolucionária esquerdista que vem sendo aplicada ao movimento operário revolucionário destrói o caráter internacional da revolução que instaurou a ditadura do proletariado na URSS e, por consequência, o da própria revolução proletária."

No que dizia respeito ao movimento operário cubano, Junco criticava a política do Terceiro Período, desenvolvida pela CNOC, bem como a teoria stalinista do "socialismo em um só país".

Em 1931, antes mesmo do retorno de Junco a Cuba, a Oposição Comunista de Esquerda (OCI) já estava organizada dentro do PCC. Entre sua volta e sua expulsão do partido, Villena recebeu a tarefa de redigir um documento — do qual não existe cópia disponível — intitulado "O PCC à frente do movimento de massas e os renegados Villarreal e Junco", que teria uma tiragem prevista de dez mil exemplares. Segundo Carlos Reig, organizador da correspondência de Villena, esse documento nunca chegou a ser elaborado. Enquanto Junco ainda regressava a Cuba, outro comunista, Juan Ramón Bréa, organizava a OCI no interior do PCC.

Junco voltou posteriormente ao México, onde esteve próximo de León Trotsky. Militou na APRA sob a perspectiva do entrismo. A militância trotskista recorria a esse método para conquistar adeptos no interior de outras organizações e aproximou o salvadorenho Blanco Corpeño da IV Internacional.

Alguns anos depois regressou novamente a Cuba. Militou no Partido Revolucionário Cubano Autêntico (PRC-A), dirigido por Grau San Martín. É provável que Junco também tenha atuado nesse partido seguindo a política de entrismo. Tornou-se dirigente das organizações operárias do PRC-A.

Em um texto de 1940, o Partido Bolchevique Leninista (PBL) afirmava que o PRC(A) era:

"um verdadeiro movimento de massas populares. Por razões especiais, conseguiu reunir em seu interior a aspiração de luta anti-imperialista da grande maioria do povo cubano."

Isso provavelmente justificava a política de entrismo adotada por Sandalio Junco.

Junco foi assassinado em 9 de maio de 1942, durante uma cerimônia em memória dos acontecimentos de El Morrillo — episódio no qual havia morrido Antonio Guiteras — por dois pistoleiros stalinistas do PCC. Na década de 1940, o Partido Comunista de Cuba mantinha um acordo político com Fulgencio Batista no contexto da política de luta contra o fascismo orientada pela Internacional Comunista.

Segundo nota publicada no jornal Diario de la Marina em 9 de maio de 1942:

"No momento em que se realizava, na noite passada, uma cerimônia em memória de Guiteras, nos salões da Prefeitura desta cidade, um grupo de comunistas irrompeu no edifício e, após provocar grande tumulto, disparou contra o orador, resultando na morte de três pessoas e deixando várias outras gravemente feridas. Até o momento, desconhecem-se com certeza as causas do ocorrido, que teve lugar justamente quando Charles Simeon fazia uso da palavra. Milagrosamente, tanto ele quanto o prefeito que presidia o ato saíram ilesos. (...) No local do atentado foram recolhidos os corpos de Sandalio Junco, líder operário de Havana, e de Evangelio Dorroto, conhecido como Dinamita. Também faleceu, já no hospital, José María Martín, apelidado de Chivo. (...) Calcula-se que tenham sido disparados cerca de sessenta tiros, causando danos ao salão de atos da referida prefeitura."

O V Congresso da Internacional Sindical Vermelha (ISR) foi pródigo em revelações sobre o trabalho realizado, em nome dos operários latino-americanos e contra eles próprios, por esses arrivistas. Quando procuramos expulsar de nossas fileiras esses aventureiros, quando colocamos de forma categórica o problema de não nos deixarmos representar por pessoas que desconhecem nossos problemas e procuram ascender às nossas custas, então se constituiu a frente única da burocracia contra os trabalhadores; então surgiram as acusações de nossa "indisciplina" e de nossos supostos "resquícios anarco-sindicalistas".

Iniciada a luta, convencidos de que era impossível reduzir-nos à "obediência" por qualquer outro meio que não fosse o domínio das questões do proletariado latino-americano, os burocratas lançaram mão de todos os recursos que o controle do aparato burocrático da ISR lhes colocava à disposição para submeter-nos aos seus desígnios, que nada mais eram do que continuar representando os trabalhadores, embora, a cada dia que passava, as organizações operárias de todos os nossos países se encontrassem em condições cada vez piores.

Toda a gama do aventureirismo político e do carreirismo mais vulgar apoderou-se dos organismos criados pelo proletariado internacional. Dessa maneira, todos os esforços acabam anulados, pois aos aventureiros interessa apenas a agitação que conseguem produzir por meio do "blefe" (bloof, no original) e da chantagem.

Guiados por esses elementos — entre os quais, sem dúvida, existem exceções —, nós, trabalhadores latino-americanos, nos reunimos no Congresso de Montevidéu, que deu origem à Confederação Sindical Latino-Americana. Entretanto, todo o trabalho realizado nesse congresso, embora tenha sido publicado, procura agora ser deturpado de tal maneira que sirva aos interesses do grupo de arrivistas que, especialmente a partir do Birô do Caribe, engana a classe operária.

A classe operária dos países latino-americanos deu um grande passo na compreensão de seus próprios problemas ao construir essa Confederação com a ajuda do proletariado internacional. Contudo, o aventureirismo dos tartufos, hipócritas e carreiristas que hoje contaminam nosso movimento impede que esse avanço se traduza em benefícios concretos, tanto do ponto de vista político quanto organizativo.

Já em 1928, quando triunfou a candidatura do burocrata ligado ao lovestonismo, Martínez, contra a de Julio Antonio Mella para integrar o Comitê Executivo da ISR, percebemos claramente que era necessário travar uma verdadeira luta contra o burocratismo.

Esses senhores, sempre que se aproximam de trabalhadores que ainda não conhecem profundamente os problemas da classe operária, sempre que desejam impor suas concepções falsas e utilitaristas sobre nossas questões, prometem viagens à União Soviética, distribuem cargos de direção e alimentam a vaidade daqueles trabalhadores previamente selecionados para desempenhar esse papel. Em toda parte recorrem ao conhecido argumento de levar verdadeiros operários às suas reuniões; na realidade, porém, levam apenas aqueles que não sejam capazes de contestá-los.

Quando um trabalhador conhece seus próprios problemas, discute e se recusa a aceitar suas estupidezes apresentadas como "ordens dos organismos superiores", passa imediatamente a ser considerado um "operário intelectualizado" e é colocado em "quarentena", para ser isolado.

Essa é a política seguida pela burocracia que representa nosso movimento operário no interior da Internacional Sindical Vermelha e do nosso Birô do Caribe.

É contra essa política que tenho me pronunciado, contra a qual lutei e continuarei lutando, porque o aventureirismo e o carreirismo de nossos pseudo-dirigentes internacionais são capazes apenas de fortalecer a burocracia que nos destrói e de cometer os erros e as faltas mais grosseiras, entregando-nos desarmados ao imperialismo que nos explora.

Abaixo as máscaras! Contra a demagogia, as vilezas e a incapacidade dos dirigentes da CNOC

Sandalio Junco (Havana, janeiro de 1934. Arquivo Nacional de Cuba. Fundo Especial. Leg. 1. Nº 2833. 16 páginas.)

Duas palavras

Com este manifesto proponho iniciar uma série de trabalhos destinados a esclarecer algumas das questões obscuras que se observam em nosso movimento operário revolucionário, ao mesmo tempo em que apresento algumas reflexões sobre o desenvolvimento da consciência de classe dos trabalhadores.

As condições da luta da classe operária em Cuba exigem que todas as teorias sejam discutidas, que todas as concepções sejam apresentadas diante dos trabalhadores, para que estes possam orientar-se definitivamente no caminho da luta contra a burguesia nacional e o imperialismo norte-americano e inglês.

Os trabalhadores me desculparão pela brevidade deste trabalho e pelo atraso de sua publicação; devo dizer-lhes que isso se deve ao fato de que as subvenções existem para os servidores do sistema, enquanto eu disponho apenas do meu próprio trabalho para sobreviver. Esperemos que em breve eu possa escrever mais.

À classe operária

Às massas exploradas e oprimidas de Cuba.

A todos os que necessitam conhecer a verdade sobre a luta travada no interior do movimento dos trabalhadores.

Aos explorados dos países da região do Caribe e de toda a América.

Companheiros:

Depois de suportar durante dois anos uma campanha nacional e internacional de insultos, calúnias e infâmias, dirigida pelos arrivistas e aventureiros mais descarados que a classe operária de qualquer país já teve de enfrentar, venho expor neste documento as razões e as origens dessa campanha, assim como os objetivos daqueles que a conduzem.

Até agora permaneci em silêncio porque considerava que os responsáveis por essa campanha já eram suficientemente conhecidos pelos trabalhadores de Cuba e que, no final, toda essa demagogia acabaria sendo desmentida pelos próprios fatos. Agora, porém, um organismo internacional passou a integrar essa campanha. Um organismo que deveria agir com maior escrúpulo e investigar cuidadosamente as informações que recebe. Já não é possível deixar sem resposta as calúnias e infâmias com que procuram combater-me.

A classe operária de Cuba, assim como a dos países de toda a região do Caribe e da América do Sul, encontra-se atualmente sob a direção de indivíduos que enxergaram no desenvolvimento do movimento operário apenas uma oportunidade de "fazer carreira". Não da maneira como o fazem os verdadeiros revolucionários, que assumem o ponto de vista da classe operária para compreender seus problemas e travar uma luta real contra o regime capitalista e contra a exploração e a opressão imperialista.

Não. Esses indivíduos pretendem fazer carreira introduzindo entre os trabalhadores todos os vícios e todas as práticas corruptoras de que são capazes "os advogados sem causas e os médicos sem clientela", de que falava Marx. Pretendem fazê-lo utilizando toda sorte de vilezas próprias dos vendedores de quinquilharias que a crise lança ao comércio. Em suma, pretendem realizar um "bom negócio" falando em nome das massas exploradas e oprimidas, embora jamais tenham sentido sobre os próprios ombros o chicote da exploração capitalista.

Com isso, não pretendo atacar os intelectuais. Conheço muito bem os homens que forneceram à classe operária as armas teóricas com as quais ela hoje se defende da exploração e da opressão capitalistas. Eles próprios eram intelectuais, homens de letras. Sei, por exemplo, que Lenin foi advogado e passou por inúmeras privações antes de conduzir os trabalhadores à vitória.

Mas os cretinos, os imbecis que apenas repetem fórmulas, que possuem um "clichê" estereotipado gravado no cérebro e o aplicam mecanicamente em todas as circunstâncias, esses precisam ser denunciados. Não apenas porque nada têm a oferecer, mas porque constituem os elementos mais nocivos existentes no interior do movimento operário revolucionário.

Para realizar suas intrigas e destruir as organizações dos trabalhadores, contam com o desconhecimento das massas e com os serviços daqueles que já assumiram a condição de desclassificados, dos que estão formando o lumpemproletariado em Cuba e em outros países da América. Uns e outros, incapazes de compreender a revolução proletária, derramam seu cretinismo sobre os verdadeiros revolucionários e submetem-se servilmente a tudo o que emana da burocracia inepta e submissa que hoje pretende dirigir os trabalhadores desses países coloniais e semicoloniais.

Passemos, portanto, a expor uma série de questões que consideramos fundamentais para compreender melhor a situação atual dos trabalhadores de Cuba e dos países do Caribe e da América do Sul. Já é tempo de pôr fim à demagogia rasteira e ao cretinismo daqueles que acreditam ser possível conduzir os trabalhadores "pelo nariz", sem que estes percebam para onde são levados por meio do efeito fácil e do "blefe".

Talvez a linguagem utilizada neste documento não se ajuste rigorosamente às normas das doutrinas que professamos. Isso se deve ao fato de compreendermos que nem todos os seus leitores são marxistas e, além disso, porque não somos feitos da madeira dos cristãos. Não oferecemos a outra face.

A burocracia latino-americana na ISR e na CSLA

Não sei se a resolução publicada em Havana, apresentada como aprovada pelo Comitê Executivo da Internacional Sindical Vermelha (ISR), realmente procede desse organismo. Parece-me que, da mesma forma como os dirigentes da CNOC recorrem aos métodos mais vis de combate, também são capazes de falar em nome de organismos internacionais para criar a impressão de que contam com seu respaldo. A perversão a que reduziram todos os instrumentos da luta chegou a esse ponto. Mas, se esse Comitê Executivo realmente aprovou tal resolução, se esses burocratas que dizem representar os trabalhadores dos países latino-americanos decidiram mentir com o descaramento demonstrado naquele documento, então estou obrigado a revelar o caráter moral e a absoluta falta de escrúpulos desses indivíduos que assaltaram a direção do movimento operário revolucionário de nossos países, aproveitando-se do fato de que o verdadeiro proletariado encontrava-se isolado e limitado às fronteiras nacionais.

Quando, em 1927, iniciou-se o reagrupamento das forças da classe operária, dispersas pela guerra e pela crise do pós-guerra, e quando a classe operária da União Soviética decidiu apoiar os trabalhadores dos países semicoloniais em sua luta contra os imperialismos inglês e norte-americano, atenderam a esse chamado, em sua maioria, representantes autênticos da pequena burguesia e do artesanato, que ainda predominavam em nossos países.

Esses elementos, ignorando nossos problemas fundamentais — como a questão racial, a situação do artesanato e outras questões essenciais — revelaram desde cedo seu espírito aventureiro e sua intenção de construir uma carreira no interior do movimento operário.Somente verdadeiros revolucionários, como Mella e alguns outros, apresentaram nossos problemas tal como realmente eram e denunciaram a podridão das democracias existentes em nossos países. Esses aventureiros sabiam perfeitamente que apenas adaptando-se às falsas concepções dos burocratas — transformando-se eles próprios em burocratas — poderiam permanecer na União Soviética e limitar-se posteriormente a realizar o chamado "trabalho de contato", evitando expor-se às balas das ditaduras sob as quais vivem os trabalhadores latino-americanos. E foi exatamente isso que fizeram.

Dessa maneira consumou-se um duplo engano: enganaram os trabalhadores da União Soviética e enganaram os trabalhadores de nossos próprios países.Essa fraude só começou a ser desmascarada quando os verdadeiros trabalhadores entraram em contato direto com o proletariado soviético e quando nossos problemas passaram a ser estudados à luz da experiência acumulada pelo proletariado internacional. Era inevitável que surgisse uma luta entre nós e esses aventureiros carreiristas. E essa luta começou.

O V Congresso da Internacional Sindical Vermelha (ISR) foi pródigo em revelações sobre o trabalho realizado, em nome dos operários latino-americanos e contra eles próprios, por esses arrivistas. Quando procuramos expulsar de nossas fileiras esses aventureiros, quando colocamos de forma categórica o problema de não nos deixarmos representar por pessoas que desconhecem nossos problemas e procuram ascender às nossas custas, então se constituiu a frente única da burocracia contra os trabalhadores; então surgiram as acusações de nossa "indisciplina" e de nossos supostos "resquícios anarco-sindicalistas".

Iniciada a luta, convencidos de que era impossível reduzir-nos à "obediência" por qualquer outro meio que não fosse o domínio das questões do proletariado latino-americano, os burocratas lançaram mão de todos os recursos que o controle do aparato burocrático da ISR lhes colocava à disposição para submeter-nos aos seus desígnios, que nada mais eram do que continuar representando os trabalhadores, embora, a cada dia que passava, as organizações operárias de todos os nossos países se encontrassem em condições cada vez piores.

Toda a gama do aventureirismo político e do carreirismo mais vulgar apoderou-se dos organismos criados pelo proletariado internacional. Dessa maneira, todos os esforços acabam anulados, pois aos aventureiros interessa apenas a agitação que conseguem produzir por meio do "blefe" (bloof, no original) e da chantagem.

Minha posição no movimento operário em Cuba

Lutando tenazmente contra as maquinações e intrigas da burocracia, consegui sair da URSS para incorporar-me ao movimento operário em Cuba.

Na Resolução mencionada, mente-se cínica e descaradamente quando se afirma que: "desde que lhe foi colocada a questão do retorno a Cuba, depois de concluir seus estudos, o Comitê Executivo observou sua mal disfarçada resistência a esse regresso"... Há muitos companheiros que conhecem meu desejo e minha decisão de deixar a URSS desde os primeiros momentos de minha chegada e sabem que, se fui para lá, isso se deveu a um telegrama recebido no México, assinado pelo secretário-geral da ISR, redigido nestes termos: "Que venha Junco". Eles conhecem perfeitamente todo esse problema e os esforços que fiz para sair da URSS. Nos arquivos da CNOC existe uma carta enviada por mim de Berlim, na qual solicito a todos os que então se encontravam à frente dessa organização que realizassem as gestões necessárias para que eu pudesse regressar imediatamente a Cuba. E, se transcorreu um ano e meio antes que eu pudesse fazê-lo, isso foi resultado dos "trabalhos" realizados pelos burocratas para criar condições que permitissem excluir-me das fileiras da Internacional Comunista e proceder comigo da mesma forma que procederam com o companheiro Paz, da Argentina, vítima das intrigas codovilianas.

Meu retorno a Cuba foi recebido com satisfação tanto pelos dirigentes da CNOC quanto pelos do próprio Partido Comunista, mas, tão logo compreenderam que eu não era o instrumento dócil de que necessitavam para apoiar todas as suas tolices políticas, tão logo perceberam que eu não aceitava os ukases da direção cretina e aventureira que padecemos, que considerava — e continuo considerando — necessário discutir todos os nossos problemas e que são os trabalhadores aqueles que devem participar da elaboração de tudo o que precisa ser feito, quando entenderam tudo isso, começou a intriga destinada a promover minha exclusão do movimento operário revolucionário.

Nos primeiros momentos, a acusação era de "passividade"; depois, de que eu havia roubado "milhares de pesos"; agora, é porque me opus à política da CNOC. A verdade é que militantes honestos não podem trabalhar ao lado de aventureiros e arrivistas. Uns e outros se excluem mutuamente, e, no movimento operário revolucionário, tanto uns quanto outros estão sobrando.

O fundo da questão é que, ao constatar a desorientação entre os trabalhadores, observando como as organizações eram destruídas pelo sectarismo dos dirigentes da CNOC, procurei esclarecer alguns aspectos da política seguida por nossas organizações. Esses dirigentes, embrutecidos pelos "clichês" que utilizam para todas as ocasiões, foram incapazes de discutir qualquer um dos problemas que levantei na prisão e nos debates. Optaram, então, por realizar uma reunião do mesmo tipo de todas as que costumam promover e, com elementos doutrinados, com pessoas que, em seu sectarismo, acreditam em todas as imbecilidades produzidas pelas mentes obtusas de Vivó e companhia, prepararam e executaram minha expulsão de suas fileiras. Antes mesmo de levar adiante essa decisão, que já estava definida entre os dirigentes, tentaram subornar-me. Para isso enviaram um de seus acólitos para encontrar-se comigo e, diante da impossibilidade de fazê-lo, escreveu-me estas linhas: "Companheiro Junco: Preciso falar com você. Você nos faz muita falta. Diga-me onde posso encontrá-lo, pois temos casa e comida para você." A esse ponto chega a baixeza dos dirigentes de nossas organizações.

Incapazes de discutir comigo (porque desconhecem os problemas de Cuba), incapazes de submeter-me aos seus métodos tortuosos por meio da persuasão, recorrem então à corrupção. Apesar de afirmarem que eu lhes havia roubado milhares de pesos, procuram fazer com que eu abandone minhas convicções em troca de comida fornecida pela cooperativa que hoje mantém tantos estômagos agradecidos; procuram transformar-me em mais um utilitarista entre tantos que hoje afligem a classe operária. Esse método, esse procedimento, é o mesmo da burguesia quando não consegue conquistar aqueles que a combatem; é o mesmo que as consciências retas condenam; e, no entanto, é o empregado por nossos pseudorrevolucionários. Foi com essa política que destruíram nosso movimento, pois, havia muito tempo, vinha se cristalizando uma corrente de oposição ao sectarismo, à incapacidade e à rotina. Contudo, sempre que surgiam companheiros dispostos a enfrentá-los, cercavam os mais resolutos e, de um lado, a "cooperativa" e, de outro, as promessas de viagens à URSS e de cargos de direção nas organizações impediam que o descontentamento contra as tolices que destruíram todas as organizações operárias viesse à tona.

Diante de todos esses fatos, alguns companheiros e eu tivemos de agir na tentativa de salvar, ao menos, o prestígio da classe operária de Cuba, enlameado por tanta perversão burocrática.

Os primeiros passos que demos nesse sentido foram dirigidos a esclarecer a confusão que, deliberadamente, todos esses pretensos sábios dirigentes criaram em torno da política, do método, da estratégia e da tática da classe operária. E a clareza de nossa posição fez com que, em muitos sindicatos, começasse a surgir uma compreensão mais nítida do absurdo das greves prolongadas de forma sistemática e estúpida, dos boicotes "eternos", realizados em meio à repressão, da representação "de dedo", dos birôs que distribuem credenciais e das demonstrações de "bate e corre", nas quais apenas se evidenciava a fraqueza de nossas organizações. Mas o problema não terminava aí: a política dos burocratas, arrivistas e aventureiros dirigia-se — e continua dirigindo-se — contra todos aqueles que se recusam a admitir que, em nome dos operários, se pratiquem negociatas e tantas outras imoralidades.

Guiados por esses elementos — entre os quais, sem dúvida, existem exceções —, nós, trabalhadores latino-americanos, nos reunimos no Congresso de Montevidéu, que deu origem à Confederação Sindical Latino-Americana. Entretanto, todo o trabalho realizado nesse congresso, embora tenha sido publicado, procura agora ser deturpado de tal maneira que sirva aos interesses do grupo de arrivistas que, especialmente a partir do Birô do Caribe, engana a classe operária.

A classe operária dos países latino-americanos deu um grande passo na compreensão de seus próprios problemas ao construir essa Confederação com a ajuda do proletariado internacional. Contudo, o aventureirismo dos tartufos, hipócritas e carreiristas que hoje contaminam nosso movimento impede que esse avanço se traduza em benefícios concretos, tanto do ponto de vista político quanto organizativo.

Já em 1928, quando triunfou a candidatura do burocrata ligado ao lovestonismo, Martínez, contra a de Julio Antonio Mella para integrar o Comitê Executivo da ISR, percebemos claramente que era necessário travar uma verdadeira luta contra o burocratismo.

Esses senhores, sempre que se aproximam de trabalhadores que ainda não conhecem profundamente os problemas da classe operária, sempre que desejam impor suas concepções falsas e utilitaristas sobre nossas questões, prometem viagens à União Soviética, distribuem cargos de direção e alimentam a vaidade daqueles trabalhadores previamente selecionados para desempenhar esse papel. Em toda parte recorrem ao conhecido argumento de levar verdadeiros operários às suas reuniões; na realidade, porém, levam apenas aqueles que não sejam capazes de contestá-los.

Quando um trabalhador conhece seus próprios problemas, discute e se recusa a aceitar suas estupidezes apresentadas como "ordens dos organismos superiores", passa imediatamente a ser considerado um "operário intelectualizado" e é colocado em "quarentena", para ser isolado.

Essa é a política seguida pela burocracia que representa nosso movimento operário no interior da Internacional Sindical Vermelha e do nosso Birô do Caribe.

É contra essa política que tenho me pronunciado, contra a qual lutei e continuarei lutando, porque o aventureirismo e o carreirismo de nossos pseudo-dirigentes internacionais são capazes apenas de fortalecer a burocracia que nos destrói e de cometer os erros e as faltas mais grosseiras, entregando-nos desarmados ao imperialismo que nos explora.

Daí decorre que todos os que não aceitam como líderes os "traidores" e os "socialfascistas" vendidos ao imperialismo passam a ser tudo o que ocorre à imaginação megalomaníaca do Partido Comunista e da CNOC. Entretanto, eles, em nome da revolução, certamente podem mudar de política e, ao mesmo tempo, manter as mais estreitas relações com o último secretário de Governo de Machado. Por isso, todo aquele que não aceitava suas manobras, se tivesse o infortúnio de ir para a prisão, apodrecia nela, enquanto nossos vistosos revolucionários entravam e saíam das masmorras do Príncipe; para eles, aquilo era uma casa de hóspedes.

Para pôr fim a esse estado de coisas, começamos a fazer uma crítica da situação e procuramos organizar os trabalhadores, mas esse trabalho não era um "bloof" (sic), nem servia para a chantagem habitual. Tampouco servia aos gângsteres. Nós nos propúnhamos, e continuamos a nos propor, extrair positivamente toda a experiência das lutas realizadas e, com base nela, elaborar uma luta, uma tática e uma estratégia que precisam ser aplicadas em Cuba.

E foi dessa forma de atuar que os dirigentes da CNOC e do Partido Comunista tiraram a conclusão de que sustentávamos a teoria segundo a qual "é preciso organizar os trabalhadores para depois lutar". Na coleção de El Obrero Panadero encontram-se cerca de vinte artigos dedicados a essa questão e ao esclarecimento do nosso movimento. Ali os trabalhadores podem conhecer nossas concepções sobre política e estratégia. Porém, os marxistas do Partido Comunista de Cuba e da CNOC têm necessidade de desvirtuar tudo para que isso sirva aos seus interesses. Por isso colocam em minha boca uma série de absurdos; por isso escreveram um folheto, publicaram-no e não o fizeram circular no exterior. Tão grande é a quantidade de mentiras descaradas e de estupidezes que ele contém que eles próprios se assustaram com sua obra e impediram que os trabalhadores de Cuba a conhecessem. Felizmente, um exemplar encontra-se em minhas mãos.

Os últimos acontecimentos em Cuba e todos os erros da política equivocada do Partido Comunista e da CNOC durante o período imediatamente anterior à queda de Machado impediram que os trabalhadores obtivessem os benefícios que deveriam resultar da posição decisiva que assumimos na luta contra a ditadura. Mas, entre todas as medidas tomadas, aquilo que retrata por inteiro os dirigentes do Partido Comunista e da CNOC foi sua posição no dia 8 de agosto de 1933. Em meio a uma luta sangrenta contra a ditadura, quando todas as camadas sociais se levantavam contra o tirano, quando a greve geral começava a fazer vacilar o machadismo, esses aventureiros mostraram quem realmente eram e, diante da promessa de Machado de reconhecer o Partido Comunista, a Defesa Operária Internacional e tudo o mais que desejassem — pois o ditador já sentia faltar-lhe o chão sob os pés e percebia que cairia inevitavelmente se a greve geral continuasse — esses... senhores pactuaram com Machado e deram a ordem de retorno ao trabalho. É claro que a classe operária não voltou ao trabalho; é claro que as organizações operárias, particularmente a Federação Operária de Havana, decidiram continuar a greve até a queda do machadismo. Mas os dirigentes da CNOC cobriram-se de ignomínia, ainda que agora deem todas as "batidas no peito" que quiserem e entoem todos os mea culpa aos quais estão acostumados e que chamam de autocrítica.

Depois da queda do machadismo, os dirigentes da CNOC reapareceram em cena e procuraram glorificar todas as vítimas que os carrascos da tirania fizeram entre a classe operária, homens como Alfredo López e Margarito Iglesias, mortos na linha de frente da luta. Mas é um verdadeiro escárnio que pessoas como os atuais dirigentes da CNOC, que combateram ferozmente López e Iglesias, procurem agora, no momento de sua reabilitação, utilizá-los como bandeiras de agitação política que em nada beneficiam os trabalhadores. Isso demonstra a ausência de escrúpulos políticos desses aventureiros e arrivistas.

A propaganda demagógica realizada em torno das vítimas tombadas na defesa dos interesses da classe operária alcança seu ponto culminante no enterro das cinzas de nosso inesquecível Julio Antonio Mella. A classe operária e todas as camadas da população compareceram a esse funeral porque Mella continua representando os anseios de libertação e a síntese das aspirações populares de Cuba. Mas não compareceram da maneira como o Partido Comunista e a CNOC quiseram fazer parecer. Pretender levar as massas a uma luta para a qual elas não haviam sido convocadas foi simplesmente acrescentar mais um crime à longa lista daqueles já cometidos por esses aventureiros. Além disso, eles não podem, rigorosamente, falar de Mella como líder do movimento revolucionário, porque no México o difamaram e em Cuba o expulsaram do partido. Mas Mella, expulso e combatido pelos mesmos que agora procuram divinizá-lo, é maior do que todos eles juntos, pois até o último momento soube ocupar seu posto de combate contra o imperialismo e contra a burguesia nacional.

Conclusão

Todas essas enormidades que se observam no movimento operário revolucionário de todos os nossos países têm sua origem nas diversas teorias que surgiram ultimamente para justificar a política termidoriana que vem sendo seguida pela Internacional Comunista. A estratégia revolucionária esquerdista que vem sendo aplicada no movimento operário revolucionário destrói o caráter internacional da revolução que instaurou a ditadura do proletariado na URSS e, por consequência, o próprio caráter da revolução proletária.

Com base na "construção do socialismo em um só país" e com o propósito de utilizar o entusiasmo que essa revolução despertou entre todos os explorados e oprimidos do mundo, foram inventados métodos de luta e táticas políticas que conduzem fatalmente à derrota do proletariado. Em todo o movimento operário revolucionário de nossos países foi introduzido o mesmo método e a mesma prática política, e já é hora de que os verdadeiros trabalhadores, aqueles que sentem sinceramente a necessidade de acelerar o processo de decomposição do capitalismo e destruir a rapacidade do imperialismo, entrem na luta para regenerar as práticas das organizações revolucionárias e restituir-lhes sua verdadeira fisionomia.

É nessa tarefa que nos encontramos em Cuba, junto com um grupo de companheiros que não desistirá de seus esforços enquanto a classe operária não puder declarar que possui organizações de autêntica luta de classes, enquanto os trabalhadores não estiverem em condições de travar batalhas decisivas contra o capitalismo e o imperialismo. Que os burocratas, os arrivistas e os aventureiros continuem a babar seu cretinismo; nós continuaremos nossa marcha em defesa dos interesses de nossa classe.

Havana, janeiro de 1934.