Aviso: estas linhas não pretendem oferecer uma análise da conjuntura política italiana, nem mesmo de modo minimamente aproximado. São apenas algumas reflexões escritas em forma de rascunho, a partir do que pudemos observar à distância nas últimas semanas, conectando os fatos de que tomamos conhecimento com algumas referências e leituras. Mas, efetivamente, a Itália se move — e esse movimento já está tendo um impacto fundamental na realidade internacional.
Lênin em Gênova
Como se aponta neste artigo, o movimento atual combina ação direta, politização e conhecimento da causa palestina com a rejeição das políticas de austeridade e do militarismo na Itália e na Europa. As ações tiveram um caráter radicalizado, foram convocadas por organizações de base para a jornada de 22 de setembro e, finalmente, a CGIL teve de convocar também para o dia 3 de outubro.
Devemos destacar a convergência de setores fundamentais da economia capitalista atual, como os portuários — com seus próprios métodos de luta e fazendo uso de sua “posição estratégica”, que impede a circulação de mercadorias (inclusive de armas) —, o movimento estudantil e o povo em geral, em uma ação de massas que reúne características de mobilização de classe e popular. Pode-se classificá-la como uma “ação histórica independente” [1] .
Esse tipo de ação se caracteriza por sair dos marcos de normalidade que o sistema impõe à luta da classe trabalhadora e popular em geral. Lênin via a existência desse tipo de ação como parte do surgimento de uma situação revolucionária. Por ora, deixemos entre parênteses a definição dessa situação — tarefa que certamente podem realizar melhor aqueles que estão no terreno. Mas a definição de ação histórica independente parece adequada para nomear esses acontecimentos que marcam uma mudança não apenas na situação italiana, mas também internacional, pois demonstram, após décadas de crise de subjetividade da classe trabalhadora enquanto sujeito político, um tipo de articulação social em que o movimento operário, com seus métodos e formas de organização, lidera uma parte significativa do povo em uma luta comum.
Portanto, trata-se de uma ação histórica independente, mas também de um princípio de articulação hegemônica a partir da própria classe trabalhadora, empunhando uma bandeira internacionalista e anti-imperialista. Nesse sentido, é sugestivo o uso que faz Augusto Illuminati da categoria weberiana de “poder ilegítimo” para indicar o início de um poder que se subtrai à legalidade vigente e se organiza desde baixo. Essa formulação vai no mesmo sentido do que afirmamos sobre o caráter de ações históricas independentes das greves, bloqueios e mobilizações recentes. Daí a necessidade de estruturar o movimento com assembleias gerais, comitês de base e outras instâncias que permitam continuidade, democracia nas decisões e articulação entre os diversos setores participantes.
Experiências e tradições
No artigo do Info Aut que citamos acima, afirma-se que o movimento blocchiamo tutto representa uma ruptura radical com a realidade italiana tal como vinha se desenvolvendo. Várias análises destacam seu caráter extraordinário e inesperado. No entanto, poderíamos pensar que a história da luta de classes na Itália não está isenta desse tipo de rupturas e descontinuidades — desde a revolta dos ciompi (século XIV) em diante, para citar um exemplo mais próximo da era moderna.
Tomando exemplos do século XX, poderíamos colocar a questão da seguinte maneira: os conselhos de fábrica do biênio vermelho (1919–1920) foram “descontínuos” em relação à trajetória reformista e evolucionista do PSI; o PCI de Togliatti foi igualmente “descontínuo” com a história anterior do PCd’I fundado em Livorno em 1921; o operaismo, o autonomismo e as esquerdas extraparlamentares dos anos 1960 e 1970 tiveram caráter semelhante em relação ao PCI; o pós-autonomismo manteve algumas ideias centrais do autonomismo dos anos 1970, mas as tornou quase irreconhecíveis por sua inflexão pós-estruturalista.
A “descontinuidade” faz parte da própria história da luta de classes italiana (sem entrarmos aqui no ainda inconcluso debate sobre o balanço dos processos e correntes dos anos 1970). Essa espécie de “continuidade na descontinuidade” compõe a tradição do país e indica que talvez estejamos diante de um processo de reativação da luta de classes que vai muito além da conjuntura atual, no qual convergem diversos fragmentos dessas tradições.
Falando em tradições, vale acrescentar algo sobre a bandeira sob a qual surgiu esse movimento extraordinário: a solidariedade com a Palestina. Neste artigo, Pedro Castrillo destacou a importância da convergência entre gerações e a tradição italiana de solidariedade com o povo palestino. Quero acrescentar algo — correndo o risco de parecer essencialista: o internacionalismo e o cosmopolitismo fazem parte há muito tempo da tradição italiana. Nesse ponto convergem figuras tão distintas como o revolucionário comunista Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, e o filósofo pós-estruturalista Roberto Esposito, em seu livro Pensamento Vivente (2010). Por razões históricas, culturais e políticas, o povo italiano — escrevia Gramsci no Caderno 19, §5 — “é o povo que, ‘nacionalmente’, está mais interessado em uma forma moderna de cosmopolitismo”, para colaborar na “reconstrução unificada do mundo econômico”, mas “não para dominá-lo hegemonicamente e se apropriar do fruto do trabalho alheio”, e sim “para existir e se desenvolver precisamente como povo italiano”. O genocídio perpetrado pelo Estado de Israel contra o povo palestino reativou essa tradição cultural, política, operária e popular italiana.
Sobre o laboratório Itália, a hegemonia e a revolução permanente
A figura do “Laboratório Itália” (título de um artigo de Michael Hardt) tem sido geralmente associada a perspectivas autonomistas — especialmente à leitura do “longo 1968 italiano” sob essa ótica. Trata-se de experiências de organização desde baixo, sociabilidade alternativa e política autônoma sem estrutura partidária — que vão da Autonomia Operaia aos centros sociais dos anos 1990, passando pelos protestos contra a cúpula do G7 em Gênova, em 2001, quando a polícia assassinou o manifestante Carlo Giuliani, e por processos posteriores. Enquanto a radicalidade de esquerda se expressava no plano social, o regime político se deslocava para a direita, e consolidavam-se discursos sobre o “fim da centralidade operária”.
Já destacamos a novidade do surgimento de ações históricas independentes, com centralidade operária, uma aliança popular mais ampla e a bandeira da solidariedade internacional. Também podemos afirmar que essas circunstâncias nos dão novas pistas sobre a “forma atual” da revolução permanente: estamos começando a superar dois problemas que marcam o estágio elementar das dinâmicas “permanentistas”: a) a redução da revolução permanente às suas formas mais básicas; e b) a questão de como transformar a revolta em revolução, por meio de um sujeito capaz de intervir na conformação dessa transformação. Começa a se esboçar a possibilidade de superar o estágio das revoltas cidadãs, e estamos vendo formas de luta que, por seus sujeitos e dinâmicas, permitem pensar a possibilidade de transformar uma “política democrática geral” em uma política de classe — tal como formulou Trotsky em Resultados e Perspectivas (1906) —, uma política de classe no sentido mais amplo e profundo do termo: por ora, popular e anti-imperialista, mas com potencial de aprofundar o debate estratégico rumo a uma perspectiva anticapitalista e socialista. O mesmo vale para a questão da hegemonia: a Itália pode ser um terreno privilegiado para refletir sobre como se constroem novas articulações hegemônicas, centradas na classe trabalhadora, mas adaptadas às formas da realidade atual — mais híbridas, mais entrecruzadas em suas demandas e identidades, sem, contudo, ignorar o peso das posições estratégicas e dos métodos de luta. Até agora, tínhamos apenas a França como “laboratório” nesse sentido. Agora, a Itália introduz novas possibilidade. Laboratório, portanto, de autonomia, revolução permanente e hegemonia.
A reversão de uma derrota e o futuro do socialismo
Como já assinalamos em outras ocasiões, estamos em um período pós-restauração, uma fase posterior à primazia de uma reprodução mais ou menos automática do neoliberalismo em um contexto de ofensiva burguesa. Foi nesse marco que Mario Tronti chegou a se perguntar — em seu livro A política no crepúsculo (1998) — se não teria chegado ao fim a política como ação capaz de interromper o mecanismo de acumulação do capital, apontando para a crise histórica do movimento operário como sujeito político. E não é insensato pensar que, nostalgias pelo PCI à parte, ele tinha um pouco (ou bastante) de razão: a crise de subjetividade do movimento operário caminhava lado a lado com a sobreextensão e relocalização da classe trabalhadora em escala internacional. O processo atual na Itália, com todas as características que estamos comentando, marca — se não o fim da crise de subjetividade do movimento operário — uma forte contratendência, possivelmente a mais importante que tenhamos visto nas últimas décadas, e um passo adiante no processo de sua recomposição.
Em um artigo do ano passado, recuperamos as reflexões de Perry Anderson nas conclusões de seu ensaio Os fins da história (1992), sobre os futuros possíveis do socialismo, tema que abordamos também em uma palestra recente. Resumindo toda a questão: Anderson apontava quatro destinos possíveis: 1) o esquecimento (como aconteceu com as missões jesuíticas do Paraguai); 2) a reformulação ou substituição de valores (como ocorreu com os levellers da Revolução Inglesa do século XVII e com os jacobinos da Revolução Francesa do século XVIII); 3) a mutação (como aconteceu com o jacobinismo, que se transformou em socialismo à esquerda e em liberalismo à direita); 4) a redenção posterior (como ocorreu com o liberalismo, golpeado durante a primeira metade do século XX e reivindicado pelo neoliberalismo das últimas décadas desse mesmo século). A opção 1 já sabemos que pode ser descartada. As opções 2 e 3 parecem ser as mais razoáveis, dado que o novo interesse pelo socialismo vem acompanhado de novas problemáticas — ou de problemáticas já existentes, mas em outra ordem de importância em comparação com o passado (como o ecologismo e o feminismo). Mas algo da opção 4 também será necessário, porque — em última instância — há uma questão fundamental do socialismo histórico que o socialismo de nossa época deverá sustentar de forma intransigente: a expropriação da classe capitalista e o planejamento democrático da economia.
Ações e processos como o da Itália são pontos de apoio também para ir dando forma a esse novo imaginário do socialismo, que combine questões clássicas e contemporâneas e, ao mesmo tempo, permita enfrentar a luta ideológica contra os sentidos comuns que ainda são tributários do “realismo capitalista”. Em primeiro lugar, permite-nos reivindicar a luta coletiva, com métodos radicalizados, com centralidade operária e protagonismo popular, a necessidade da organização desde baixo — ou seja, voltar a falar das características que constituem qualquer processo revolucionário como tal, reabilitar a ideia de revolução. Em segundo lugar, os valores de solidariedade, igualdade, internacionalismo, anti-imperialismo e rejeição da opressão são próprios da tradição socialista entendida em seu sentido mais amplo, incorporando não apenas a perspectiva de Marx e Engels, mas também a dos chamados “socialistas utópicos”. A combinação desses valores com ações que interrompem o mecanismo de reprodução do capital nos permite pensar que o socialismo, tal como o conheceremos no século XXI, vai tomando forma, unindo tudo o que há de vital na tradição clássica com os novos problemas.