Temos visto mobilizações da classe trabalhadora que vêm tomando uma escala, uma radicalidade e uma organicidade que não existiam há décadas.
Enquanto a burguesia, a fim de dormir à noite, repetia para todos e para si mesma que a luta de classes estava morta, processos subterrâneos profundos vinham ocorrendo no seio do proletariado. Como resultado da crise que incide hoje sobre as bases da economia capitalista, o imperialismo nos últimos anos passou a recorrer a métodos cada vez mais brutais para resolver os seus problemas. A principal expressão disso, desde o dia 7 de outubro de 2023, tem sido que o Estado de Israel comete sobre o povo palestino o maior genocídio televisionado da história da humanidade. Mas a burguesia, ao buscar no genocídio respostas ao beco-sem-saída em que ela se encontra, desencadeou também processos inteiramente opostos às suas intenções. Surgiu aos poucos um movimento internacional de solidariedade com a Palestina, inicialmente limitado a uma vanguarda mas abrangendo, mês após mês, massas cada vez mais amplas. Esse movimento obteve diversos avanços parciais, desde a Corte de Haia e diversos chefes de Estado chamarem o genocídio pelo nome até a irrupção de um movimento de jovens israelenses que queimaram suas convocações ao exército em protesto ao genocídio. Mas o ápice foi atingido com o apoio internacional à Global Sumud Flotilla, maior missão humanitária marítima composta por civis da história, cujos membros foram sequestrados ilegalmente pelo Estado colonialista e ilegítimo de Israel.
A Itália é um emblema dessa nova fase subjetiva dos trabalhadores e jovens estimulados pela Palestina. O país viveu este 3 de outubro uma das maiores greves gerais de sua história recente, com 2 milhões de pessoas nas ruas de todo o país — uma paralisação nacional que superou a greve geral anterior, do dia 22 de setembro, também histórica. Trabalhadores de todas as categorias, junto a estudantes, levantaram novamente a bandeira “Blocchiamo tutto” pela Palestina e a Global Sumud Flotilla, contra o governo de extrema-direita e pró-sionista de Giorgia Meloni, aliada de Trump que fez campanha contra a greve. Mas esse fenômeno não se restringiu à Itália. Em Berlim, 100 mil pessoas realizaram o maior ato em defesa da Palestina na história da Alemanha. No Estado espanhol, em diversas cidades, como Madri e Barcelona, as manifestações são constantes, tendo o ato na capital catalã alcançado 300 mil pessoas. Portos na Grécia, na Itália, na Turquia e em todo o Norte da África ficaram paralisados, e se negam a transportar qualquer tipo de insumo aos genocidas de Israel. No Marrocos, a juventude precária da Geração Z luta contra os desmandos do governo autocrático de Mohammed VI, aliado de Trump e Netanyahu, com as bandeiras da Palestina em punho. Desde o final da Guerra Fria não víamos protestos de massas no mundo que, em sua heterogeneidade, erguem de maneira unitária uma bandeira anti-imperialista central.
No final de agosto, mais de 400 militantes e ativistas de dezenas de países embarcaram nos barcos da Flotilha para navegar até Gaza e levar alimentos e mantimentos para romper o cerco ilegal imposto por Israel à população palestina. A Flotilha Sumud não é a primeira missão desse tipo, mas apresentou tanto mudanças quantitativas como qualitativas em relação às anteriores. Não só ela é maior do que todas as missões anteriores somadas, como também foi cercada de solidariedade pela classe trabalhadora de diversos países — e especialmente da Europa — desde os primeiros momentos. Enquanto os governos da Europa passaram esses 2 anos de genocídio reprimindo toda manifestação de solidariedade com o povo palestino e, da sua parte, apoiando Israel e a OTAN e voltando a se preparar para uma nova disputa armada de hegemonia global, a classe trabalhadora mostrou que há duas Europas: uma dos governos, das burguesias; e a outra do proletariado.
Os portuários italianos, seguidos pelos estudantes da Catalunha, da Espanha e da Grécia (para citar somente os principais exemplos) declararam, desde o momento em que a Flotilha foi ao mar, que “se perdermos contato com nossos barcos, mesmo que por apenas 20 minutos, vamos parar toda a Europa”. A força potencial da classe trabalhadora já se fazia sentir com esse aviso, mas se transformou em força material no final de setembro. Desde 10 de setembro, os trabalhadores franceses já vinham se mobilizando contra as políticas militaristas e de austeridade do governo macronista, mas no dia 18 e nas semanas que se seguiram o tema da Palestina ganhou um peso cada vez mais central, chegando a ser central entre a vanguarda nas manifestações mais recentes. Já na Itália, o tema ocupou o centro de nada mais nada menos do que uma greve geral que mobilizou quase 1 milhão de pessoas no dia 22 de setembro, na forma da preparação para fazer valer a promessa de “parar toda a Europa”.
Tamanho foi o impacto dessas mobilizações que os governos da Espanha e da Itália enviaram navios militares para proteger a flotilha das tentativas de intimidação que vinham ocorrendo a partir de ataques de drones israelenses. Sabemos muito bem que isso não passou de uma manobra demagógica que buscava apaziguar as massas mobilizadas, o que se comprovou quando os navios abandonaram a flotilha bem no momento em que ela entrou na zona em que era esperado ocorrer a interceptação. Apesar disso, não deixa de ser significativo que a Europa proletária pôde impor à Europa burguesa — e na figura de ninguém menos do que o governo Giorgia Meloni — enviar navios militares para defender uma missão humanitária contra os ataques israelenses.
O movimento, no entanto, de forma alguma se restringiu a esses países. Na Europa e no mundo, as classes oprimidas têm se levantado em números que não eram vistos há muitos anos, e com uma radicalidade política que não era vista há décadas. Nos últimos meses, a classe trabalhadora na Argentina e em Angola esteve à frente de um enfrentamento com o FMI, enquanto em Madagascar e no Nepal a luta foi primordialmente contra os privilégios das elites econômicas e os levantes da Indonésia e do Quênia tiveram em seu centro a luta contra a violência policial. Porém, com a interceptação da Flotilha, as coisas tomaram outra proporção.
A experiência da greve geral italiana foi repetida no dia 2 de outubro, agora com 2 milhões de pessoas, e desta vez com direito a uma mobilização simultânea na sua vizinha França — mas não só. Também houve mobilizações de tamanha variável, mas em todo caso notável, que somente nos últimos 4 dias ocorreram na Bélgica, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Estado Espanhol, na Argentina, na Grécia, na Turquia, na Suécia, na Suíça, no Marrocos, na Malásia, no México… essa lista não é exaustiva, e além disso segue crescendo. Cada uma dessas manifestações tem as suas particularidades, mas há palavras de ordem comum nas bocas da classe trabalhadora e da juventude do mundo: Palestina livre, liberdade aos ativistas da Flotilha, abaixo o imperialismo! O imperialismo achou por bem mostrar que o sentimento é recíproco, e a repressão policial a essas manifestações tem sido brutal, com prisões arbitrárias e gás lacrimogêneo na Europa e assassinatos de manifestantes na África e na Ásia — mas isso só tem feito os movimentos aumentarem e se espalharem para mais países.
No epicentro europeu do movimento, que se encontra na França e na Itália, a questão da direção já começa a se colocar. Lá, de um só golpe, a extrema-direita se viu sem chão para se postular como anti-sistema perante o seu apoio ao imperialismo e ao Estado genocida de Israel. Enquanto isso, as várias tonalidades de governos “democráticos” têm o seu conteúdo de classe exposto conforme mandam a polícia reprimir as mobilizações, em que jovens e trabalhadores vêm assumindo um papel central. Nestas repressões, que não diminuem a força das manifestações, podemos ver a demagogia dos governos da França e da Inglaterra ao “reconhecer o Estado Palestino”, mas perseguir os manifestantes que defendem a Palestina em seus territórios. No entanto, as direções sindicais mais tradicionais (e isso é especialmente verdade na França) não apresentam uma estratégia que possa ir até às últimas consequências no enfrentamento à burguesia e ao seu braço de extrema-direita. Em meio a essa realidade, a classe trabalhadora vem fazendo algumas valiosas experiências de auto-organização a partir da base, seja para empurrar as suas direções à esquerda ou para forjar direções inteiramente novas.
As placas tectônicas do capitalismo — econômicas, sociais e políticas — estão se chocando violentamente. Muito do que parecia sólido parece agora estar se dissolvendo no ar. O mundo que existiu durante as últimas décadas é incapaz de seguir existindo, e desde já está passando por transformações profundas e irreversíveis: a grande questão é qual vai ser a classe que dirigirá esse processo.