“O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro”. - Karl Marx
Os negros e o pacto Hitler-Stálin
O pacto Hitler-Stalin veio como um choque tremendo para os trabalhadores do mundo inteiro. E não menos para os trabalhadores negros. Os stalinistas instalaram nas massas a esperança de que Stálin e a Rússia liderariam todos os povos na luta pela democracia, paz e pela liberdade. O pacto Hitler-Stálin explodiu essa bobagem pelos ares. Hoje, Stálin e os stalinistas são vistos pelo que realmente são. Não são internacionalistas, não estão preocupados em dirigir a classe operária em todos os países contra os opressores, mas na verdade em pechinchar com as nações imperialistas. Mais abominável do que todas as outras coisas, eles levam à classe operária hoje a uma direção e amanhã a outra, prontos para negociar somente para salvarem a sua própria pele.
Mesmo assim, permeado por toda essa confusão, o povo negro foi quem percebeu mais rápido a fraude e a hipocrisia que é o stalinismo. Os negros se lembram de que durante toda a luta etíope[1] Stálin continuou a vender petróleo para a Itália. Sabem que nenhuma justificativa ou eloquência de Litvinov[2] em Genebra, poderia fazer com que essa venda de petróleo fosse vista como apoio à Etiópia contra tal agressão. Ali Stálin já havia demonstrado, para todos que quisessem ver, que toda essa conversa da União Soviética sendo a liderança dos movimentos democráticos contra os fascistas era uma mentira e somente isso.
Quem oprime o negro?
Os negros sabem que o imperialismo democrático, que supostamente seria o líder da luta pela democracia, paz e liberdade são os maiores opressores dos negros mundialmente. A Grã-Bretanha controla e esmaga a vida de mais de 60 milhões de negros em África, a França moe mais 40 milhões. A Bélgica está comprometida com a tortura diária de mais 12 milhões de negros. Os Estados Unidos são exemplo para todo o mundo civilizado pelo brutal tratamento de negros, e métodos fascistas são acachapantes no sul muito antes de Adolf Hitler e Benito Mussolini nascerem. Até Stálin. Browder e Ford[3] convocaram todos os negros de todos os cantos do mundo a se juntaram à Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e Bélgica na frente democrático, para lutar contra a agressão fascista. Ford nomeou seu livro Os negros e a frente democrática.[4] Quando qualquer um, branco ou negro, apontasse que isso era suicídio para os negros, e que era papel dos negros formar uma frente única com operários e camponeses, amarelos, pardos e brancos, para lutar contra todo o imperialismo em todos os países e não tomar um de seus lados, os stalinistas tinham uma palavra a ele – “Trotskista”.
James Ford passou muitos anos de sua vida no Partido Comunista, repetindo o slogan “Transforme a guerra imperialista em guerra civil” e chamando aos trabalhadores de todo o mundo a lutarem contra o capitalismo em todo o lugar, e agora repentinamente ele descobriu que era das tarefas e do interesse dos negros nos países democráticos era apoiar seus “próprios” governos.
Em janeiro de 1938, o Baltimore Afro-American[5] apoiou a invasão sem precedentes do Japão na China. Isso foi, é claro, uma coisa muito estúpida de se fazer. Mas foi uma estupidez honesta. Muitos negros são amargurados pela aparentemente infindável dominação branca. Por isso eles precisaram da ideia de que o Japão era o líder das raças coloridas e, como tal, estaria expulsando do Oriente. Eles estão errados. O que é necessário no Oriente não é um Japão fortalecido, o que quer dizer uma nação imperialista fortalecida, mas uma China forte. Uma China livre e independente varrerá os japoneses, britânicos e americanos e será uma das grandes líderes dos povos oprimidos no mundo todo. Esse erro de apoiar o Japão é, no entanto, como já dissemos, um erro honesto. Mas James Ford, no seu criticismo justificável desse erro veio a dizer o seguinte:
“Vocês dizem que não aprovam a aliança japonesa com Hitler e Mussolini, os maiores inimigos do povo negro. Vocês podem não apoiar, mas a aliança é um fato inegável”.
Hoje existem 120 milhões de pessoas na África que poderiam dizer a Ford que Hitler não é seu pior inimigo, porque Hitler não os governa. Seus piores inimigos são britânicos, os franceses e os belgas, esses imperialistas democráticos que estão sentando em suas costas. Mas nada James Ford diz sobre isso. Ao contrário, ele diz: “Hitler aplaude o linchamento de negros na América”.
Isso é sem dúvidas muito grave por parte de Hitler, mas sem razão alguma os negros deviam se juntar a esses americanos democráticos que os lincham, para lutar contra Hitler que simplesmente os aplaude. Mas Ford, imitando seu mestre Browder (quem é claro que é somente um imitador de Stálin) torna-se muito eloquente quando sobre as vilanezas da aliança militar Berlim-Roma-Tóquio. Ele diz:
“Quem seria tão cego a isso que não consegue enxergar na aliança Berlim-Roma-Tóquio um inimigo mortal das forças democráticas no mundo?”
Ele termina sua carta mais uma vez gritando com Hitler:
“Minha opinião mais valiosa é que nós estaríamos cometendo um trágico erro dando nosso apoio à qualquer membro da aliança Berlim-Roma-Tóquio.”
Agora Stálin, perseguindo seus próprios interesses e os de sua burocracia e não se importando nem dois centavos com os trabalhadores brancos, trabalhadores negros ou qualquer forma de trabalhador, exceto se puder usá-los para a sua própria política, assina esse pacto com Hitler, e pelo seu acordo comercial promete deixar Hitler ter os recursos necessários para a Alemanha, que fortalecerá enormemente a Alemanha, e habilitar Hitler de uma vez a apressar uma nova crise ainda mais perigosa. O camarada Earl Browder diz que isso é um pacto de paz e que ajuda trabalhadores de todo o mundo em sua luta contra o fascismo. E o camarada Ford, pronto para vender o povo negro como qualquer patrão negro democrata ou republicano, imediatamente esquece a gravidade do crime de apoiar “qualquer membro” da aliança do eixo Roma-Berlim-Tóquio e saúda o pacto como “um grande passo a frente na promoção da paz e de um governo democrático”.
Ele diz isso em uma declaração publicada no Daily Worker[6] de 31 de agosto de 1939, e submetido ao Amsterdan News.[7] Em nossol jornal, nossos encontros e panfletos e etc., nós retratamos a decepção monstruosa que Stálin e os stalinistas exerceram sobre sobre movimento operário internacional como uma análise de pesquisa, e nessa coluna nós analisamos especificamente a reação disso no povo negro e na imprensa negra. Na próxima edição nós devemos começar uma série de artigos relacionando os negros e a guerra. Enquanto isso, no entanto, devemos perguntar aos negros o seguinte: Estão eles convictos a levar a política consequentemente de luta contra todas as faces do imperialismo, fascista ou democrática, em comum com os povos oprimidos de todo o mundo, ou estão eles decididos a seguirem James Ford, Earl Browder e Stálin, que nem barata tonta de um lado para o outro, e sendo apenas utensílio nas mãos de um dos piores hipócritas e traidores que a classe trabalhadora já gerou em seu ventre? A pergunta já responde a si própria. Abaixo com as mentiras stalinistas e suas contradições. Por uma política de frente única entre trabalhadores negros e brancos contra as armadilhas mortíferas de Ford de uma frente democrática ou uma frente Stálin-Hitler.