Na última semana, a tensão na Bolívia aumentou. A repressão se intensificou, mas os bloqueios e a resistência também se mantêm. O governo de Rodrigo Paz e os meios de comunicação vêm realizando uma campanha intensa com a narrativa de que os bloqueios estão enfraquecendo; querem desmoralizar e dividir o movimento, apostando no desgaste. A direção da COB colabora com essa estratégia: nesta terça-feira, dia 16, anunciou um chamado ao governo para um “diálogo de pacificação”, com uma pauta que não inclui a renúncia de Paz, passando por cima do que foi decidido em assembleias populares e bloqueios ao longo de mais de 45 dias de luta. Ao mesmo tempo, o governo protagonizou um escândalo internacional ao deportar ilegalmente a missão humanitária da Argentina que havia viajado para investigar denúncias de violações dos direitos humanos ocorridas durante a repressão e as detenções nas manifestações das últimas semanas.
O que alimenta essa rebelião é uma ruptura profunda com o governo e com o regime político. Muitos dos que hoje participam dos bloqueios votaram em Rodrigo Paz no ano passado, contra a direita, acreditando que suas condições de vida melhorariam. Porém, logo após assumir o cargo, ele lançou um plano de ataques brutais. Por isso existe uma enorme indignação, que se expressa nas mobilizações, no sentimento de que Paz os enganou e de que governa apenas em benefício dos ricos. Há setores da direita que exigem que seja decretado imediatamente o estado de exceção e que os bloqueios sejam desmantelados. Mas o próprio governo tem muitas dúvidas sobre tomar essa medida — e com razão. O precedente da Guerra da Água de 2000 continua pesando. Naquela ocasião, o Exército foi colocado nas ruas sob estado de exceção, mas o governo acabou sendo obrigado a recuar diante da enorme resposta popular. Por isso, antes de arriscar uma saída de força generalizada, busca desgastar e dividir a luta.
O equilíbrio que sustenta Rodrigo Paz e a estratégia de desgaste
Em todo esse cenário, a questão central é como o governo de Paz consegue se sustentar. Leon Trotsky, em suas análises sobre o fenômeno do bonapartismo, utilizava uma imagem que pode ser ilustrativa para o momento atual: se dois garfos forem cravados simetricamente em uma rolha, ela pode manter o equilíbrio até mesmo sobre a cabeça de um alfinente. Paz é um equilibrista desse tipo. Um presidente que carece de um partido sólido para sustentá-lo e que já perdeu grande parte da base eleitoral que votou nele para barrar a extrema direita de Quiroga.
Em San Julián, no departamento de Santa Cruz, o governo, junto com a polícia e as gangues racistas da União Juvenil Cruceñista, tentou desbloquear estradas e foi derrotadoovimento diante da repressão. Caracollo, no departamento de Oruro, conseguiu resistir durante horas aos ataques repressivos. É verdade que o governo conta com o apoio do imperialismo, como Marco Rubio deixou claro em diversas ocasiões, mas Paz se sustenta sobre um equilíbrio delicado. De um lado, estão os camponeses e setores de trabalhadores mobilizados, El Alto, os comitês de bloqueio, San Julián, Vinto e Caracollo, pressionando desde baixo para que Paz deixe o poder. Do outro, procuram empurrar a situação para a direita as juventudes cruceñistas, Tuto Quiroga e os setores que exigem uma repressão generalizada.
Mas esse equilíbrio, de forma geral, como assinala Javo Ferreira em sua Carta aberta aos trabalhadores mineiros, não pode ser compreendido sem o papel da COB, que convocou uma greve geral há quase um mês e meio, mas não faz nada para efetivá-la. O dirigente da COB, Mario Argollo, deixou isso claro na semana passada ao fazer declarações como se não tivesse qualquer responsabilidade por essa paralisia. Existe aí uma estratégia de desgaste do movimento, e esse é o oxigênio que ainda permite a Paz se manter, mesmo estando por um fio. O próprio Argollo lembrou que, em janeiro, quando firmaram um acordo com o governo, foram chamados de traidores. E, segundo o autor, com razão. Agora procuram fazer o mesmo novamente: depois de apostar no desgaste da luta, propõem um “diálogo” com o governo, oferecendo-lhe um novo salva-vidas político.
Como destaca Javo Ferreira em sua carta, enquanto o movimento camponês, junto aos trabalhadores e trabalhadoras precarizados de Río Seco, dos distritos 8, 7 e 14 de El Alto e de diversos pontos de bloqueio do país, garantiam a continuidade da medida de força, os dirigentes mineiros da COB e da FSTMB recusaram-se sistematicamente a efetivar a greve geral e paralisar a produção nos locais de trabalho. Limitaram-se a mobilizar comissões de trabalhadores em sistema de rodízio, sem interromper a produção nem os negócios dos grandes capitalistas. Daí seu chamado para que os trabalhadores mineiros assumam diretamente a direção da luta e para que o Sindicato Misto dos Trabalhadores Mineiros de Huanuni (SMTMH) e o sindicato de Colquiri assumam a responsabilidade de marchar até La Paz, liderando milhares de trabalhadores mineiros estatais e privados, para fazer o governo compreender, de uma vez por todas, que deve renunciar.
Crise de representação e demandas históricas
Em um artigo recente, o ex-vice-presidente de Evo Morales, Álvaro García Linera, afirma que a rebelião demonstra que “na Bolívia já não se pode governar sem os povos indígenas”. Ele destaca que, em sociedades heterogêneas e compostas por várias nacionalidades em seu interior, não basta a cidadania jurídica, política e social, pois “esses três níveis de cidadania são incompletos porque não abrangem toda a sociedade e consagram mecanismos racializados de exclusão”. E acrescenta que “desde o ano de 2006 vem sendo construída uma cidadania plurinacional capaz de agrupar a complexidade social”, em referência aos governos de Evo Morales.
No entanto, a novidade é que essas demandas históricas relacionadas à questão da plurinacionalidade, assim como — e é importante destacar — ao problema da terra, que foi outro dos alvos do ataque do governo de Paz por meio da Lei 1720 — que estabelecia a conversão da classificação de pequena propriedade titulada em propriedade média para que as terras pudessem ser utilizadas como garantia em créditos bancários e, assim, avançar na expropriação do campesinato —, continuam plenamente vigentes e constituem bandeiras de luta e um dos principais motores da atual rebelião. Isso ocorre apesar da debacle do MAS, que terminou com suas diferentes frações em conflito aberto entre si, uma vez esgotado o ciclo econômico favorável impulsionado pelos hidrocarbonetos.
Como assinala Javo Ferreira em seu livro Comunidade, indigenismo e marxismo:
No calor da resistência à ofensiva neoliberal dos anos 1990, e ao longo de anos de grandes mobilizações e levantes, o despertar nacional de milhões de oprimidos e explorados aimarás, quéchuas e tupi-guaranis, que se manifesta no orgulho por sua pertença étnica e cultural, constituiu-se em um fator extremamente progressista e em um motor da luta de classes, como demonstraram os bloqueios aimarás de 2000 e 2001 ou o levante de El Alto em 2003. As reivindicações dirigidas contra a opressão racista em todos os seus aspectos e pela libertação dos povos originários adquirem, assim, uma vitalidade renovada com base em sua legitimidade histórica.
O MAS foi, contraditoriamente, um veículo de conquistas para a população originária, que constitui a maioria do país, especialmente para os camponeses. Já sua relação com o movimento operário foi muito contraditória, chegando ao ponto de a COB posicionar-se ao lado dos setores golpistas em 2019. Por meio dos comitês de bloqueio, das assembleias populares e dos elementos de auto-organização demonstrados pela rebelião boliviana, após anos de estatização de muitas organizações de massas e comunitárias, essas demandas históricas voltam a aparecer em primeiro plano contra um governo e classes dominantes profundamente racistas.
Essa situação coloca novas condições para a perspectiva estratégica de um novo bloco histórico operário, camponês e indígena. E esse é um elemento central para a reflexão estratégica, inclusive para além da Bolívia.
Lampejos da tradição revolucionária boliviana
Quando observamos a enorme disposição de luta do povo boliviano nos dias atuais, vêm à mente lampejos da grande tradição revolucionária da Bolívia. Nos anos que antecederam a Revolução de 1952, houve vários governos que tentaram implementar saídas autoritárias sem conseguir se consolidar. Eram bonapartismos frágeis, presos entre uma enorme polarização política e uma luta de classes cada vez mais radicalizada. Naqueles anos ocorreram experiências que serviram como verdadeira escola revolucionária: greves políticas, levantes camponeses, resistência às chacinas promovidas pelo Exército e a adoção das Teses de Pulacayo pelos trabalhadores mineiros. Eduardo Molina, em seu livro Revolução Operária na Bolívia, define aquele período como uma etapa de exacerbação de todas as contradições sociais, que alimentou a explosão revolucionária de abril de 1952. Anos depois, em 1970, uma greve geral convocada pela COB derrotou a tentativa de golpe do general Miranda e deu origem ao governo do general Torres, que tentou manobrar com um discurso nacionalista em meio à ascensão do movimento de massas. Mas o aspecto mais marcante desse processo foi o surgimento de uma instituição própria do movimento popular: a Assembleia Popular.
Ela foi convocada em 1º de maio de 1971 pela COB, com base nos sindicatos — sobretudo os mineiros — e nas correntes políticas que se reivindicavam como “populares”. Também participaram organizações camponesas que rompiam com o antigo pacto militar-camponês da década anterior.
O jornal Le Monde Diplomatique chamou a Assembleia Popular de então de “o primeiro soviete da América Latina”, e não foi o único a fazê-lo. Embora não tenha chegado a constituir um soviete ou conselho propriamente dito, como os sovietes da Revolução Russa, a Assembleia Popular foi concebida como uma instituição permanente do movimento de massas e apontava para uma centralização da aliança operária, camponesa e popular em torno do movimento operário.
Um de seus principais problemas foi que sua direção reformista não a concebeu como um órgão de um novo poder destinado a derrotar o Estado burguês, mas sim como um organismo de pressão sobre o governo do general Torres. Ainda assim, tratou-se de uma experiência de enorme importância. Segundo o autor, seria fundamental hoje efetivar a greve geral e construir uma Assembleia Popular semelhante à de 1971, para que trabalhadores e camponeses assumam as rédeas da situação e possam derrotar o governo de Paz.
A rebelião na Bolívia ocorre no contexto da ofensiva imperialista de Trump na região e do declínio da hegemonia dos Estados Unidos, agravado, segundo o texto, por sua derrota estratégica na guerra contra o Irã. Hoje, a Bolívia, como tantas vezes em sua história, constitui um laboratório da luta de classes, concentrando muitas das encruzilhadas estratégicas que atravessam a América Latina.