Capa: A relevância da teoria do imperialismo para navegar o caos sistêmico global

A relevância da teoria do imperialismo para navegar o caos sistêmico global

Por Esteban Mercatante | | Atualizado em 19.09.2026
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Texto originalmente publicado em espanhol na edição de 23/11/2025 do Ideas de Izquierda argentino.

Apresentamos o prefácio à segunda edição ampliada do livro El imperialismo en tiempos de desorden mundial, de Esteban Mercatante, publicada na Argentina pela Ediciones IPS. Quando este livro foi originalmente publicado, em 2021, falávamos de desordem mundial, quando ainda não tinha ocorrido a invasão da Rússia à Ucrânia, que deu lugar a uma guerra que continua até hoje. Tampouco havia ocorrido o novo capítulo da guerra no Oriente Médio e a aceleração do genocídio levado adiante pelo Estado sionista contra o povo palestino. São as expressões mais dramáticas de mudanças profundas na situação, que deram lugar a uma aceleração de várias das tendências que então apontávamos.

A necessidade de contar com um mapa conceitual adequado para navegar a sucessão de eventos turbulentos que se produzem no cenário mundial é ainda mais premente na atualidade.

O objetivo deste livro, que para esta segunda edição ampliamos incorporando novos escritos publicados ao longo destes anos, é dar conta da configuração das relações de poder no sistema mundial capitalista e das principais transformações pelas quais passaram nas últimas décadas. Nossa análise começa com a intensificação da internacionalização da produção capitalista que ocorreu desde a década de 1970 e gerou o que se passou a chamar de cadeias globais de valor. Este é um ponto de partida necessário para entender como, paradoxalmente, os EUA alinharam os países capitalistas mais poderosos para impor em todo o planeta os princípios de abertura econômica e liberalização que estabeleceram as bases para os desafios à sua liderança que enfrentam atualmente. O encerramento da crise que pôs fim ao boom do pós-guerra teve entre seus requisitos a abertura de novos espaços de acumulação de capital nas periferias, que foram aproveitados pelas grandes corporações para reestruturar suas atividades e tirar proveito das vantagens de uma maior transnacionalização. Isso permitiu o relançamento da acumulação de capital durante a década de 1980. Um relançamento caracteristicamente turbulento e que não apresentou as taxas de crescimento econômico que vigoraram durante o ciclo do pós-guerra, mas, ainda assim, tornou possível que acionistas e gerentes das empresas montassem um ataque em larga escala contra as conquistas das classes trabalhadoras, elevando a participação dos lucros do capital na renda em detrimento da remuneração do trabalho. Como demonstram claramente Leo Panitch e Sam Gindin em A construção do capitalismo global, sem o papel ativo do Estado norte-americano, a globalização tal como a conhecemos não teria ocorrido. Mas dessa internacionalização produtiva surgiu um novo centro de gravidade da economia mundial, que não é outro senão a China. Os núcleos de análise do nosso livro em sua primeira edição eram três: os traços da economia mundial resultante da internacionalização produtiva; a decadência, ainda que ambivalente, do poderio norte-americano; e o desafio colocado pela China. Nesta nova edição, incorporamos uma quarta parte dedicada a explicar a aceleração das rivalidades e discutir o papel de atores que ganharam relevância na desordem mundial, como a Rússia. Incluímos também, na primeira parte, novos capítulos dedicados a debater o papel do que alguns autores chamam de semiperiferias ou subimperialismos.

A relevância atual do conceito de imperialismo

Diferentemente das abordagens mais tradicionais das relações internacionais — sejam elas realistas ou liberais —, desde a teoria marxista colocamos ênfase na importância de analisar as relações interestatais como parte inseparável das determinações que constituem o sistema mundial capitalista como uma totalidade concreta. Ou seja, abordando a ação e as disputas entre Estados como uma dimensão integral das relações entre as classes, determinadas pelas condições — mundiais — da acumulação de capital e pelas contradições que a atravessam. A contribuição fundamental das teorias do imperialismo foi justamente esse enfoque, que supera qualquer noção abstrata e ahistórica de equilíbrio de poderes, além de evitar tomar os Estados e seus jogos como atores autônomos.

Um pressuposto básico da investigação que realizo é que imperialismo, assim como capitalismo, é uma categoria que devemos considerar historicamente. As teorias do imperialismo desenvolvidas por Lenin, Luxemburg, Bukhárin e vários outros autores — numa investigação que começou já no final do século XIX e se encerrou na segunda década do século XX, com a publicação das contribuições mais “clássicas” — buscavam dar conta de uma transformação histórica do modo de produção capitalista. Essa transformação estava relacionada ao desenvolvimento dos trusts e cartéis e à emergência do que Hilferding e Lenin, seguindo essa elaboração, categorizaram como capital financeiro. Ao mesmo tempo, apontavam para a ruptura dos equilíbrios nas relações interestatais sob domínio britânico que haviam sustentado a expansão do capitalismo no final do século XIX e início do XX. Da mesma forma, a teoria do imperialismo hoje deve incorporar ao seu esquema conceitual todas as mudanças nas coordenadas estratégicas que ocorreram desde então. Apenas para mencionar algumas: o deslocamento do centro de poder capitalista mundial — que já se evidenciava ao final da Primeira Guerra Mundial, mas se consolidou definitivamente com a Segunda — da Europa para a América do Norte; a criação, por parte dos EUA, de todo um sistema de governança para cimentar seu domínio e sua posterior reformulação após o colapso da URSS; a chamada globalização nas últimas décadas; o pós-11 de Setembro, com o desenvolvimento do Projeto para um Novo Século Americano e seu posterior atoleiro; a queda do Lehman Brothers e a Grande Recessão; e, finalmente, o surgimento da China como ator global. A análise que desenvolvo ao longo do livro destaca a importância da teoria do imperialismo como um esquema a partir do qual abordar essas transformações. A atualidade da teoria do imperialismo se afirma, ao menos, nesta série de dimensões:

  • O sistema mundial capitalista segue caracterizado por uma hierarquia de países.Ela não se expressa hoje por meio de relações de subordinação formal, mas opera no marco de um sistema de Estados que reconhece a todos os territórios, salvo algumas exceções, soberania formal. Por trás disso, a assimetria em capacidade econômica e militar determina o peso distinto dos Estados na influência sobre os demais e no papel que podem desempenhar nos mecanismos de governança mundial. Se por si só as assimetrias econômicas já estão na base dos processos de desenvolvimento desigual e polarização, isso é reforçado pelo uso que os países mais poderosos fazem de seu peso para impor as regras que melhor se ajustam aos seus interesses, criando condições que permitem a seus capitais enriquecer em todo o planeta às custas dos demais. Nesse sentido, a distinção entre países opressores e oprimidos mantém plena atualidade.

  • O imperialismo é um fenômeno múltiplo. Existe uma série de potências que competem entre si e disputam esferas de poder. Não há um “império” nem nada semelhante. E, embora possam ser criadas condições para que durante um período — inclusive um período prolongado — haja convergência de interesses entre potências e mitigação de conflitos, a inevitável transformação da força relativa dos países, como resultado do desenvolvimento desigual, conduz mais cedo ou mais tarde a conflitos e reformulações de alianças.• Devemos entender o imperialismo como resultado de transformações estruturais do capitalismo e de seu pleno domínio sobre uma economia mundial submetida à lógica da valorização.Não se trata simplesmente de uma “política” de um setor da burguesia ou de segmentos dos Estados capitalistas com inclinações mais militaristas, como sustentavam Kautsky e outros autores, mas algo que surge das contradições que o capitalismo internacionaliza quando chega a dominar todo o planeta.

  • O imperialismo é reação em toda a linha, o bastião fundamental do sistema internacional de espoliação.Assim era definido por Lenin em O imperialismo, fase superior do capitalismo. Se naquele momento era a força de vanguarda para impor as relações de produção capitalistas onde ainda não dominavam — algo que podia fazer ao mesmo tempo em que se aliava às forças sociais mais retrógradas e atrasadas de qualquer desenvolvimento capitalista, caso servissem melhor para assegurar a espoliação —, um século depois essa afirmação é ainda mais verdadeira. Qualquer ascenso da classe trabalhadora e dos setores populares que coloque em crise os regimes políticos de qualquer país dependente e aposte em questionar as relações de produção capitalistas e as restrições que estas impõem aos povos não têm de enfrentar apenas a classe dominante local e as forças repressivas de seu Estado, mas também a intervenção do imperialismo mediante meios militares, econômicos e financeiros, entre muitos outros. Foi isso que vimos, por exemplo, na Primavera Árabe.

  • Embora ainda, no tempo de Lenin e nos primeiros anos da III Internacional, a posição das burguesias dos países oprimidos frente ao imperialismo fosse tratada de maneira mais “algébrica”,a experiência de luta contra a opressão imperialista na década de 1920 terminou por demonstrar que, nessa época, as burguesias dos países oprimidos se tornaram aliadas do imperialismo na sustentação da opressão, e não possíveis aliadas na luta contra ela. Isso não fez senão reforçar-se, e hoje as burguesias dos países dependentes estão mais do que nunca ligadas ao imperialismo por mil laços. Não têm nenhum interesse em atacar as condições de dependência.

Esses são, evidentemente, pontos que há muito estão submetidos a debate. Dentro do que poderíamos chamar, seguindo Razmig Keucheyan, de “hemisfério esquerda” do arco ideológico, está longe de haver consenso sobre a relevância do imperialismo. Por isso, essa discussão sobre a atualidade do imperialismo e as formas que assume — que desenvolvo ao longo do livro — é realizada em diálogo ou em polêmica com autores que propõem diversos enfoques, mais favoráveis ou mais críticos à teoria do imperialismo.

Um salto qualitativo no caos sistêmico global

Os artigos e conversas reunidos neste livro foram publicados ao longo de mais de uma década durante a qual o panorama internacional se transformou completamente. Essas elaborações acompanham de perto os efeitos duradouros produzidos pela Grande Recessão (2008–2010), que acelerou a crise do poderio norte-americano que vinha se gestando desde antes. A crise econômica, respondida com grandes resgates aos bancos — principais responsáveis por ela —, conduziu à queda do emprego e dos salários nos países ricos, que foram os mais afetados pelas turbulências financeiras. Como os custos fiscais dos resgates e a paralisação econômica tensionaram as linhas de falha da construção da moeda única europeia e empurraram vários países à beira da moratória, impôs-se a austeridade fiscal, que produziu novos golpes sobre os setores mais vulneráveis. A Grande Recessão provocou um profundo e duradouro deterioramento social que serviu de fermento para o descontentamento político. A ativação de movimentos contestatórios como os Indignados, a ascensão do Podemos, a chegada ao governo do Syriza na Grécia em 2015 após anos de dura luta de classes em resposta aos ataques do ajuste (que Tsipras continuou aplicando), o Brexit — todas essas foram expressões distintas de uma crescente polarização à direita e à esquerda que colocou em crise os principais partidos que governaram durante décadas. A vitória de Donald Trump nas eleições de 2016 foi parte do mesmo fenômeno.

Diante do choque financeiro global de 2008, os EUA coordenaram uma resposta global, ativando pela primeira vez o G-20 para assegurar o compromisso dos Tesouros e Bancos Centrais em um marco mais amplo que o G-7 — um seleto clube de potências imperialistas. Garantiu-se que os estímulos fiscais estivessem alinhados com a continuidade da abertura econômica e financeira produzida durante a ofensiva neoliberal, e que não houvesse desvalorizações competitivas nem outras medidas protecionistas. Entretanto, desde então foram se multiplicando as evidências dos limites da capacidade dos EUA para continuar liderando os assuntos mundiais como fizeram desde o fim da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, desde o fim da Guerra Fria, quando ficaram como única superpotência.

Na recuperação econômica global, foi evidente a importância alcançada pela China, verdadeira locomotiva que alimentou o crescimento dos países exportadores de commodities. E, no mundo pós-crise de 2008, ela se converteu cada vez mais em um ator internacional, realizando investimentos por meio de suas empresas privadas e estatais. Nos círculos dirigentes norte-americanos, a constatação do próprio enfraquecimento veio acompanhada de uma percepção crescente da China como ameaça existencial. A necessidade de enfrentar um mundo cada vez mais refratário a submeter-se aos desígnios norte-americanos como antes, e as turbulências políticas alimentadas pelo mal-estar social, exacerbaram as divisões dentro do próprio establishment. As divergências sobre como enfrentar o enfraquecimento e reafirmar o poder da principal potência imperial expressam-se de maneira cada vez mais polarizada.

Os principais ingredientes do coquetel explosivo que foi decompondo a ordem global dominada pelos EUA são o enfraquecimento dessa potência diante de outros Estados dispostos a desafiá-la e a divisão da classe dirigente norte-americana, dentro da qual vêm se impondo setores dispostos a implementar políticas que rompem com as regras estabelecidas pelos próprios EUA para a governança internacional. Essa ordem está submetida a forças centrífugas, sem que se possa prever o que a substituirá.

Em alguns dos textos que compõem este livro, recorremos à categoria de caos sistêmico, vinculada à escola do sistema-mundo. Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi trabalham com esse conceito. No caso de Wallerstein, ele é utilizado no marco do que identifica como uma crise estrutural do sistema-mundo capitalista. Arrighi, ao contrário, concentra-se no que identifica como sucessões hegemônicas dentro do sistema-mundo capitalista. O que ambos autores compartilham é a ideia de que os períodos de crise sistêmica, nos quais determinadas estruturas de domínio mundial se desagregam, são marcados por turbulências em todas as esferas. Wallerstein sustenta que:

A característica primordial de uma crise estrutural é o caos. Caos não equivale a uma situação feita de acontecimentos totalmente fortuitos. É uma situação de flutuações rápidas e constantes que afetam todos os parâmetros do sistema histórico, o que inclui não apenas a economia mundial, o sistema interestatal e as correntes cultural-ideológicas, mas também a disponibilidade de recursos vitais, a natureza adversa das condições climáticas e a presença de pandemias1 .

Desde essa perspectiva, a crise de um sistema é um momento de bifurcação: colocam-se, como substitutos do sistema em decadência, duas ou mais possibilidades capazes de ocuparem seu lugar.

A corrente do sistema-mundo foi corretamente criticada pelo ênfase nas estruturas em detrimento dos sujeitos. No entanto, é sugestiva a maneira como, nos momentos de crise sistêmica e caos, segundo essa corrente, se abrem possibilidades para a ação transformadora dos sujeitos — possibilidades que, em situações de estabilidade sistêmica, são consideradas fechadas. Na crise estrutural:

... a única certeza é que o sistema existente, a economia-mundo capitalista, não pode sobreviver. O que se torna impossível saber é qual será o sistema sucessor. [...] A única característica esperançosa de uma crise sistêmica é o grau em que ela aumenta a viabilidade da agência, do que chamamos de “livre-arbítrio”. Em um sistema histórico que funciona normalmente, mesmo grandes esforços sociais têm efeitos limitados por causa da eficácia das pressões para retornar ao equilíbrio. Mas quando o sistema está longe de uma situação de equilíbrio, cada pequeno elemento que se acrescenta provoca grandes efeitos, e a totalidade de nossos elementos, que se produzem a cada nanossegundo em cada nanoespaço, pode (pode, não deve) fazer a diferença para inclinar a balança da decisão “coletiva” na bifurcação2 .

Trata-se, na melhor das hipóteses, de uma correção parcial da inclinação da abordagem do sistema-mundo a relegar a um segundo plano os aspectos subjetivos — inclinação pela qual tem sido corretamente criticada. Ainda assim, essa ideia do caos sistêmico como momento de turbulências aceleradas que a ordem vigente não consegue processar, e no qual se ampliam as possibilidades de intervenção das classes subalternas, permite enriquecer o tratamento de períodos de crise generalizada como o atual. Com a peculiaridade de que, nesta crise, não está claro que tipo de ordenamento poderia substituir o atual, e os potenciais sucessores, como a China, ainda exibem profundas fragilidades.

O traço central desse caos sistêmico tem a ver com a crise da capacidade de liderança do imperialismo norte-americano. Este aparece há bastante tempo como um dado difícil de contestar, especialmente depois da crise de 2008.

Declínio e agressividade do imperialismo estadunidense

O imperialismo dos Estados Unidos têm menos poder do que no momento em que se falava de uma única superpotência após a queda da União Soviética — o momento da unipolaridade. No entanto, em termos de poder duro, considerando as dimensões econômica, financeira e militar, ainda mantém vantagem considerável sobre os demais países que o seguem. Tony Norfield, com quem conversamos em uma entrevista incluída neste livro, elabora um índice de poder que considera tamanho da economia (PIB), desenvolvimento das finanças, uso internacional da moeda nacional, investimentos estrangeiros e poder militar. Comparando esse conjunto de esferas, os EUA estão muito à frente da China, o país que os segue. Logo depois vem, relativamente próxima, a Grã-Bretanha; Japão, França e Alemanha disputam os lugares de quarto a sexto, e depois vêm os Países Baixos e o restante. Esse índice é limitado pelas dimensões que seleciona; se agregarmos outras métricas, como o nível de desenvolvimento tecnológico, a posição dos EUA e da China — que são os que mais investem em pesquisa — poderia melhorar. Mas isso não alteraria substancialmente as relações de poder. Ou seja, os EUA registram um retrocesso absoluto e relativo de seu poder em comparação com o momento em que gozavam de superioridade esmagadora, mas ainda continuam à frente dos demais.

No entanto, desde o início do milênio, a capacidade de liderança dos EUA vem se deteriorando muito mais do que esses indicadores de poder material mostram. O atoleiro no Oriente Médio, a crise iniciada em 2008 com a quebra dos bancos de investimento nos EUA, e a crescente divisão entre os estratos governantes quanto à política doméstica e externa — divisão agudizada desde o primeiro governo Donald Trump — custaram caro em termos da capacidade de construir alianças e impor alinhamentos. No momento imediatamente posterior à crise de 2008, impôs-se uma resposta coordenada frente ao que ameaçava tornar-se a principal força centrífuga contra a integração econômica desde meados do século XX, sob liderança dos EUA. Ao ativar pela primeira vez o G-20, os secretários de Estado e do Tesouro dos EUA articularam com seus pares desse grupo de países para assegurar o compromisso com a abertura econômica e evitar que o que ameaçava converter-se em uma depressão desencadeasse iniciativas protecionistas. Para alguns autores, isso foi uma demonstração de que não havia uma crise significativa da liderança estadunidense N1 .

Mas a desvalorização de seu poder foi se tornando manifesta durante os governos Obama. Seus dois mandatos foram marcados pelos esforços para sair do atoleiro do Iraque e do Afeganistão; pelas tensões com a UE devido aos desdobramentos de 2008, quando emergiram as crises de dívida que ameaçaram romper a Eurozona; e pela tentativa de reorientar a política externa priorizando a Ásia a fim de impor limites à China. Foram anos de notáveis transformações no panorama internacional, intimamente associadas aos profundos e duradouros efeitos econômicos, sociais e políticos que a crise teve nos países afetados 3 . A distribuição desigual dos custos da crise alimentou descontentamentos e lutas de classes, e levou à emergência de novos fenômenos políticos que abalaram a posição dos partidos dominantes durante os anos de neoliberalismo. Daí surgiram o Brexit, o próprio Trump e também o fracassado experimento do Syriza, que venceu as eleições na Grécia em 2015 prometendo o fim da austeridade — apenas para continuar aplicando-a.

A dificuldade de responder a desafios em vários fronts com um poder diminuído, em um contexto de tensões políticas internas exacerbadas N2 , agravou as divisões nos estratos dominantes sobre as estratégias a seguir. Isso explica os giros abruptos que testemunhamos com Obama, Trump, Biden e novamente Trump — tanto na agenda doméstica quanto na externa. As sucessivas viradas bruscas impostas após cada sucessão presidencial abalaram a confiança dos aliados dos EUA. As políticas de Trump foram especialmente danosas, uma vez que tanto em seu primeiro mandato quanto no atual ele buscou se eximir do papel histórico dos EUA como garante do suposto “ordem baseada em regras”, uma invenção dessa potência para organizar o mundo capitalista desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Que os EUA se vejam na necessidade de subverter aspectos centrais da ordem cuidadosamente construída e sustentada durante décadas é um claro indicador — e acelerador — do caos sistêmico.

Desafio desde o Oriente

Um aspecto de continuidade ao longo das últimas presidências estadunidenses foi o aumento da agressividade com que se posicionaram diante da China. Um ponto de consenso majoritário nos dois partidos que dominam a política do país é a percepção da República Popular como ameaça existencial ao domínio estadunidense. Daí decorre a necessidade de enfrentá-la utilizando todos os recursos no terreno econômico e geopolítico e, em caráter preparatório, militar. Obama, Trump e Biden deram prioridade à construção ou ao reforço de alianças de segurança com países do Pacífico para cercar o gigante asiático. Outro aspecto notavelmente compartilhado entre Biden e Trump foi o recurso a restrições comerciais para bloquear o acesso da China a tecnologias estratégicas como os semicondutores.

As iniciativas desenvolvidas pelo imperialismo estadunidense não conseguiram interromper o ascenso da China, apesar da energia empenhada nisso. Isso não significa que não haja dificuldades no gigante asiático. Pelo contrário, há no horizonte múltiplas nuvens escuras que se manifestam em diferentes níveis. Talvez a questão mais ameaçadora tenha a ver com o envelhecimento populacional, que ocorre de maneira precoce, quando o país ainda apresenta níveis de desenvolvimento — medidos em termos de renda per capita — modestos em comparação com outros países. No plano econômico, combinam-se diversos problemas que o PCCh vem gerindo há tempos para tentar evitar que explodam de maneira descontrolada. Conjugam-se um mercado imobiliário superaquecido, a saturação dos investimentos em infraestrutura e o excesso de capacidade industrial. Este último tem impacto global, já que as empresas chinesas buscam inundar todos os mercados de todos os países com suas mercadorias baratas — algo que vem acontecendo de modo mais acentuado nos últimos anos e que, com a “guerra comercial” de Trump, pode aprofundar-se. Também em termos sociais e políticos, o regime cada vez mais repressivo liderado por Xi Jinping não é suficiente para evitar a acumulação de descontentamentos que ameaçam explodir inesperadamente — como ocorreu, por exemplo, alguns anos atrás, contra a política de “COVID zero”. Mas, mesmo arrastando essas dificuldades, o lugar da China no mundo continua se consolidando, apesar das tentativas dos EUA de freá-la. Durante a segunda década deste milênio, Pequim começou a abandonar as diretrizes que orientaram a política externa da China desde os anos de Deng Xiaoping, resumidas na fórmula “oculte sua força, espere o momento oportuno”, cunhada por Jiang Zemin, o sucessor de Deng. A China deveria focar no desenvolvimento econômico e não manifestar prematuramente pretensões de ter peso na arena internacional. Durante o último mandato de Hu Jintao, essa diretriz ainda se manteve, mas ligeiramente modificada como “continuar ocultando capacidades e esperando o momento oportuno, mas adotar uma postura mais proativa e fazer mais”. Desde 2013, com a chegada de Xi Jinping à presidência, a guinada seria mais acentuada. Xi introduziu o conceito de “novo tipo de grandes relações de poder” 4 .

Essa reformulação foi uma resposta à maior hostilidade recebida dos EUA, mas também resultou da nova avaliação do equilíbrio de poder realizada pelos líderes do PCCh no mundo pós-crise de 2008. Do ponto de vista da China, a crise confirmou as falhas do capitalismo de tipo ocidental e as fortalezas do “socialismo com características chinesas”, fórmula eufemística sob a qual foram englobadas as reformas pró-capitalistas na China. O notável desempenho econômico da China em termos de crescimento, que já impressionava antes da Grande Recessão, mas se tornou ainda mais contrastante com o panorama de estagnação então vigente nos países ricos, foi visto como confirmação de um esquema em que se implantou o capitalismo, mas preservando a propriedade estatal majoritária de empresas estratégicas e limitando a desregulamentação de setores como o financeiro. Isso deixou nas mãos do Estado numerosas alavancas para intervir ativamente na programação econômica. A crise motivou também mudanças na visão da China sobre suas relações internacionais, porque reduziu o dinamismo das exportações de manufaturas. Depois do colapso inicial no final de 2008, elas voltaram a crescer a partir de 2010, embora o ritmo não tenha alcançado os níveis prévios à crise. O investimento em infraestrutura e o desenvolvimento imobiliário tornaram-se cada vez mais importantes. Mas isso também não podia ser suficiente para sustentar um crescimento de quase 10% ao ano; por isso, também começaram a crescer rapidamente os capitais exportados pela China a outros países. Assim, o capital proveniente da China passou a ser cada vez mais um concorrente do dos EUA, da Europa e do Japão. A ideia do fracasso do modelo capitalista dominante, a menor dependência das exportações e a crescente competição por espaços de acumulação no mundo estimularam os líderes do PCCh a projetar mais abertamente uma visão de governança global alternativa à impulsionada pelos EUA.

A mudança completa da postura da China diante do mundo se consolidará com o conceito de “lutar pela realização”, que expressa o desejo de “um novo tipo de relações internacionais baseadas no respeito mútuo, na equidade e na justiça, e na cooperação e ganha-ganha” 5 , e de “comunidade de destino da humanidade” 6 , que procura acentuar a ideia de que a liderança da China se propõe a desempenhar um papel positivo e construtivo nos assuntos globais.

A reflexão sobre os motivos pelos quais a China se tornou mais assertiva não pode desconsiderar tampouco as tensões que inevitavelmente se produzem em qualquer sociedade cuja trajetória de desenvolvimento seja tão acelerada quanto a deste país. Isso tem efeitos potencialmente desestabilizadores, que podem ser seu principal ponto fraco, e que a intensificação das rivalidades internacionais pode fazer recrudescer. O partido hoje aparece solidamente alinhado atrás da liderança de Xi, mas qualquer dificuldade severa poderia deixá-lo exposto, ainda mais depois de avançar na maior concentração de poder desde Mao ao impor uma extensão de seu período à frente do governo da RPC para além dos 10 anos 7 . Há uma espécie de “bonapartização” do regime do PCCh que busca sustentar a estabilidade do regime frente às múltiplas ameaças no horizonte. Mas que, como observa Ralf Ruckus, pode resultar contraproducente a médio prazo.

O controle mais estrito e o regime autoritário, centrado no círculo íntimo de Xi Jinping, tornaram o regime mais inflexível. Será que ainda poderá gerir o mal-estar social combinando repressão, concessões e cooptação? Um autoritarismo severo dificulta a cooptação, e a desaceleração econômica e a crise podem reduzir a margem para concessões econômicas. No entanto, a repressão por si só raramente alcança uma solução e pode inclusive exacerbar o mal-estar social 8 .

As tensões internas e o bonapartismo são outro fator que empurra para escalar a rivalidade com os EUA. A disputa funciona como válvula de escape e serve ao PCCh para frear qualquer indício de questionamento interno e para canalizar os descontentamentos estimulando o nacionalismo.

Ainda que a profunda interdependência que até hoje existe entre os dois principais polos do sistema capitalista mundial atue como elemento de certo modo moderador do choque entre EUA e China, o fato é que operam razões de fundo que continuamente empurram a relação entre ambos para um terreno cada vez mais perigoso. A possibilidade de um confronto militar, que alguns anos atrás parecia ainda muito remota, surge cada vez mais como um cenário possível num futuro não muito distante.

Desde a América Latina, é importante debater claramente a natureza do enfrentamento entre China e EUA. Como argumentamos neste livro, o choque é uma disputa por quem definirá as condições da ordem global. A natureza capitalista –e imperialista– do sistema mundial não está em questão. Nosso continente não é alheio a essa rivalidade: tornou-se um dos terrenos onde ela se desdobra. A China avançou desde o início do milênio como um ator econômico muito importante para os países da América Latina. É o principal parceiro extrarregional em matéria comercial, tanto pelos commodities agrícolas e minerais que compra quanto pelos produtos manufaturados que exporta. Também adquiriu papel como investidora mediante o ingresso de suas empresas em diversas áreas das economias latino-americanas. Tornou-se um financiador destacado de obras de infraestrutura, outra via para que empresas chinesas ganhassem participação em negócios na região. Finalmente, seu papel como credora de Estados é muito relevante. Isso se concretizou com iniciativas como os swaps (trocas) de moedas, que perseguem dois objetivos: dar assistência financeira a países com contas externas deficitárias e expandir a presença internacional do renminbi, a moeda chinesa.

Essa presença da China na região é uma preocupação para os EUA, que não toleram essa incursão em seu considerado “quintal”. Desde o primeiro governo Trump em diante, o imperialismo norte-americano buscou recuperar a iniciativa e fortalecer os governos mais afins. Com Trump 2.0, a prioridade passou a ser garantir o fortalecimento dos governos expressamente alinhados com sua facção MAGA, como é o caso de Javier Milei. Na luta contra a opressão nacional por parte do imperialismo, consideramos importante advertir contra tentações “campistas” que podem levar a se posicionar junto à China apenas porque ela enfrenta os EUA 9 . Não nos parece prudente depositar expectativas excessivas no papel da China como apoio a qualquer busca de autonomia regional. A luta contra o imperialismo não encontrará a China em nosso “campo”, nem suas disputas com o imperialismo norte-americano e seus aliados deveriam nos levar ao “campo” da China.

Militarismo e mobilizações anti-imperialistas

Desde que publicamos este livro, surgiram dois focos de conflito bélico que, pela quantidade de atores envolvidos e pelo impacto internacional, representam um salto qualitativo em relação ao panorama anterior. Como apontamos no início, referimo-nos à invasão da Rússia à Ucrânia e à resposta de Israel aos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, que levou Israel a buscar a pulverização de Gaza, assim como aos ataques ao Iêmen, ao Líbano e ao Irã.

O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês) detecta uma tendência generalizada ao aumento do gasto militar. Mais de 100 países de todo o mundo aumentaram seus gastos militares em 2024. Mas são os países que mais gastam que lideraram esse aumento. O gasto militar como proporção do produto interno bruto (PIB) aumentou para 2,5% em 2024 10 . Uma mudança notável foi o aumento do gasto militar na UE. Em março de 2025, o parlamento alemão (Bundestag) aprovou um aumento sem limites no orçamento para a “preparação para a guerra”. Já em 2024, pela primeira vez desde a reunificação, a Alemanha tornou-se o maior investidor militar da Europa Ocidental. Com o retorno de Trump ao governo nos EUA, depois da experiência de desprezo pela OTAN durante seu primeiro mandato, acelerou-se o gasto militar das potências europeias para evitar uma possível deserção da proteção militar norte-americana.

A aceleração do caos sistêmico e a militarização andam de mãos dadas, e atualmente isso não é exceção. Diante dos estertores da ordem dominante, as potências decadentes e aquelas que aspiram sucedê-las utilizam o que há de mais moderno das forças produtivas para renovar seu arsenal de destruição militar.

Diante desses preparativos militares das velhas e novas potências que disputam a primazia no sistema imperialista, observamos a emergência da mobilização anti-imperialista da juventude e de setores da classe trabalhadora. A rejeição ao genocídio levado a cabo por Israel em Gaza expressou-se, desde 2023, e ainda mais no último ano, no surgimento de um ativismo de massas que, com diversa intensidade, se manifesta no Oriente Médio, na Europa e nos EUA, e tem expressões algo mais incipientes em outras regiões. Isso impulsionou iniciativas internacionalistas inovadoras para romper o isolamento de Gaza. Em alguns países, como a Itália, o movimento operário teve uma intervenção forte. A profundidade do fenômeno — que, nos países imperialistas, levou a choques dentro de instituições como as universidades, confrontando setores defensores do apoio imperialista ao sionismo — convida a comparações com os movimentos antiguerra da década de 1960.

Esses processos de questionamento ao imperialismo ocorrem em um contexto de maior luta de classes em todo o mundo, desmentindo a noção de que tudo se move à direita. Temos aí um ponto de apoio importante para aprofundar o desenvolvimento de uma força internacionalista revolucionária, que dispute a configuração que pode emergir deste caos sistêmico mundial. Para transformar a desordem mundial em uma oportunidade para que a classe trabalhadora possa disputar o poder aos capitalistas e forjar uma ordem sem exploradores nem explorados em todo o mundo.