Era uma reunião pedagógica já habitual, dessas com pautas quase nunca compartilhadas - tudo sempre de cima pra baixo. Os encontros caminham quase sempre ao redor das necessidades da coordenação e direção da escola, que raramente são compatíveis com as necessidades de professores e estudantes. Dessa vez, após alguns slides já esperados, vem uma inserção em vídeo de uma fala de Nego Bispo - Antonio Bispo dos Santos, sua assinatura completa. Nela, o intelectual traz uma combinação de reflexões sobre coincidências, encontros e desencontros, e sobre o movimento que faz com que pessoas estejam, subitamente, dividindo o mesmo espaço e tempo, o que ele se recusa a chamar de acaso.
A introdução “filosófica” foi base para que a direção da escola emendasse seu discurso. Em resumo, o objetivo era dizer que precisamos decidir se participamos ou não desse “movimento” de que Nego Bispo fala, e que nos colocou juntos. Que queixas salariais ou trabalhistas não fazem parte desse “movimento” e que tem orgulho em figurar entre uma das escolas que demitiu trabalhadores educadores durante o período de estabilidade docente. A fala fazia referência a outras queixas trabalhistas, como queixas de horas de reunião não pagas, e zombava da organização sindical de professores.
Foi assim, na boca da chefia, como recurso discursivo para atacar nossos direitos trabalhistas, que Nego Bispo reapareceu como assunto para mim, depois de semanas de debates em torno das colunas críticas de Douglas Barros e Vladimir Safatle. Na mesma semana em que tradição e cultura eram motor da incrível mobilização indígena em defesa do Rio Tapajós, cultura e tradição foram, mais uma vez, munição da oposição de setores patronais com a luta dos trabalhadores. Conceitos em aberta disputa, e que quando analisados na obra de Nego Bispo, se mostram bastante distantes da interpretação radical dos Tapajós de defesa da tradição.
Cosmofobia, antagonismo da passividade
O conceito de cosmofobia aparece em distintos momentos da obra de Nego Bispo. É um dos alicerces fundamentais para debater suas ideias a partir de um prisma da transformação do mundo, e de quais são, em sua visão, os problemas que estão colocados diante de nós.
Para Bispo, o mundo se divide entre cidade e vida orgânica, ou quilombola. A primeira, uma forma de vida sintética, urbanizada e interessante ao colonizador, enquanto a segunda é uma forma de vida baseada na natureza das relações animais e vegetais, das quais a sociabilidade humana é parte integral e constitutiva, e não separada. Faz sentido que essa ideia dialogue com angústias diversas que temos no presente. O alarme das mudanças climáticas, a visão grotesca de um futuro não muito distante de cidades submersas e formas de vida irreversivelmente extintas.
Na sua obra, Bispo, longe de oferecer um combate contra esse problema, coloca todos nós que vivemos vidas na cidade dentro de um mesmo balaio. Sem dizer explicitamente - o que aliás é um bom truque para dificultar a crítica - instala uma série de discussões morais da relação com o dinheiro, o lixo, o desperdício de alimentos, na qual se conclui que todos somos cosmofobicos. A cosmofobia, uma espécie de oposição aos pensamentos não monoteístas, atua como conceito para explicar tudo: guardar dinheiro, morar em uma casa ou em um apartamento, colocar piso de cerâmica na casa, trabalhar em troca de dinheiro…
A discussão que se apresenta crítica diante de uma vida em desequilíbrio com a natureza rapidamente se transforma em um cruel equalizador de classes antagônicas cuja responsabilidade diante desse desequibrilio é absolutamente desigual. Um burguês que passa seus dias lançando gases prejudiciais com seu jatinho e um trabalhador precário, desprovido de terra e moradia, que precisa trabalhar para comprar comida e subsistir com sua família, são, igualmente, cosmofobicos porque estão correndo atrás do dinheiro:
Enquanto a sociedade se faz com os iguais, a comunidade se faz com os diversos. Nós somos os diversais, os cosmológicos, os naturais, os orgânicos. Não somos humanistas, os humanistas são as pessoas que transformam a natureza em dinheiro, em carro do ano. Todos somos cosmos, menos os humanos. Eu não sou humano, sou quilombola. Sou lavrador, pescador, sou um ente do cosmos. Os humanos são os eurocristãos monoteístas. Eles têm medo do cosmos. A cosmofobia é a grande doença da humanidade.
O problema do conceito é que propõe uma análise do funcionamento do mundo na qual o capitalismo e a propriedade privada são problemas de escolha, de moral, dos indivíduos, como se fosse possível eleger viver de forma mais conectada com a natureza. Se você, que precisa vender sua força de trabalho todos os dias para sobreviver e acessar o básico a manutenção da vida, “escolhe” viver como um humanista monoteísta, não tem problema, desde que se respeite a fronteira entre você e a sociedade quilombola. Tudo vai ficar bem desde que uns não “atrapalhem” as escolhas dos outros:
Não se trata de um pensamento binário, mas de um pensamento fronteiriço. Nunca vamos atravessar para o lado do humanismo, mas também nunca vamos querer que o humanismo atravesse para o nosso lado. Também não queremos que ele deixe de existir, só queremos que haja respeito e diálogos de fronteira. A humanidade está aí, não vamos matar a humanidade. Mas como vamos nos relacionar com ela? Estabelecendo fronteiras. Pode ser que, no futuro, como a fronteira é um território movediço, elástico, a gente avance quando eles recuarem, ou pode ser que a gente recue quando eles avançarem, mas sem chegar ao limite. Nós pensamos sempre na circularidade, quebrando o monismo, a dualidade e o binarismo.
O humanismo nesse trecho atua como sinônimo da vida na cidade, sob a forma de uma vida do trabalho, do mundo das mercadorias. Vejam que a proposta, apesar de soar radical, é bastante passiva. Mudar a moral do indivíduo para que escolha uma vida politeísta quilombola ou para que aceite essa vida para o outro. Ou, diante das violências e barbáries da vida “humanista”, deixar ser. O eu livre desse mundo apenas o contempla e aceita que ele exista, sem buscar transformá-lo. É o oposto da proposta colocada por Marx, de que a filosofia deve transformar o mundo. Aqui, na “cosmogonia” de Bispo, cabe ao pensador respeitar a fronteira.
O problema da moralização do debate colocada por Bispo é muito simples: não se trata de escolhas, de transformar o pensamento para transformar a vida. Ignorar o dinheiro não se coloca como uma possibilidade individual para os milhões de quem o básico da subsistência foi arrancado. Para que esses milhões possam viver uma vida conectada consigo mesmo e dialética com a natureza - o que, aliás, é um profundo e antigo desejo dos marxistas - a escolha individual é insuficiente sem a organização coletiva e o total desrespeito às formas de vida propostas pelo sistema capitalista e pela burguesia. Precisamos romper fronteiras e impedir a existência da burguesia. E diferente de Bispo, me recuso a dividir com essa burguesia a responsabilidade pelo lixo, pelo desperdício, pelas casas pouco inteligentes e pela ruptura com a natureza. São eles, os proprietários dos meios de produção, que todos os dias reforçam e perpetuam essa cisão, e portanto, são eles que devem pagar com a justiça da luta de classes pela morte das espécies, o fim precoce das vidas de jovens e trabalhadores negros. É só do reconhecimento, por um lado, dos interesses de classe na forma de vida que temos, e por outro lado, da força da classe trabalhadora para atuar sobre as reações materiais, que surge a possibilidade revolucionária de mudar o mundo, e não simplesmente “respeitar a existência” de uma vida tão fantasmagórica e cruel com a vida na sociedade capitalista.
Por fim, antes de passarmos ao próximo ponto, vale mencionar que Bispo também reconhece uma certa naturalidade na diminuição das marcações da vida quilombola. “pode ser que a gente recue quando eles avançarem”, é o embelezamento das reações históricas da sociedade capitalista com o quilombo, que não é de avanços e retrocessos, mas de contínuos ataques e perda de territórios. A luta pra demarcação dos territórios indígenas se dá hoje diante de uma ofensiva reacionária contra os povos, que têm lutado de forma heróica mas se visualiza um processo árduo, que se opera na lógica de Bispo, tende a perder. A cosmofobia se materializa então como um antagonismo entre cidade e campo que afasta operários, indígenas e quilombolas, e tenta propor um acordo de paz com os senhores.
No ritmo atual, levariam mais de dois mil anos para demarcar os mais de 1700 pedidos de demarcação de territórios quilombolas que correm no INCRA. Hoje, esses territórios, desmarcados ou não, são ameaçados a bala e sangue pelo agronegócio. Em 2023, o Brasil registrou o maior número de conflitos no campo desde o início da série histórica em 1985, com mais de 2200 incidentes. Indígenas representam 34% das vítimas registradas, e quilombolas 15%. E, embora o número de vítimas mortais tenha diminuído comparando 2023 e 2022, o perfil das vítimas passou a ser majoritariamente de lideranças, demonstrando uma atuação mais organizada por parte do agronegócio, mirando as cabeças dos movimentos.
Esses dados ajudam a mostrar que, tanto para o proletário quanto para os povos do campo, participar do capitalismo não é uma escolha, é uma imposição da burguesia. Isso porque a existência de fronteiras é uma ilusão. Povos indígenas e quilombolas participam da sociabilidade capitalista da pior forma, como alvos da ganância capitalista que vê em seus territórios apenas a possibilidade de explorar terras ainda inexploradas, e não vão parar e “respeitar” a fronteira. Vão matar e perseguir, e só vão parar quando nos inspirarmos na força da luta indígena e quilombola e impor como grande maioria trabalhadora o direito à terra e a constituição de modos de vida alternativos. A tendência do capitalismo não é a coexistência, é a aniquilação, colonização e controle. Toda a história mostra que o direito autodeterminação dos povos só foi obtido através da luta revolucionária.
O horizonte da autogestão
Se a cosmofobia opera na teoria de Bispo como explicação para uma espécie de antagonismo entre campo e cidade, a autogestão aparece como o horizonte de expectativas. A chave está em como uma desemboca na outra. “A cosmofobia é a grande doença da humanidade”, e diante dela, seria preciso incorporar os valores morais que o “eurocristianismo colonial” condena:
E qual é a imunização que nos protege da cosmofobia? A contracolonização. Ou seja, o politeísmo, porque a cosmofobia é germinada dentro do monoteísmo. Se deixamos o monoteísmo e adentramos o politeísmo, nos imunizamos.
Nota-se que a princípio, a autogestão se manifesta como um tipo de performance do sujeito. A primeira gestão que Bispo propõe é na forma de ser, comportar-se, como gastar (ou não gastar) seu dinheiro, como lidar com as fezes de galinhas na própria casa, como viajar:
Quando viajo, não dou dinheiro para hotel e, ao invés de ir ao shopping, vou à feira, porque na feira vejo pessoas que se parecem comigo, que transpiram, que são orgânicas
Apesar de negar a política, Bispo em vários trechos de sua obra está propondo um tipo de relação com a vida que repete a lógica do autonomismo e de uma ética pós moderna, nas quais pela performance o sujeito se prova não dominado - por comportar-se de forma antagônica à moral da sociedade - e portanto livre. Assim, pela soma de performances livres, de comportamentos contra culturais, de processos educacionais e usos de linguagem diferentes, se construiria um coletivo de seres livres, autônomos.
O sucesso desse discurso em nosso tempo histórico certamente se relaciona com o tamanho da importância dada ao indivíduo diante dos valores neoliberais e empreendedores, nos quais o sujeito se faz independente da força do mundo externo, a vida alheia não importa e transformar-se é a resposta para tudo. Mais uma vez, o que aparenta radicalismo na forma - porque parte de negar valores conservadores como o cristianismo, a violência, a destruição do meio ambiente, etc - desemboca em uma perspectiva de transformação bastante conservadora, na qual se controla qual a crença, performance e até o vocabulário dos indivíduos:
Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus pandêmico e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento.
ou
de nossa geração avó da oralidade para a escrita, trouxemos algumas denominações que as pessoas na academia chamam de conceitos. A partir daí, seguimos na prática das denominações dos modos e das falas, para contrariar o colonialismo. É o que chamamos de guerra das denominações: o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las.
Não está dito, mas a margem para comportamentos excludentes é clara: fale desenvolvimento e será “eurocêntrico”; fale em conceito e será “academicista”. Enquanto se decide quais palavras devem ser usadas no lugar de outras palavras, decide-se que todo monoteísta está em guerra porque quis:
No mundo politeísta, ninguém disputa um deus, porque há muitos deuses e muitas deusas – tem para todo mundo. Como no mundo monoteísta só há um deus, é uma disputa permanente. O povo de Israel contra o povo da Palestina, por exemplo. Estão se matando na disputa por um deus.
Na ânsia de colocar a moral e a “autogestão” acima de tudo, chega-se ao ponto de ignorar o papel colonizador de Israel sobre o povo palestino, apenas porque esse último não compartilha da moral proposta pelo quilombo. Dois mais dois não é quatro. Ser “contra colonial” se prova, no pensamento de Bispo, coisas bem diferentes. Enquanto para nós, anticoloniais, é preciso somar-se ao lado das massas oprimidas de qualquer parte do mundo, membras de qualquer fé e de qualquer nação, em nome da luta contra as burguesias imperialistas (mesmo que essas massas vivam nos EUA, na cidade, e estejam economizando para comprar o carro do ano), para esse decolonial a régua do apoio se dá a partir de valores morais. É a gestão e performance de valores específicos ao que ele chama de autogestão, e é a ausência do compartilhamento desses valores o que ele chama de pessoas atrofiadas:
De modo análogo, temos pessoas atrofiadas: pessoas que não foram adestradas para servir ao trabalho, mas que também não conseguem ser malandras. Pessoas adestradas para que não tenham um imaginário, para que não consigam fazer sua autogestão. Pessoas que não aprenderam a fazer nada nem aprenderam a extrair do que está feito. Pessoas atrofiadas que perambulam sem saber aonde ir. Ou ainda, pessoas que foram adestradas e terminaram transformadas numa população trabalhadora flutuante, que passa uma temporada no Sul ou no Sudeste, em servidão salarial, e retorna.
Chega a ser redundante a forma como, repetidamente, Nego Bispo se refere a setores da classe trabalhadora de forma depreciativa, e, mais uma vez, como se o trabalho intermitente, precário, fosse uma escolha. Esse campo permanente de debate moral é uma marca de sua obra, e portanto, uma marca da estratégia de como encara a possibilidade de um novo mundo. Seria a partir dessa gestão de si - as escolhas morais, a performance - que o indivíduo caminharia para uma relação plena com a natureza. Comunidades pequenas, que se gestam através dos espaços cotidianos e através da cultura, inclusive respeitando seu direito a um “cabarezinho”:
Toda feira que se preze tem que ter também um cabarezinho, um espaço de boemia, de paquera, namoro e dança. As pessoas que frequentam os cabarés dançam muito bem; eles são o lugar onde se aprende a dançar e a paquerar, um lugar para viver afetos.
Esse mundo melhor seria um espelho ampliado da sociabilidade experimentada por ele na sua vida quilombola, com pouco ou nada a se extrair de reflexões como a emancipação das mulheres e o questionamento à mercantilização da sexualidade feminina - que devem cair dentro do balaio da cosmofobia por serem políticos, e por isso, “protagonistas da vida alheia”.
A crítica a Nego Bispo e a outros autores do seu campo filosófico, diferente do que se tentou fazer parecer ao longo dessas semanas, não significa a negação da cultura quilombola e das lutas identitárias. Nego Bispo não é, inclusive, um representante de uma população quilombola isolada, ou de uma cultura indígena em primeiro contato com o capitalismo, preservado do contato que permitiria fazer uma leitura mais completa da dinâmica social capitalista - e por exemplo perceber que as classes determinam relações diferentes com a vida material. Bispo é na verdade um teórico com vasta relação com a esquerda, que já militou inclusive na Tendência Marxista do PT, e que elegeu em seus combates orais - em vídeos, palestras, etc - que seu maior inimigo teórico é o marxismo. Não, meus caros. Não é o liberalismo, as reformas antioperárias, ou mesmo as distintas formas de teorias que se dedicam a atacar o direito de existência das cosmovisões tradicionais indígenas e quilombolas. Seu alvo foi o marxismo, contra o qual verbalizou em distintos momentos de sua trajetória em visitas às universidades e entrevistas. Compartilhando do mesmo adversário, Bispo é escolhido como discurso inaugurador da reunião da qual participei, na escola onde mais tempo é gasto para contornar o pagamento de direitos trabalhistas do que para combater casos de racismo e xenofobia vividos por trabalhadores e estudantes.
Ao longo desse artigo me preocupei em mostrar que são as perspectivas de transformação da realidade social - e não de colaboração, convivência e reforma do capitalismo - que tornam possível não só a defesa dos territórios já demarcados como também a ampliação e o direito à autodeterminação desses e outros povos, que hoje são ameaçados em sua existência pela sociedade capitalista em seus distintos governos. O bolsonarismo com arma na mão e organização de verdadeiras milícias no campo não dá pra ser derrotado com confluências e respeito às fronteiras. Agora, vemos o governo PT e Lula com acordos com Trump de privatização do Tapajós. Nesse embate, defendemos o ponto de vista da tradição dos Tapajós, que em nome de proteger o sagrado, assumem os métodos da luta de classes e impõem uma derrota histórica contra esse governo de ataques, mostrando a todos os trabalhadores de que forma é possível abraçar nossa cultura e tradições e fazendo de cada traço de nossas múltiplas identidades mais uma fortaleza da luta de classes.