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A vacilante recuperação do movimento operário britânico

Parte da edição: 06.07.2025

A seguir, apresentamos a tradução para o português do artigo de Joseph Choonara “The British labour movement’s halting recovery” (“A vacilante recuperação do movimento operário britânico”), publicado na edição número 178 da revista International Socialism, do Socialist Workers Party (SWP) do Reino Unido. Nele, o autor analisa os elementos de recomposição do movimento operário britânico que se manifestaram na onda de greves de 2022-2023. O artigo também inclui uma introdução de Choonara, escrita especialmente para a Ideas de Izquierda Argentina, em que ele atualiza o percurso posterior dessas lutas e a situação atual do movimento operário britânico. Com esta tradução, iniciamos um intercâmbio de artigos entre as publicações International Socialism e Ideas de Izquierda Argentina, que consideramos de interesse para nossxs respectivxs leitorxs.

Introdução: uma recuperação estagnada

Este breve artigo, “A vacilante recuperação do movimento operário britânico”, foi publicado originalmente como editorial na revista marxista trimestral International Socialism, em abril de 2023. Naquele momento, ainda estava em curso uma onda de greves na Grã-Bretanha. Embora modesta em termos históricos, essa retomada da ação sindical marcou uma ruptura com as três décadas anteriores de relativa inatividade, que remontavam ao fim dos anos 1980.

Perto do final do artigo, advertia-se que a onda de greves poderia recuar, principalmente devido ao conservadorismo da burocracia sindical. Infelizmente, foi isso o que ocorreu. Após a publicação do texto, consolidou-se a tendência de aceitação de acordos salariais abaixo da inflação, promovidos pelas direções sindicais — ainda que com alguma resistência por parte da base. Como apontei em um breve acompanhamento publicado em outubro do mesmo ano, cerca de 217.800 filiados votaram contra os acordos propostos por suas direções para encerrar as greves [^1]. Isso representou um patamar importante de oposição nas bases, mas ainda insuficiente para constituir um movimento organizado capaz de atuar de forma independente da burocracia sindical ou de forçar a continuidade dos conflitos.

Muitos dos conflitos nacionais pendentes — especialmente os protagonizados por maquinistas de trem e médicos residentes — foram resolvidos pelo novo governo trabalhista após as eleições gerais de 4 de julho de 2024. O primeiro-ministro Keir Starmer também se apressou em apresentar um projeto de lei sobre direitos trabalhistas, comemorado pelas lideranças sindicais. No entanto, poucos meses depois, especialistas em relações de trabalho sublinhavam as enormes limitações desse projeto, que classificaram como “promessas descumpridas e oportunidades perdidas. Seu conteúdo é fraco, comprometido ou simplesmente carece de substância e deixa os detalhes nas mãos dos ministros” [^2].

Àquela altura, também já era evidente que o Partido Trabalhista respondia à crescente crise econômica britânica com medidas de austeridade e uma retórica cada vez mais direitista, especialmente em temas como migração e outras questões políticas [^3].

Até agora, a resistência operária sob o novo governo trabalhista tem sido esporádica, com um nível relativamente baixo de greves. No entanto, surgiram conflitos importantes em nível local. Por exemplo, na cidade de Birmingham, foi deflagrada uma greve por tempo indeterminado dos trabalhadores da coleta de lixo, que enfrentaram uma prefeitura e um governo locais dirigidos pelo Partido Trabalhista. Em maio, um “megapiquete” composto por centenas de grevistas, com apoio da esquerda e do movimento sindical de todo o país, conseguiu-se bloquear o depósito de Lifford Lane, utilizado para furar a greve com o uso de fura-greves [^4]. Apesar do impulso gerado, a atitude cautelosa das lideranças sindicais — ansiosas por chegar a um acordo e temerosas de que um tribunal proíba o bloqueio dos caminhões de lixo conduzidos por fura-greves — ameaça desperdiçar a força acumulada graças a esse piquete massivo.

Bases e burocracia

O clima político volátil, a agitação econômica desencadeada por Donald Trump e as contínuas pressões sobre as condições de vida da classe trabalhadora tornam pouco provável que tenhamos de esperar mais três décadas para ver uma retomada das greves nos níveis de 2022-2023. Uma questão-chave é se a próxima onda partirá de um patamar político mais elevado que a anterior. Isso dependerá, entre outras coisas, do grau em que as lições acumuladas da luta tenham se enraizado na classe trabalhadora e em suas organizações.

Será crucial uma compreensão mais profunda do papel desempenhado pela burocracia sindical em relação às bases. O artigo a seguir, traduzido para esta edição, reafirma esse argumento — central desde a década de 1960 na abordagem do grupo International Socialists (IS) — e, mais tarde, do Socialist Workers Party (SWP) — em relação aos sindicatos. Essa teoria inscreve-se em uma longa tradição histórica, que inclui figuras como Rosa Luxemburg e práticas como o Comitê de Trabalhadores de Clyde, em Glasgow, durante a Primeira Guerra Mundial [^5]. No entanto, sua recuperação, desenvolvimento e aplicação como guia prático por parte do IS e do SWP constituem uma contribuição substancial à teoria marxista. Essa perspectiva continua sendo defendida por ativistas e autores vinculados a essa tradição [^6].

A essência dessa teoria é que o relativo conservadorismo da burocracia sindical — ou seja, os funcionários remunerados do próprio sindicato — baseia-se em fatores sociológicos e políticos que estruturam seu papel. Essa burocracia não apenas é bem paga e separada do conjunto dos trabalhadores, como também atua como um aparato permanente cuja função central é negociar e pactuar dentro do marco do capitalismo. Sua eficácia é medida, precisamente, por sua capacidade de gerir esses compromissos. Isso não significa que os burocratas jamais impulsionem ações sindicais, mas que o fazem dentro de limites estreitos, como instrumento de pressão moderada para reforçar seu papel na negociação.

Embora a orientação política — seja ela de esquerda ou de direita — das lideranças sindicais não seja irrelevante, a principal tarefa da esquerda revolucionária não é simplesmente substituí-las, mas sim fortalecer correntes de base capazes de cobrá-las ou atuar, quando necessário, de forma autônoma — por exemplo, por meio de greves não oficiais.

Infelizmente, as bases sindicais nem sempre — nem mesmo na maioria dos casos — constituem uma massa de trabalhadores militantes dispostos e preparados para confrontar a burocracia. As condições para um autêntico movimento de base costumam surgir apenas em períodos de intensa luta de classes, como ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, no entre-guerras ou no início dos anos 1970 na Grã-Bretanha.

Entretanto, essa teoria aponta para a fissura fundamental no sindicalismo tradicional. Não se trata simplesmente de se opor às lideranças, mas de compreender que o impulso revolucionário dentro dos sindicatos não pode se limitar a mudar a direção, e sim deve se orientar ao desenvolvimento de uma base com independência política própria.

Os socialistas revolucionários não podem inventar um movimento de base em períodos nos quais a baixa intensidade da luta priva a classe trabalhadora de experiências e de níveis significativos de militância. No entanto, mesmo em contextos de luta limitada, podem trabalhar para construir, ainda que de forma embrionária, estruturas organizativas de base. E, aproveitando as greves oficiais impulsionadas pela burocracia, têm a oportunidade de explicar seus limites e o papel de quem as dirige. A onda de greves de 2022-2023 ofereceu certo espaço para avançar nesse sentido; esperamos que, num futuro próximo, possamos ir além.

A vacilante recuperação do movimento operário britânico

No outono de 1979, Tony Cliff, em um artigo publicado na International Socialism, analisou o panorama da luta operária na Grã-Bretanha. Ele concluiu que, na segunda metade da década de 1970, o equilíbrio de forças havia se inclinado a favor da classe dominante [^7]. Uma notável série de batalhas no início dos anos 1970 marcou o ponto mais alto da luta de classes no pós-guerra. O artigo de Cliff deu início a um debate que culminou na aceitação, dentro do Socialist Workers Party (SWP), do que ficou conhecido como a tese do “refluxo”.

O refluxo foi resultado de múltiplos fatores. A social-democracia demonstrou sua capacidade de absorver a militância dos trabalhadores e redirecioná-la para canais seguros, tanto por meio do Partido Trabalhista, no poder desde 1974, quanto por meio dos líderes sindicais “de esquerda” que haviam ganhado destaque [^8]. Contaram com a ajuda do Partido Comunista, cujos militantes passaram a se orientar cada vez mais para o trabalho junto às lideranças sindicais de esquerda, em vez de se concentrarem no ativismo de base. Paralelamente, houve esforços para atrair delegados sindicais e coordenadores de alto escalão para dentro das estruturas gerenciais, afastando-os da militância nas fábricas. Por fim, ocorreu uma crescente desmoralização devido à crise econômica e ao enfraquecimento da solidariedade, refletida na tendência crescente de trabalhadores irem ao trabalho mesmo quando seus colegas estavam em greve. O período a partir de 1979 intensificou essa mudança; a ofensiva patronal se aprofundou, e um regime de políticas neoliberais foi consolidado sob a recém-eleita primeira-ministra Margaret Thatcher. A derrota da greve dos mineiros de 1984–1985 eliminou qualquer possibilidade de mudança na sorte da classe trabalhadora por muitos anos [^9].

Por que essa história é importante? Porque, após muitos falsos recomeços, há hoje indícios de um ressurgimento da militância operária. A análise a seguir oferece uma descrição necessariamente provisória desse renascimento.

Uma nova situação

A Figura 1 mostra os dados oficiais mensais de greves [^10]. O recente aumento representa uma ruptura com grande parte das três últimas décadas. Nesse período, apenas em uma ocasião — em novembro de 2011 — o número mensal de greves superou o de dezembro de 2022. No entanto, a grande greve do setor público por pensões em novembro de 2011 durou apenas um dia, antes de os líderes sindicais encerrarem a mobilização. Já em janeiro de 2023, o total de dias de greve nos seis meses anteriores havia alcançado 2,5 milhões — um número que não se via desde 1989. Estamos diante de um padrão de ação muito mais sustentado do que os picos anteriores.

Figura 1: Dias úteis “perdidos” (em milhares) devido a ações sindicais, de janeiro de 1980 a janeiro de 2023.

O que provocou essa nova situação? Em primeiro lugar, as reivindicações de longo prazo dos trabalhadores. No período pós-guerra até 2007 — com exceção de um breve intervalo de dois anos durante a crise inflacionária de 1976–77 — a “remuneração real” dos trabalhadores aumentou a cada ano [^11]. O aumento anual foi, em média, de 2,6%, e a remuneração real em 2007 era, em média, cinco vezes maior do que em 1945. Desde a crise econômica de 2008, esse progresso foi interrompido. A partir de então, os salários médios caíram, recuperando-se apenas levemente no período anterior à pandemia [^12]. Os dados sobre a renda das famílias refletem a mesma tendência. Se a tendência de 1977–2007 tivesse continuado, uma família média teria hoje 52% a mais de renda (cerca de 20 mil libras esterlinas) [^13].

A esse estancamento nos rendimentos seguiu-se a própria pandemia, na qual muitos trabalhadores fizeram enormes sacrifícios. Muitos dos setores que recentemente protagonizaram greves — como os profissionais da saúde e os motoristas de ônibus — foram especialmente afetados, antes de receberem aumentos salariais miseráveis, em vez de recompensas proporcionais a seus esforços.

À medida que as condições de confinamento foram afrouxadas, a inflação se consolidou, impondo novo golpe aos salários. No setor privado, a escassez de mão de obra permitiu que alguns grupos compensassem parcialmente a perda de poder de compra, normalmente sem necessidade de greve. No setor público, amplamente coberto por acordos coletivos anuais, a queda salarial foi mais acentuada. É também nesses âmbitos que a filiação sindical tem se mostrado mais resistente: cerca de 13% dos trabalhadores do setor privado são sindicalizados, contra 50% no setor público [^14]. O ressurgimento da atividade grevista concentrou-se no setor público, junto com organizações “privadas” que mantêm negociações coletivas nacionais ou que operam em um marco regulado pelo Estado (por exemplo, Royal Mail, a rede ferroviária e as universidades).

A onda de ações começou em junho de 2022, com greves do sindicato ferroviário RMT (Sindicato Nacional dos Trabalhadores Ferroviários, Marítimos e dos Transportes) em 13 empresas ferroviárias diferentes (número que aumentou para 14 a partir de julho), bem como na Rede Ferroviária e no metrô de Londres. Às greves do RMT se somaram posteriormente ações de outros dois sindicatos ferroviários, o ASLEF (sindicato dos maquinistas) e o TSSA (Associação dos Funcionários Assalariados dos Transportes). O sindicato dos trabalhadores da comunicação também iniciou greves na Royal Mail e na BT Openreach naquele mesmo mês. No outono, o pessoal do ensino superior do sindicato University and College Union (UCU) iniciou suas ações, assim como o principal sindicato dos professores escoceses, o Educational Institute of Scotland (EIS). Os trabalhadores do funcionalismo público do Sindicato dos Serviços Públicos e Comerciais (PCS) entraram em greve a partir de dezembro de 2022. No final de 2022, o Real Colégio de Enfermeiras (RCN) realizou a primeira greve nacional em seus 106 anos de história, junto com os trabalhadores de ambulâncias dos sindicatos GMB, Unison e Unite, em vários consórcios do Serviço Nacional de Saúde (NHS). Em janeiro, o Sindicato Nacional da Educação (NEU) anunciou que havia vencido uma votação para entrar em greve nas escolas da Inglaterra e do País de Gales; os médicos residentes da Associação Médica Britânica (BMA), na Inglaterra, fizeram o mesmo em fevereiro. Naquele momento, mais de um milhão de trabalhadores tinham mandato para entrar em greve. Como reflexo do forte sentimento entre os trabalhadores, cada uma dessas votações superou as rígidas restrições legais introduzidas em 2016, que só permitem a greve se a participação for superior a 50%.

O problema da burocracia

Em épocas anteriores, especialmente aquelas associadas aos maiores avanços conquistados pelos trabalhadores, a luta costumava se desenvolver fora do marco das ações sindicais oficiais. Como escreve Tony Cliff:

“Entre as duas guerras e depois da Segunda Guerra Mundial, os principais sindicatos eram dirigidos por líderes de direita... No entanto, o fato de colaborarem com os patrões e o Estado não os levava a entrar em conflito real com a base na maioria dos casos... Geralmente, a direção recuava diante da pressão de uma greve de curta duração, ou seja, antes que a burocracia sindical conseguisse intervir e disciplinar os trabalhadores... Em muitos casos, um elemento central da tática dos militantes era vencer a greve antes que a direção sindical ficasse sabendo” [^15].

Além de indicar a importância histórica da ação não oficial, esse trecho também aponta a principal linha divisória dentro dos sindicatos: a que existe entre os membros da base e a burocracia sindical.

Quando há estabilidade suficiente para isso, os sindicatos tendem a desenvolver uma burocracia que se localiza fora do local de trabalho [^16]. Essa burocracia é composta por líderes sindicais e por funcionários não eleitos que operam sob sua direção. A função social dessa burocracia é negociar as condições sob as quais os membros do sindicato são empregados e explorados. Isso envolve dar voz às reclamações dos membros, mas também canalizá-las para estruturas formais de negociação (ou criar essas estruturas, caso ainda não existam). Assim, a burocracia atua como uma força conservadora. Os funcionários consideram que “a negociação, o compromisso e a reconciliação entre o capital e o trabalho são a própria essência do sindicalismo. A luta aparece como uma perturbação do processo de negociação, um incômodo e um transtorno que pode ameaçar os fundos acumulados do sindicato” [^17]. Além disso, por estarem fora do local de trabalho, os dirigentes sindicais não estão diretamente sujeitos à pressão dos ataques patronais nem à contrapressão da indignação da base. O fato de os trabalhadores vencerem ou perderem batalhas sobre demissões, salários ou condições de trabalho tem pouco impacto material direto na burocracia em si — a menos que se chegue ao ponto em que a própria viabilidade do sindicato, e portanto dos cargos remunerados, esteja ameaçada.

Essa análise é válida tanto para os membros da burocracia sindical oriundos da direita quanto da esquerda. Essas diferenças têm certa importância. A eleição de dirigentes sindicais de esquerda, como Sharon Graham, do sindicato Unite — que propõe uma ação sindical mais intensa —, e Mick Lynch, do RMT — que expressa uma política de classe básica em suas entrevistas na mídia —, pode aumentar a confiança dos membros do sindicato. Contudo, em última instância, a linha divisória entre os trabalhadores de base e a burocracia sindical é mais importante. Como sugere a citação anterior de Cliff, nos períodos entre guerras e no pós-guerra, os trabalhadores conseguiram grandes conquistas através da ação independente da base, mesmo sob a liderança de dirigentes de direita. No entanto, sofreram derrotas significativas no final da década de 1970 e durante a greve dos mineiros de 1984-1985, sob lideranças bem mais à esquerda.

Dizer que a burocracia é uma força conservadora não significa afirmar que os sindicatos sejam compostos por uma massa furiosa de trabalhadores reprimidos por uma fina camada de dirigentes. No entanto, significa sim que, quando os trabalhadores da base entram em ação, a tensão com a burocracia tende a crescer. Nesse contexto, a burocracia costuma se apoiar nos membros mais passivos do sindicato. Essa é uma das razões pelas quais os dirigentes preferem pesquisas eletrônicas ou votações por correio, que dão o mesmo peso aos membros que cruzam os piquetes quanto àqueles que participam ativamente das greves. Por outro lado, os militantes de base costumam preferir votações feitas nos piquetes, em assembleias de massa e em comitês de greve.

Em períodos de luta sustentada, a tensão entre a base e a burocracia pode levar ao desenvolvimento de organizações de base. No melhor dos casos, essas organizações podem pressionar a burocracia sindical e agir de forma independente, por meio de ações não oficiais. Em 1915, isso ficou bem expresso no primeiro panfleto publicado por uma dessas organizações, o Comitê de Trabalhadores de Clyde:

“Apoiaremos os dirigentes sindicais sempre que representarem adequadamente os trabalhadores, mas agiremos de forma independente tão logo deixem de representá-los corretamente. Por sermos compostos por delegados de todas as oficinas e não estarmos sujeitos a regras legais ultrapassadas, afirmamos representar os verdadeiros sentimentos dos trabalhadores. Podemos agir imediatamente de acordo com as circunstâncias do caso e os desejos da base” [^18].

Na década de 1920 e nas três décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, quando esse tipo de organização floresceu, fazia sentido que os socialistas revolucionários adotassem uma estratégia de base. Para o SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores) e seus precursores, isso significava orientar-se para as redes de delegados sindicais que normalmente lideravam os conflitos dos anos 1960 e início dos anos 1970 [^19]. Isso implicava tentar superar a fragmentação da organização nos locais de trabalho por meio da criação de um movimento nacional de base, em paralelo com a construção de uma organização socialista revolucionária nesses locais. O SWP teve algum sucesso na aplicação dessa estratégia no início da década de 1970, mas esse sucesso foi efêmero e culminou no refluxo do movimento operário [^20].

O caráter da ação

Para compreender o caráter das greves atuais, é necessário analisar o impacto que o refluxo das últimas quatro décadas teve sobre o movimento sindical.

A força da burocracia sindical é inversamente proporcional à confiança da classe trabalhadora em si mesma. Ao enfraquecer o impulso para a atividade de base, as derrotas podem se autoalimentar. As greves tendem a se tornar eventos altamente orquestrados, limitados à ação oficial dentro de um marco legal consideravelmente restrito. De fato, as formalidades legais podem reforçar ainda mais o controle dos burocratas, ao concentrarem o debate em procedimentos de votação, códigos de conduta para piquetes, etc.

Hoje em dia, o número de trabalhadores com experiência direta — ou mesmo lembranças indiretas — de atividade de base independente é insignificante. Um trabalhador que tivesse 20 anos na época das grandes lutas operárias de 1972 teria hoje mais de 70. Muitos dos antigos bastiões dessa atividade perderam peso dentro da classe trabalhadora. Em seu artigo de 1979, Cliff identificou “os estaleiros, a mineração, os portos e a fabricação de veículos automotores” como locais-chave da luta de classes nos anos 1960 e início dos anos 1970 [^21]. Nas duas décadas seguintes a 1975, o emprego na indústria manufatureira foi reduzido em mais de um terço, e na mineração e extração de pedras em mais de dois terços. O emprego nos portos sofreu um colapso semelhante. Isso não significa que os trabalhadores remanescentes nessas áreas sejam impotentes: grupos compactos nessas indústrias podem ter um impacto significativo, como foi o caso das recentes greves portuárias, que comentarei mais adiante. No entanto, as áreas de trabalho que mais cresceram — especialmente o setor público e as indústrias de serviços — não têm uma forte tradição de organização de base e ainda não passaram por lutas suficientes para desenvolvê-la [^22].

Há alguns contraexemplos. Por exemplo, na década de 1990 e início dos anos 2000, uma série de lutas nos Correios (Royal Mail) [^23] foi liderada por trabalhadores de base com a cooperação de setores da esquerda da burocracia sindical. No entanto, essa organização foi deixada definhar e, quando um conflito nacional se desenvolveu em 2007, os dirigentes de esquerda já haviam sido cooptados para os escalões superiores da máquina sindical. A greve terminou com um frágil compromisso negociado pela burocracia [^24]. Além disso, a análise anterior não exclui a possibilidade de ações explosivas e não oficiais. O longo declínio da sindicalização, especialmente no setor privado, e o enfraquecimento da influência das instituições da social-democracia sobre a classe trabalhadora tornam possível que trabalhadores fora do movimento sindical tradicional entrem subitamente em ação. Foi o que aconteceu na Amazon, onde greves espontâneas e não oficiais dos trabalhadores dos centros de distribuição no outono passado contribuíram para impulsionar o desenvolvimento da organização sindical [^25]. Também há ocasiões em que as relações entre sindicatos e empregadores se tornam tão cordiais que os trabalhadores recorrem a ações não oficiais, como ocorreu no ano passado nas plataformas de petróleo e gás do Mar do Norte [^26].

No entanto, de forma geral, a atual onda de greves assume a forma de greves burocráticas em massa, muitas vezes de apenas um dia, ocasionalmente alguns dias a mais, e normalmente com grandes intervalos entre elas. Esse caráter episódico permite que os empregadores resistam à ação e limita a capacidade dos membros de base de tomar iniciativas e desenvolver sua própria organização.

Por essas razões, militantes sindicais e organizações como o SWP têm defendido a intensificação das greves. Alguns líderes sindicais aceitaram o argumento em favor de um tipo de intensificação: aumentar a coordenação entre sindicatos. Em duas ocasiões, em 1º de fevereiro e 15 de março, mais de meio milhão de trabalhadores entraram em greve, com grandes protestos intersindicais em muitas cidades. Sem dúvida, isso representou um avanço em relação ao corporativismo do Royal College of Nursing (RCN), cuja posição parecia ser a de que o Serviço Nacional de Saúde (NHS) seria um “caso especial”, com simpatia pública suficiente para garantir um acordo salarial melhor para as enfermeiras do que para outros trabalhadores.

Os líderes sindicais têm se mostrado menos receptivos à segunda forma de escalada, mais importante: passar a uma ação prolongada ou até mesmo indefinida. A ameaça de fechar por tempo indeterminado, ou ao menos por várias semanas, os transportes ferroviários, os serviços não urgentes do NHS, as escolas ou universidades, colocaria à prova a determinação dos empregadores e do governo de maneira muito mais severa.

A eficácia desse tipo de ação é demonstrada por alguns conflitos localizados que obtiveram avanços. Em Liverpool, 580 estivadores em greve, filiados ao sindicato Unite, conseguiram em novembro aumentos salariais entre 14,3% e 18,5%, além de evitar demissões forçadas. Isso aconteceu após os trabalhadores rejeitarem uma proposta de 7% de aumento e realizarem cinco semanas de greve, em três blocos. No mesmo mês, 250 motoristas de ônibus da Stagecoach em Hull, também filiados ao Unite, conquistaram aumentos salariais de cerca de 20% após quatro semanas de greve contínua. Na Arriva North West, motoristas de ônibus filiados aos sindicatos Unite e GMB anunciaram uma greve por tempo indeterminado, que durou quatro semanas, rejeitando uma proposta de aumento de 9,6%. Novamente, foi possível obter um aumento salarial acima da inflação, mas desta vez os dirigentes do Unite suspenderam a greve sem consultar os filiados. Com o fim da greve, os trabalhadores acabaram aceitando um acordo de 11,1%.

Em um dos focos de ação sindical mais surpreendentes, cerca de 2.000 advogados criminalistas da Criminal Bar Association, que iniciaram greves em junho, passaram a uma greve total por tempo indeterminado em 5 de setembro. No início de outubro, votaram a favor de aceitar um acordo que aumentaria seus honorários em 15% — muito abaixo dos 25% que haviam exigido para reverter a longa queda de seus rendimentos. Os 43% que votaram contra estavam certos ao acreditar que era possível conquistar mais.

A burocracia assume o controle

Em vez de tentar generalizar os melhores exemplos de escalada, a burocracia sindical tem buscado manter as greves dentro de limites estritos e, cada vez mais, negociar acordos para encerrá-las completamente. Isso não impede que novos grupos se somem às ações. Por exemplo, esperava-se que centenas de milhares de sindicalizados da administração local votassem na primavera. No entanto, em fevereiro e março tornou-se evidente uma tendência crescente de retirada.

Inicialmente, a burocracia tinha uma margem de manobra limitada. O governo estava decidido a manter os aumentos salariais de 2023–2024 abaixo de 5% e se recusava a revisar os aumentos de 2022–2023 (que também estavam em torno de 5%) [^27]. Com uma inflação superior a 10% pelo índice de preços ao consumidor desde a primavera de 2022, isso representava uma redução salarial significativa. No entanto, no início de 2023, o primeiro-ministro Rishi Sunak e o ministro das Finanças Jeremy Hunt começaram a reconhecer a magnitude e o alcance das ações dos trabalhadores — que também contavam com um apoio público considerável — e viram nos líderes sindicais interlocutores ansiosos por negociar.

O grau exato de aquiescência variava. Pat Cullen, secretária-geral do RCN, cujo pedido salarial era de 19%, instou o secretário de Saúde, Steve Barclay, a “sentar-se à mesa e chegar a um acordo” [^28]. Em meados de março, os sindicatos da saúde, incluindo Unison, RCN e GMB, recomendaram um acordo que previa um pagamento único de 2% para 2022-2023 (além do aumento salarial de 4% já concedido para aquele ano) e um aumento de 5% para 2023-2024. Além disso, os trabalhadores receberiam um bônus único de 4% como “bônus de recuperação da COVID”. Embora o Unite não tenha recomendado o acordo, suspendeu a mobilização enquanto seus membros votavam sobre ele [^29]. As propostas desencadearam uma campanha intersindical entre trabalhadores de base do NHS para rejeitar o acordo e retomar as greves, demonstrando como formas elementares de organização de base podem ser criadas em oposição à burocracia [^30].

Os médicos residentes da British Medical Association (BMA) realizaram três dias de greve em hospitais em março. Uma vez que outros sindicatos da saúde apresentaram ofertas aos seus membros, pressionou-se a liderança da BMA para iniciar negociações, e estes escreveram a Barclay em 17 de março para começar o processo. No entanto, nesse caso, as negociações fracassaram quase imediatamente, levando a BMA a anunciar uma greve de quatro dias em abril. Os médicos residentes parecem estar confiantes devido ao seu papel essencial nos hospitais e à dificuldade de substituí-los, o que significa que poderiam conseguir um aumento salarial significativamente maior.

Após 18 dias de greve na Royal Mail em 2022, o sindicato Communication Workers Union (CWU) concordou, em janeiro, em se reunir com a empresa para manter “conversas intensivas” e, em fevereiro, voltou a suspender as greves após uma ação judicial. Como a Royal Mail demitiu ou suspendeu mais de 200 representantes e o CWU obteve 96% de votos favoráveis à continuidade das ações em uma nova votação, o sindicato e o empregador emitiram uma “declaração conjunta” anunciando mais negociações [^31]. No momento da redação deste relatório, nenhuma greve havia sido realizada em 2023.

Na BT [^32], após nove dias de mobilizações em 2022, a liderança do CWU recomendou um acordo para encerrar o conflito, que resultou em um aumento salarial fixo de 1.500 libras entre janeiro e setembro de 2023, além das 1.500 libras impostas em abril do ano anterior. Isso representa uma redução salarial real significativa para a maioria.

No setor ferroviário, o sindicato TSSA (Transport Salaried Staffs’ Association) conseguiu, em fevereiro, um acordo para encerrar seu conflito, com um aumento salarial de 5% em 2022-2023 e de 4% em 2023-2024. Esse acordo não incluía compromissos quanto ao fechamento de bilheteiras, uma das principais preocupações dos ferroviários. O RMT também suspendeu a greve prevista para março na Network Rail, que emprega operadores de sinal e pessoal de manutenção. Os membros votaram a favor de um acordo semelhante ao obtido pelo TSSA, mas com aumentos salariais ligeiramente maiores para os trabalhadores com salários mais baixos. Em seguida, as greves em curso em algumas empresas ferroviárias foram suspensas, com os dirigentes afirmando que estavam avançando em direção a um acordo.

Tendo inicialmente convocado apenas algumas seções em 2022, o sindicato dos trabalhadores públicos PCS (Public and Commercial Services Union) só mobilizou seus 100.000 filiados por meio de uma votação eletrônica em 124 departamentos do governo no dia 1º de fevereiro, três meses após o início do conflito. Após realizar com sucesso uma nova votação em departamentos como o de Receita e Alfândega, responsável pela arrecadação de impostos, outros 33.000 trabalhadores se juntaram à mobilização em 15 de março. No momento da redação deste artigo, o PCS se encontrava em uma situação incomum de não ter recebido nenhuma oferta, mas, como outros sindicatos, a escalada da mobilização foi dolorosamente lenta.

No sistema escolar, os dirigentes do EIS (Educational Institute of Scotland), principal sindicato dos professores da Escócia, recomendaram um acordo de 7% para 2022-2023 e de 5% para 2023-2024, com um adicional de 2% em janeiro de 2024. Um membro do executivo do EIS observou: “Ainda está muito abaixo da inflação e da nossa reivindicação de 10% para um ano. Não é o que deveríamos ter conseguido, mas a burocracia bloqueou. Eles não queriam continuar” [^33]. Na Inglaterra, o NEU (National Education Union) convocou seus membros para quatro dias de greve no início de 2023, que combinaram paralisações nacionais e regionais, acompanhadas de grandes manifestações. Isso ajudou o sindicato a recrutar 50.000 novos membros. Kevin Courtney, um dos secretários-gerais adjuntos do NEU, se opôs inicialmente à tendência predominante entre os líderes sindicais, argumentando que o fim das greves não deveria ser uma condição prévia para as negociações com o governo. No entanto, após o fim das greves iniciais, o NEU iniciou negociações e declarou um “período de calma” de duas semanas [^34]. Isso ocorreu após a direção executiva do NEU suspender as greves no País de Gales em março, apresentando aos filiados, sem nenhuma recomendação, uma oferta de 1,5% adicional em 2022-2023 (além dos 5% já pagos e 1,5% não incorporados permanentemente ao salário base) e 5% para 2023-2024.

Enquanto os demais sindicatos mencionados ao menos chegaram a realizar greves, o Sindicato dos Bombeiros nunca foi tão longe. Em março, seus membros aceitaram um acordo de 7% para 2022-2023, com efeito retroativo a julho, e 5% para 2023-2024, conforme recomendação da sua direção executiva.

Essas concessões estabeleceram uma nova norma: acordos de dois anos, com um pequeno aumento — muitas vezes retroativo — para 2022-23 e cerca de 5% para 2023-24, representando uma significativa redução salarial real e muito aquém do que a maioria dos sindicatos havia reivindicado.

Outro conflito que vale a pena examinar em detalhe é o dos professores e funcionários universitários do sindicato UCU (University and College Union). À medida que as universidades passaram a ser geridas segundo critérios neoliberais e com fins lucrativos, o UCU foi forçado a empreender sucessivas ações sindicais. Como resultado, as seções do UCU acumularam, nos últimos anos, mais experiência de ação sindical do que qualquer outro sindicato da Grã-Bretanha. As seções locais, com uma média de cerca de 500 filiados, podem ter uma vida interna muito ativa, e as greves muitas vezes se caracterizam por um alto nível de participação nos piquetes. Isso contribuiu para criar redes embrionárias de ativistas de base, por vezes vinculadas à ala esquerda do UCU ou ao Movimento de Solidariedade do UCU [^35].

A relativa confiança dos ativistas permitiu que desafiassem duas tentativas da direção sindical de impor acordos impopulares nos últimos anos. A primeira, em 2018, ocorreu no contexto de uma série de greves contra o plano de pensões USS [^36], que cobre as universidades mais antigas “anteriores a 1992” (criadas antes das reformas universitárias daquele ano). A então secretária-geral do sindicato, Sally Hunt, incentivou os membros a apoiarem uma proposta conjunta entre o UCU e os empregadores que suspenderia as greves e faria concessões significativas quanto ao plano. Para piorar, a proposta exigia que os membros do sindicato repusessem as aulas perdidas durante os dias de greve. O resultado foi uma explosão de indignação: a hashtag #nocapitulation (“sem rendição”) começou a ser tendência no Twitter quando centenas de membros em greve se reuniram em frente à sede do sindicato enquanto o comitê executivo se reunia. Essa rebelião obrigou a direção a recuar, algo raro durante o longo período de refluxo da ação sindical.

As atuais greves do UCU, que envolvem tanto instituições anteriores a 1992 quanto posteriores, são lideradas pela sucessora de Hunt, Jo Grady. Grady foi eleita em 2019, após se destacar nas greves das pensões e como crítica aberta da liderança de Hunt. Após obter mandato para atuar em todo o setor universitário em outubro de 2022, Grady, juntamente com outros dirigentes do sindicato, entrou repetidamente em conflito com os ativistas. Isso resultou no enfraquecimento de órgãos eleitos do sindicato, como o Comitê de Educação Superior (HEC), composto por membros não remunerados e eleitos, encarregados de gerenciar o conflito e onde a esquerda tem presença significativa. Votações eletrônicas com perguntas tendenciosas e comunicações enganosas pelos canais oficiais do sindicato tornaram-se comuns.

Há três episódios que merecem atenção especial. Em primeiro lugar, em janeiro, Grady conseguiu mobilizar pressão sobre o HEC para que este recuasse de uma votação anterior a favor de uma greve por tempo indeterminado, utilizando uma votação eletrônica dos membros, a publicação de uma estratégia sindical alternativa e uma reunião de delegados das seções [^37]. A ala esquerda do HEC conseguiu aprovar uma votação por 18 dias de greve ao longo de dois meses, mas perdeu-se a oportunidade de romper com o padrão de ações episódicas.

Em segundo lugar, em meados de fevereiro, a secretária-geral “suspendeu” as greves, sem consultar os órgãos sindicais como o HEC ou o grupo de negociadores eleitos, anunciando uma “suspensão do conflito por duas semanas” e buscando apoio retroativo por meio de uma votação eletrônica [^38].

Em terceiro lugar, em meados de março, Grady tentou suspender os três últimos dias da greve programada e consultar os membros sobre um acordo. O acordo incluía uma proposta de aumento de 5% para 2023–2024 para a maioria dos membros do UCU (subindo para 8% para aqueles mais próximos da base da escala salarial), parte do qual seria retroativo a fevereiro de 2023. Impulsionados por Grady, os membros haviam votado algumas semanas antes, por esmagadora maioria, em uma votação eletrônica, para rejeitar esse acordo salarial. Agora, para "adoçar a pílula", foi prometido aos membros avanços na reversão dos cortes no plano de pensões USS. No entanto, isso ocorreu sem compromissos suficientes que garantissem as mudanças necessárias, e não teria nenhum efeito sobre os funcionários da maioria das universidades “pós-92”, que estão fora do plano. Também foram propostos vagos “termos de referência” para futuras negociações sobre questões como precariedade no trabalho, desigualdades salariais entre homens e mulheres e sobrecarga de trabalho. Isso gerou grande indignação entre muitos dos ativistas que estavam sustentando a greve, o que se refletiu no HEC. A ala esquerda impediu que o acordo fosse submetido à votação e manteve os três últimos dias de greve [^39].

Algumas lições
Ainda existe uma grande distância entre a situação atual e os momentos de pico da atividade autônoma da classe trabalhadora no passado. Serão necessários níveis muito mais altos e sustentados de atividade para construir uma organização de base, reconstruir a confiança da classe trabalhadora e lançar as bases para uma estratégia de base da esquerda revolucionária.

No entanto, as ações programadas pelas direções oficiais dos sindicatos podem, como mostra o exemplo do UCU, fornecer o terreno para a criação de redes embrionárias de ativistas de base. Por exemplo, membros do SWP, junto com outros ativistas, impulsionaram a criação de comitês de greve compostos por aqueles que se mobilizam e sustentam a ação sindical. Além de fortalecer e construir as greves, esses comitês podem coordenar as atividades entre os sindicatos. No UCU, eles também poderiam fornecer a base para um comitê de greve nacional eleito, por meio do qual se possa pressionar a direção sindical e tentar impedir seus esforços para encerrar as ações [^40]. O impulso aos comitês de greve foi reforçado por Courtney, do NEU, que também defendeu sua criação localmente entre professores. Esse apoio oficial sugere que o papel desses organismos pode ser controverso, já que alguns os veem principalmente como correias de transmissão da burocracia, e não como organismos com papel independente.

Como demonstram tanto o UCU quanto os esforços dos sindicatos da saúde em rejeitar maus acordos salariais, a criação de iniciativas de base embrionárias não pode se basear apenas em fomentar as lutas à medida que surgem. Também deve implicar o enfrentamento à burocracia quando esta bloqueia ou limita a ação — mesmo que isso signifique que os revolucionários comecem como parte de uma minoria militante dentro de seu ramo sindical ou comitê de greve. Somente uma combinação de argumentos e da experiência direta dos trabalhadores com a burocracia permitirá que essa visão se torne patrimônio da maioria.

Essa abordagem deve ser combinada com o desenvolvimento de uma política socialista revolucionária na classe trabalhadora, capaz de lidar com o desenvolvimento geral da luta nos terrenos político e econômico. A liderança na classe trabalhadora não pode se reduzir a campanhas sobre questões sindicais “cotidianas”. Para dar apenas um exemplo: à medida que a atual crise econômica se aprofunda, é provável que aumente a tendência do governo de culpar os refugiados que atravessam o Canal. É essencial combater isso e enfrentar os grupos de extrema-direita que se sentem confiantes o suficiente para atacar os abrigos que recebem os recém-chegados ao Reino Unido.

Também há lições valiosas a serem aprendidas com as lutas internacionais dos trabalhadores. A eclosão da luta na França apresenta muitas das características da experiência britânica, mas em um nível muito mais elevado. A decisão do presidente Emmanuel Macron de aumentar a idade de aposentadoria — uma medida há muito desejada pela classe dominante como parte da implantação do neoliberalismo — desencadeou um enorme movimento e criou uma crise política. Em março, em meio a greves massivas, mais de três milhões de pessoas participaram das manifestações, segundo os sindicatos. Embora desencadeada pelo ataque às aposentadorias — importante por si só —, a ação abrangeu muitas outras questões, como salários, insegurança e, à medida que se desenvolvia, também questões mais amplas sobre o funcionamento da sociedade, que emergiram do movimento dos “coletes amarelos” (Gilets Jaunes), iniciado em 2018.

A fúria nas ruas atingiu novos patamares depois que Macron usou uma das cláusulas mais antidemocráticas da Constituição — redigida pelo general De Gaulle em 1958 — para impor as mudanças na aposentadoria sem submetê-las a votação no Parlamento, com medo de não ter maioria. Embora tenha sobrevivido por pouco a uma moção de censura subsequente, o resultado foram distúrbios em muitas cidades — reprimidos com grande violência policial — e greves cada vez mais numerosas. Essas greves apresentaram um nível de auto-organização de base muito maior que no Reino Unido, com esforços sérios de coordenação entre setores, além de trabalhadores que arrancaram parcialmente o controle da situação das mãos das lideranças sindicais. Isso foi necessário porque a burocracia sindical, mesmo quando possui um discurso de esquerda, também limitou e restringiu a luta. Mesmo em um nível de luta muito mais elevado, surgem os mesmos problemas de liderança e controle pela base [^41].

Mesmo que a atual onda de greves no Reino Unido recue devido ao conservadorismo da burocracia, ainda estamos em um período em que estão surgindo, de forma vacilante, novos focos de resistência operária após o longo refluxo que vivenciamos. Nossa tarefa é garantir que cada nova onda de lutas comece de um ponto mais elevado do que a anterior. Isso significa aprender tanto como o movimento operário pode avançar quanto qual é a melhor forma de resistir aos seus retrocessos.

Referências

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NOTAS

[^1]: Choonara, 2023, p. 9.

[^2]: Ewing e Hendy, 2025, p. 14.

[^3]: Choonara, 2025.

[^4]: Townend, 2025.

[^5]: Luxemburg, 2007, p. 176-178; Darlington, 1998, p. 15; Hinton, 1973.

[^6]: Veja-se, por exemplo, Callinicos, 1982, 1995; Cliff, 1979, 1985; Cliff e Barker, 1966; Cliff e Gluckstein, 1986; Darlington, 2014; Darlington e Upchurch, 2012; Hyman, 1975; Moody, 2000, 2010.

[^7]: Cliff, 1979. Agradecimentos a Iain Ferguson, Charlie Kimber, Sheila McGregor e Mark Thomas pelos comentários sobre os rascunhos anteriores.

[^8]: Os “gêmeos terríveis”, Jack Jones e Hugh Scanlon, tornaram-se, respectivamente, líderes do Transport and General Workers Union e do Amalgamated Engineering Union em 1968.

[^9]: Harman, 1985.

[^10]: Esses dados não oferecem uma visão completa da atividade sindical. No entanto, a escassez de ações não oficiais na atualidade faz com que, pelo menos, sejam uma medida relativamente precisa das greves.

[^11]: A “remuneração real” é o salário mais outras contribuições sociais feitas pelos empregadores, ajustadas à inflação.

[^12]: Veja a base de dados “A Millennium of Macroeconomic Data” do Banco da Inglaterra: www.bankofengland.co.uk/statistics/research-datasets

[^13]: Romei, 2023.

[^14]: Estatísticas do Department for Business, Energy and Industrial Strategy para 2021.

[^15]: Cliff, 1979, p. 35.

[^16]: Há exceções, como na Rússia no início do século XX, onde houve um surto de organização sindical no contexto da Revolução de 1905 e da formação dos sovietes, que combinavam reivindicações econômicas e políticas. Em condições de quase ilegalidade, havia pouco espaço para a formação de uma burocracia reformista estável na Rússia antes de 1917 (Cliff e Gluckstein, 1986, pp. 13-20).

[^17]: Callinicos, 1982, p. 5.

[^18]: Citado em Callinicos, 1982, p. 11.

[^19]: Hoje em dia, os delegados sindicais (shop stewards) seriam chamados de “representantes sindicais” (union reps) em muitos contextos.

[^20]: Callinicos, 1982, pp. 30-36.

[^21]: Cliff, 1979, p. 1.

[^22]: Callinicos, 1982, p. 34.

[^23]: Empresa nacional de serviços postais do Reino Unido, N.T.*

[^24]: Veja Kimber, 2009, pp. 46-48.

[^25]: Squire, 2022.

[^26]: Kimber, 2023a.

[^27]: Parker e Wright, 2023.

[^28]: Pickard, Georgiadis e Strauss, 2023.

[^29]: Cabe também observar que, quando os acordos salariais são “sem financiamento”, isso se traduzirá em novos cortes na saúde ou educação para financiá-los.

[^30]: Prasad, 2023.

[^31]: Finnis, 2023.

[^32]: Trata-se de uma empresa multinacional de comunicações do Reino Unido, N.T.*

[^33]: Kimber, 2023b.

[^34]: Veja https://neu.org.uk/press-releases/education-unions-and-government-enter-talks

[^35]: A UCU Left, da qual participam grupos como o SWP, organiza uma lista de esquerda nas eleições sindicais e se orienta para o ativismo de base. O Movimento de Solidariedade da UCU é uma agremiação mais ampla que busca coordenar as lutas entre as diferentes seções.

[^36]: Sistema de pensões para o pessoal acadêmico e administrativo das universidades, N.T.*

[^37]: Nominalmente, o HEC controla as greves no ensino superior.

[^38]: Squire, 2023.

[^39]: No momento da redação deste artigo, os membros da UCU estavam votando para renovar seu mandato de continuidade das ações.

[^40]: Veja as propostas em https://uculeft.org/he-disputes-in-jeopardy

[^41]: Veja Kimber, 2023c, e os artigos subsequentes no Socialist Worker, para ter uma ideia desses argumentos.

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