Em resposta ao “Construção Comunista” (Kommunistische Aufbau - KA), queremos discutir por que não foi a Oposição de Esquerda em torno de Trótski, mas sim o stalinismo que realizou a transição para o campo da contrarrevolução. Em nenhum lugar isso fica tão claro quanto na política externa soviética.
Que balanço tiramos das lutas de classes, revoluções e contrarrevoluções do século XX? Essa não é uma questão secundária. Para desenvolver uma perspectiva capaz de orientar, neste século, lutar por revoluções socialistas vitoriosas, precisamos compreender por que as inúmeras tentativas do passado fracassaram.
Pensamos que não é possível tirar as lições corretas da história sem entender o papel reacionário que o stalinismo desempenhou nesses processos. Quando falamos de stalinismo, não nos referimos, como é comum nos discursos burgueses, à suposta maldade de um indivíduo,[1] mas a um fenômeno político que sobreviveu à morte de Stalin em diversas formas, por muito tempo, e ainda hoje — embora bastante reduzido — continua existindo. Um dos grupos que hoje, na Alemanha, se reivindicam dessa tradição e que vem exercendo certa atração sobre jovens é o Kommunistische Aufbau - KA. Há cerca de dois anos, o KA publicou “Trotskismo — uma análise marxista-leninista” (Trotzkismus — eine marxistisch-leninistische Analyse), uma extensa polêmica contra a corrente política na qual nós nos situamos. Nela, as autoras e autores se distanciam de uma abordagem que simplesmente demoniza Trótski ou o apresenta como um agente fascista consciente, e tentam se engajar em um debate sério com as posições e lutas políticas de Trótski, da Oposição de Esquerda e das correntes que se reivindicam de seu legado.
Ainda que reconheçamos estar respondendo tardiamente, acreditamos que vale a pena fazê-lo. Queremos expor por que não foi a Oposição de Esquerda em torno de Trótski, mas sim o stalinismo que realizou a “passagem para o campo da contrarrevolução”. Em debate com as teses do KA, queremos, numa série de artigos, justificar por que um acerto de contas com o stalinismo é indispensável para a reconstrução do projeto socialista revolucionário — e qual contribuição o legado político e teórico do trotskismo pode oferecer a esse projeto.
Queremos começar com a questão do internacionalismo e com um balanço da política externa da direção soviética e da sua orientação da Internacional Comunista (Comintern). Em outras partes da série trataremos da burocratização da União Soviética — em debate com a tese do “revisionismo” defendida pelo KA –, da relação entre comunistas revolucionários e os grandes sindicatos e partidos reformistas, bem como da questão da relação entre partido revolucionário e auto-organização.
Como o próprio KA escreve, a questão da política internacional esteve “no cerne do conflito” entre a direção do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) em torno de Stalin e a Oposição de Esquerda. Esta se desenvolveu, em particular, em torno da difusão da “teoria” do socialismo em um só país e da política desastrosa da Comintern que se manifestou na revolução chinesa de 1925-1927. A contraposição apresentada pelas autoras e autores, segundo a qual se trataria da questão de saber “se a esperança em impulsionar a revolução na Europa Ocidental era mais importante do que a sobrevivência do socialismo na Rússia”, consideramos altamente enganosa, como queremos demonstrar a seguir.
“Socialismo em um só país” ou Revolução Permanente?
O KA escreve: “Mas o caminho de Trótski rumo ao objetivo do socialismo — a revolução mundial — permaneceu, durante sua vida, uma esperança jamais realizada.” Nessa apresentação, Trótski teria agido por uma espécie de idealismo alheio à realidade ou até por uma obsessão perigosa. Na lógica do KA, as circunstâncias objetivas não teriam permitido a expansão da revolução para a Europa Ocidental e outras partes da Ásia. A jovem União Soviética teria permanecido isolada e, “por mais de 25 anos”, teria sido deixada à própria sorte. Por isso, a única solução pragmática teria sido concentrar-se na construção do socialismo em um só país.
Ora, a revolução russa sobreviveu ao seu primeiro ano apenas graças aos movimentos revolucionários, especialmente na Alemanha e no Império Áustro-Húngaro, que derrubaram o tratado de paz forçado de Brest-Litovsk e puseram fim à Primeira Guerra Mundial. Os processos revolucionários de 1918 a 1923, porém, não levaram ao estabelecimento de novos Estados operários, e a União Soviética permaneceu isolada e exaurida pela guerra civil. No entanto, o texto do KA não faz qualquer referência a este período, nem à revolução chinesa, reprimida em 1927. As graves derrotas do proletariado não foram simplesmente o resultado de relações de força desfavoráveis ou de condições “imaturas”, mas sim de erros da liderança comunista. Os acontecimentos na Alemanha são um exemplo disso:
Os anos revolucionários após 1918 terminaram, no outono de 1923, numa derrota da revolução. Os planos de insurreição para outubro foram cancelados de última hora. O fracasso da revolução de 1923 foi uma derrota decisiva, que desmoralizou o proletariado alemão por alguns anos, corroeu a confiança no KPD (Kommunistische Partei Deutschlands — “Partido Comunista da Alemanha”) e permitiu uma estabilização temporária da República de Weimar. A direção da Comintern, sob Grigori Zinoviev, e a direção do KPD em torno de Heinrich Brandler hesitaram por tempo demais, entre o verão e o outono de 1923, em tomar medidas mais resolutas que pudessem abrir o caminho para a tomada do poder pelo proletariado.
A revolução no Ocidente, na qual os comunistas na União Soviética haviam apostado, ficava, por ora, bloqueada — não se vislumbrava ajuda que rompesse o isolamento. Essa derrota decisiva fortaleceu a burocracia soviética em formação, que consolidou sua posição dominante com a teoria do socialismo em um só país. Trótski havia apoiado, desde Moscou, Heinrich Brandler e sua política de um governo operário com o SPD na Turíngia e na Saxônia, mas insistiu para que avançassem à ação e passassem à insurreição. Com isso, ele se encontrava em acordo com as resoluções do 4º Congresso da Internacional Comunista de 1922. Ali, tais governos operários, enquanto parte de frentes únicas, eram considerados como uma possibilidade de conquista do poder, a partir da armamento do proletariado e da preparação do levante.[2]
É sintomático que o KA, em seu texto, apesar de sua extensão, quase não faça um balanço dos processos revolucionários posteriores à insurreição de Outubro nem tente refutar a crítica concreta de Trótski à política da Comintern — limitando-se, em vez disso, à alegação geral de que as posições da Oposição de Esquerda seriam “utópicas”. De forma lacônica, afirma-se que “a esperada revolução no Ocidente não se concretizou”, como se se tratasse de uma chuva que não veio, como se a hesitação da direção comunista não tivesse sido um fator decisivo da derrota. Não se trata aqui apenas da questão de “quem tem culpa” pelo desastre. O simples reconhecimento de que a direção do KPD fracassou ainda nada diz sobre as conclusões estratégicas a tirar disso. Em 1924, o 5º Congresso da Comintern tirou da derrota a conclusão de que não se deveria construir frentes únicas com a socialdemocracia. As lições dos quatro primeiros congressos, que continham algumas das discussões estratégicas mais profundas sobre a conquista do poder, foram jogadas fora. A linha do KPD e de sua direção passou a ser, cada vez mais, ditada a partir de Moscou.
O KA transforma aqui o fracasso da revolução em uma virtude:
“O mérito de, apesar de todas as esperanças frustradas em revoluções no Ocidente, se manter firmemente na construção do socialismo em um só país e de, sob as condições mais adversas — que certamente nenhum bolchevique desejou —, preservar a ditadura do proletariado e concretamente construir o socialismo, cabe essencialmente à direção bolchevique após a morte de Lênin — à frente Stalin.”
A citação sugere que teria sido, sobretudo, o setor em torno de Stalin — e não Trótski, com sua concepção de ampliação da revolução — quem realmente teria tido em vista o futuro da União Soviética. No entanto, em A Revolução Traída, Trótski saúda o desenvolvimento da economia planificada soviética nos anos 1920 e 1930 e destaca seus enormes avanços: “Conquistas gigantescas na indústria, início promissor de um impulso na agricultura, crescimento extraordinário das antigas e surgimento de novas cidades industriais, rápido aumento do número de operários, elevação do nível cultural e das necessidades — esses são os resultados incontestáveis da Revolução de Outubro, na qual os profetas do velho mundo quiseram ver o túmulo da civilização humana.”[3] Ao mesmo tempo, ele ressalta que o Estado operário teve de se desenvolver a partir de um nível muito mais baixo do que as sociedades capitalistas da Europa Ocidental. Uma evolução “pacífica” rumo ao socialismo simplesmente através de sucessivas vitórias da economia planificada não seria possível. Tal concepção contradiz os fundamentos do materialismo dialético. Enquanto as forças produtivas permanecessem subdesenvolvidas em relação às economias capitalistas, as transições teriam necessariamente de ocorrer por meio de “crises, saltos e retrocessos”.
Uma expressão disso foi, por exemplo, a expropriação forçada dos kulaks (camponeses médios e ricos) a partir de 1927, que esteve ligada a graves crises e fome. No próximo item da seção entraremos mais a fundo nas condições internas da União Soviética. Aqui, porém, queremos mostrar que a estrutura social e política altamente contraditória da União Soviética e seu desenvolvimento eram expressão de uma “luta de forças sociais vivas, não apenas em escala nacional, mas também internacional.”[4]
Marx e Engels já haviam descrito, em 1848, no Manifesto Comunista, como a burguesia criou o mercado mundial e moldou o modo de produção segundo suas necessidades — um processo que apenas se aprofundou com o desenvolvimento do capitalismo e sua transformação em imperialismo. Seria ilusório supor que um país pudesse se isolar disso; e, inversamente, qualquer tentativa de se “desacoplar” das condições externas teria consequências políticas e econômicas extensas: em última instância, a forte limitação das forças produtivas e a degeneração do regime político. No máximo, a situação mundial poderia impor, à força, um fim a qualquer tentativa de construir o socialismo em um só país. O ataque da Alemanha hitlerista à União Soviética — ao qual voltaremos mais adiante — foi a expressão mais brutal desse beco sem saída.
A expansão do movimento revolucionário, portanto, teria sido obrigatória já do ponto de vista da defesa da União Soviética. Na realidade, depois da derrota na Europa Ocidental, já a partir de 1925 surgia uma nova situação revolucionária — desta vez na China. Ela começou como um movimento nacional pela independência e unidade da China. Pelo menos a partir de uma onda de greves no verão de 1926, o movimento operário entrou com peso no processo. O “Partido Comunista Chinês” (PCCh), fundado poucos anos antes, pôde expandir bruscamente sua influência — mas não atuou de forma independente, e sim como parte integrante do partido burguês Kuomintang.
Em fevereiro de 1927, operários e forças republicanas em Xangai se ergueram em insurreição contra o senhor da guerra local. O Partido Comunista defendia, inicialmente, a formação de sovietes, mas foi contido por Moscou. Stalin temia a ruptura com o Kuomintang e forçou os comunistas a restringirem ao máximo seu papel independente. Depois que já havia sido formado em Wuhan um governo comum do Kuomintang e do PCCh, a greve geral insurrecional de Xangai, em março de 1927, levou essa coalizão ao poder. Pouco depois, o Kuomintang, sob a liderança de Chiang Kai-shek, preparava a destruição dos comunistas e dos sindicatos. A partir de 12 de abril, um exército composto por milícias direitistas e bandos armados contratados desencadeou um massacre contra o proletariado de Xangai. Este respondeu com uma greve geral de uma semana — mas, depois de anos de aliança com o Kuomintang, foi em grande parte surpreendido politicamente.
Stalin seguia a linha definida já em 1923 pela Comintern, segundo a qual, na China, tratava-se primeiro de conquistar a unidade nacional, numa lógica de etapas separadas entre si: primeiro, os comunistas deveriam apoiar as forças burguesas — ao menos a burguesia nacional, que supostamente teria interesse em romper com o imperialismo. Só depois poderiam se dedicar às tarefas socialistas. Na prática, isso significou que orientou o PCCh a se subordinar politicamente e militarmente ao Kuomintang. Trótski criticou essa linha: ele também considerava que, na China, talvez não fosse possível estabelecer de imediato a ditadura do proletariado. Mas insistia que até mesmo as tarefas democrático-burguesas só poderiam ser resolvidas pela classe trabalhadora em aliança com o campesinato. Alertou de forma insistente contra a subordinação política à burguesia, a qual não seria capaz de cumprir nem mesmo as tarefas democráticas e nacionais da revolução — eis aqui a base da teoria da Revolução Permanente.
Essa teoria não consiste simplesmente em estender a revolução a qualquer momento, independentemente das circunstâncias. Seu fundamento é que a revolução pode — e deve — partir de questões nacionais e desenvolver seu caráter para avançar com sucesso. Marx e Engels afirmaram, em seu balanço da revolução fracassada de 1848/49:
“Mas [os trabalhadores alemães] precisam fazer, eles próprios, a maior parte do caminho rumo à vitória final, esclarecendo-se sobre seus interesses de classe, assumindo o quanto antes uma posição partidária independente, não se deixando desviar nem por um instante, pelas frases hipócritas da pequena burguesia democrática, da organização autônoma do partido do proletariado. Seu grito de combate deve ser: Revolução Permanente.”[5]
É fácil atribuir às circunstâncias objetivas a responsabilidade pelo “fracasso” da revolução mundial, como se ela fosse apenas o sonho de um lunático. No entanto, a posição marxista-revolucionária nunca consistiu em afirmar que a revolução seria possível em qualquer lugar e a qualquer momento — como se a direção da Comintern tivesse à disposição um botão da revolução mundial e simplesmente se recusasse a apertá-lo. O marxismo revolucionário sempre partiu da análise concreta de uma situação concreta, levando em consideração diversos fatores objetivos e subjetivos. A relação entre esses fatores não é estática: há situações em que o fator subjetivo desempenha um papel decisivo. O melhor exemplo é a Revolução Russa. Com o colapso do czarismo durante a guerra, o poder estava nas ruas — mas, para que daí pudesse nascer um Estado operário, foi necessária a direção audaciosa do partido bolchevique e o combate político prévio dentro do POSDR (“Partido Operário Social-Democrata Russo”). Foi dentro dele que Lênin impôs a posição da ditadura do proletariado, expressa na palavra de ordem “Todo poder aos sovietes”. Antes disso, a maioria da direção do partido — incluindo Stalin — defendia o apoio ao governo provisório burguês.
A partir de 1924, Stalin e Bukharin tentaram, como conclusão das revoluções fracassadas no Ocidente, desenvolver uma nova “teoria”: a do “socialismo em um só país”. Essa formulação significava uma adaptação na qual a direção do Estado soviético deixava de ser a cabeça estratégica da revolução mundial para se tornar um suposto fator de conservação das conquistas — teoria que, sem dúvida, caiu em terreno fértil entre as camadas de aparato estatal e econômico. O fator subjetivo da revolução — o proletariado mundial —deve, nessa lógica, ceder lugar ao aparato administrativo do Estado soviético como motor da história, pois seria ele quem definiria o ritmo da construção do socialismo. O KA cita, com aprovação, um trecho da obra de Stalin de 1926, “Sobre as questões do leninismo”:
“O que significa a possibilidade da vitória do socialismo em um país? Significa a possibilidade de superar, com as forças internas do nosso país, as contradições entre o proletariado e o campesinato, a possibilidade de o proletariado tomar o poder e utilizar esse poder para edificar a sociedade socialista integral em nosso país, apoiando-se na simpatia e no apoio dos proletários de outros países, mas sem a vitória prévia da revolução proletária em outros países. Sem essa possibilidade, a construção do socialismo é uma construção sem perspectivas, uma construção sem a convicção de que se edificará o socialismo. Não se pode construir o socialismo se não se está convencido de que é possível construí-lo, se não se está convencido de que o atraso técnico do nosso país não é um obstáculo intransponível para a edificação da sociedade socialista integral. Negar essa possibilidade significa não acreditar na construção do socialismo, afastar-se do leninismo.”[6]
Aqui, o socialismo é rebaixado a uma questão de crença. Como se bastasse estar suficientemente convencido para construí-lo. À margem de qualquer análise materialista das contradições da sociedade soviética e de suas relações internacionais, fala-se em “plenitude” ou “conclusão” do socialismo, seja lá o que isso signifique. O KA acusa Trótski de ter “ideais altos demais” sobre o socialismo. Mas a teoria do socialismo em um só país tem um conteúdo de classe definido: a supremacia da burocracia.
Em última instância, trata-se de uma lógica que separa o destino do proletariado mundial daquele do proletariado soviético. O primeiro é rebaixado ao papel de prestar “simpatia e apoio”. Sua tarefa seria, na melhor das hipóteses, exercer pressão sobre os governos imperialistas. A perspectiva da revolução recua para segundo plano. Assim, o proletariado deixa de ter um papel estratégico na luta por sua própria emancipação e passa a ser, na prática, um instrumento da diplomacia da burocracia soviética em suas negociações com governos burgueses.
A catástrofe espanhola
Um exemplo contundente da responsabilidade da direção soviética pela derrota da revolução em outros países — que, segundo o KA, seria uma tese “absurda do ponto de vista dialético-materialista” — é a Guerra Civil Espanhola. Depois que, em 1931, a monarquia foi derrubada e proclamada a Segunda República, o país foi governado, a partir de 1934, por uma coalizão conservadora formada pela católica CEDA (Confederación Española de Derechas Autónomas — “Confederação Espanhola de Direitas Autônomas”) e pelo partido liberal PRR (Partido Republicano Reformista). Essa coalizão enfrentou enorme resistência da classe trabalhadora: a nomeação de ministros da CEDA provocou uma onda de greves e levantes locais, que corroeram rapidamente a legitimidade do governo. Ao mesmo tempo, este era abalado por graves escândalos de corrupção.
Diante do crescente quadro de instabilidade política, o presidente se viu obrigado a convocar novas eleições em fevereiro de 1936. A grande vencedora, com uma maioria esmagadora, foi a Frente Popular, formada pouco antes: uma coalizão composta pelo social-democrata PSOE (Partido Socialista Obrero Español — “Partido Socialista Operário Espanhol”), por anarcossindicalistas, por partidos republicanos representantes da burguesia liberal e pelo “Partido Comunista de Espanha” — PCE (Partido Comunista de España).
A entrada do PCE nessa coalizão interclassista — que incluía setores da burguesia — seguiu a linha definida previamente pela Internacional Comunista. A partir de seu 7º Congresso, em 1935, a Comintern passou a defender a formação de frentes populares antifascistas. Se, antes disso, a social-democracia havia sido caracterizada como a “ala esquerda do fascismo” e alianças de ação com ela — e com os sindicatos sob sua direção — eram recusadas, agora o fascismo era definido como a “ditadura terrorista dos elementos mais reacionários, chauvinistas e imperialistas do capital financeiro.”[7] Na Alemanha, essa orientação — conhecida como tese do “social-fascismo” — havia levado a um resultado devastador: a divisão da classe trabalhadora e a ascensão de Hitler ao poder praticamente sem resistência.
A conclusão política extraída da derrota de 1933 foi a colaboração com setores “antifascistas” da burguesia, inclusive por meio da formação de blocos parlamentares — como aconteceu na Espanha e, pouco depois, na França, com o apoio a governos de Frente Popular. Na prática, isso só poderia levar à subordinação da classe trabalhadora e, portanto, à limitação da atuação comunista a programas e métodos que jamais questionassem fundamentalmente o poder da burguesia. Assim, a tática da Frente Popular se diferenciava radicalmente da tática da Frente Única Operária formulada — como estabelecido no 4º Congresso da Comintern — como sendo “a oferta de luta comum dos comunistas a todos os trabalhadores, pertencentes a outros partidos ou grupos, bem como aos operários sem partido, para a defesa dos interesses vitais elementares do proletariado contra a burguesia”[8] — e que, expressamente, “não significa em nenhum caso ‘combinações eleitorais’ entre cúpulas, visando objetivos parlamentares.”[9]
Em julho de 1936, poucos meses depois da Frente Popular assumir o governo — o PCE não ocupava ministérios, mas sustentava a coalizão —, o general reacionário Francisco Franco, apoiado pelo fascismo alemão e italiano, iniciou um golpe militar contra a República, desencadeando a Guerra Civil Espanhola. Um avanço total de Franco só foi evitado graças à resistência, muitas vezes espontânea, organizada por amplos setores da classe trabalhadora e do campesinato pobre. O PCE, que antes do início da guerra tinha peso modesto, conseguiu, no processo de formação das unidades militares que compunham grande parte do Exército republicano, aumentar rapidamente sua influência tanto entre a classe trabalhadora quanto dentro da Frente Popular. A Comintern desempenhou papel central na organização do envio de armas soviéticas e das Brigadas Internacionais — unidades de voluntários de diversos países que se uniram à luta contra Franco.
Entretanto, a guerra foi conduzida pelo PCE e pela Comintern exclusivamente com o objetivo de defender a democracia parlamentar contra a tomada do poder por Franco. Como afirmava uma resolução do “Comitê Executivo da Internacional Comunista” (CEIC), publicada em fevereiro de 1937:
“O Presidium[10] do CEIC apoia a linha do Comitê Central do Partido Comunista da Espanha, que mobiliza os membros do partido e todas as massas populares para a luta contra os fascistas, que tentam destruir o sistema parlamentar e instaurar uma ditadura fascista. O Presidium apoia esta linha de defesa e consolidação da República democrática parlamentar, que garante todos os direitos e liberdades do povo espanhol, da defesa e consolidação da República da Frente Popular, na qual serão eliminadas as bases materiais do fascismo e na qual não haverá lugar para o fascismo.”[11]
Enquanto o KA acusa o trotskismo de jamais ter rompido verdadeiramente com o menchevismo, aqui vemos o stalinismo justificar sua política com uma teoria etapista nitidamente menchevique. Se, na Revolução Russa, os mencheviques defendiam que a Rússia não estava “madura” para a ditadura do proletariado e que, portanto, primeiro seria necessário consolidar a democracia burguesa, a Comintern aplicava exatamente essa lógica à Espanha do final dos anos 1930. A contradição se torna ainda mais evidente quando lembramos que o stalinismo afirmava, simultaneamente, que na Rússia existiam condições para “construir o socialismo em um só país”.
Como observou o trotskista Walter Held durante a guerra, a Rússia de 1917 era “incomparavelmente mais atrasada que a Espanha atual. Algumas estatísticas demonstram isso. Em 1920, na Espanha, os operários industriais representavam 25% da população ocupada, e desde então houve enorme crescimento urbano, de modo que essa proporção certamente aumentou. Na Rússia czarista, não mais que 16,7% eram trabalhadores, e mesmo em 1928 o proletariado soviético representava apenas 17,3%. Enquanto 40% da população espanhola vivia em cidades — com vários centros urbanos superando 1 milhão de habitantes — apenas 20% da população do antigo Império Russo era urbanizada.”[12]
Para além de estatísticas, a própria ação independente das massas espanholas desmentia a concepção stalinista. Desde o início de 1936 — e, sobretudo, nos momentos mais intensos da guerra — trabalhadores e camponeses pobres ganharam confiança e desenvolveram enorme energia revolucionária. Em diferentes regiões do país, ocorreram expropriações de fábricas, coletivização de terras confiscadas dos latifundiários, criação de estruturas de poder operário e comitês de base. Na Catalunha, grande parte da indústria, dos transportes, do comércio urbano e até instituições culturais estavam sob controle direto dos trabalhadores. Ali se expressaram, de modo prático, elementos da “passagem” da revolução democrática à revolução socialista, tal como formulado por Trótski na teoria da Revolução Permanente.
Mas, em vez de apoiar, desenvolver e conduzir essas tendências à vitória, o PCE — no marco da Frente Popular — tratou de suprimi-las e revertê-las. Na resolução já citada, a Comintern defendia explicitamente a proteção da propriedade capitalista: “O Presidium do CEIC considera correta a posição do partido contra uma nacionalização generalizada da indústria. Ele apoia plenamente a linha segundo a qual a nacionalização deve ser determinada pelos interesses da defesa da República.”[13]
O PCE atuou ativamente para desfazer coletivizações, devolver terras e fábricas a antigos proprietários, muitas vezes recorrendo à força armada. Em Barcelona, sobretudo, o governo da Frente Popular lançou uma ofensiva — militar, policial e midiática — para desarmar as milícias ligadas ao marxista POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista — “Partido Operário de Unificação Marxista”) — que, sem qualquer fundamento na realidade, foram constantemente difamados pela imprensa stalinista como agentes fascistas[14] — e à central anarcossindicalista CNT (Confederación Nacional del Trabajo — “Confederação Nacional do Trabalho”), destruir organismos de auto-organização operária e reverter conquistas de controle operário. Assim, o PCE tornou-se cúmplice da prisão, perseguição e assassinato de centenas de trabalhadores revolucionários que combatiam seriamente Franco.
A afirmação da Comintern de que a defesa da democracia parlamentar seria o melhor caminho para derrotar o fascismo era absurda desde o início — e ficou definitivamente refutada com a vitória militar de Franco em 1939. Não faltou disposição de luta das massas: a classe trabalhadora espanhola e o proletariado internacional demonstraram imenso heroísmo contra as tropas franquistas. O problema foi a direção. Com uma política voltada a desmobilizar, dividir e conter a classe trabalhadora — quando não a atacar —, não havia possibilidade de vitória. A Comintern pavimentou o caminho da derrota ao sufocar a força histórica da classe trabalhadora por meio da aliança com a burguesia. Essa derrota condenou os trabalhadores e o povo espanhol a décadas de ditadura sanguinária e enfraqueceu gravemente o combate internacional contra o fascismo — inclusive no contexto da preparação da Segunda Guerra Mundial.
A serviço do fascismo?
Não deixa de ser irônico — para não dizer trágico — que o KA afirme que a posição de Trótski nos anos 1930 teria sido “objetivamente uma reserva da contrarrevolução, cuja ponta de lança era o fascismo”. Aqui, o texto do KA escorrega para difamações absurdas, copiadas quase palavra por palavra das atas dos Processos de Moscou. Acusa-se Trótski de ter “fantasiado” a derrubada do regime stalinista por Hitler. No entanto, a maior ameaça à União Soviética vinha do próprio Stalin: às vésperas da Segunda Guerra Mundial, por medo de um golpe, ele mandou eliminar quase todo o Estado-Maior militar. O Exército Vermelho enfrentou a Alemanha de Hitler, altamente armada, sem liderança estratégica.
Para evitar ser esmagada pela Wehrmacht, a União Soviética teria de impedir a todo custo uma guerra contra o imperialismo alemão. Daí nasceu o Pacto Hitler-Stalin. Enquanto o KA se entrega a especulações infundadas sobre uma suposta colaboração de Trótski com fascistas, seu texto não dedica sequer uma linha ao pacto entre Hitler e Stalin — historicamente comprovado e de consequências profundas. Apenas em outro artigo, sobre a derrota do fascismo, o KA faz uma breve menção ao acordo:
“As ofertas de Moscou antes da guerra para agir em conjunto contra os nazistas foram rejeitadas pelos futuros aliados. O resultado disso foi o chamado “Pacto Hitler-Stalin”. Desde então, a historiografia burguesa tenta interpretá-lo como uma aliança entre a União Soviética socialista e a Alemanha fascista, muitas vezes apresentando-o como o gatilho da guerra. No entanto, tratava-se apenas de um pacto de não agressão, que deu tempo à União Soviética para se preparar para uma guerra inevitável, na qual o apoio da Inglaterra, dos EUA ou da França era incerto. Sem esse tempo de preparação, talvez a vitória nunca tivesse sido possível.”
À primeira vista, esse argumento do “ganho de tempo” parece plausível, mas exige exame rigoroso. Em primeiro lugar, é falso que tenha sido apenas um pacto de não agressão. Em 21 de agosto de 1939, Stalin escreveu a Hitler:
“A concordância do governo alemão em firmar um pacto de não agressão tornará possível eliminar as tensões políticas e estabelecer a paz e a cooperação (sic!) entre nossos países”.[15]
O elemento da “cooperação” logo se tornaria central. Poucos dias depois, a Alemanha invadia a Polônia — e o Exército Vermelho avançava simultaneamente pelo leste. Um protocolo secreto anexado ao pacto previa a divisão do território polonês entre Hitler e Stalin. O historiador francês Jean-Jacques Marie relata a reação do chanceler Ribbentrop, publicada no Pravda em 30 de setembro: “A amizade germano-soviética está agora definitivamente consolidada.” De fato, Hitler seria generosamente recompensado. O negociador alemão Karl Schnurre listou, em fevereiro de 1940, as entregas soviéticas à Alemanha: “900 mil toneladas de petróleo, 100 mil toneladas de algodão, 500 mil toneladas de fosfatos, 100 mil toneladas de minério de cromo, 50 mil toneladas de minério de ferro, 300 mil toneladas de sucata e ferro fundido, 2.400 kg de platina, [...] 3.000 toneladas de cobre, 950 toneladas de estanho, 500 toneladas de molibdênio, 500 toneladas de tungstênio, 40 toneladas de cobalto.”[16] Além disso, desde o início de 1940, já haviam sido enviados 632 mil toneladas de trigo, 232 mil toneladas de petróleo, 23.500 toneladas de algodão, 50 mil toneladas de manganês, 6.700 toneladas de fosfato e 900 quilos de platina.
Praticamente todos os metais necessários para preparar a ofensiva militar alemã contra a URSS foram fornecidos, pontualmente, por Stalin. Em troca, a União Soviética recebia máquinas, plantas industriais e protótipos de armamentos modernos — embora em ritmo muito inferior. Por causa do bloqueio naval britânico, Stalin ainda ofereceu aos alemães rotas comerciais para a Ásia via Ferrovia Transiberiana. Para apaziguar Hitler, Stalin chegou a cogitar a dissolução da Comintern.
A assinatura do pacto enfraqueceu a luta internacional contra o fascismo e lançou os partidos da Comintern em profunda crise. Eles foram instruídos a interromper abruptamente sua propaganda e sua atividade antifascista — às vezes quase por completo. Em um panfleto rascunhado por Wilhelm Pieck no outono de 1939, destinado à Alemanha, Tchecoslováquia e Áustria, lia-se: “Derruba o fascismo hitlerista, teu inimigo cruel. Derruba o poder do capitalismo financeiro alemão, em nome de quem o fascismo hitlerista continua realizando suas provocações bélicas!”[17]
O texto foi primeiro censurado pelo Secretariado da Comintern — removendo a denúncia do fascismo — e, depois, proibido de circular. Além disso, após o pacto, centenas de comunistas alemães que haviam buscado refúgio na URSS foram entregues pelo NKVD (“Comissariado do Povo para Assuntos Internos”) diretamente à Gestapo. Na França e em outros países, a súbita mudança de linha antifascista gerou enorme perda de membros e credibilidade, fortalecendo a repressão anticomunista.
Quando a Wehrmacht lançou a Operação Barbarossa,[18] em 22 de junho de 1941, Stalin se recusava a acreditar nas inúmeras advertências dos serviços de inteligência. Até o último momento, imaginou ser possível manter Hitler sob controle mediante colaboração. No fim, não foi Stalin quem enganou Hitler — foi Hitler quem o enganou. Em vez de impedir a guerra, Stalin apenas acelerou a preparação militar nazista. Em vez de confiar no proletariado alemão e europeu, apostou num pacto com o “diabo”, destinado a desarmá-lo politicamente. Em vez de conceber a União Soviética como bastião da revolução mundial, conduziu-a como um Estado nacional comum.
Os motivos da política externa stalinista
É difícil contestar que a política da Comintern na Guerra Civil Espanhola, o pacto com o fascismo hitlerista e em muitas outras situações até sua dissolução em 1943 foi errada e prejudicou a classe trabalhadora. O próprio KA critica em seu texto Marxismus und Revisionismus (“Marxismo e Revisionismo”) a linha confirmada no 7º Congresso Mundial de “criar um sistema de segurança coletiva na Europa, ou seja, em favor da tentativa de estabelecer uma coexistência pacífica, pelo menos a médio prazo, com o imperialismo, por meio de tratados de não agressão e assistência mútua com a Inglaterra, a França e outros Estados”. Para atingir esse objetivo, os esforços para bolchevizar os partidos comunistas da Europa Ocidental foram finalmente abandonados e, com isso, a luta pela revolução socialista na Europa também foi abandonada pela liderança do PCUS, pelo menos por alguns anos.”
Passemos, então, à pergunta central: que motivações orientaram essa política? Tratou-se de equívocos de uma direção que, apesar de tudo, continuou a perseguir — pelo menos no longo prazo — o objetivo da emancipação mundial da classe trabalhadora? Ou já havia ocorrido uma ruptura profunda com o internacionalismo revolucionário, base sobre a qual o Comintern havia sido criado?
Ao contrário do KA, partimos do pressuposto de que é impossível explicar a direção equivocada da Comintern sem colocar no centro da análise o fenômeno da burocratização da União Soviética. A política da direção soviética — e, portanto, da Comintern, já que, como o KA reconhece, sua direção “estava indiscutivelmente nas mãos do Comitê Central do PCUS” — correspondia a um interesse material específico, cada vez mais contraditório, quando não diretamente oposto, ao da classe trabalhadora internacional.
Como resultado do baixo nível de desenvolvimento econômico da URSS — agravado pela devastação da guerra civil, que liquidou grande parte da vanguarda operária — combinado ao isolamento decorrente da derrota da onda revolucionária na Europa Ocidental, consolidou-se uma camada de funcionárias e funcionários do Estado e do Partido que passou a monopolizar o poder político no Estado operário. Essa casta, cuja base social era a administração burocrática da propriedade estatizada, utilizava sua posição na produção, distribuição e no aparelho estatal para acumular privilégios crescentes, apropriando-se de parcelas significativas da renda nacional soviética. Embora essa camada não fosse, nem por sua função social nem por seu nível de riqueza, comparável à burguesia dos países capitalistas, seu padrão de vida — dependendo da posição hierárquica — superava em muito o da classe trabalhadora soviética.
Essa burocracia — e, no topo, a direção do PCUS — passou a agir cada vez mais em defesa de seus próprios interesses de conservação, e não dos interesses históricos do proletariado mundial. O interesse particular, estreito, da burocracia soviética consistia, acima de tudo, em garantir e ampliar seu controle sobre a economia e o Estado, preservando os privilégios derivados dessa posição. Isso passou a determinar, de forma crescente, a linha política da Comintern — e, nesse processo, a fronteira entre erro e sabotagem consciente tornou-se fluida.
Só assim se explica o padrão marcante — e aparentemente errático — da política externa soviética, que nada tinha em comum com a flexibilidade tática marxista, mas sim com a lógica da diplomacia burguesa tradicional. Enquanto a tradição marxista revolucionária — cuja continuidade Trótski e a Oposição de Esquerda defenderam dentro da URSS e da Comintern — admite a flexibilidade tática, mas sempre ancorada em estratégia e programa coerentes, a direção da Comintern atuava em sentido inverso. Certas táticas — como a rejeição da frente única na chamada “terceira fase” — eram mantidas rigidamente, mesmo depois de comprovadamente catastróficas, enquanto princípios estratégicos eram completamente invertidos de um momento para outro. Se, no início de 1939, pregava-se a renúncia à independência da classe trabalhadora em nome do combate ao fascismo, poucos meses depois colaborava-se ativamente com o fascismo.
Essa oscilação ficou evidente na forma como lidavam com a teoria marxista, que continuava a ser invocada para justificar a sua própria política, mas que era repetidamente “adaptada” e, assim, absurdamente distorcida para justificar este ou aquele objetivo da política externa soviética. Um exemplo do uso de termos que soam marxistas, mas que são desprovidos de qualquer conteúdo, para legitimar o papel reacionário do stalinismo é fornecido também pelo KA, quando escreve: “A evolução [de Trotsky] é um bom exemplo do que acontece quando marxistas se apegam a princípios gerais, mas ao mesmo tempo viram as costas à dialética e perdem assim a capacidade de se orientar numa situação concreta que se apresenta diferente do que eles (e talvez também todo o resto do partido) esperavam.”
Assim, por exemplo, a formulação da tática da Frente Popular de modo algum representou um desenvolvimento dialético do marxismo diante de uma situação objetiva transformada — o que pressuporia que a direção da Komintern continuasse atuando do ponto de vista do proletariado mundial —, mas sim uma tentativa de, diante da possibilidade de um ataque do fascismo hitlerista contra a União Soviética, conquistar os imperialismos “democráticos”, sobretudo França e Grã-Bretanha, como aliados. Essa guinada foi então ornamentada às pressas com fragmentos de retórica marxista.
A liderança soviética queria provar que a Comintern não representava mais uma ameaça ao capitalismo na Europa Ocidental, pelo que o objetivo da revolução social foi abandonado e substituído pela defesa da democracia burguesa. Os partidos membros da Comintern receberam instruções para se tornarem apêndices das suas burguesias nacionais. O próprio Stalin, em 1936, numa entrevista com o jornalista norte-americano Roy Howard, respondeu à pergunta sobre se a União Soviética havia abandonado seus planos para a revolução mundial: “Nunca tivemos tais planos e intenções”.[19] Ele descreveu a ideia de que a Comintern havia sido fundada como um instrumento para promover a revolução internacional como “um mal-entendido”. Uma falsificação óbvia da história e um insulto aos revolucionários que conquistaram a fundação da Comintern, mas isso não importava na lógica do stalinismo. O cúmulo foi que, após o fracasso provisório da aliança com os imperialistas “democráticos” contra a Alemanha, buscou-se, em vez disso, uma aliança com a Alemanha fascista.
O objetivo da emancipação internacional da classe trabalhadora foi, portanto, sacrificado em favor da tentativa de estabelecer boas relações com o imperialismo, e a Comintern foi degradada a um instrumento da diplomacia nacional — e não apenas “a médio prazo”, como se a burocracia tivesse planejado retornar ao internacionalismo revolucionário após alguns anos. Esse é o conteúdo do “realismo” que a CA sempre reconhece com apreço na liderança stalinista.
Não defendemos a posição da extrema esquerda de rejeitar, em todas as circunstâncias, as negociações entre um Estado operário e Estados burgueses. O exemplo do Tratado de Paz de Brest-Litovsk entre a jovem RSFR (“República Socialista Federativa Soviética da Rússia”) e a Alemanha mostrou que tais medidas podem ser necessárias em determinadas condições. Os bolcheviques em torno de Lenin e Trotsky viram isso como uma manobra temporária para dar um respiro às conquistas ameaçadas da Revolução Russa, enquanto apostavam principalmente na classe trabalhadora na Alemanha e em outros países e procuravam apoiar sua vitória com todas as forças.
O stalinismo inverteu essa relação: os partidos comunistas e os trabalhadores liderados por eles eram considerados, no máximo, como massa de manobra para os objetivos da diplomacia nacional e, quando necessário, eram repetidamente sacrificados. Ao mesmo tempo, não eram os interesses da massa dos trabalhadores soviéticos que orientavam a diplomacia nacional. Pelo contrário, havia uma estreita relação entre a sabotagem dos movimentos revolucionários no exterior e a política cada vez mais reacionária do PCUS no interior. Uma revolução vitoriosa na França, Espanha (ou qualquer outro país) não teria apenas efeitos econômicos positivos e, portanto, um salto real na construção do socialismo. Ela teria, sem dúvida, levado a um aumento do dinamismo e da autoconfiança das massas soviéticas. Na verdade, a burocracia stalinista temia profundamente a autoatividade e a organização dos trabalhadores. A vitória da classe trabalhadora sobre a burguesia em outro país teria acarretado o “risco” de que grande parte da classe trabalhadora na União Soviética questionasse mais energicamente a repressão de qualquer democracia proletária e o controle ditatorial dos burocratas — de qualquer forma, em sua maioria impopulares — sobre seus locais de trabalho e todas as questões da vida cotidiana; e que eles se voltassem contra a arrogância e o estilo de vida luxuoso de alguns deles — pois, apesar das melhorias significativas, grande parte da população continuava vivendo em relativa pobreza –, talvez em uma medida que não pudesse mais ser controlada pelo terror da polícia e dos serviços secretos.
O KA atribui a Trotsky ter atribuído unilateralmente “todas as fraquezas da construção socialista na União Soviética, todas as manifestações de burocratismo, em suma, tudo o que Trotsky considerava contraditório aos seus elevados ideais de uma sociedade socialista, [...] à ausência da revolução socialista no resto do mundo e, em breve, também à suposta orientação errada da Comintern”, atribuindo-lhe assim uma posição que não reconhece às massas soviéticas um papel independente fora da luta pela expansão da revolução. Na verdade, para Trotsky e a oposição de esquerda, a defesa do internacionalismo revolucionário estava indissociavelmente ligada à luta política dentro da União Soviética contra a burocracia, pela restauração da democracia proletária e pelo aprofundamento das conquistas da economia planejada.
Ao mesmo tempo, uma revolução bem-sucedida teria alterado o equilíbrio de forças dentro do movimento comunista e poderia ter questionado o domínio da liderança do PCUS sobre os partidos comunistas. Mesmo após a dissolução da Comintern em 1943 — mais uma concessão ao imperialismo “democrático” — , os partidos comunistas continuaram a receber apoio material considerável da União Soviética, mas apenas em sua função de parceiros juniores do PCUS e executores de sua respectiva linha de política externa. A burocracia não almejava a integração da União Soviética em uma confederação mais ampla ou a fusão de Estados operários — mesmo que isso fosse, sem dúvida, do interesse das massas soviéticas. Pois a base de seu poder — já frágil — consistia no congelamento das especificidades nacionais, as condições da sociedade de transição entre o capitalismo e o socialismo.
A herança do stalinismo, que substituiu o internacionalismo revolucionário pela diplomacia burguesa, é hoje mais evidente na Alemanha na aliança Sahra Wagenknecht e — entre as organizações que ainda se referem ao “marxismo-leninismo” — o DKP (Deutsche Kommunistische Partei — “Partido Comunista Alemão”), como mostramos em outro artigo desta edição, cuja principal ocupação é exortar a liderança do imperialismo alemão a negociações de paz e política de alianças no sentido de uma “ordem mundial multipolar”. Embora a KA se distancie disso e critique o DKP como revisionista,[20] ela defende essa lógica ao avaliar a política do PCUS (até 1953) como “realista” e — apesar das críticas aos “erros” — correta em termos gerais, considerando as condições objetivas.
A repartição do mundo
Após a Segunda Guerra Mundial, vastas regiões da Europa Oriental — libertadas do fascismo pelo Exército Vermelho — passaram por expropriações da burguesia e implementação de economias planificadas. Isso colocaria em xeque a tese de que o stalinismo havia se convertido em força contrarrevolucionária? No Programa de Transição, Trótski descreveu a “possibilidade teórica de que, sob um conjunto excepcional de circunstâncias (guerra, derrota militar, colapso financeiro, ofensiva revolucionária das massas etc.), partidos pequeno-burgueses — incluindo os stalinistas — possam ser empurrados, apesar de si mesmos, para além do que desejam.”[21]
Essa hipótese se materializou no pós-guerra. A derrota do nazifascismo e o recuo de seus aliados a partir da batalha perdida em Stalingrado desencadearam mobilizações antifascistas e anticapitalistas em toda a Europa Oriental. Muitas delas surgiram inicialmente à revelia da burocracia soviética. Na Hungria, Alemanha, Tchecoslováquia e outros países, instalou-se um clima abertamente revolucionário. Comitês de fábrica, conselhos operários e milícias populares se formaram espontaneamente, assumindo a administração de cidades, meios de transporte, infraestrutura e produção — e esmagando setores fascistas remanescentes.
A derrota do fascismo deixou um vácuo de poder, enquanto os Estados imperialistas dos “Aliados”, que estavam enfraquecidos pela guerra e sob pressão da luta de classes interna, não conseguiram preenchê-lo imediatamente. A fundação de Estados operários, iniciada pela União Soviética a partir de 1948, nos quais a propriedade foi nacionalizada e a produção planejada, foi, por um lado, resultado de processos revolucionários, mas, por outro, também de sua nivelamento. Os órgãos do poder operário e do controle operário sobre a produção foram minados, destruídos e substituídos por órgãos burocráticos liderados por funcionários leais a Moscou. Trata-se de uma reação baseada na revolução, que trouxe progressos materiais para as massas — embora estes tenham sido fortemente inibidos pela política do stalinismo, como o desmantelamento em grande escala da indústria –, ao mesmo tempo em que elas foram mantidas afastadas do poder político.
Em contrapartida, assistiu-se à restauração do capitalismo na Europa Ocidental e em partes da Europa Meridional, sob o domínio dos EUA. Aqui, o papel contrarrevolucionário do stalinismo torna-se particularmente evidente. A política da burocracia soviética nessa época não consistia, de forma alguma, em abandonar o objetivo da coexistência pacífica com o imperialismo, mas sim em reestruturá-lo nas novas condições criadas pela guerra. Especialmente nas conferências de Teerã em 1943 e de Yalta e Potsdam em 1945, Stalin, os primeiros-ministros britânicos Churchill e Attlee e os presidentes americanos Roosevelt e Truman chegaram a um acordo sobre a divisão da Europa em zonas de influência. Antes do início da guerra, o imperialismo britânico havia apostado por muito tempo em um pacto com o fascismo alemão contra a União Soviética. Para ele e para o imperialismo americano, mesmo durante sua entrada na guerra, um objetivo central era a destruição da União Soviética — os aliados ocidentais hesitaram por muito tempo em abrir uma segunda frente, para que a Alemanha e a União Soviética se enfraquecessem mutuamente. Somente com a virada em Stalingrado e o avanço do Exército Vermelho eles se viram obrigados a intervir para não deixar a Europa nas mãos da União Soviética. O desenrolar da guerra, porém, os forçou a fazer concessões e aceitar o domínio soviético na Europa Oriental. Em contrapartida, o stalinismo garantiu que faria tudo ao seu alcance para bloquear os processos revolucionários nas zonas de influência reivindicadas pelos imperialistas ocidentais e orientar os partidos comunistas nacionais para a proteção da propriedade privada capitalista e a instauração de regimes burgueses.
Na França, o movimento da Resistência contra a ocupação fascista e o regime colaboracionista de Vichy, no qual o Partido Comunista Francês (PCF) desempenhou um papel de liderança, mobilizou milhões de pessoas. Após a libertação de Paris em agosto de 1944, prevaleceu uma situação de duplo poder: em várias regiões, comitês locais da Resistência controlavam a infraestrutura e o abastecimento de alimentos, e os trabalhadores ocuparam as fábricas. A burguesia e seus partidos tradicionais estavam amplamente desacreditados — em grande parte por terem colaborado com o fascismo. Os aparatos estatais haviam entrado em colapso e a classe trabalhadora teria a força organizacional e moral para transformar toda a sociedade sobre bases socialistas. Mas, em vez de aproveitar essa situação, o PCF, em consonância com o acordo firmado entre o stalinismo e o imperialismo, jogou na balança o grande prestígio que conquistara entre a classe trabalhadora por seu papel na resistência, a fim de desviar a energia revolucionária para uma reconciliação com a burguesia. Ela entrou no governo provisório liderado por Charles de Gaulle e participou do desarmamento dos maquis (combatentes partidários).
Na Grécia, a divisão da Europa com o imperialismo teve consequências fatais. Enquanto a ocupação alemã da Grécia entrava em colapso, principalmente devido à resistência em massa do ELAS-EAM (“Exército Popular de Libertação da Grécia”/“Frente de Libertação Nacional”), liderado pelo KKE (“Partido Comunista da Grécia”), Churchill e Stalin já haviam decidido em outubro de 1944, em Moscou, a futura divisão dos Balcãs — a Grécia deveria cair na esfera de influência britânica. O fato de o governo britânico ter mobilizado dezenas de milhares de soldados para a Grécia não suscitou qualquer protesto por parte de Moscou. O KKE seguiu a linha da “unidade nacional” com a burguesia, imposta por Stalin, e entrou no governo anticomunista liberal de Georgios Papandreou, instalado por Londres. No entanto, depois que ficou claro que Papandreou se recusaria categoricamente a realizar eleições livres e um referendo sobre a abolição da monarquia, o governo se desintegrou. Quando a ELAS-AM organizou uma manifestação desarmada contra o governo em 3 de dezembro, a polícia e o exército britânico reagiram com um massacre. Em consequência desse evento, eclodiu um conflito armado entre o governo, o exército britânico e milícias de extrema direita, de um lado, e a ELAS-EAM, do outro. O cessar-fogo, assinado em fevereiro de 1945, que incluía o desarmamento dos grupos de resistência, não levou ao fim dos assassinatos. Em vez disso, deu início a uma onda de terror branco contra os comunistas, que acabou por culminar numa guerra civil de três anos, da qual saiu vitoriosa a monarquia apoiada pelo imperialismo ocidental. A União Soviética, que não prestou qualquer apoio à resistência comunista e tolerou os crimes reacionários, contribuiu significativamente para a sua derrota.
Os exemplos da França e da Grécia — poderíamos citar alguns outros — confirmaram a constatação feita no documento fundacional da 4ª Internacional: “A crise histórica da humanidade é atribuível à crise da liderança revolucionária”[22]. Somente com a ajuda da política externa reacionária do stalinismo foi possível conter a enorme onda revolucionária após a derrota do fascismo. Ironicamente, o fortalecimento do imperialismo norte-americano, juntamente com a consolidação do capitalismo na Europa Ocidental e suas esferas de influência, para as quais a União Soviética havia contribuído decisivamente, logo se voltou contra a União Soviética com o início da Guerra Fria. Assim como o “socialismo em um só país”, a coexistência pacífica com o imperialismo acabou se revelando uma utopia. Segundo o KA, “os bolcheviques em torno de Stalin têm o mérito histórico [...] não apenas de defender uma revolução que permaneceu isolada por décadas, mas também de dar passos concretos na construção do socialismo nas condições mais difíceis”. Devemos responder que o stalinismo tem, acima de tudo, o mérito histórico de ter ajudado a criar condições que minaram internacionalmente os passos da construção socialista e acabaram por levar à perda de todas as conquistas da Revolução Russa e da economia planificada.
O KA acusa o trotskismo de praticar uma “fetichização de uma organização internacional” — mesmo quando a sua criação supostamente “não corresponde ao nível de desenvolvimento e às possibilidades das organizações membros individuais”. Essa crítica decorre de uma perspectiva que considera a revolução uma questão principalmente nacional, que faz do terreno nacional o ponto de partida da estratégia e, assim, dá continuidade à herança nefasta do stalinismo.
Mas, como Trotsky escreveu em sua crítica ao projeto de programa da Comintern de 1927: “Em nossa era, que é uma era de imperialismo, ou seja, de economia e política mundiais dominadas pelo capital financeiro, nenhuma seção nacional pode construir seu programa apenas, ou mesmo predominantemente, a partir das condições e tendências do desenvolvimento nacional”[23]. Essas palavras continuam válidas até hoje. Pelo contrário, as mudanças na situação mundial, mas também os fenômenos recentes da luta dos trabalhadores e da juventude, mostram que nenhuma das questões decisivas de nosso tempo pode ser explicada, muito menos resolvida, em escala nacional. A tarefa que temos pela frente é grande; para vencê-la, é necessário livrar-se do fardo do stalinismo, que causou algumas das derrotas mais graves da classe trabalhadora no passado, e retomar as melhores tradições do marxismo revolucionário — incluindo o internacionalismo intransigente. A organização internacional está longe de ser uma adesão dogmática a princípios ultrapassados, como sugere a KA, mas é uma ferramenta poderosa na luta por uma sociedade socialista, mais atual do que nunca.