Arde Paris e ilumina o mundo
Foto: Martin Barzilai
Texto originalmente publicado em espanhol no dia 19/10/2026 no La Izquierda Diario Argentina
Os ecos da Marselhesa e da Internacional percorrem a Europa. Em nome do “Ocidente”, a extrema direita internacional pede repressão e expulsão em massa de imigrantes. Mas a França insurreta mostra um caminho aos explorados e oprimidos de todo o mundo.
“As revoluções são a respiração da história”, escreveu Enzo Traverso há poucos anos. Ele tinha razão. Embora a França ainda não esteja vivendo uma revolução, ali, entre a fumaça das barricadas e os gases lacrimogêneos, o ar entra em nossos pulmões. Inspiramos e expiramos depois de sufocarmos na decadência infinita do capitalismo. Depois de prendermos a respiração diante da imagem aterradora de milhares (e milhares) de imigrantes perecendo no oceano. Depois de engasgarmos em lágrimas e fúria diante das imagens de uma Gaza arrasada pelas bombas sionistas.
Entre as barricadas de Paris... respiramos.
Desconcertada e impotente, a extrema direita esbraveja contra a “violência” nas ruas da França. Por estas bandas, o centro de trolls mileísta trabalha (“trabalha”) dia e noite com acusações contra “o Islã e a invasão muçulmana”. Em nome do Ocidente, pede-se bala e repressão.
Puro anacronismo. Reação cultural. Cabeças de vento... sem querer ofender os idiotas.
A metáfora sempre teve um viés eurocêntrico e racista. Enorme, poderosa e criativa, a China se erguia às margens do Mar Amarelo muito antes de as chamadas culturas ocidentais sequer começarem a engatinhar. Exaltando o imperialismo europeu e norte-americano, “Ocidente” foi a marca do colonialismo explícito, da pilhagem, do roubo descarado de bens e riquezas de outros povos do mundo.
A França praticou esse “ocidentalismo” durante séculos. No norte da América e no Caribe; no sudeste asiático e em metade da África. Aquele “Oriente” colonizado chegou ao país gaulês em intensas ondas migratórias. Desembarcou no país que, em nome da civilização, lhe impunha ditadores, normas e línguas. Entrou no Ocidente porque este o havia escravizado antes.
Essa França, filha da imigração, ocupa as barricadas. A rebelião — como disse nosso companheiro Alexis Durey — transpira anticolonialismo. Exala o ódio de gerações contra esse Estado imperialista que, além de lhes dedicar desprezo, condena-as à ausência de futuro.
Por mais que isso desagrade ao débil mental do Gordo Dan, não é “o Islã”. A bela rebeldia juvenil fala em nome de quase toda a França.
Os filhos da elite se amotinam — eles que, mesmo ocupando as salas de aula da Sciences Po Paris ou da École Normale Supérieure (ENS), sabem que o futuro é uma mentira. Os professores se rebelam, rejeitando o ajuste fiscal que escolhe os mísseis em detrimento das salas de aula. A França operária e popular se insurge, incapaz de colocar gasolina no carro para ir trabalhar. Ergue-se a França endividada, escrava de juros punitivos que destroem sua economia.
Esses ecos da Marselhesa e da Internacional já respingam no velho continente. Paris, cidade luz, arde e ilumina a Europa. A rebelião chega a Lisboa e Milão; a Bruxelas e Tirana. Irradia-se pelo mundo inteiro, despertando a fúria dos conservadores e reacionários.
Ainda não é aquela gloriosa Primavera dos Povos de 1848. Um ator fundamental apenas começa a movimentar os músculos. E romper a velha ordem imperial, cada dia mais belicista, exige toda a sua força. Esse poder social com que a França proletária paralisou o país nas greves gerais de 2023. Essa potência do proletariado portuário que, ao grito de Blocchiamo tutto, paralisou o envio de armas a Israel em Ravena, Livorno e Taranto.
“A barricada fecha a rua, mas abre o caminho”, escreveu a juventude francesa de 1968 nos muros daquela outra Paris, também insubmissa. As barricadas do presente, erguidas a poucos metros da Champs-Élysées, abrem caminho para esse poder social. Que ele possa se manifestar em toda a sua potência dependerá de inúmeros fatores. Um deles, central, é superar os limites impostos por burocracias de todos os tipos.
Silvio Rodríguez cantou: “É preciso queimar o céu, se necessário, para viver”. A seu modo, a França insurreta parafraseia esses versos, queimando este mundo decadente. Porque, dessas cinzas, germinará o futuro.