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Bolha das IAs: rumo a uma nova crise “ponto com”?

19.10.2025

Parte da edição: 19.10.2025

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Há alguns anos, ouvimos o discurso da revolução tecnológica em curso. Lembremos do já clássico A Quarta Revolução Industrial (2016), de Klaus Schwab, que anunciava um mundo novo a partir do desenvolvimento de tecnologias disruptivas em curso que, dentre outras coisas, automatizariam a produção e acabariam com boa parte dos postos de trabalho: uma nova tese do “fim do trabalho”. Não é preciso dizer o quanto essa premonição estava equivocada. As novas tecnologias da quarta revolução industrial, dentro da manufatura, aumentaram, não a automação, mas o controle e o ritmo de trabalho dos trabalhadores e a taxa de extração de mais-valia. Nos serviços, produziram uma massa de trabalhadores algoritmizados e superexplorados pelas plataformas.

O livro de Schwab, mais propaganda do que realidade, era parte da política do imperialismo alemão de apresentar uma possível alternativa à crise de sobreacumulação do capital, a partir da aposta em novas tecnologias que poderiam aumentar a produtividade do trabalho. Essa crise de sobreacumulação se iniciou nos anos 1970, com o fim do boom do pós-guerra, e teve o neoliberalismo como uma forma de mitigar seus efeitos, o que jogou o mundo, de forma desigual, em uma baixa e decrescente (mas constante e relativamente estável) taxa de crescimento ao longo das últimas décadas. Com a grande crise de 2008, o modelo neoliberal foi golpeado e a tendência à estagnação mundial segue sem soluções aparentes, a não ser o crescente belicismo e suas promessas de destruição massiva de capital.

Como aponta Gabriel Fardin, apesar de as tecnologias da Indústria 4.0 implementadas na manufatura — em particular nas grandes montadoras — impulsionarem algum grau de aumento na produtividade do trabalho (principalmente reduzindo o tempo ocioso, os “poros” do trabalho produtivo), existe um problema de realização do capital, de mercados para comprar os produtos fabricados de forma mais eficiente. A tão almejada lucratividade, fundamento do capitalismo e objeto de desejo da burguesia, se mantém com debilidades de expansão no setor produtivo, o que desestimula o investimento na expanção do uso das novas tecnologias da Indústria 4.0 no mundo fabril. Como consequência, infla-se ainda mais o processo de financeirização (tendência que cresce aceleradamente desde os anos 1990), ou seja, a busca de lucros pelo investimento especulativo nos mercados financeiros, sem lastro no setor produtivo.

É neste cenário, em que o capital se vê incapaz de solucionar as contradições abertas pela crise de 2008 e órfão de novos nichos de investimento que prometam permitir sua reprodução ampliada, que vimos surgir há três anos o ChatGPT e as novas IAs de linguagem generativa. Sua alta capacidade de produção de textos e resolução de tarefas a partir de bancos de dados impressionou a todos e tornou sua ascensão meteórica. Só o ChatGPT, hoje, possui 500 milhões de usuários ativos semanais. Promessas irreais foram feitas e propagandeadas sobre o potencial disruptivo e as possibilidades de aumento de produtividade a partir dessas novas IAs, em particular no setor de serviços e no trabalho “de colarinho branco”. Com isso, a tese do “fim do trabalho 2.0” ganhou nova força — desconsiderando a enorme massa de trabalho precário ao redor do mundo que alimenta os bancos de dados e treina os algoritmos, como demonstra o artigo de Fardin. As IAs tornaram-se, assim, o novo nicho de investimento e aposta de lucratividade em um mundo de crescimento estagnado.

Desde então, vimos uma quantidade surreal de investimentos serem feitos nesse setor. Segundo artigo recente do economista marxista Michael Roberts, somente a Meta, Amazon, Microsoft, Google e Tesla terão gastado US$ 560 bilhões em dois anos, até o fim deste ano. O investimento total planejado até o final da década será de US$ 1 trilhão. As ações das “sete magníficas” — NVIDIA, Microsoft, Alphabet (Google), Apple, Meta, Tesla e Amazon — representam hoje 35% do valor do mercado acionário nos EUA. Boa parte desse investimento se dá na construção desenfreada de data centers (com grande concentração no norte da Virgínia, nos EUA, mas com crescente offshoring também).

O desempenho real das IAs

A formação de uma bolha financeira no setor de IAs já não é uma especulação de páginas de internet especializadas no mercado financeiro. Os CEOs de algumas das principais empresas relacionadas às IAs recentemente admitiram a realidade da bolha, como é o caso de Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta) e Sam Altman (OpenAI).

Os indicativos de que há uma bolha são os baixos retornos financeiros vindos desse monstruoso investimento acelerado de capital. Como indicado no artigo já citado de Roberts, apenas a Amazon pretende investir o montante de US$ 105 bilhões em capital este ano, mas obterá receitas de somente US$ 5 bilhões. Hoje, o investimento total em IA soma US$ 332 bilhões, mas as receitas totais deste ano serão de apenas US$ 28,7 bilhões — um descompasso gritante.

“Os retornos esperados de receita sobre esse enorme investimento de capital se materializarão com alta probabilidade? O chefe de pesquisa sobre o mercado acionário da Goldman Sachs, Jim Covello, fez essa pergunta: será que as empresas que planejam investir US$ 1 trilhão na construção de IA generativa verão algum dia os retornos desses investimentos? Ao mesmo tempo, um sócio da empresa de capital de risco Sequoia estimou que as empresas de tecnologia precisariam gerar US$ 600 bilhões em receita extra para justificar seus gastos extras de capital somente em 2024 – cerca de seis vezes mais do que provavelmente poderão obter.”

O modelo de negócios do ChatGPT, por exemplo, tem supostamente 500 milhões de usuários ativos semanais, mas apenas 15,5 milhões são assinantes pagantes. “Os resultados anuais de crescimento dos lucros das big techs têm se mantido estáveis ou em desaceleração nos últimos trimestres, podendo desacelerar ainda mais em 2025 e 2026.”

Outros fatores, para além dos preocupantes baixos retornos de rendimento, indicam a existência da bolha, como a decrescente capacidade de inovação no setor, o que aponta limites na capacidade disruptiva das novas tecnologias de IA. Segundo o analista Julien Garran, “o ChatGPT-3 custou 50 milhões de dólares, o ChatGPT-4 custou 500 milhões e o ChatGPT-5, com custo de 5 bilhões de dólares, foi adiado e, quando lançado, não apresentou melhora perceptível em relação à versão anterior”. Em artigo para a jacobin, Abe Asher cita comentário de Aaron Benanav (autor de Automação e o Futuro do Trabalho, recém-lançado em português pela Boitempo), em que diz que:

"A quantidade de dinheiro necessária para produzir um novo modelo está crescendo muito rapidamente, e os ganhos estão diminuindo. O ChatGPT-5 realmente não é melhor que o ChatGPT-4.5. Praticamente não há diferença em termos de capacidades. O CEO da Microsoft e outros disseram que a produtividade deveria estar crescendo rapidamente com essas tecnologias — e deveria mesmo: eles estão gastando tanto dinheiro que os retornos econômicos precisariam ser enormes — mas isso simplesmente não está acontecendo.”

Recentemente, o reconhecido MIT (Massachusetts Institute of Technology) publicou um relatório em que conclui que 95% das tentativas de implementação de IA nas corporações têm fracassado. Como aponta David Moscrop, em artigo para a Jacobin, “as implementações estão falhando em gerar retorno porque ferramentas genéricas de IA, como o ChatGPT, não se adaptam aos fluxos de trabalho já estabelecidos no ambiente corporativo”. Um exemplo desse tipo de dificuldade é dado por Roberts:

“Uma pesquisa com mais de 7.000 trabalhadores do conhecimento descobriu que usuários pesados de inteligência artificial generativa reduziram as tarefas semanais de e-mail em 3,6 horas (31%), enquanto o trabalho colaborativo permaneceu inalterado. Mas, uma vez que todos delegaram respostas de e-mail ao ChatGPT, o volume da caixa de entrada se expandiu, anulando os ganhos iniciais de eficiência.”

Como resultado, a Meta anunciou, no final de agosto, o congelamento de contratações para sua operação de inteligência artificial, alegando a necessidade de desenvolver “planejamento organizacional básico: criando uma estrutura sólida para novos esforços de superinteligência após a contratação de pessoal e os exercícios anuais de orçamento e planejamento”. A Scale AI, empresa na qual a controladora do Facebook investiu mais de US$ 14 bilhões, está demitindo 14% de sua equipe. O movimento indica um recuo estratégico diante da realidade atual do desempenho das IAs e, talvez, o início do esvaziamento da bolha.

Os alertas mais recentes sobre os riscos de uma crise financeira pela explosão da bolha foram dados por gigantes do setor financeiro, como Kristalina Georgieva, diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, e o Banco da Inglaterra.

Rumo a uma nova crise “ponto com”?

A imprensa tem comparado a atual bolha com bolhas especulativas anteriores, como a bolha das ferrovias no século XIX e, principalmente, com a bolha das “ponto com” no final dos anos 1990. Argumenta-se que toda tecnologia disruptiva é acompanhada de um efervescente otimismo e consequente bolha que termina em crise financeira. Ainda assim, o fenômeno é apresentado como positivo, pois é através desse surto especulativo que se amplia, em larga escala, a infraestrutura para o uso generalizado das novas tecnologias. Após a crise das ferrovias, a malha ferroviária construída foi utilizada por décadas, o que possibilitou a generalização do transporte ferroviário. Foi a infraestrutura criada durante o surto especulativo das TIC, como seus cabos oceânicos de fibra ótica, que permitiu a generalização do uso da internet. Teoricamente, o mesmo acontecerá com a bolha das IAs: mesmo que exploda, a construção desenfreada de data centers permitirá a generalização do uso das IAs.

Indo além do otimismo diante do risco de catástrofe apresentado pela imprensa, é preciso colocar os pingos nos is. Apesar da aparente semelhança fenomênica, essas bolhas são distintas entre si, em particular no que diz respeito ao período histórico em que ocorreram. A bolha das ferrovias ocorreu em um período de expansão do capitalismo e, por isso, a explosão da bolha foi seguida de um surto de desenvolvimento econômico. Já a bolha das “ponto com” ocorreu no auge do neoliberalismo e, ao contrário de ser seguida de surtos de crescimento econômico, a resolução da crise se deu de forma parcial e apenas criou novas contradições (como a expansão ainda maior da financeirização e o surto no investimento imobiliário) que culminariam na grande crise de 2008.

A atual bolha (17 vezes maior que a das “ponto com” e quatro vezes maior do que a das subprime, em 2007) ocorre em um contexto de estagnação econômica, fruto da crise de 2008, que teve como consequência crises políticas nacionais, novas tensões geopolíticas (em particular com a ascensão da China como contendor da hegemonia norte-americana), desagregação das cadeias de valor constituídas durante a globalização (com a pandemia e o “tarifaço”) e a crescente escalada do belicismo internacional. Nos EUA, o investimento em despesas de capital vinculado às IAs corresponde hoje a quase 40% do já baixo crescimento do PIB, o que demonstra a estagnação do restante da economia (segundo Michael Roberts, sem o investimento em IA, a economia estaria em recessão).

A aposta de investimento nas IAs diz respeito à possibilidade de ganhos significativos de produtividade do trabalho. Por ora, como já demonstrado pelo relatório do MIT, as IAs não têm conseguido aumentar significativamente a produtividade. Nisso, vêm apresentando um comportamento semelhante ao da bolha das “ponto com”, pois, apesar de alguns ganhos localizados e de curta duração em produtividade (como nos EUA), as TIC não foram capazes de reverter a tendência decrescente de crescimento da produtividade do trabalho que segue desde os anos 1970.

Uma diferença significativa entre as bolhas diz respeito ao tipo de infraestrutura criada. Enquanto as ferrovias e os cabos oceânicos de fibra ótica tinham uma durabilidade de décadas, os data centers — infraestrutura das IAs e grande parte do custo envolvido em seu desenvolvimento — são compostos basicamente por CPUs, que representam 60% de seu custo. Não à toa, a NVIDIA, fabricante de chips de alto desempenho para IAs, alcançou, em julho deste ano, o valor de mercado de US$ 4 trilhões — uma marca histórica. A questão é que a durabilidade dos CPUs é de até três anos e meio. Isso significa que novos investimentos massivos em infraestrutura (em capital fixo) precisam ser refeitos em períodos de tempo muito curtos.

Isso levanta outra questão: o problema ambiental. Em si mesmos, os data centers são enormes devoradores de água (para resfriamento dos CPUs) e de energia elétrica, com casos já existentes de drenagem do lençol freático de certas regiões (como o norte da Virgínia) e aumento do custo de energia, além de existirem projetos nada ecológicos de novas usinas de energia nuclear para suprir a demanda. Somado a isso, a perecibilidade dos GPUs exige um nível enorme e constante de extrativismo mineral (em particular de metais de terras raras), em meio a uma crise ambiental global crescente. No mínimo, nada sustentável.

A explosão da bolha e suas respostas

As crises econômicas são enormes oportunidades para setores da burguesia: os capitalistas com menos força quebram, e o capital se concentra nas mãos de alguns poucos monopólios. Tanto isso é verdade que atuais gigantes da tecnologia (Meta, Microsoft, etc.) são produtos da crise das “ponto com”. Os representantes do capital sabem disso e, por isso, não farão nada para impedir o atual devir econômico. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, quando admitiu recentemente a possibilidade de existência de bolha, disse que o maior risco não seria gastar mal alguns bilhões de dólares, mas ficar para trás na corrida tecnológica. Além disso, a corrida tecnológica para o desenvolvimento das IAs passou a ser política de Estado na competição entre EUA e China.

Não se sabe ao certo quando a bolha vai estourar. Pode ser daqui a seis meses ou dois anos, como preconiza Jamie Dimon, da JPMorgan. Também não é claro, no atual estado convulsivo do mundo, quais serão suas consequências nem sua magnitude. O que é garantido é que o capital se concentrará em menos mãos, e a grande burguesia tentará empurrar suas consequências mais nefastas — como o aumento do desemprego, da precarização e da miséria — para a classe trabalhadora e o povo pobre. Seguramente, novos processos de luta de classes emergirão, e é aí que devemos depositar nossas esperanças.