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Cidade negra, cólera vermelha. Sobre a Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros de Detroit

16.04.2026

Artigo publicado originalmente em francês Revolucion Permanete no dia 11/04/2026

Enquanto os habitantes de Minneapolis infligiram uma primeira derrota a Trump no terreno da luta de classes, fazendo o ICE recuar por meio da greve, da auto-organização e de uma mobilização constante, a luta de Minnesota ecoa outra experiência oriunda da longa história estadunidense que pode nos servir de escola: a Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros (League of Revolutionary Black Workers) de Detroit.

Desde as últimas eleições municipais, uma ofensiva negrofóbica de grande escala tem como alvo vários prefeitos racializados, especialmente Bally Bagayoko, eleito sob a legenda da LFI em Saint-Denis-Pierrefitte. Nesse contexto marcado pela difusão sem precedentes de ideias racistas, novas ofensivas islamofóbicas estão sendo preparadas, da lei Yadan — que será debatida em breve na Assembleia — ao anúncio de uma nova lei de “separatismo”, em uma situação internacional convulsiva marcada por ataques exacerbados contra trabalhadores estrangeiros no Reino Unido, na França e nos Estados Unidos.

Diante dessa situação, um grande ato antirracista ocorreu no sábado, 4 de abril, em frente à prefeitura de Saint-Denis. Um sucesso político que constitui um ponto de apoio importante na conjuntura atual, ao mesmo tempo em que levanta a questão da estratégia capaz de organizar uma resposta de envergadura contra os ataques racistas em curso e em preparação. Enquanto os habitantes de Minneapolis infligiram uma primeira derrota a Trump no terreno da luta de classes, fazendo o ICE recuar por meio da greve, da auto-organização e de uma mobilização constante, a luta de Minnesota ecoa outra experiência da longa história estadunidense da luta de classes que pode nos servir de escola: a Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros de Detroit.

Em condições de luta extremamente difíceis — marcadas pela violência desenfreada dos aparelhos repressivos contra a New Left e o movimento negro radical, pela ascensão de grupos neofascistas e supremacistas e pela quase total paralisação do movimento operário devido ao alinhamento de suas burocracias à ordem racial e às guerras imperialistas de Washington —, um pequeno grupo de intelectuais e operários da indústria automobilística de Detroit criou uma organização operária revolucionária que se apoiava em três pilares estratégicos: o uso do arsenal de métodos da luta de classes para responder à radicalidade do Estado e do patronato racistas; a recusa em ceder qualquer coisa às burocracias sindicais e ao Partido Democrata; e a vontade de transformar toda a cidade de Detroit, para além das fábricas, em um bastião operário na luta de classes.

O duplo rosto de Detroit

As raízes da Liga e de seu jornal, o Inner City Voice (ICV), são inseparáveis da história de Detroit, coração da indústria automobilística nos Estados Unidos. Ao longo de sua história, a cidade foi abalada por violentos motins raciais, como em 1833, 1863 e 1943, e pelo surgimento de grupos fascistas, como a Legião Negra, uma cisão radical da Ku Klux Klan — que, por sua vez, quase venceu as eleições municipais de 1924 —, que promoviam pogroms contra comunidades afro-americanas, judeus e militantes sindicais ou comunistas. [1]

Os ataques das milícias supremacistas ligadas aos grandes industriais da cidade e a chegada em massa de trabalhadores negros durante a Segunda Guerra Mundial, em uma cidade que sofria com a escassez de mão de obra, suscitaram, em contrapartida, o surgimento de uma forte tradição de luta, que se radicalizou progressivamente, até romper com os limites do Partido Democrata. A trajetória dos fundadores do ICV e da Liga é reveladora: eles se politizaram em grupos militantes impulsionados pelo grande intelectual afro-caribenho C.L.R. James e em grupos de estudo dedicados a O Capital, animados por Martin Glaberman, enquanto a cidade contava com diversos grupos militantes (do Revolutionary Action Movement, de orientação marxista-leninista, ao URUHU) e uma importante seção do Socialist Workers Party (SWP), de orientação trotskista — frequentado por John Watson (futuro editor-chefe do ICV). A cidade também contava com importantes figuras operárias intelectuais, como James e Grace Lee Boggs, que propunham uma leitura marxista da opressão racial, especialmente em The American Revolution, publicado em 1963 [2].

James Boggs, que escrevia regularmente no ICV, desenvolvia ali uma crítica à submissão do aparato sindical ao patronato, ao mesmo tempo em que considerava que a possibilidade de construir o socialismo nos Estados Unidos nunca fora tão grande, devido ao nível das forças produtivas e à automação. Ao mesmo tempo, ele avaliava que esse processo selava a morte da classe operária e deslocava a luta para fora da fábrica, em direção às massas desempregadas e à vanguarda do proletariado negro. Em outra obra, Racism and the Class Struggle, publicada em 1970, no auge da Liga, Boggs refinou sua análise [3]. Ele argumentava que, longe de produzir um desemprego de massa homogêneo, a automação atingia sobretudo a classe operária negra, primeira vítima da desqualificação do trabalho automatizado. Para ele, a formação de uma classe operária negra, submetida a um processo de “superexploração” e confinada aos postos mais degradantes da divisão do trabalho, constituía um mecanismo de compensação capaz de atenuar a contradição entre o proletariado branco e o patronato [4], justificando assim uma estratégia separatista [5].

Se os membros do ICV se opunham a qualquer questionamento da centralidade da luta de classes na esfera da produção e sustentavam uma posição muito mais nuançada sobre o proletariado branco, essa tradição de luta e a situação explosiva nos Estados Unidos acabariam catalisando o surgimento do jornal e depois da Liga. Como resumiu John Watson em um número da revista Radical America, em 1968:

Não somos a favor nem de um capitalismo integrado nem de um capitalismo segregado. Também não somos favoráveis a um Estado separado baseado nas mesmas linhas de classe desta sociedade. Somos contrários a um Estado separado no qual uma classe capitalista negra exploraria um proletariado negro. […] Estudamos a história dos bolcheviques russos e descobrimos um panfleto de Lênin intitulado “Por onde começar?”, escrito em 1903, antes de ele redigir Que fazer?, no qual descrevia o papel que um jornal poderia desempenhar. Um jornal constituía o centro de uma organização permanente. […] Ele estabelece o tipo de divisão do trabalho necessário não apenas à existência do jornal, mas também à de uma organização revolucionária. [6]

A luta de classes contra a opressão racial

Na esteira da emergência da New Left e da radicalização do movimento negro radical, as grandes revoltas de 1967 em Detroit e Newark dariam ao pequeno grupo o impulso para criar esse jornal leninista, cujo primeiro número foi publicado em outubro:

“Durante a rebelião de julho, demos uma surra na estrutura do poder branco, mas aparentemente nossa mensagem não foi compreendida… Continuamos trabalhando, continuamos trabalhando demais, somos pagos muito pouco, vivemos em moradias insalubres, enviamos nossos filhos para escolas de segunda categoria, pagamos caro demais pela comida e somos tratados como cães pela polícia. Ainda não possuímos nada e ainda não controlamos nada… Em outras palavras, continuamos sendo sistematicamente explorados pelo sistema e continuamos tendo a responsabilidade de quebrar a espinha desse sistema.” [7]

Articulando a luta pela autodeterminação do povo negro com a luta pelo socialismo, os militantes do ICV consideravam que somente a luta de classes poderia alterar a correlação de forças, em oposição às estratégias populistas defendidas por outras organizações, como o Black Panther Party (BPP), ou às estratégias institucionais do movimento pelos direitos civis. Como resume Maxwell Stanford, com base em entrevistas com Georges Baker, dirigente da atividade operária da Liga, “a LRBW considerava que o BPP se engajava em atividades aventureiras fadadas ao fracasso, baseadas numa orientação romântica em relação ao lumpemproletariado, em vez de uma orientação mais realista voltada aos trabalhadores [8].”

Para a Liga, as populações excluídas da esfera do trabalho deveriam evidentemente ser organizadas, mas em ligação muito estreita com os trabalhadores. Em um comício contra a repressão, em 30 de janeiro de 1970, Kenneth Cockrel, advogado revolucionário da Liga, afirmava:

“O ponto de maior vulnerabilidade situa-se no nível da produção, na infraestrutura econômica do sistema. Dizemos que é lógico organizar os trabalhadores dentro das fábricas para provocar a máxima desorganização e a máxima paralisação do funcionamento do sistema capitalista-imperialista. Afirmamos que todas as pessoas que não possuem, não governam e não se beneficiam das decisões tomadas por aqueles que possuem e governam são trabalhadores.” [9]

Essa prática leninista do jornal e a convicção de que a luta antirracista só poderia ser conduzida pela luta de classes incentivaram a formação do primeiro grupo operário da organização, o DRUM (Dodge Revolutionary Union Movement), na fábrica Dodge Main, pertencente à Chrysler. Na primavera de 1968, Georges Baker começou a formar uma célula operária. Após algumas semanas de existência, a pequena organização desencadeou uma primeira greve selvagem, em 2 de maio: entre 3.000 e 4.000 trabalhadores recusaram-se a trabalhar, paralisando a produção pela primeira vez em quatorze anos.

Automação e burocracias sindicais

Em seus panfletos, o DRUM exigia o fim da intensificação dos ritmos de trabalho, a contratação de trabalhadores negros, bem como a formação de um comitê operário encarregado de combater o racismo e de fiscalizar a direção [10]. No contexto de Detroit, as reivindicações relativas às condições de trabalho tinham, desde o início, um caráter antirracista.

Enquanto o patronato se vangloriava de suas técnicas de automação (automation), os trabalhadores negros falavam ironicamente em “niggermation”. Em plena crise da indústria automobilística, o patronato preferia aumentar seus lucros em vez de investir. Apenas algumas linhas eram totalmente automatizadas, o que provocava uma aceleração vertiginosa dos ritmos de trabalho no restante da fábrica: uma expansão massiva da extração de mais-valia relativa e da velocidade do trabalho em linha de montagem, imposta pela subordinação racial dos trabalhadores negros, que ocupavam os postos mais difíceis.

Como constatava um relatório oficial publicado em 1973, cerca de 65 operários morriam por dia nas fábricas automobilísticas dos Estados Unidos — ou seja, 16.000 trabalhadores por ano —, um número superior às perdas anuais dos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã, em qualquer ano considerado.

Essa mais-valia relativa vinha acompanhada de uma extensão absoluta do tempo de trabalho, imposta pelas burocracias sindicais como a UAW (United Auto Workers), muito poderosa em Detroit e ligada ao aparato do Partido Democrata e à polícia local, que havia aceitado o princípio das horas extras obrigatórias.

De fato, no contexto do New Deal, o aparato sindical apresentava um grau de estatização sem precedentes, encerrando a classe trabalhadora nesse “inferno unidimensional” descrito por Marcuse [11]. Um verdadeiro sistema de troca (“dando e recebendo”) havia se imposto, como resumiu a Liga em um panfleto distribuído em outubro de 1970:

“Mais do que enfrentar uma burocracia oportunista, a classe trabalhadora enfrenta a transformação da própria instituição sindical em um componente do aparato patronal. O contrato sagrado, outrora visto como o registro das conquistas operárias, tornou-se o registro escrito de sua subordinação ao poder do capital. O sistema de antiguidade, antes uma proteção contra o favoritismo e as demissões arbitrárias, foi adaptado para dar força legal ao monopólio dos homens brancos sobre os melhores empregos. O sistema automático de cobrança de contribuições libertou completamente o sindicato de qualquer dependência em relação aos seus membros. As enormes tesourarias, originalmente concebidas como reservas de munição para a guerra de classes, arrastaram os sindicatos para negócios bancários, imobiliários e de seguros. […] Nesse cenário devastado das esperanças desviadas do movimento operário, de onde poderia vir a redenção, senão daqueles cujos interesses foram, a cada momento, sacrificados para que outro grupo, mais favorecido, pudesse fazer sua paz com os dominantes? De onde, senão dos trabalhadores negros dos infernos da produção automobilística da cidade de Detroit?” [12]

À conquista da cidade: fazer de Detroit um bastião de classe

Em apenas alguns meses de existência, o DRUM da fábrica da Dodge havia impulsionado a criação de outros grupos operários, na fábrica de Eldon, mas também na fábrica da Ford em River Rouge (FRUM), no complexo da Chrysler na Jefferson Avenue (JARUM) e em outras fábricas. A unificação desses diferentes grupos selou o nascimento oficial da Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros em junho de 1969. Mas a radicalidade estratégica encontrou eco muito além das fábricas, a ponto de se tornar um pilar da vida política de Detroit.

No verão de 1968, os militantes do DRUM conseguiram assumir o controle total do jornal da Universidade Wayne, no coração de Detroit, revertendo as eleições do comitê editorial. Graças ao financiamento da universidade, John Watson rapidamente transformou o jornal estudantil em um veículo vendido por toda a cidade. Em 26 de setembro de 1968, o jornal, agora nas mãos dos revolucionários, publicou seu primeiro editorial: “O South End retorna a Wayne com a intenção de defender os interesses das vítimas empobrecidas, oprimidas, exploradas e privadas de poder do capitalismo monopolista branco e racista, bem como do imperialismo… Empregaremos métodos duros… Nossos únicos inimigos serão aqueles que procuram empobrecer ainda mais os pobres, explorar os explorados e lucrar com a impotência dos sem poder [13].” Em poucos meses, o jornal tornou-se a tribuna local de todas as lutas de Detroit. Por meio dele, os militantes conseguiram consolidar sua inserção na universidade e entre a juventude da cidade, mas também no setor educacional.

Entre 1969 e 1970, a Liga travou uma ampla batalha contra a descentralização da administração das escolas, organizando uma frente ampla com mais de 70 organizações. Dentro dessa frente, a Liga desenvolveu uma organização mais coesa, Parents and Students for Community Control (PASCC), que reivindicava o “controle total das escolas pelos estudantes e pelos moradores dos bairros populares”, nos moldes do controle operário. Em seu auge, essa organização — à qual o governo e os Democratas se opunham frontalmente — estava implantada em vinte e duas escolas de ensino médio. Embora não tenha conquistado vitórias concretas, permitiu à Liga formar uma organização juvenil, o Black Student United Front [14]. Essa inserção na cidade revelou-se central para resistir à repressão: durante as greves selvagens, os piquetes eram mantidos por estudantes e moradores, enquanto os grevistas fingiam não poder entrar na fábrica. Ainda que perdessem seus salários, essa tática servia para protegê-los de demissões e processos disciplinares.

Cockrel explicava a essência dessa estratégia hegemônica: “A situação no próprio local de produção é tal que o tipo de controle, o tipo de disciplina política necessário para que a luta avance não me parece poder se desenvolver no ponto de produção de forma independente, sem uma interação com outras lutas no seio da comunidade e sem contribuições mais amplas, mais conscientes do ponto de vista de classe, mais programáticas [15]”. Advogado de formação, foi nesse espírito que ele desenvolveu, ao lado de alguns colegas da Liga, uma prática revolucionária do direito. Sua defesa mais emblemática é certamente a de James Johnson, um operário assediado da fábrica de Eldon que havia matado dois colegas e um gerente, após uma intensificação brutal do ritmo de trabalho, repetidos acidentes fatais, uma onda de repressão sindical na fábrica e uma mudança de posto imposta. Cockrel lutou com determinação para que Johnson fosse julgado por um júri composto majoritariamente por trabalhadores negros e organizou uma visita ao local da fábrica. Ele conseguiu sua absolvição ao inverter o julgamento contra a Chrysler e colocar no centro da defesa as condições infernais de trabalho na fábrica.

O grupo também tinha um ambicioso programa cultural. Sob a liderança de John Watson, a Liga produziu um documentário operário, Finally Got the News, centrado na vida nas fábricas da cidade e na atividade da organização. Rapidamente, sua agenda cultural tornou-se desmedida: Watson cogitou filmar um longa sobre Rosa Luxemburg, com Jane Fonda no papel principal, ao mesmo tempo em que a organização lançava um clube de leitura destinado a estabelecer pontes com as classes populares brancas e arrecadar fundos para as atividades do partido. Já nas primeiras sessões, as confirmações de presença, recebidas por correio, podiam facilmente alcançar várias centenas de pessoas.

Mas a intensa atividade da Liga logo expôs suas fragilidades e precipitou sua implosão. Ao multiplicar frentes de atuação, o pequeno comitê executivo rapidamente se viu em situação de sobrecarga, enquanto a organização crescia sem dispor de quadros suficientes. Enquanto a direção operária constatava um claro recuo na inserção da organização nas fábricas e defendia a necessidade de recuar para consolidar suas posições, outros membros da direção projetavam transformar a Liga em uma organização nacional, o Black Worker Congress (BWC).

A cisão de 1971 e as duas vias da libertação negra

A tensão entre essas duas orientações logo levaria a organização à cisão. Em 12 de junho de 1971, uma parte da direção e da organização — liderada por James Watson, Kenneth Cockrel e Mike Hamlin — demitiu-se da Liga para se juntar ao BWC, cuja existência seria breve. O que restou da organização, em torno da ala operária da direção liderada por Georges Baker, filiou-se à Liga Comunista, cujo sectarismo rapidamente sufocaria as práticas inventivas da Liga em favor de um militância estéril e dogmática.

Mas, para além das divergências táticas, a cisão foi provocada por uma questão estratégica mais profunda e não resolvida: que forma deveria assumir a luta de libertação negra e qual deveria ser a relação entre a organização e os trabalhadores brancos, que a Liga se recusava a integrar e, por vezes, até a organizar nos locais de trabalho. Para Cockrel, Hamlin e Watson, a questão fundamental era o socialismo. Em um panfleto polêmico que retomava as divergências estratégicas na origem da cisão, eles afirmavam que

“a contradição fundamental, tanto em escala mundial quanto nos Estados Unidos, é a do capital e do trabalho, ainda que seja necessário reconhecer que o sistema racial de castas da sociedade estadunidense confere uma dimensão nacional à opressão dos negros nos Estados Unidos. Em consequência, consideramos que, dentre todas as forças que compõem o proletariado estadunidense, a classe trabalhadora negra, em razão de sua opressão particularmente aguda e de sua história de luta encarniçada contra essa opressão, constitui a vanguarda objetiva de um processo dirigido pelo proletariado que visa destruir o imperialismo e construir o socialismo [16].”

A outra ala se reivindicava mais explicitamente do nacionalismo negro, ao mesmo tempo em que considerava que a autodeterminação só poderia ser realizada com base na luta de classes:

“Alguns de nós entenderam que a forma [de luta] que o povo negro havia adotado levava necessariamente à independência nacional. Reconhecíamos que se tratava de uma luta necessária e que o capitalismo deveria ser liquidado para que pudéssemos alcançar esse objetivo. O outro setor considerava que a luta negra deveria ser, em uma etapa posterior, subsumida à formação de um partido multirracial. Em determinado momento, essa fração defendia que o partido multirracial deveria surgir após a formação de uma ditadura do proletariado negro. No entanto, essa posição foi abandonada em favor do envolvimento dos povos do terceiro mundo, dos brancos pobres e da necessidade de os negros construírem o partido multirracial na América. Essa fração também via o nacionalismo como algo reacionário, e Ken Cockrel, Mike Hamlin e John Watson afirmavam que iriam se purgar de todo nacionalismo [17].”

Para além dos exageros polêmicos de ambos os lados, essas duas perspectivas — que, no entanto, defendiam o papel central da luta de classes — partiam de concepções diferentes sobre a questão do racismo. Para Cockrel, Hamlin e Watson, o racismo desempenhava o papel de um mecanismo de opressão e divisão da força de trabalho dentro do capitalismo estadunidense. Assim, a luta contra o racismo era inseparável de uma revolução socialista nos Estados Unidos, conduzida pela vanguarda do proletariado negro, mas que deveria incluir o conjunto dos explorados. Para a outra ala, a violência da opressão racial e a experiência do racismo da classe trabalhadora branca — que abandonava toda solidariedade de classe quando se tratava de seus irmãos negros — haviam se cristalizado no objetivo político de um Estado operário negro independente: a repressão patronal, a oposição constante das burocracias sindicais (como ilustra o caso da UAW) e a atitude reacionária dos trabalhadores brancos exigiam, a seu ver — e não sem razão — uma organização autônoma.

No entanto, essa contradição política estava longe de ser insolúvel e pode ser iluminada, com todas as limitações de uma abordagem retrospectiva, à luz da teoria da revolução permanente. Para o primeiro grupo, a luta contra o racismo constituía uma luta democrática “quase estrutural”, para retomar um conceito trabalhado por Freddy Lizzarague [18], que deveria ser articulada às tarefas socialistas colocadas nos Estados Unidos. Para o segundo grupo, tratava-se de uma reivindicação “estrutural”, que deveria assumir a forma de uma luta de libertação nacional — que, no entanto, não poderia ser realizada pela burguesia negra, mas apenas por uma direção operária. Em última instância, a oposição entre essas duas posições derivava do desenvolvimento desigual e combinado da luta democrática pela igualdade racial e de sua radicalização ao longo do tempo.

Socialismo, nacionalismo negro e revolução permanente

Diante do sistema Jim Crow, que substituiu a escravidão direta por um sistema de apartheid, a ala radical do movimento negro havia dado muito cedo à reivindicação de igualdade racial a forma de uma luta de libertação nacional, em oposição às correntes reformistas burguesas ou pequeno-burguesas que se limitavam a negociar com o Estado imperialista ou apoiar candidatos democratas ou progressistas. A abolição das leis segregacionistas, em 1964 e 1965, apenas acelerou esse processo: apesar da proclamação da igualdade formal entre negros e brancos, a violência do capitalismo aprofundava as desigualdades socio-raciais e a superexploração dos trabalhadores negros. Como resultado, o nacionalismo negro ultrapassou o estágio democrático do movimento de Garvey ou do movimento pelos direitos civis para se enraizar, com figuras como Stokely Carmichael ou o Black Panther Party, em um anticapitalismo que, com o surgimento da Liga, acabaria por adotar os métodos do movimento operário como matriz estratégica fundamental.

Essa linha de radicalização já havia sido antecipada por C.L.R. James, que observava, em 1948, que a violência da opressão racial aproximava as lutas negras de uma posição marxista sobre o Estado: “Sobre a questão do Estado, que negro — particularmente ao sul da linha Mason-Dixon — pode acreditar que o Estado burguês é um Estado acima das classes e a serviço do interesse do povo? Eles podem não expressar essas conclusões em termos marxistas, mas sua experiência os leva a rejeitar esse tabu da democracia burguesa [19].” A evolução da luta antirracista nos Estados Unidos pode ser descrita como uma espécie de transição da própria luta antirracista: as tarefas da libertação negra só poderiam ser realizadas por uma direção operária que utilizasse a força estratégica da greve geral para impor suas reivindicações, em independência do Estado imperialista norte-americano e da burguesia negra.

Para a ala liderada por Cockrel ou Watson, contudo, o processo deveria ir além da autodeterminação nacional, ainda que reconhecessem que “o sistema racial de castas da sociedade estadunidense confere uma dimensão nacional à opressão dos negros”; a Liga deveria ter como objetivo conduzir a uma “revolução proletária estadunidense [20]”. A luta democrática funcionaria aqui como uma ponte para a revolução socialista e como um instrumento de mobilização da classe trabalhadora negra, que deveria assumir a liderança desse processo. De fato, uma linha exclusivamente separatista poderia prejudicar a luta dentro das fábricas, num contexto em que a batalha política contra as burocracias sindicais oferecia uma base objetiva para mobilizar setores de trabalhadores brancos e unificar os trabalhadores contra o patronato. No entanto, a posição de Watson e Cockrel também poderia levar — como sugeriam seus opositores — a um afastamento do princípio leninista de apoio ao direito à autodeterminação, negando a legitimidade da reivindicação de um Estado independente, surgida da hostilidade reacionária da classe trabalhadora branca.

Em 1939, Leon Trotsky considerava que essa reivindicação expressava uma poderosa “imaginação política [21]” e antecipava que ela poderia levar os trabalhadores negros a uma confrontação direta com o imperialismo estadunidense quando tivessem “a audácia de recortar para si uma parte dos grandes e poderosos Estados Unidos [22]”: “Não obrigamos os negros a se tornarem uma nação; isso depende de sua própria consciência, isto é, do que desejam e pelo que lutam. Dizemos: se os negros querem isso, então devemos lutar até a última gota de sangue para que conquistem o direito de tomar para si uma parte do país [23].” Por isso, Trotsky defendia que essa contradição entre a luta pelo socialismo e a luta pela autodeterminação negra deveria ser articulada por meio de duas organizações distintas, porém ligadas: uma organização socialista multirracial e uma organização negra independente — sendo que a primeira deveria apoiar incondicionalmente o direito à autodeterminação defendido pela segunda, com o objetivo de criar condições de confiança mútua entre trabalhadores negros e brancos, sem necessariamente transformar essa palavra de ordem em uma exigência absoluta, pois, como sintetizava C.L.R. James, a “defesa do direito à autodeterminação não significa que se deva necessariamente levantar a palavra de ordem da autodeterminação [24].”

Ecos de Detroit

Se a experiência da Liga foi de curta duração, em razão das contradições de sua expansão em um contexto dinâmico de luta de classes, ela marcou profundamente a vanguarda de Detroit e influenciou a estratégia de outras organizações que articulavam luta de classes e combate à opressão racial, como a Sojourner Truth Organization, nos anos 1970 e 1980, em Illinois [25]. Hoje, embora a luta contra o racismo já não esteja associada, na consciência estadunidense, a uma luta de libertação nacional, a prática da Liga permanece extremamente atual para pensar a reconstrução de um antirracismo ofensivo — do movimento de Minneapolis à luta contra as violências racistas na França.

A contrarrevolução neoliberal tentou limitar o horizonte da luta antirracista à integração ao Estado burguês e a uma política de representação restrita de certos setores oprimidos dentro das classes dominantes. Como culminação dessa promessa de sucesso individual e emancipação pelo mérito, quarenta anos depois, Barack Obama chegou ao topo do imperialismo norte-americano apresentando-se como o rosto de uma América “pós-racial”. A irrupção do primeiro movimento Black Lives Matter, em 2013, veio lembrar que essa presidência não havia alterado em nada o racismo estrutural do capitalismo norte-americano. Após o primeiro mandato de Trump, o Partido Democrata demonstrou novamente sua capacidade de cooptar o movimento de massas ao desviar a revolta de 2020 contra a violência policial para o voto Biden-Harris, com grande dose de hipocrisia (como Nancy Pelosi ajoelhando-se com vestes tradicionais ganesas) e a nomeação de ministros oriundos da “diversidade”. Nesse contexto, as estratégias institucionais e “assimilacionistas”, vestígios de um neoliberalismo em crise, parecem frágeis diante da radicalidade atual das classes dominantes, que trabalham pela restauração de um racismo mais explícito e abrangente.

Essa radicalidade racista do capital exige uma radicalidade simétrica por parte dos oprimidos, da qual a experiência da Liga dos Trabalhadores Revolucionários Negros de Detroit é uma poderosa expressão. Seus militantes depositaram suas esperanças na força dos setores racializados do proletariado, relegados aos postos mais explorados da indústria e da economia, mas que, justamente por isso, desempenham um papel central no funcionamento da máquina capitalista. A perspectiva de libertação dos trabalhadores negros ou das minorias racializadas não passava, portanto, nem pela conquista de cargos institucionais, nem por uma integração pacificada sob os símbolos e instituições do imperialismo, mas por uma luta revolucionária pelo socialismo, na qual esses setores desempenharam, desempenham e continuarão a desempenhar um papel central.