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Clóvis Moura e considerações sobre a história como ciência

12.04.2026

Este presente ensaio é fruto de um exercício inicial de discussão sobre o fazer histórico em um momento que se reatualiza a etapa de crises, guerras e revoluções definida por Lenin como imperialismo. Em um cenário internacional convulsivo de genocídios como na Palestina, guerra imperialista contra o Irã, guerra na Ucrânia, invasões imperialistas na América Latina e entrada da luta de classes como fator internacional, é preciso elevar o debate sobre qual papel cumpre a história e os historiadores. Se trata aqui, de um esforço de combinação de uma visão marxista sobre História em diálogo com o capítulo “Considerações sobre a história como ciência”, presente no livro: “As injustiças de Clio, O negro na historiografia brasileira” de Clóvis Moura.

O ser humano e a História:

“A primeira premissa de toda a história humana é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos vivos [...] "O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material; e isso mesmo constitui um fato histórico, uma condição fundamental de toda a história que se deve, ainda hoje, como há milhares de anos, preencher dia a dia, hora a hora, simplesmente para manter os homens com vida" (MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 21).

Uma visão dialética, nos permite ver, assim como também apontou Clóvis, que: o homem como ele próprio elemento da natureza, é ao mesmo tempo, objeto do conhecimento e sujeito conhecedor. A história surge então, como produto dessa relação entre interpretação e ação (consciente e inconsciente) do ser humano sob as bases materiais em constante transformação, condicionadas pelo modo de produção hegemônico. Mais do que isso, “O ser humano é um ser histórico (social) que se humaniza na e pela história. Isto porque o homem somente se humaniza como ser social, o que equivale a dizer, como ser histórico, pois o social só pode ser compreendido na sua dinâmica, diacronicamente. Daí porque podemos dizer que a história é a mais antiga e universal das ciências, pois, à medida que o homem pensa, ele pensa historicamente, ou através de um passado mítico ou através de um devir utópico” (MOURA, CLÓVIS. 1990).

Portanto, é insuficiente pensar a existência da história apenas como campo e ofício de registrar, narrar ou explicar os fatos passados, apartado de uma reflexão sobre uma chave epistemológica que reconheça e desenvolva os objetivos sociais da própria história. Se trata de uma área da ciências sociais que marca e delimita objetivos para o homem, generaliza os fatos, aponta tendências para o futuro, baseada no passado. Não pode ser compreendida completamente se for tomada como uma simples narrativa sem conexão com a práxis humana (objeto final do estudo histórico) e sem ligação com os grupos sociais e classes que formam a dinâmica da história, pois ela é uma ferramenta de conhecimento integrada nessa dinâmica.

“Ciência que procura captar a ação dos homens (em sociedade) no tempo e no espaço, tem de generalizar os rasgos essenciais dessa ação, estabelecer coordenadas para a sua continuação no futuro. Se a ação dos homens no passado é seu objeto - e essa ação quer dizer desenvolvimento, transformação -, não se pode negar que a ciência histórica, por isto mesmo, somente se afirma quando, além de analisar os fatos parados e isolados, concatena-os em um período de tempo (periodização), consegue descrever e estabelece categorias que o interpretam e situam hierarquizado no processo de desenvolvimento global. Para Tal, o historiador tem de aceitar, em primeiro lugar, que essa descrição e sua consequente interpretação devem ser dinâmicas, não apenas por questões metodológicas, mas porque o próprio objeto a ser analisado - a práxis humana- é dinâmico em sua essência, embora muitas vezes o historiador não perceba no período de uma geração. Esta posição epistemológica fundamental frente ao fato histórico e à ciência que o explica deve ser o primeiro dever do historiador. A própria metodologia só será válida se o estudioso partir desta constatação inicial. Daí ter de aceitar fundamentalmente: a) Que a história é um processus;” b) Que se realiza através de choques e contradições que se verificam na realidade objetiva; c) Sujeito à causalidade” (MOURA, CLÓVIS. 1990).

Por exemplo, correntes como da história dos conceitos, tendo a principal figura a frente, o historiador alemão Reinhart Koselleck, participante da juventude hitlerista em sua adolescência, tem na sua concepção de desenvolvimento histórico a essência do seu pensamento conservador, na qual busca reduzir à uma análise a relação entre semântica e história social, excluindo as contradições de classe onde a compreensão de temporalização, em uma “perspectiva temporal na qual passado e futuro realinham-se recíproca e alternadamente, de maneira contínua” (KOSELLECK, 1979). Em síntese, compreende a definição de “tempo histórico” como um processo de determinação da diferenciação entre a experiência e a expectativa dos sujeitos, fazendo um caminho inverso. Assim, por mais que enxergue os conceitos e categorias como mutáveis, defende esse processo como fruto da subjetivação dos indivíduos.

“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, o seu ser social que determina sua consciência” (MARX, 2008, p. 47).

Este texto não tem como objetivo esmiuçar as divergências com Koselleck, mas fundamentalmente essa linha leva à um deslocamento da história social para a história intelectual e desmaterializada, que se baseia no plano simbólico em detrimento das determinações estruturais. “Nenhuma formação social pode ser reduzida à sua forma discursiva” (THOMPSON, 1981 [1978]). Em seu livro “A miséria da Teoria”, Thompson faz um importante combate em contraposição ao estruturalismo francês, tendo como um dos principais intelectuais Althusser, centrando o debate na tensão entre a agência humana e o determinismo estrutural. Enquanto Thompson defende que a consciência de classe é um processo dinâmico forjado na experiência vivida e na cultura, conferindo aos sujeitos o protagonismo e agência histórica, Althusser a reduz a uma "interpelação ideológica" onde os indivíduos operam meramente como suportes de estruturas determinadas (como a escola, igreja e família). Assim, para Thompson, Althusser ignora que essas mesmas estruturas são atravessadas por dinâmicas de conflito, resistência e principalmente transformação, onde a "experiência" humana pode desafiar a interpelação ideológica.

A mobilização desse debate nos serve bastante ao pensar nas consequências de teorias que tornam-se uma máquina produtora de conceitos, girando sobre si mesma e construindo uma “despersonalização” do conflito social. Não coincidentemente, Koselleck compreende a história no tempo moderno como algo que já não mais se orienta pelo repertório do passado, para nós: fruto do desenvolvimento das múltiplas determinações em movimento, mas como algo em aberto, incerto, que rompe com o passado se pautando por um horizonte de expectativas. Assim, centrando o papel do estudo da história na experimentação do tempo (de forma individualizante e desmaterializada) e não no movimento histórico, muito menos nesse como produto da luta de classes.

Dessa forma, é necessário um questionamento chave ao exercício da história, devemos seguir a linha de deslocamento da história da realidade material, suas contradições e choques ou batalhar pelo papel de expressar a autoconsciência histórico-social no seu processo ativo e dinâmico de transformação, escovando a história a contra pelo ?

Ideologia e o fazer histórico:

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.” (Karl Marx, 18º Brumário de Luís Bonaparte.)

Entendemos assim, o ser humano, seus valores, moral, modo de produção da vida, cultura e consequentemente, organização social e etc. como fruto da relação entre forças produtivas e as relações de produção, de forma geral, das bases materiais de uma época em que está inserido, ao mesmo tempo como sujeito de transformação dessas condições. A moral e os valores, portanto, não nascem de uma razão pura ou de preceitos biológicos, mas produto da situação econômica da sociedade da época.“A moral foi sempre moral de classe: ou justificou a dominação e os interesses da classe dominante, ou representou o protesto contra essa dominação" (ENGELS, Anti-Dühring, 2015). A práxis é, sendo assim, o elemento que testa esses valores e ao mesmo tempo modifica-os no próprio decorrer do desenvolvimento histórico. Porém a práxis é contraditória, determinados grupos ou classes atuam com objetivos decididos de acordo com seus interesses. Dessa forma, a história reflete, nas suas categorias, correntes e no seu embasamento ideológico, esse processo antinômico.

A ideologia não é apenas um conjunto erudito, conceitualmente fechado, estabelecido acima dos fatos, mas a própria relação indispensável e mediada entre o sujeito e o mundo exterior. Não há pensamento sem um suporte ideológico. A pretensiosa (para não dizer muito bem intencionada) empreitada de certas correntes de pensamento acadêmico de tentar colocar a história em um pedestal neutro, impessoal e acima da dinâmica social e política inserida, caí na verdade em um exercício de alienação do fazer histórico, ou seja, tornar a-histórico o estudo da própria dinâmica histórica. Isto é, pasmem, ideologia (burguesa ainda!!!), que setores como do movimento escola sem partido aplaudem de pé. Uma história apartada da intervenção histórica só pode ser fruto de fricções de idéias desligadas da realidade ou exercício consciente de neutralização da potencialidade da autoconsciência histórico-social forjada pela compreensão materialista dos processos de luta de classes.

“Uma das dificuldades para se compreender certas formas de pensamento espontâneo como sendo decorrentes de uma ideologia é sua falta de perspectiva histórica, o seu a-historicismo. O seu horizonte projetivo é quase inexistente. Por isto mesmo os fatos se isolam e não são vistos como um processus. Não ligam o tempo aos acontecimentos e não podem ver, por isto, a continuidade desses fatos, a sua conexão interna com o passado: daí não se pode alcançar o autoconhecimento”.(MOURA, CLÓVIS. 1990).

Nas sociedades divididas em castas, estamentos ou classes, os valores são divergentes e antagônicos, primando hegemonicamente a ideologia da classe dominante. Este antagonismo “axiológico”, de acordo com Clóvis Moura, manifesta-se em teorias que são frutos do processo contraditório através do qual a história se realiza. Diferente do que busca colocar certas correntes da história, que vêm os valores como fruto de uma racionalização que o homem faz de um mundo caótico, casual e sem sentido, precisamos compreender a história como instrumento, não só para interpretação mas também transformação dessa dinâmica antagônica.

“Nesse processo de desenvolvimento contraditório há camadas e classes interessadas em aprofundar o conhecimento da realidade porque sua prática assim o exige. São exatamente aqueles grupos que estão diretamente ligados à produção. Exigem uma dinâmica histórica permanente pois nesse processo elas avançam quer no sentido técnico e científico, quer no sentido social, e esse avanço tem de ser categorizado pela ciência histórica. Chocam-se então, no espaço social, com aquelas camadas e estratos que estão no cume da pirâmide, e, por isto, desejam uma estagnação do processo histórico e criam uma imagem estática do mesmo, procurando eternizar seu perfil”. (MOURA, CLÓVIS. 1990).

Pode Interessar: https://www.esquerdadiario.com.br/Apontamentos-sobre-a-luta-das-ideologias-para-alem-da-Restauracao-Burguesa-56612

Sobre o método:

"Chamamos nosso método de dialético porque ele considera o mundo não como um conjunto de coisas prontas, mas como um conjunto de processos, no qual as coisas, aparentemente estáveis, tanto quanto suas imagens mentais em nossas cabeças, os conceitos, passam por uma mudança ininterrupta de vir a ser e perecer." (TROTSKY, Leon. O ABC da dialética materialista. In: Em defesa do marxismo).

Como pode o historiador saber que análise implica o real conhecimento desse processus ? Há possibilidade de um historiador afirmar e comprovar que o seu conjunto conceitual é aquele que expressa a autoconsciência histórico-social no seu processo ativo e dinâmico de transformação ? Para responder essas angústias é necessário um instrumento de análise, um método autoconsciente de análise histórica. O método deverá refletir, portanto, na sua essência, os elementos que constituem o vínculo dos diversos fatos e processos históricos no seu desenvolvimento contraditório e o pensamento do historiador.

“A questão de saber se ao pensamento humano cabe alguma verdade objetiva [gegenständliche Wahrheit] não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na prática que o homem tem de provar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a natureza interior [Diesseitigkeit] de seu pensamento. A disputa acerca da realidade ou não realidade do pensamento – que é isolado da prática – é uma questão puramente escolástica. (MARX, 2007, p. 533).

Esse método, precisa, na visão dos marxistas, passar por uma compreensão do movimento da realidade, em seus elementos objetivos e subjetivos, ou seja, inseridos em uma dinâmica contraditória, o movimento dialético. Na sistematização de Clóvis Moura: a) Que a história é um processus;” b) Que se realiza através de choques e contradições que se verificam na realidade objetiva; c) Sujeito à causalidade”. Fazendo valer assim, a compreensão do método de fazer história, na compreensão: “Dialética da ciência das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da natureza, da sociedade humana e do pensamento”, como expõe Engels em Anti-During.

“Do mesmo modo que não se julga o indivíduo pela ideia que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal época de transformações pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade”. (MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política).

Longe do que afirmam correntes escolásticas de um “marxismo determinista” ou de uma visão linear da história (tragicômico!), o materialismo histórico permanece sendo uma das principais ferramentas de compreensão e transformação da realidade. Autores de base marxista como Lélia González, Clóvis Moura, Florestan Fernandes são fundamentais para o estudo da história e das ciências sociais no Brasil, inclusive se colocando como intelectuais orgânicos dos setores oprimidos em contraposição à uma historiografia que nasce no Brasil profundamente ligada a sustentação/legitimação do sistema escravista e do racismo científico. O exercício de expulsão do marxismo das universidades, sua caricatura e negação, se por um lado expressa a instrumentalização do economicismo e vulgarização feita pelo stalinismo, por outro lado, revela a potencialidade (e medo!) de um método que se propõe não só interpretar o mundo mas transformá-lo radicalmente.

Bibliografia

MOURA, Clóvis. As injustiças de Clio: o negro na historiografia brasileira. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1990.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

THOMPSON, E. P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring: a revolução da ciência segundo o senhor Eugen Dühring. São Paulo: Boitempo, 2015.