Capa: Contra a ecologia de guerra: geopolítica do antropoceno

Contra a ecologia de guerra: geopolítica do antropoceno

Por Paul Guillibert |
Compartilhe este artigo

Publicado originalmente em francês no dia 15/02/2026 no Revolution Permanente

Publicamos a tradução de trechos do prefácio do filósofo Paul Guillibert, pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica francês e da Universidade de Coimbra, ao livro “Contra a ecologia de guerra” (2025) de Vincent Rissier, militante ecologista do Revolution Permanente, organização irmã do MRT na França. O livro trás um diálogo com o avanço do militarismo europeu e internacional, propondo uma crítica radical ao pensamento de Pierre Charbonnier,  na qual o militarismo das grandes potências estaria gerando uma espécie de “ecologia de guerra”, na qual a transição energética seria tratada como questão de segurança nacional e geopolítica das grandes potências. A obra coloca uma perspectiva de oposição ao militarismo, à extrema-direita negacionista e ao capitalismo verde, defendendo uma ecologia socialista e revolucionária para barrar as guerras e a catástrofe ambiental. Nesse sentido, Paul Guillibert corrobora com uma crítica marxista deste novo paradigma do capitalismo verde em meio à reatualização da época imperialista de crises, guerras e revoluções, como dizia Lênin. No prefácio, o filósofo expõe os ensinamentos filosóficos, políticos e estratégicos que se estabeleceram na ecologia política diante do retorno das guerras e das reflexões sobre o imperialismo.

Tradução: Rosa Linh

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, atacaram a Venezuela e sequestraram seu chefe de Estado, Nicolás Maduro. Em nome de uma suposta luta contra o narcotráfico, o império americano assumiu o controle das maiores reservas de petróleo conhecidas no mundo. Dessa forma, assegura sua independência em relação aos combustíveis fósseis para as próximas décadas [1]. O mundo será engolido muito antes de o império terminar de consumir os recursos fósseis de que dispõe. Alguns dias depois, o governo americano anunciou sua retirada de mais de sessenta tratados internacionais, entre eles a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Alguns editorialistas apresentam esses acontecimentos como uma ruptura histórica nas relações internacionais [2]. 

Mas se trata realmente de uma nova ordem mundial, em ruptura com o direito internacional herdado da Segunda Guerra Mundial, ou antes da radicalização das políticas imperialistas seculares dos Estados capitalistas? A crise ecológica e os imperativos da transição energética alteram fundamentalmente a dinâmica das relações internacionais ou apenas conduzem ao aprofundamento de tendências de longa duração, em um contexto menos estável do Antropoceno? Nos últimos anos, assistimos ainda ao surgimento de uma literatura dedicada às relações entre ecologia e geopolítica, retirando esse debate dos escritórios estratégicos das forças armadas e das consultorias especializadas em análise de riscos financeiros [3]. O conceito de "ecologia de guerra" é, sem dúvida, uma das formulações mais marcantes para pensar as relações internacionais no Antropoceno.

A ecologia de guerra designa a possibilidade de que os imperativos de segurança dos Estados contemporâneos os levem a orientar-se para uma transição energética à qual nenhum argumento oriundo das correntes tradicionais do pensamento ecológico pacifista teria conseguido conduzi-los. Para assegurar sua independência energética, os Estados que não dispõem de recursos fósseis próprios teriam interesse em promover uma rápida transição para fontes de energia renováveis, com baixa emissão de gases de efeito estufa. Assim, a razão de Estado, fundada na preservação da integridade territorial e no acesso a recursos abundantes, coincidiria, finalmente, com o imperativo climático da transição energética. Em suma, se a paz estabelecida no pós-guerra teria sido possibilitada por um consumo ilimitado de combustíveis fósseis ("a paz do carbono"), a busca por garantir uma vantagem nas guerras do século XXI poderia conduzir à superação da economia baseada nos combustíveis fósseis.

O conceito de ecologia de guerra foi desenvolvido pelo filósofo e historiador das ideias políticas Pierre Charbonnier na obra Vers l'écologie de guerre. Une histoire environnementale de la paix (Rumo à ecologia de guerra: uma história ambiental da paz) [4]. Em Contre l'écologie de guerre (Contra a ecologia de guerra), Vincent Rissier critica esse conceito por meio de uma série de argumentos instigantes e convincentes. Em primeiro lugar, ele contesta o diagnóstico histórico segundo o qual o sistema-mundo capitalista do pós-1945 teria sido uma ordem fundada na "paz do carbono". Rejeitando essas premissas, ele também recusa o prognóstico que identifica na iminência das novas guerras do século XXI uma oportunidade para a realização da transição energética.

Em Contre l'écologie de guerre (Contra a ecologia de guerra), Vincent Rissier demonstra, em suma, que a paz do carbono é um mito e que a ecologia de guerra é uma ilusão. Ao contrário, o que se observa, no contexto da crise ecológica, é o fortalecimento das rivalidades inter-imperialistas entre os Estados capitalistas, rivalidades que jamais deixaram de existir ao longo do século XX, mas que se reconfiguram no Antropoceno em torno do acesso a determinados recursos estratégicos: não apenas os combustíveis fósseis, mas também os materiais indispensáveis à transição energética, como o lítio, por exemplo. Em suma, a obra de Rissier constitui uma excelente ilustração do conceito de “imperialismo ecológico” ou de “imperialismo verde”. [5].

Desenvolvido inicialmente pelo historiador ambiental William Crosby [6], o conceito de imperialismo ecológico foi posteriormente retomado pelos ecomarxistas John B. Foster e Brett Clark para designar as lógicas imperialistas relacionadas à apropriação dos recursos necessários à acumulação capitalista, desde a conquista colonial da Irlanda e sua submissão ao domínio da Inglaterra, no início do século XVI [7]. O imperialismo ecológico refere-se às dinâmicas coloniais de apropriação de terras e recursos entre os centros capitalistas e as periferias dominadas, cuja finalidade é superar os limites ecológicos enfrentados por economias baseadas no crescimento ilimitado. Contre l'écologie de guerre (Contra a ecologia de guerra) é, portanto, um ensaio sobre o imperialismo ecológico que leva a sério as lutas de classes em escala mundial e as rivalidades interestatais contemporâneas [8]. Em suma, a obra escapa da vulgata ecomarxista que se limita a repetir os diagnósticos de Marx, propondo, em vez disso, uma atualização geopolítica do conceito de imperialismo ecológico, apresentada como uma interpretação alternativa à noção de ecologia de guerra.

Poder geopolítico e transição energética. 

[…]

O conceito de ecologia de guerra surgiu logo após a agressão imperialista da Rússia contra a Ucrânia, desencadeada pela invasão de 24 de fevereiro de 2022. Após esse ataque, preocupados com uma possível perda de acesso aos recursos fósseis fornecidos pela Rússia, os dirigentes europeus multiplicaram, em um período relativamente curto, anúncios relativos à transição e à sobriedade energéticas. Nas palavras de Pierre Charbonnier, "a ecologia de guerra nascente na Europa permite matar dois coelhos com uma cajadada só, ao alinhar o imperativo de coerção em relação ao regime russo com o imperativo de redução das emissões de gases de efeito estufa" [9].

Vincent Rissier demonstra de forma convincente que esse imperativo de redução das emissões foi não apenas de curta duração, mas, sobretudo, um esforço imposto principalmente aos povos europeus, em detrimento de seus próprios interesses, e não uma oportunidade para transformar o próprio modo de produção. Em suma, seu argumento é duplo: por um lado, a ecologia de guerra não existe realmente; por outro, ainda que existisse, ela não permitiria transformar o modo de produção responsável pela crise ecológica. Na medida em que não defende uma reapropriação ecológica e social do conjunto do aparato produtivo — única capaz de efetivamente transformar esse aparato —, a ecologia de guerra acaba, na realidade, por defender um "novo estágio do capitalismo" [10].

[…]

Ordem do mundo e dinâmicas imperiais

Há, contudo, um elemento central da obra de Pierre Charbonnier que Contre l'écologie de guerre (Contra a ecologia de guerra) não aborda (o que, na verdade, não constitui seu objetivo). Vers l'écologie de guerre (Rumo à ecologia de guerra) é um livro de história das ideias políticas, mas também de filosofia, cujas duas principais referências são a cosmopolítica de Immanuel Kant [11] e a teoria do direito internacional de Carl Schmitt [12].

Sabe-se que o pensador da Revolução Conservadora defendia a ideia de que a ordem política mundial se fundamenta na "apropriação da terra" (prise de terre). Em outras palavras, é o ato de conquista, na medida em que organiza uma determinada configuração espacial das potências políticas, que determina tanto a ordem jurídica internacional quanto o funcionamento geral da ordem política interna. A apropriação da terra precede a distribuição das riquezas e os modos de produção [13].

Em suma, a conquista colonial determinaria a natureza de toda a ordem jurídica internacional, e a configuração espacial das potências condicionaria a distribuição do poder político. No entanto, essa teoria do direito internacional sofre uma transformação importante em Vers l'écologie de guerre, de Charbonnier: deixa de ser a apropriação da terra o elemento determinante da ordem jurídica e política, passando esse papel a ser desempenhado pela apropriação dos recursos.

O fato de que o principal limite ecológico das sociedades humanas já não esteja relacionado à extensão territorial necessária à sua reprodução, mas sim à quantidade de recursos fósseis enterrados no subsolo, levaria a uma transformação da própria natureza da configuração espacial das potências políticas. A geopolítica deixaria de designar uma geografia política fundada na apropriação das terras para tornar-se uma geologia política, baseada na apropriação dos recursos energéticos do subsolo.

Essa geologia política do Antropoceno permitiria explicar tanto a invasão da Ucrânia pela Rússia quanto a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos [14]. Assistiríamos, assim, ao surgimento de uma nova ordem mundial fundada no poder dos impérios fósseis e em sua capacidade de garantir o acesso aos recursos de que necessitam. Assim como Kant e Schmitt antes dele, Pierre Charbonnier é um pensador da ordem mundial, da estabilidade das relações internacionais e da permanência das relações entre território e poder. Isso, evidentemente, não impede que ele conceba mudanças, mas estas são compreendidas, na maior parte das vezes, como crises entre duas ordens caracterizadas por relativa estabilidade.

As teorias marxistas do imperialismo às quais Vincent Rissier se filia — sejam as de Lênin ou de Rosa Luxemburgo — partem, ao contrário, da instabilidade fundamental das relações de força entre as potências capitalistas. As rivalidades inter-imperialistas ameaçam permanentemente a ordem precária das relações entre os Estados. É precisamente essa precariedade ontológica das relações internacionais, essa contingência fundamental do modo de existência das potências estatais, que os povos devem aproveitar para poder subverter as hierarquias existentes.

O derrotismo revolucionário e a transformação da guerra imperialista em guerra civil insurrecional são temas leninistas diretamente ligados à contingência da história do capitalismo e que oferecem uma orientação estratégica para a ação em um mundo fundamentalmente instável. Eis, portanto, a principal questão filosófica que opõe a ecologia de guerra ao imperialismo verde: trata-se da relação entre a ordem do mundo e o fluxo das relações, entre a estabilidade do direito e a dinâmica das relações de força, entre o ser do sistema interestatal e o devir das potências imperialistas. Devemos pensar as relações entre os Estados a partir dos conceitos de estabilidade e de ordem, próprios da geopolítica, ou a partir da dinâmica sempre mutável das relações de força, tal como concebida pelas teorias do imperialismo?

No primeiro caso, corre-se o risco de ignorar que essa ordem talvez seja, em grande medida, uma construção imaginária; de esquecer que sempre há acontecimentos que escapam à sua lógica e que seria demasiado fácil reduzir a meros epifenômenos históricos, como se, por si sós, não fossem capazes de abalar a ordem geral. Nessa perspectiva, as guerras coloniais e imperialistas do século XX — da Guerra da Argélia à Guerra do Vietnã, passando pelas invasões do Afeganistão e do Iraque — seriam apenas fatos isolados, sem significado global para uma história universal da paz [15]. No segundo caso, corre-se o risco de negligenciar que o imperialismo se manifesta hoje em um sistema interestatal parcialmente estruturado pelo direito. O imperialismo capitalista só faz sentido porque é precedido por um sistema de Estados fundado no direito internacional.

Um dos aspectos comuns às obras de Charbonnier e Rissier é a atenção que ambos dedicam às dinâmicas geopolíticas na evolução da questão ecológica. Para concluir, gostaria de me deter no significado ecológico do triunfo das ideologias de extrema direita em escala mundial, na medida em que elas talvez anunciem o advento de uma nova ordem mundial.

Impérios fósseis e apartheid ambiental 

Em diversas partes do planeta, extremas direitas negacionistas do clima já estão no poder ou vêm conquistando posições de governo. Esses governos defendem aquilo que o coletivo Zetkin e Andreas Malm denominaram "fascismo fóssil", isto é, uma ideologia que reforça a superioridade racial de um determinado grupo e sua pretensa legitimidade para dominar os demais, fundamentando seu poder político, econômico e militar no uso dos combustíveis fósseis [16]. Embora, por ora, essas extremas direitas ocidentais ainda não sejam fascistas no sentido estrito — isto é, não assegurem sua dominação por meio da eliminação sistemática de opositores políticos ou de grupos minorizados (com exceção, evidentemente, do Estado de Israel, que pode reivindicar o estatuto de Estado colonial fascista) —, elas conduzem uma política global e coerente voltada para a reconstrução de zonas de influência em torno de centros imperiais.

O que presenciamos, provavelmente, é a constituição de impérios fósseis, sustentados por uma ideologia de dominação racial. Os carbonacionalistas procuram formar um bloco hegemônico interclassista baseado em um pacto social e racial cuja força material e simbólica é garantida pelo acesso a recursos considerados ilimitados — sobretudo combustíveis fósseis — obtidos por meio de políticas de espoliação imperialista em suas respectivas zonas de influência. Nesse sentido, não é absurdo imaginar a possibilidade de uma nova ordem jurídica internacional na qual o imperialismo ecológico constitua a principal forma de relação entre as potências imperialistas, bem como entre os centros e as periferias do sistema mundial. Em contrapartida, é certamente equivocado pensar — à maneira de Carl Schmitt — que uma ordem jurídica internacional estável determine, por si só, a natureza do conjunto das relações políticas e econômicas. Certas formas de estabilidade jurídica ou de regularidade nas relações internacionais — sempre parciais e provisórias — emergem de um determinado estado das relações de força entre as potências imperialistas.

Sob esse aspecto, é bastante provável que a nova ordem mundial do Antropoceno seja fundada em um "apartheid climático" [17] ou em um "apartheid ambiental" [18]. O apartheid ambiental designa uma separação política, social e espacial entre os principais responsáveis pela crise ecológica e as primeiras vítimas do Antropoceno. De maneira mais ampla, trata-se de uma segregação socioespacial produzida por políticas de segurança e militarização que distinguem as populações capazes de se adaptar às mudanças climáticas daquelas que sofrerão seus efeitos de maneira mais intensa. O apartheid ambiental caminha lado a lado com um militarismo ambiental, isto é, com o desenvolvimento de políticas militarizadas apresentadas como respostas às crises ecológicas contemporâneas. A construção de muros fronteiriços nos Estados Unidos, na Europa e na Palestina constitui uma evidência concreta desse apartheid ambiental.

Como demonstrou Andreas Malm, a guerra genocida em Gaza certamente não é a última guerra colonial do mundo moderno, mas sim um dos primeiros genocídios climáticos do Antropoceno [19]. As práticas de limpeza étnica [20] que caracterizam a formação do Estado de Israel desde sua origem são hoje reforçadas pelo desenvolvimento de uma economia nacional baseada em combustíveis fósseis. Como observa também Alexis Cukier, "no contexto da escassez de água, já provocada e prevista para se agravar na região em razão da aceleração do aquecimento global, o controle colonial sobre o acesso à água, seguido da destruição das infraestruturas hídricas, constitui um laboratório do apartheid ambiental, permitindo assegurar a adaptação climática de uns em detrimento da vida de outros" [21]. O regime genocida utilizou a destruição da terra como instrumento de dominação colonial e de apropriação de recursos e territórios considerados necessários para a adaptação às mudanças climáticas. Tudo se passa como se o apartheid ambiental fosse simultaneamente um mecanismo de opressão colonial e uma forma de adaptação racializada às mudanças climáticas.

A multiplicação de muros e fronteiras políticas oferece uma imagem particularmente expressiva da constituição dessa nova ordem fóssil, baseada em blocos imperiais que recorrerão ao imperialismo ecológico em um mundo no qual as relações entre centro e periferia são estruturadas por um apartheid ambiental. Para além dos muros, recursos disponíveis para os centros imperiais e devastação para os habitantes da Terra. Aquém dos muros, centros nos quais a paz social e ecológica repousa sobre um compromisso de classe racializado e sobre a garantia de que a livre apropriação dos recursos coloniais oferece as condições para uma adaptação possível às mudanças climáticas.

As extremas direitas em escala mundial caminham de mãos dadas com o capitalismo fóssil. As destruições produzidas por este último servem para justificar a militarização do acesso aos recursos e reforçam a ideia de que é necessário proteger os privilégios de uma comunidade racialmente homogênea para enfrentar o colapso ecológico. É por isso que, como compreenderam muito bem os Soulèvements de la Terre (Levantes da Terra), uma frente climática antifascista só pode ser, ao mesmo tempo, anticapitalista.

Conclusão

A importância da obra de Vincent Rissier reside em sua demonstração de que a ecologia de guerra não é nem realista nem desejável. Ela não é realista porque nenhum Estado pertencente ao centro do capitalismo promoverá uma verdadeira transição energética enquanto dispuser de forças armadas capazes de assegurar, por meio da força, o acesso aos recursos localizados em impérios reconstituídos.

Retomando dos historiadores do meio ambiente e das técnicas Christophe Bonneuil e Jean-Baptiste Fressoz a ideia da "exuberância energética da instituição militar" [22], Rissier demonstra que o imperativo da segurança militar jamais é compatível com as exigências da transição ecológica. Pelo contrário, os exércitos servem, na maioria das vezes, para garantir os interesses das empresas multinacionais, assegurando-lhes acesso a territórios onde se encontram recursos naturais, sobretudo combustíveis fósseis. A defesa dos interesses da Total Energies em Uganda e na Tanzânia constitui, nesse sentido, um exemplo emblemático.

A ecologia de guerra tampouco é desejável, pois oferece aos dirigentes dos países ricos argumentos para sustentar um capitalismo verde que conduz inevitavelmente à guerra e à opressão. Vincent Rissier tem plena razão ao defender, em oposição à ecologia de guerra dos Estados soberanos, uma ecologia dos povos, uma ecologia da classe trabalhadora. Somente ela poderá garantir, ao mesmo tempo, a emancipação da humanidade e a habitabilidade da Terra.

Notas

[1] Estima-se que as reservas de petróleo da Venezuela contenham pelo menos 235 bilhões de barris economicamente exploráveis. O consumo de petróleo dos Estados Unidos é de aproximadamente 20 milhões de barris por dia. 

[2] Ver, por exemplo, Philippe Ricard, "A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, uma nova negação de uma ordem internacional moribunda", Le Monde, 3 de janeiro de 2026. 

[3] Razmig Keucheyan, A natureza é um campo de batalha: ensaio de ecologia política. Paris: La Découverte, 2014. 

[4] Pierre Charbonnier, Rumo à ecologia de guerra: uma história ambiental da paz. Paris: La Découverte, 2024. 

[5] Vincent Rissier, Contra a ecologia de guerra. Paris: La Dispute, 2026, p. 43. 

[6] Vincent Rissier, Contra a ecologia de guerra., Paris, La Dispute, 2026, p. 43.

Segue a tradução para o português das notas de referência:

[7] Brett Clark e John B. Foster, "Imperialismo ecológico e a fratura metabólica global: troca desigual e o comércio de guano/nitratos", International Journal of Comparative Sociology, v. 50, n. 3-4, p. 311-334.

[8] Para uma abordagem sintética das diferentes correntes do imperialismo ecológico e das teorias da troca ecológica desigual, ver Paul Guillibert e Stéphane Haber, "Marxismo, estudos ambientais, abordagens globais: novos horizontes teóricos", Actuel Marx, 2017/1, n. 61, p. 12-23.

[9] Pierre Charbonnier, "O nascimento da ecologia de guerra", Le Grand Continent, 18 de março de 2022.

[10] Pierre Charbonnier, Vers l'écologie de guerre, op. cit., p. 314.

[11] Principalmente Immanuel Kant, Rumo à paz perpétua. Paris: Flammarion, 1991.

[12] Carl Schmitt, O nomos da Terra no direito das gentes do Jus Publicum Europaeum. Paris: PUF, 1988.

[13] Ver especialmente Carl Schmitt, "Tomar, repartir, apascentar: a questão da ordem econômica e social a partir do Nomos", em: A Guerra Civil Mundial. Paris: Éditions Ère, 2007, p. 51-64.

[14] Quando se observa a importância geopolítica da conquista territorial do Donbass nas negociações entre Rússia e Ucrânia desde 2022, em contraste com a importância econômica relativamente limitada desse território, é possível formular duas hipóteses que colocam em questão a interpretação de Charbonnier. Em primeiro lugar, não é de modo algum evidente que a questão dos recursos do subsolo tenha substituído a questão da extensão territorial nas rivalidades inter-imperialistas. Em segundo lugar, fatores culturais e políticos podem desempenhar um papel tão decisivo quanto motivações estritamente econômicas no desfecho de uma guerra. O conflito em torno do pertencimento nacional do Donbass envolve tanto a questão política e simbólica de quem venceu a guerra quanto uma disputa linguística em torno da hegemonia cultural. Sobre esse ponto, ver especialmente Daria Saburova, Trabalhadoras da resistência: as classes trabalhadoras ucranianas diante da guerra. Vulaines-sur-Seine: Éditions du Croquant, 2024.

[15] Theodor W. Adorno, Lições sobre a história e sobre a liberdade (1964-1965). Paris: Klincksieck, 2024.

[16] Andreas Malm e Zetkin Collective, Fascismo fóssil: a extrema direita, a energia e o clima. Paris: La Fabrique, 2020.

[17] Philipp Alston, Mudanças climáticas e pobreza – Relatório do Relator Especial sobre pobreza extrema e direitos humanos. Nova York: Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, 41ª sessão, 24 de junho a 12 de julho de 2019 (e não 2009, conforme indica o número do relatório), Relatório n.º A/HRC/41/39, p. 14. O autor define o apartheid climático como um cenário em que "os ricos pagam para escapar das temperaturas extremas, da fome e dos conflitos, enquanto o restante do mundo é deixado à própria sorte e ao sofrimento."

[18] Ian Angus, Diante do Antropoceno: o capitalismo fóssil e a crise do sistema terrestre. Montreal: Écosociété, 2018, p. 216-220.

[19] Andreas Malm, Pela Palestina como pela Terra: as devastações do imperialismo fóssil. Paris: La Fabrique, 2025.

[20] Ilan Pappé, A limpeza étnica da Palestina. Paris: La Fabrique, 2024.

[21] Alexis Cukier, "Guerra imperialista, militarismo ambiental e estratégia ecossocialista na era do capitalismo das catástrofes", Contretemps [on-line], 11 de setembro de 2025.

[22] Christophe Bonneuil e Jean-Baptiste Fressoz, O acontecimento Antropoceno: a Terra, a história e nós. Paris: La Découverte, coleção "Anthropocène", 2013.