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COP 30: por trás do discurso ambiental, uma maior subordinação ao imperialismo

26.10.2025

Parte da edição: 26.10.2025

A COP-30 virou notícia nos meios de comunicação de massa antes pelos seus problemas organizativos do que pelos debates ambientais que supostamente deveria pautar. Neste artigo, vamos buscar desenvolver o porquê a COP-30 precisa ser debatida para muito além  das questões de infraestrutura de Belém e como suas soluções não passam de cosméticos num planeta onde se cruza com a catástrofe climática um cenário de crises, guerras e genocídios. 
Estamos há apenas 15 dias do início da COP 30 em Belém, que acontecerá entre os dias 10 e 21 de novembro, e o tema do meio ambiente esteve presente em muitos debates no decorrer desta semana. É a primeira COP - Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - que ocorre em uma cidade cravada no coração da maior floresta tropical do planeta, que se dá no marco da disputa de interesses pelos conhecidos elementos terras raras, metais “estratégicos” para a dita “transição verde”, que envolvem disputas entre a China e o imperialismo estadunidense no Brasil e na América Latina. Não é demais recordar as razões que levaram estudiosos e cientistas a estudarem as consequências do aquecimento global. Desde o final do século XIX o potencial da queima de CO² de produzir o aquecimento global já havia sido descoberto[^1]. Os gráficos que expressam o crescimento exponencial da presença do CO² na atmosfera são categóricos: esta aceleração se deu em conjunto com a exploração a nível industrial dos combustíveis fósseis, num primeiro momento o carvão mineral que deu impulso à Primeira Revolução Industrial, sendo depois substituído pelo Petróleo. Apesar de aparecer como uma novidade para o grande público, a existência de combustíveis fósseis na Bacia da foz do Amazonas é conhecida desde os anos 70; e teve 95 poços perfurados durante o regime militar, entre os anos 1970 e 1980, a maioria para exploração de gás. Em 1978 é feita a primeira perfuração para exploração de petróleo. Após a criação da Agência Nacional do Petróleo em 1988, outros 6 poços foram perfurados.  Ao mesmo tempo em que o mundo ia se dando conta das consequências da presença do CO² na atmosfera, também foi se consolidando a ideia das florestas como os pulmões do mundo, pela sua capacidade de consumir o CO² e devolver oxigênio à natureza, tarefa realizada num percentual bem maior pelos oceanos. Talvez por esta razão também, os planos de exploração de CO² no coração da floresta amazônica soem tão contraditórios quando a menos de 20 dias da realização da Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, o governo brasileiro sob o comando de Lula e Alckmin, anunciam seu entusiasmo na exploração dos combustíveis fósseis na região.  A exploração dos combustíveis fósseis sob o solo da floresta não é a única contradição que irá compor o palco da COP 30 em Belém. Um dos principais temas que devem ser defendidos pelo Brasil na cúpula da COP é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, conhecido pela sua sigla do inglês TFFF (Tropical Forest Forever Facility), como já ficou sinalizado na pré-COP 30 que aconteceu nos dias 13 e 14 de novembro em Brasília. Esse mecanismo, que busca ser uma alternativa ao mercado de carbonos, pretende transformar as florestas mantidas de pé em ativos financeiros, uma forma de os países com florestas entenderem a sua preservação como um investimento. No entanto, os países que se mostraram interessados em destinar investimentos para este fundo são alguns dos detentores das maiores empresas de exploração de petróleo do mundo, o que também acende um alerta sobre seu real significado. A química entre Lula e Trump é de fato “rara” Outro elemento não menos importante são as negociações entre Lula e Trump a respeito das tarifas sobre produtos brasileiros. Por mais que os termos da conversa telefônica não vieram a público, a especulação é que um dos temas centrais tenha sido justamente a abertura aos Estados Unidos para a exploração dos elementos terras raras presentes no solo brasileiro. A repentina mudança de tom de Trump em relação à Lula foi colocada pelo mesmo na Assembleia da ONU como uma questão de “química”. O que soou como uma anedota demonstra por onde estão passando os interesses estadunidenses no Brasil, e isso pode estar bastante ligado às disputas comerciais e geopolíticas com a China, e coloca uma grande contradição para o país sede da COP 30.  Como colocamos, a China não apenas possui a maior reserva de elementos terras raras do planeta (cerca de 40%), como também monopoliza a tecnologia de refino desse material. É seguida pelo Brasil que possui uma reserva de 22%, logo Vietnã com 20% e Rússia com 10%. Mas quando o assunto é a capacidade de produção e refino, a China domina com 61%, enquanto os Estados Unidos produzem menos de 15%; o Brasil, apesar da grande reserva que possui, refina menos de 1% da produção mundial. Quando a questão é o processamento das terras raras, a China possui quase a totalidade do monopólio mundial, com 92%[^2]. Os elementos terras raras são minerais[^3] críticos que podem ser encontrados no mundo inteiro, mas estão concentrados nestas regiões. Possuem diversas aplicações, desde menos estratégicas, ou seja, que podem ser substituídas por outros elementos como  na manipulação de petróleo para produção de gasolina onde é usado o cério; até aplicações onde são mais estratégicos, justamente por não ser facilmente substituído, como para a produção de super-ímãs, que utiliza especialmente o neodímio (numa combinação com ferro e boro), que formam um composto químico que tem propriedades eletromagnéticas específicas e representa a mais alta tecnologia de ímãs já desenvolvida pela humanidade, amplamente utilizado comercialmente nos motores de carros elétricos (que é considerado inclusive um dos pontos sensíveis do distanciamento da relação entre o dono da Tesla, Elon Musk,  e Trump após o tarifaço contra a China que comprometeu a importação deste composto para os Estados Unidos após a resposta chinesa às tarifas); é também estratégico no sentido que é aplicado na fabricação de motores de aviões militares, de drones e mísseis, num momento em que é cada vez mais crescente as tendências belicistas das potências mundiais somadas a conflitos geopolíticos, com destaque justamente nas relações entre Estados Unidos e China, dois atores importantes no tema dos elementos terras raras. Não por casualidade, a Groenlândia é outro local onde se concentram estes elementos,  motivo também dos desejos e devaneios  de Trump de anexação deste território. A China, pioneira na exploração destes elementos no mundo, já coleciona alguns desastres ambientais. Um dos mais conhecidos é o da cidade de Baotou na Mongólia, onde milhares tiveram que abandonar suas casas por causa do envenenamento de fazendas e vilas próximas[^4]. As vistas aéreas das minas chinesas servem para nos dar uma dimensão do que pode ser o impacto desta atividade na floresta amazônica, umas das regiões que concentra esses metais no nosso território. Fonte: G1 Não apenas os elementos terras raras, mas a mineração em geral, representa uma grave ameaça aos povos originários e populações tradicionais. Em levantamento publicado em 23 de outubro de 2025, a Repórter Brasil[^5] identificou 1.827 pedidos de mineração - incluindo elementos terras raras, lítio e cobre - em regiões próximas de grupos indígenas isolados. O isolamento é uma questão de sobrevivência contra a mesma mineração e o agronegócio, a aproximação das áreas de exploração destes povos representa um grande risco, já que junto com a atividade mineradora são levadas também a poluição fruto do resíduo da atividade, prejudicando os mananciais, o solo, a fauna e a flora, além de muitas vezes representar avançadas contra territórios indígenas demarcados. Arte: Rodrigo Bento / Repórter Brasil Aqui também fica abertamente demonstrado o demagógico de um dos que devem ser os debates centrais do Brasil na COP 30, que é a apresentação de uma nova proposta de financiamento para a transição energética, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, ou TFFF, na sigla em inglês. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre da COP 30: as florestas do sul global como títulos para o lucro das potências   O TFFF foi uma proposta do Brasil lançada na COP 28 nos Emirados Árabes e deve ser um dos principais temas da COP 30 em relação à busca de mecanismos de “financiamento da preservação ambiental”. Como o próprio nome diz, é um fundo de investimento. A proposta do fundo é proporcionar aos países com florestas tropicais pagamentos em larga escala, previsíveis e baseados em desempenho, com o objetivo de ampliar a cobertura florestal[^6]. Traduzindo, a ideia é gerar recursos através de um fundo de investimentos para fazer pagamentos aos países em desenvolvimento tendo como critério os hectares de florestas que são mantidos em pé. A diferença em relação à maioria dos mecanismos que já estão em operação, é que não seria uma doação e sim um investimento, pois os países poderiam receber de volta o valor investido dentro do prazo estipulado no título, que renderia a juros baixos. Na cúpula dos BRICS, que aconteceu em julho deste ano no Rio de Janeiro, a proposta foi recebida com entusiasmo, afinal, aos olhos do imperialismo parece uma ótima ideia a possibilidade de transformar os bens naturais comuns dos países menos desenvolvidos em ativos econômicos para o capital financeiro. Na realidade, a proposta é utilizar recursos públicos para formação de um capital inicial para a partir daí alavancar recursos privados, sendo a projeção a de que para cada 1 dólar estatal investido, seriam levantados 4 dólares advindos do setor privado. A ideia é que a partir do fundo de investimento se faça viável aos países desenvolvidos não apenas atingirem a meta de USD 300 bilhões em financiamento climático anual até 2035, mas de escalonar este montante em USD 1,3 trilhão.  O fundo funcionaria como uma sofisticação do “mercado de carbonos”, com o adicional de transformar a preservação ambiental em uma fonte lucrativa para o mercado de capitais. Não por coincidência, uma das primeiras empresas a demonstrarem entusiasmo foi uma das maiores gestoras de títulos de investimento do mundo, a PIMCO, assim como o Bank of America e o Barclays (banco multinacional britânico). Dentre os países,  estão alguns dos que possuem gigantes do ramo de combustíveis, como a Noruega com a Equinor, o Reino Unido com a BP, os Emirados Árabes com a ADNOC  e a Arábia Saudita com a Saudi Aramco que é apenas a maior empresa de petróleo do mundo. Entre os países elegíveis para receber pagamentos por área conservada estão a Colômbia, Peru, República Democrática do Congo, Indonésia, Gana e o Brasil. Em seu texto, o TFFF propõe destinar 20% dos pagamentos recebidos diretamente para povos indígenas e tradicionais como forma de escapar de uma das principais controvérsias do mercado de carbonos, que é de a de excluir do processo justamente um setor social que desde seu modo de vida, já preserva os bens naturais comuns, mas sua aplicação traz outras importantes contradições. Desde que Trump assumiu seu segundo mandato na presidência dos Estados Unidos, o país se ausentou das negociações. A China, por sua vez, sinalizou ao governo brasileiro que pretende contribuir com o fundo. A não participação dos Estados Unidos não é menor uma vez que o projeto pretende ser operacionalizado através do Banco Mundial, onde eles representam o maior peso no conselho de administração. Mas sua principal contradição é mais estrutural, pois se relaciona diretamente com o atual estágio de desenvolvimento do capitalismo em sua fase imperialista e cruzado por crises geopolíticas e guerras, onde nos últimos anos o interesse das potências, mesmo daquelas com discurso verde, está muito mais ligado ao aumento da sua capacidade bélica. Um exemplo disso está no fato de o próprio Brasil enquanto desenvolve a proposta de fundo de investimentos para as florestas tropicais, está avançando na concessão da exploração dos elementos terras raras para os Estados Unidos e nesta mesma semana, no dia 20 de outubro, o Ibama concedeu autorização à Petrobrás para perfuração de poço de petróleo na Bacia da foz do Amazonas. Em junho, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) leiloou 19 blocos para exploração da Bacia da foz do Amazonas de um total de 47. Empresas como a Petrobrás, Exxon e Chevron arremataram esses blocos. Agora em outubro, um novo leilão colocou à disposição para exploração blocos na Bacia de Campos e de Santos.  A rapina capitalista que avança não apenas no Brasil, mas na América Latina, expressa os limites do discurso de “soberania regional” utilizado por Lula nas últimas semanas. Falar de forma abstrata que “nenhum país deve dizer como será a Venezuela”, hoje o centro das agressões de Trump na América Latina, sem repudiar veementemente os ataques contra o país e as intenções de derrubada de regime que já se expressam em ofensivas militares, numa tentativa de não entrar em atrito com a parte agressora, serve ao propósito da dupla dependência estrutural do Brasil. Não apenas a Venezuela está na mira dos anseios neo extrativistas de Trump. Metade das reservas mundiais do Lítio, estão concentradas na região denominada “Triângulo do Lítio” que abrange o nordeste da Argentina, Sul da Bolívia e Nordeste do Chile. Esta área pode concentrar 64% de todo o lítio do mundo e é uma das razões dos interesses de Trump na manutenção do governo de extrema direita de Milei, ao ponto de condicionar a ajuda financeira ao país à localização que Milei possa ter nas próximas eleições legislativas que acontecem hoje (25/10). Além das reservas do Lítio, as reservas de gás de Vaca Muerta e a exploração do potencial mineral da Patagônia também fazem parte dos anseios extrativistas do imperialismo estadunidense na América Latina. No Chile, mesmo o governo de Boric conduzindo o extrativismo imperialista de lítio no Salar do Atacama, se fortalecem alternativas da direita e extrema direita. Há menos de um mês das eleições presidenciais, as pesquisas apontam a sucessora de Boric, Jeannette Jara do Partido Comunista, com 26% dos votos; enquanto o conservador de extrema direita José Antonio Kast possui 25%, num cenário no qual a direita está indo ao pleito pulverizada e em terceiro lugar aparece outra expoente da direita conservadora, Evelyn Matthei, com 18% das intenções de voto, um cenário que ainda está em aberto, mas que por hora indica que pode se abrir ainda mais para as intenções de Trump na América Latina e coloca a importância de buscar os pontos de apoio nos processos de luta independente no Chile, como as mobilizações contra o desaparecimento de Julia Chuñil e a Assembleia Pela Unidade das Lutas. Na Bolívia, um governo populista de direita assumirá o país a partir do próximo 8 de novembro, o que já foi celebrado por Trump. Ambos cenários são expressões da falência dos projetos reformistas que buscam conciliar os interesses da classe trabalhadora e setores oprimidos com a burguesia nacional e o imperialismo e deve colocar a centralidade de avançar nos balanços desses projetos, onde a humanidade atravessa a catástrofe ambiental num cenário cruzado pelo rearmamento das potências como os Estados Unidos e europeias e um genocídio que segue na Palestina. Uma resposta de fundo para a catástrofe ambiental que ameaça o futuro da juventude está profundamente vinculada à luta dos povos oprimidos como na Palestina, os povos indígenas e povos tradicionais, por sua autodeterminação, em aliança com a classe trabalhadora. As pautas de organismos como a COP 30, vão na contramão do desenvolvimento dessas lutas. Ao contrário disso, representam a continuidade da subordinação, transformando a natureza em ativo econômico para o mercado financeiro, onde o imperialismo pode não apenas seguir explorando combustíveis fósseis, mas também lucrar terceirizando a “preservação” ambiental justamente para os países menos desenvolvidos, que já são os que menos poluem. Ao mesmo tempo, o avanço na exploração dos elementos terras raras e outros minérios críticos como vem sendo demonstrada pela disputa entre potências econômicas como Estados Unidos e China é a expressão que não existe "transição energética" nos marcos da lógica da exploração capitalista, porque marca justamente a insustentabilidade dessa relação.  A luta em defesa dos bens naturais comuns no Brasil deve passar pelo enfrentamento à ofensiva do imperialismo e da ofensiva de Trump contra a América Latina, defendendo um programa que passe pela estatização desses bens - como é o petróleo, os minérios, o gás, a água - sob controle da classe trabalhadora e populações tradicionais. É necessário uma aliança com as universidades públicas, que hoje desenvolvem estudos para a exploração capitalista desses insumos, mas que têm um enorme potencial de colocar esse conhecimento científico a serviço de uma transição energética ecológica e da utilização desses bens naturais comuns a serviço da recuperação ambiental do planeta e dos interesses da maioria da população. Organismos multilaterais como as Organizações das Nações Unidas - à qual as COPs são vinculadas - mostraram amplamente sua falência na incapacidade de colocar um freio ao genocídio em Gaza, onde foi necessário a política belicista de Netanyahu colidir com interesses do imperialismo estadunidense, e principalmente,  a classe trabalhadora italiana mas também em outros países europeus e no Oriente Médio tomarem às ruas em ações de solidariedade que fizeram tremer toda a Eurásia e o Mediterrâneo em defesa do povo na Palestina. É nesta força demonstrada pela classe trabalhadora e pelas mobilizações nas ruas que temos que nos apoiar para fortalecer um projeto socialista, que concretize a possibilidade de um futuro para a humanidade que supere a lógica da exploração capitalista.  NOTAS [^1]: SANTOS, Frederico Seifert dos. Mudanças climáticas e Marx: o fetichismo do carbono e os sistemas de comercialização de emissões. 2018. Dissertação (Mestrado em Planejamento e Desenvolvimento) – Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.ie.ufrj.br/images/IE/PPED/Dissertacao/2018/Frederico%20Seifert%20dos%20Santos.pdf. Acesso em: 16 out. 2025. [^2]: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c62z0l0pwe1o [^3]: Especificamente 15 elementos da família dos lantanídeos: lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio e lutécio; mais outros dois elementos: escândio e ítrio.  [^4]: https://www.bbc.com/future/article/20150402-the-worst-place-on-earth [^5]: HARARI, Isabel. Minerais críticos ‘cercam’ 45 povos indígenas isolados na Amazônia. Repórter Brasil, 23 out. 2025. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2025/10/minerais-criticos-indigenas-isolados-amazonia/. Acesso em: 24 out. 2025. [^6]: COP 30 Líderes do BRICS endossam fundo inédito para conservar florestas tropicais disponível em https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/lideres-do-brics-endossam-fundo-inedito-para-conservar-florestas-tropicais . Acesso em 18 out 2025.