O barrete vermelho está de volta. Burkina Faso luta, sob Ibrahim Traoré, pela soberania nacional. Um retrato do poder que se eleva acima das classes.
“Hegel observa em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens da história mundial aparecem duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”[1] Com essa célebre frase, Karl Marx abriu sua obra O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, na qual analisou o golpe de Estado de Luís Bonaparte em 2 de dezembro de 1851, na França, e desenvolveu a categoria do bonapartismo. Quando hoje se fala de Ibrahim Traoré, que em Burkina Faso pretende se apresentar como uma espécie de reencarnação de Thomas Sankara, surge a questão: a história se repete? E se sim — como?
Ibrahim Traoré – uma reencarnação de Sankara?
Ibrahim Traoré, no poder desde setembro de 2022 após um golpe militar, apresenta-se publicamente como seguidor dos passos de Thomas Sankara. Traoré usa um barrete vermelho, cita Sankara constantemente e se projeta como figura simbólica da resistência contra as estruturas neocoloniais e como garante da soberania nacional. Ele se coloca como correção de um modelo em que a região do Sahel arca com os custos de uma ordem mundial imperialista que lucra com seus recursos minerais, enquanto a população sofre com a pobreza.
Para examinar essa pretensão, vale olhar para trás, para o curto e intenso período de governo de Sankara. Os quatro anos sob Thomas Sankara, do início de seu mandato em 1983 até seu assassinato em 1987, representaram uma experiência anticolonial de uma nação oprimida, cujos recursos naturais, força de trabalho e terras estavam sob controle colonial. O domínio francês na antiga Alto Volta[N1] quase não permitira desenvolvimento industrial. Em vez disso, o país tinha caráter fortemente agrário, baseado na subsistência e na exportação (algodão, pecuária e migração de trabalho para a Costa do Marfim). Mais de 90% da população era composta por camponeses. A acumulação de capital se restringia ao comércio (como o de mercadorias coloniais, importação/exportação) e a pequenas oficinas. Não existia uma burguesia nacional desenvolvida no sentido de capitalistas industriais.
Nesse contexto, havia uma burguesia comercial — comerciantes que atuavam em nome de empresas francesas ou internacionais. A burguesia comercial burquinense tinha forte presença no comércio de grãos (como milhete, milho e sorgo), assim como na importação de bens de consumo. Ela mantinha estreitas ligações com comerciantes franceses e libaneses, que controlavam importantes redes de comércio na África Ocidental. Para Sankara, eles simbolizavam a “burguesia compradora”: uma classe voltada não para o desenvolvimento nacional, mas para a integração na cadeia de fornecimento colonial. Sua política buscava reduzir o papel dessa classe — não por meio de expropriação direta, mas com controles de preços, empresas estatais e subsídios às cooperativas camponesas. Sob o lema “Consommez burkinabè” (“Consumam produtos burquinenses”), proclamava um estilo de vida modesto, baseado na produção local e no fortalecimento da autonomia econômica.
Em segundo lugar, existia a casta burocrática, uma camada privilegiada de burocratas, altos militares e políticos criada para sustentar o Estado colonial e vinculada a créditos e fundos de desenvolvimento franceses. O próprio Sankara era oficial e apoiava-se em setores do Exército, especialmente jovens oficiais e soldados. Ele participou de três fases distintas de formação da junta militar — com fortalecimento gradual de seu papel político: primeiro como ministro da Informação em 1981, sob Saye Zerbo; depois, em 1983, como primeiro-ministro sob Jean-Baptiste Ouédraogo; e, por fim, em 4 de agosto de 1983, como presidente da Alto Volta. No centro de sua crítica estavam sobretudo os altos oficiais, ligados à França, beneficiários de privilégios e vistos como corruptos. Esses oficiais tiravam proveito de cargos e recursos de desenvolvimento. Com tribunais anticorrupção, cortes salariais drásticos e a eliminação de privilégios, Sankara mirava sobretudo os altos escalões da administração e das forças armadas. Carros oficiais, gratificações especiais e estilos de vida luxuosos dos altos oficiais foram restringidos.
Em terceiro lugar, havia os latifundiários e as autoridades tradicionais, que exerciam seu poder por meio da distribuição de terras, do acesso à água e das hierarquias sociais. Sua posição não era apenas de importância econômica, mas também política e ideológica. No centro da sociedade Mossi – o grupo étnico historicamente dominante do atual Burkina Faso – estava o Moro Naba (“Rei dos Mossi”). Sua posição estava longe de ser simbólica: através de uma rede de príncipes subordinados e chefes de aldeia, ele garantia o controle sobre a terra, as colheitas e a força de trabalho. Sob o domínio colonial francês, era considerado o “garante da ordem”.
No nível local atuavam os chefs de terre (“senhores da terra”), responsáveis pela distribuição do solo. Essa instituição consolidava a dependência da população camponesa, pois o acesso à terra muitas vezes só era possível por meio da intermediação dessas autoridades. A potência colonial os utilizava como arrecadadores de impostos e recrutadores de mão de obra. A isso somavam-se as autoridades religiosas, que, com a expansão islâmica na África Ocidental desde o século XV, construíram uma base de poder própria. Destacam-se especialmente os marabus, que em Burkina Faso se estabeleceram como eruditos islâmicos, professores do Corão e mediadores sociais.
A reforma agrária de Sankara mirava sobretudo os latifundiários e as autoridades tradicionais, cujo poder deveria ser quebrado pela estatização da terra e pela abolição das obrigações feudais. Assim, a questão da terra deixaria de ser regulada pela linhagem ou pelo privilégio.
Sankara iniciou uma série de reformas, entre elas a redistribuição de terras, a abolição dos privilégios das autoridades das comunidades indígenas, a promoção dos direitos das mulheres, campanhas de alfabetização (de 13% em 1983 para 73% em 1987), programas de saúde, construção de infraestrutura, como a implantação de linhas ferroviárias para mobilidade gratuita. Muitas dessas medidas foram centralmente conduzidas pelo governo e implementadas por comitês estatais e iniciativas locais. No campo da política externa, ele foi um fervoroso combatente contra o imperialismo francês e o Fundo Monetário Internacional (FMI), e propagava a ideia de uma África livre e unida.
Sankara apoiava-se nos Comitês de Defesa da Revolução (Comités de défense de la révolution/CDR). Estes deveriam possibilitar o controle de baixo para cima, oferecer educação política e organizar a implementação de projetos locais, a fim de, em última instância, envolver a população nos projetos estatais de reforma. No entanto, o controle político desses comitês estava inteiramente nas mãos do Conselho Nacional da Revolução (Conseil national de la Révolution/CNR), isto é, do próprio governo militar. Nesse sentido, os comitês não eram órgãos de poder de classe independente, como os sovietes na época da Revolução Russa ou os conselhos na Revolução de Novembro na Alemanha, para citar dois exemplos notórios. Embora Sankara invocasse a mobilização das massas, a forma institucional e política de seus comitês diferia fundamentalmente dos sovietes, que após 1917 na Rússia surgiram como órgãos do novo poder estatal (ditadura do proletariado). Lênin e Trotski não consideravam os conselhos (sovietes) apenas órgãos de representação de trabalhadores e soldados, mas sim a base para a construção de um novo aparelho de Estado. Em sua obra O Estado e a Revolução, Lênin enfatiza que a máquina estatal burguesa existente – composta por parlamento, burocracia, polícia e exército – não pode simplesmente ser assumida ou reformada. Ela deve ser substituída por novas instituições, diretamente controladas pelos trabalhadores (camponeses e soldados). Esses conselhos, para Lênin, são a expressão da “ditadura do proletariado”, uma fase de transição em que a classe trabalhadora exerce o poder político. Eles unem os interesses dos trabalhadores aos dos camponeses, pequenos comerciantes, mulheres e oprimidos, a fim de construir uma sociedade socialista sem exploração e opressão.
Sankara não conseguiu cumprir as condições para uma construção socialista porque temia o poder do proletariado como dirigente dos oprimidos. Em vez disso, apoiou-se nos camponeses e em parte do aparato militar, para, como autoridade acima deles, exercer um poder governamental irrestrito em todo o país e impor reformas de cima para baixo. As experiências dos quatro anos entre a chegada de Sankara ao poder e sua morte mostram que as massas estavam dispostas a se colocar na linha de frente pela emancipação de seu país. Mas elas não atuaram como protagonistas que determinavam o rumo, e sim foram tratadas principalmente como massa de manobra, encarregada de executar as diretrizes políticas do governo. Por meio do CDR, Sankara vinculou as massas ao Estado, atribuiu-lhes tarefas e as mobilizou, sem lhes transferir o poder. Os sindicatos, que no passado desempenharam um forte papel de oposição, foram classificados como contrários aos interesses da chamada “revolução popular” e reprimidos. Milhares de professores foram demitidos logo no início da tomada do poder porque haviam feito greve contra o golpe. Os sindicatos, por sua vez, recrutavam seus membros principalmente da população urbana, empregada no serviço público ou em empresas semiestatais. Isso lhes conferia uma influência política significativa, e nos anos 1970 formaram a principal oposição política do país. Assim, os trabalhadores sob Sankara foram divididos entre “preguiçosos” e “ambiciosos”, sendo os primeiros publicamente denunciados. Todos os protestos foram difamados como “contrarrevolucionários”, sem distinção da base de classe, razão pela qual não se pode falar de um verdadeiro movimento operário como base.
Ele adotou em Burkina Faso um modelo que, partindo das experiências na China, buscava impor aos povos oprimidos a solução de uma revolução camponesa, nacional e democrática conduzida militarmente, mas sem a centralidade do proletariado. Tratava-se de um modelo etapista do stalinismo-maoísmo para países empurrados à dependência e ao subdesenvolvimento, que via como primeira tarefa realizar a unidade nacional a fim de cumprir tarefas democráticas não concluídas, separando-as do poder operário. Assim, a função dirigente do proletariado — confirmada pelas experiências da Revolução de Outubro — foi abandonada. Nesse ponto o projeto fracassou. Como trabalhadores e camponeses não assumiram um papel autônomo na gestão da produção nas fábricas e no campo, tornaram-se, em grande medida, elementos passivos ou manipuláveis do regime. A concentração do poder na figura presidencial restringiu a possibilidade de uma verdadeira defesa anti-imperialista das massas, o que facilitou o golpe contrarrevolucionário e o assassinato de Sankara.
O assassinato de Sankara em 1987 e a derrota de seu projeto abriram um longo período de restauração, isto é, a recomposição das antigas formas de propriedade e a orientação para a “Françafrique”, cujo ordenamento baseia-se em manter os interesses políticos, econômicos e militares da França sobre diversos Estados africanos.
Blaise Compaoré, a traiçoeira “mão direita” de Sankara, que organizou seu assassinato e com isso se tornou o novo governante, marcou uma ruptura aberta com a linha de Sankara. Muitas reformas progressistas (reforma agrária, direitos das mulheres, participação de massas, combate à corrupção, redução das “hierarquias tribais”) foram revertidas. Compaoré atrelou Burkina Faso aos interesses do imperialismo francês e do FMI, abrindo a economia ao capital estrangeiro, enquanto reprimia a oposição política. Em 2014, o sistema ruiu sob a pressão de uma revolta popular, quando Compaoré tentou estender inconstitucionalmente seu mandato. A tentativa da guarda presidencial de realizar um contragolpe em 2015 fracassou diante da massiva mobilização popular. Seguiram-se eleições que marcaram uma transição civil, mas que não resolveram as contradições sociais. Nesse contexto, a primeira vez desde a independência em 1960, Burkina Faso teve um governo eleito.
A partir de 2019, aumentaram os protestos contra a insegurança social, o aumento dos preços e a estagnação econômica. Aldeias foram esvaziadas, o número de deslocados internos chegou a cerca de dois milhões, várias escolas e postos de saúde (pequenas unidades locais que forneciam atendimento básico) fecharam. Além disso, a violência jihadista em Burkina Faso era real e teve efeitos profundos sobre a população e a cena política. Comunidades como os Fulbe[N2] sofreram com os impactos, sendo frequentemente associadas de forma generalizada ao “terrorismo” ou “jihadismo”, o que resultava em repressão militar e discriminação cotidiana.
Inicialmente, grupos militantes, em especial a Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligada à al-Qaeda, começaram a realizar ataques no norte do país. A partir de 2019, a situação escalou dramaticamente com vários massacres. A violência crescente levou a um deslocamento interno massivo. No início de 2020, mais de 830 mil pessoas já haviam fugido de suas regiões de origem, gerando uma crise humanitária. Nesse cenário, Paul-Henri Sandaogo Damiba, ex-coronel do exército e ex-comandante das unidades antiterroristas no norte, tomou o poder em 24 de janeiro de 2022. Seu argumento contra o governo era o fracasso em conter o terror jihadista.
Em 30 de setembro do mesmo ano, um segundo golpe derrubou Damiba e colocou o então jovem de 34 anos, Ibrahim Traoré, no poder.
Bonapartismo sui generis
As estratégias políticas de Thomas Sankara e Ibrahim Traoré podem ser analisadas de forma mais precisa pelo conceito de bonapartismo sui generis, ou seja, um bonapartismo de tipo particular, tal como formulado por Trotsky para países semicoloniais.
Na teoria marxista, o termo “bonapartismo” tem um significado específico: como citado na introdução, Karl Marx escreveu O 18 de Brumário de Luís Bonaparte para analisar esse fenômeno. Ele descreve uma forma de poder estatal que se eleva acima das classes existentes, autonomizando o Executivo e restaurando o equilíbrio capitalista para assegurar a estabilidade do sistema — mesmo que, para isso, a burguesia “perca a coroa e veja a espada que deveria protegê-la transformada em espada de Dâmocles suspensa sobre sua própria cabeça”.[2]
Ibrahim Traoré define seu governo como uma “Revolução Popular Progressiva”, operando em contraste direto com a democracia estabelecida — sob o lema de que a democracia seria uma etapa posterior e não uma condição prévia para o desenvolvimento. Em uma cerimônia em 1º de abril de 2025, ele afirmou:
“Nós não vivemos em uma democracia. Estamos em uma revolução progressiva. (…) Todos precisam compreender isso. E é ainda mais surpreendente que supostos intelectuais, que frequentaram escolas, possam imaginar que um país poderia se desenvolver em uma democracia. Isso é falso! É impossível citar sequer um único país que tenha se desenvolvido em democracia. A democracia é apenas um resultado. Estamos inevitavelmente vivendo uma revolução, e de fato nos encontramos em uma revolução. (…) A questão de democracia ou de liberdade de ação e expressão não tem aqui nenhum lugar. Já disse antes: por mais que você acredite que é livre para falar e agir, os outros também o são. E então acabamos em uma sociedade da desordem.”
Trótski cunhou o adendo “sui generis” para descrever o caráter particular dos bonapartismos em países semicoloniais ou dependentes. Essa forma de bonapartismo surge justamente onde a base econômica é fraca ou fragmentada, a burguesia nacional pouco desenvolvida, mas as potências imperialistas e os interesses do capital internacional muito fortes. Pois nesses países existe ainda outro polo social: a burguesia imperialista, que detém a maior parte dos meios de produção, razão pela qual o desenvolvimento de uma burguesia nativa depende em grande medida da burguesia imperialista.
Durante sua estadia no México, nos anos 1930, Trótski observou que o governo de Lázaro Cárdenas representava um novo bonapartismo de tipo especial (sui generis), característico dos países coloniais e semicoloniais. Quando o governo de Cárdenas no México expropriou em 1938 a indústria petrolífera do imperialismo anglo-americano, Trótski percebeu que a expropriação da indústria do petróleo e de outros setores-chave constituía uma forma de autonomia estatal frente ao capital internacional, que ao mesmo tempo enfraquecia a burguesia nacional e mobilizava a classe trabalhadora. Em suas palavras:
Nos países industrialmente atrasados, o capital estrangeiro desempenha um papel decisivo. Soma-se a isso a relativa fraqueza da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. Dessa situação resultam condições específicas para o poder estatal. O governo oscila entre o capital estrangeiro e o nacional, entre a fraca burguesia nativa e o relativamente poderoso proletariado nacional. Isso confere ao governo um caráter bonapartista sui generis, de um tipo muito particular. Ele se eleva, por assim dizer, acima das classes. Na realidade, o governo tem duas opções: ou se converte em instrumento do capital estrangeiro e mantém o proletariado acorrentado sob uma ditadura policial; ou manobra com o proletariado e chega mesmo a lhe fazer concessões, para, dessa forma, conquistar certa margem de liberdade em relação ao capital estrangeiro. A política atual (do governo mexicano em 1938) se encontra nessa segunda fase: suas maiores conquistas são a expropriação das ferrovias e a expropriação das indústrias petrolíferas.[3]
Ele definiu essas medidas como capitalistas de Estado, assinalou a ausência de controle dos trabalhadores sobre a indústria expropriada e acrescentou:
Seria, evidentemente, um erro funesto, uma verdadeira ilusão, acreditar que o caminho para o socialismo se daria não pela revolução proletária, mas pela nacionalização de diversos ramos industriais pelo Estado burguês e sua transferência às mãos das organizações operárias.[4]
A expropriação foi, portanto, um instrumento do Estado para conquistar certa independência em relação ao capital estrangeiro, sem que a classe trabalhadora assumisse diretamente o poder. Tratava-se de um exemplo clássico de bonapartismo que paira acima das classes, mas que equilibra de modo calculado os interesses do capital e das massas – exatamente sui generis no contexto semicolonial.
Em alguns casos, esses bonapartismos podiam pender à esquerda, fazer concessões às massas e ao mesmo tempo fortalecer seu controle sobre elas, como no caso de Cárdenas, Hugo Chávez, Thomas Sankara, Gamal Abdel Nasser (Egito, 1952–70) ou Kwame Nkrumah (Gana, 1957–66). Em outros, podiam se tornar uma ditadura policial e/ou militar, como Augusto Pinochet (Chile, 1973–90), Anastasio Somoza (Nicarágua, 1937–79), Hosni Mubarak (Egito, 1981–2011). Em Burkina Faso, é possível reconhecer com clareza os traços fundamentais do bonapartismo sui generis no governo de Traoré – ainda que em contextos distintos. Traoré utiliza o governo militar e o aparelho de Estado como instrumento para afirmar a soberania de Burkina Faso diante do imperialismo francês, melhorar as condições sociais da população e estabilizar a economia nacional no marco do capitalismo de Estado.
Voltando à questão de saber se estamos diante de uma reencarnação: afastando-nos de concepções metafísicas de renascimento, trata-se de saber se Traoré dá continuidade a uma linha histórica iniciada por Sankara – ainda que em condições objetivas e subjetivas transformadas. Para além da referência retórica e simbólica, Traoré retoma elementos centrais da era Sankara – a autonomização do Executivo em relação às classes, a mobilização do Exército e da população, a ênfase na soberania nacional e o controle estatal sobre os recursos – e os adapta às condições atuais. Traoré não representa o retorno de Sankara em pessoa, mas sim a volta de um bonapartismo sui generis.
O modelo Traoré
As condições econômicas de Burkina Faso mudaram no século XXI. Há mais de uma década o país vive um boom minerador. O ouro substituiu o algodão em 2009 como principal produto de exportação e hoje responde por quase dois terços das receitas em divisas. Atualmente, Burkina Faso é o quarto maior produtor de ouro da África, atrás de Gana, África do Sul e Sudão. Essa transformação econômica abre ao Estado novas possibilidades de controlar os recursos minerais e constitui um eixo central da política de Ibrahim Traoré. Trata-se de trazer para o âmbito estatal a riqueza proveniente da mineração de ouro e da agricultura, a fim de afirmar a “soberania nacional” sobretudo frente à França. No Cúpula Rússia-África, realizada em São Petersburgo, de 27 a 28 de julho de 2025, com a participação de delegações de 49 países africanos, ele afirmou:
Não entendemos como a África, com tanta riqueza em nosso solo, com natureza generosa, água e sol em abundância, pode hoje ser o continente mais pobre. A África é um continente faminto. E como é possível que chefes de Estado em todo o mundo tenham que mendigar? (…) Nós não nos lamentamos, nem pedimos a ninguém que tenha pena de nós. O povo de Burkina Faso decidiu lutar.[5]
Traoré conduz o processo de ampliação do controle sobre os recursos minerais. As exportações de ouro bruto foram em parte suspensas para manter a agregação de valor no país, e uma refinaria nacional foi construída. Toda a política econômica continua capitalista, mas dirigida pelo Estado. O próprio Estado atua como capitalista, indenizando empresas e assumindo meios de produção. Cinco complexos mineiros foram transferidos para a empresa estatal de mineração. São duas minas em atividade e três licenças de exploração, que antes pertenciam a empresas como a Endeavour Mining e a Lilium. A transferência das minas de Boungou e Wahgnion da Endeavour Mining para a estatal Société de Participation Minière du Burkina (SOPAMIB) ocorreu mediante compensação. Segundo relatos, o governo de Burkina Faso pagou cerca de 80 milhões de dólares. Não se trata aqui da superação do modo de produção capitalista, mas de sua forma particular em um país dependente. O Estado torna-se, nas palavras de Friedrich Engels em A evolução do socialismo do utópico ao científico, menos um “capitalista ideal” e cada vez mais um verdadeiro “capitalista coletivo”.
O Estado moderno, seja qual for sua forma, é essencialmente uma máquina capitalista, Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo ideal. Quanto mais forças produtivas ele incorpora à sua propriedade, tanto mais se torna um verdadeiro capitalista coletivo e tanto mais cidadãos ele explora. Os trabalhadores permanecem assalariados, proletários. A relação de capital não é abolida, pelo contrário, é levada ao extremo. [6]
A mineração de ouro industrial e informal em Burkina Faso gera consideráveis impactos ecológicos e sociais. Em muitas áreas de mineração são utilizados produtos altamente tóxicos, como mercúrio e cianeto, para extrair ouro das amostras de rocha. Essas substâncias chegam ao meio ambiente por canais de escoamento e pela água da chuva, contaminam solos, recursos hídricos e o ar, e representam um perigo direto à saúde da população local. As comunidades rurais, dependentes da agricultura, são as mais afetadas. Essas mudanças ecológicas não são efeitos colaterais acidentais, mas consequência direta do modo de produção capitalista, que considera a natureza um recurso para a acumulação de capital.
Paralelamente à mineração, Traoré tenta modernizar a agricultura por meio de uma ofensiva agrária e reduzir a dependência das importações de alimentos. Medidas como o uso de equipamentos modernos, a melhoria das sementes e a construção de instalações de processamento de tomate e algodão devem aumentar a produtividade e manter a geração de valor no país. Porém, a questão agrária permanece sem solução. A agricultura é integrada à acumulação capitalista, mas não transformada em uma forma coletiva de propriedade e produção. Milhões de pequenos agricultores continuam trabalhando em regime de subsistência ou em estruturas semi-comerciais. Parte da população rural é empurrada para a mineração de ouro informal, muitas vezes controlada por empresas internacionais, mas que também abre espaço para pequenos trabalhadores informais. Esse trabalho é perigoso, mal remunerado e prejudicial ao meio ambiente, mas para muitos representa a única forma de garantir sua sobrevivência.
O modelo de Traoré está indissociavelmente ligado à mudança geopolítica na região do Sahel. Um elemento central da estratégia econômica sob Traoré é a desvinculação da União Econômica e Monetária da África Ocidental (UEMOA) e do franco CFA. Em janeiro de 2024, o governo anunciou a saída da UEMOA, para reduzir a dependência da França e controlar a própria política monetária.
O imperialismo francês, desde o início dos anos 2020, encontra-se em crise aguda, lutando para manter sua posição dominante na região do Sahel, tradicionalmente considerada seu “quintal”. Níger é, depois de Burkina Faso, Guiné, Mali e Chade, o país mais recente da África Ocidental a ser tomado pelo exército. Os novos governos romperam com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e fundaram em 2023 a Aliança dos Estados do Sahel (AES). Em julho de 2024, os três países do Sahel anunciaram a transformação dessa aliança de defesa em uma confederação. No Senegal, a oposição venceu as eleições presidenciais contra o candidato apoiado pela França, após fortes mobilizações, sobretudo da juventude. Esses fracassos políticos e militares do imperialismo francês reforçaram seu declínio estrutural como potência dominante na região.
No entanto, a crise da Françafrique não significa automaticamente libertação. Ela abre um espaço de transição, no qual projetos hegemônicos alternativos se sobrepõem: a hegemonia da França é cada vez mais contestada por outros atores, como Rússia, China e Turquia, para os quais alguns países africanos começam a se voltar. Traoré está entre aqueles que buscam estreitar laços com a Rússia.
A Rússia vê nesse potencial conflito uma oportunidade para conquistar a aceitação dos países do Sahel, que a enxergam como um novo aliado capaz de garantir segurança e que não carrega o fardo de uma história colonial. Moscou reabriu sua embaixada em Burkina Faso em 2023, após 31 anos sem representação diplomática desde o colapso da União Soviética. O grupo paramilitar russo “Brigada dos Ursos” esteve no país durante meses no ano anterior, prestando segurança a membros do governo militar, inclusive a Traoré.
A concessão de uma licença de mineração industrial à empresa russa Nordgold, em abril de 2025, é um exemplo das consequências econômicas dessa aliança. Em junho de 2025, Burkina Faso e Rússia assinaram um acordo para o uso da energia nuclear, que inclui o desenvolvimento de tecnologias nucleares no país da África Ocidental. Como Burkina Faso é um dos países menos eletrificados do mundo, o governo vê na energia nuclear uma oportunidade para ampliar a capacidade energética.
O segundo eixo da reorientação geopolítica é a China. Desde a retomada das relações diplomáticas (2018), ampliaram-se os créditos, o volume comercial e as cooperações em projetos específicos. No setor energético, os projetos solares e a modernização das redes estão no centro. O comércio exterior entre Burkina Faso e China aumentou visivelmente nos últimos anos (ouro, algodão, peles/couro; importações de máquinas e produtos químicos, entre outros). Bancos chineses atuam como financiadores de projetos de eletricidade e transmissão. Hoje, a China é a principal parceira em projetos ferroviários, de construção de estradas e telecomunicações em Burkina Faso. Segundo um relatório do Banco Africano de Desenvolvimento de 2024, mais de 40% dos grandes investimentos em infraestrutura em Burkina Faso vieram da China. Essa dinâmica mostra claramente que o país vem escorregando cada vez mais para uma nova dependência dentro das estratégias globais de infraestrutura e investimento chinesas. Embora esses projetos ampliem a base de infraestrutura econômica, ao mesmo tempo são fortemente moldados pela China e, em um primeiro momento, também pela Rússia. Em 1º de setembro de 2025, o regime de Traoré aprovou uma lei que criminaliza a homossexualidade. Concretamente, isso significa que atos homossexuais passam a ser considerados crimes, que podem ser punidos com penas de prisão e multas. Segundo o governo, a lei serviria supostamente para “proteger os valores tradicionais e a ordem moral” e impedir que a estabilidade social fosse ameaçada pela “decadência ocidental”. Para pessoas LGBTQIA+, isso não significa outra coisa senão a legalização da perseguição estatal, a criminalização de sua existência e a ameaça sistemática de violência.
Desenvolvimento desigual e combinado
Walter Rodney demonstrou em sua obra clássica Como a Europa subdesenvolveu a África que o subdesenvolvimento africano não se deve a uma “inferioridade inata” ou à falta de recursos, mas sim à relação exploratória entre a Europa e a África, desenvolvida ao longo de séculos de dominação colonial. O conceito de subdesenvolvimento é utilizado por ele de forma diferenciada:
“É evidente que subdesenvolvimento não significa ausência de desenvolvimento, pois todo povo se desenvolveu de alguma forma, em maior ou menor grau. O uso do termo ‘subdesenvolvimento’ só faz sentido, portanto, ao se comparar diferentes estágios de desenvolvimento. […] Um componente indispensável do subdesenvolvimento atual é a relação especial de exploração: a exploração de um país por outro país. O subdesenvolvimento de hoje é resultado da exploração capitalista, imperialista e colonialista.”[7]
Ele tinha razão. O subdesenvolvimento não é nem uma lei natural determinada, nem uma simples deficiência. É um produto do próprio desenvolvimento capitalista. Subdesenvolvimento e desenvolvimento não são opostos, mas sim duas faces de um mesmo processo. A expansão capitalista na Europa gerou riqueza e acumulação industrial justamente ao empurrar a África para uma posição dependente e explorada. O que na Europa foi chamado de “progresso” se sustentou, ao mesmo tempo, na sistemática subordinação da África.
Rodney analisou as condições econômicas, políticas e sociais que marcaram a história africana e contribuíram para o seu subdesenvolvimento.
As formações sociais na Ásia e na África se desenvolveram de maneira independente até serem direta ou indiretamente tomadas pelas potências capitalistas. A exploração se intensificou, e o excedente de cada sociedade era exportado. Esses povos foram privados dos frutos de suas riquezas naturais e de seu trabalho. Essa continua a ser uma das razões centrais do subdesenvolvimento atual.[8]
As relações de dependência permanecem atuais. O exemplo do Níger, vizinho de Burkina Faso, é ilustrativo: apesar de suas enormes reservas de urânio, indispensáveis para a indústria nuclear francesa (um terço do urânio usado nas usinas francesas vem do Níger), o país está entre os mais pobres do mundo. A empresa francesa Orano fica com os lucros, enquanto a população sofre com a fome e com resíduos radioativos. Padrões semelhantes se encontram em Mali (ouro), no Congo (cobalto e cobre) e em Burkina Faso (ouro e algodão).
A ordem capitalista mundial foi marcada, desde o início, por uma assimetria fundamental. O capitalismo não surgiu de forma uniforme em todos os países, mas se desenvolveu em ritmos desiguais ou, nas palavras de Lênin: “A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo.”[9]
Alguns países avançaram na dianteira do desenvolvimento econômico desde o surgimento do capitalismo, outros foram mantidos em situação de dependência, e outros ainda saltaram etapas ou combinaram diferentes estágios de desenvolvimento em uma unidade contraditória. Trotski elaborou os fundamentos da teoria do “desenvolvimento desigual e combinado” para explicar por que um país “subdesenvolvido” como a Rússia pôde ser o cenário de uma revolução proletária vitoriosa no início do século XX.
A Rússia era, ao mesmo tempo, marcada pelo atraso agrário-feudal e altamente industrializada em certos setores. A ferrovia, a indústria metalúrgica de Petrogrado ou as fábricas têxteis de Moscou estavam entre as mais avançadas do mercado mundial, enquanto milhões de famílias camponesas viviam em formas arcaicas de economia de subsistência. Essa combinação explosiva de atraso e modernidade gerou uma dinâmica específica: a burguesia era fraca demais para conduzir uma revolução democrática contra o czarismo, enquanto o jovem, mas concentrado, proletariado foi capaz de assumir não apenas suas próprias tarefas de classe, mas também as tarefas da democracia e da libertação nacional.
Trotski, no entanto, não foi o primeiro a teorizar a lei do desenvolvimento desigual. Para ele, “a desigualdade é a lei mais geral do processo histórico”. Ele mostrou que essa desigualdade, nos países dependentes, não significa apenas atraso, mas cria uma situação histórica específica. Sob a pressão do mercado mundial, o subdesenvolvimento é forçado a “saltar etapas”:
“Um país atrasado se apropria das conquistas materiais e espirituais dos países avançados. Isso não significa, contudo, que os siga servilmente e reproduza todas as etapas de seu passado. (…) Obrigado a imitar os países avançados, o país atrasado não respeita a sequência: o privilégio do atraso histórico — e tal privilégio existe — permite, ou melhor dizendo, obriga a se apropriar do já pronto antes do tempo determinado, a saltar uma série de etapas intermediárias.”[10]
Assim, ele expressava que não existe um caminho linear e universal de desenvolvimento. A ideia de que todo país deveria repetir as mesmas etapas vividas pela Inglaterra ou pela França foi por ele rejeitada como “evolucionismo estúpido”. Pelo contrário: a inserção no mercado mundial obriga também as “sociedades subdesenvolvidas” a adotar tecnologias modernas, formas de produção e estruturas de dominação. Da mesma forma, um mesmo país pode abrigar estruturas arcaicas e formas altamente modernas de produção ao mesmo tempo. Ele argumentava que países subdesenvolvidos podem adotar tecnologias modernas sem necessariamente passar por todas as fases anteriores de desenvolvimento.
A teoria do desenvolvimento desigual e combinado nos permite compreender a situação de Burkina Faso: ali se encontram, lado a lado, a indústria do ouro, a integração aos mercados globais, estruturas agrárias tradicionais e a mineração artesanal informal. Essa configuração não pode ser explicada por modelos lineares que esperam um simples “atraso” no caminho de reprodução do desenvolvimento ocidental.
O Caminho para a Libertação
O impulso pela autodeterminação nacional na África não surgiu por acaso. A história da região é marcada por experiências de levantes e de sua sangrenta repressão. Todas as vezes em que os povos da região se levantaram, inevitavelmente enfrentaram a reação direta do imperialismo. O Níger mostra a continuidade dessa linha: quando a liderança militar de lá questionou a dominação francesa, Paris imediatamente pressionou para que os países vizinhos enviassem seus exércitos a fim de restaurar a “ordem”. O programa de soberania nacional de Traoré encontra amplo apoio entre as massas, pois estas veem nele uma postura digna, como resposta àquela sujeição colonial que levou as riquezas do continente para as capitais da Europa, deixando para trás fome, analfabetismo e miséria. O povo não quer mais ser fonte de matérias-primas para potências estrangeiras. Quer decidir sobre sua própria terra, seu trabalho e seu futuro. Mas quem pode romper esse ciclo e realizar a libertação?
A teoria do desenvolvimento desigual e combinado forma o fundamento da teoria da Revolução Permanente, que afirma que em sociedades dependentes não apenas são possíveis revoluções, mas também que, sob a direção da classe trabalhadora, podem ocorrer revoluções socialistas. Trótski argumentava que, nesses países, a revolução não se desenvolve em etapas separadas, mas sim como um processo contínuo que passa da revolução nacional-democrática à revolução socialista.
Qual é a composição da classe trabalhadora burquinense? Seu número ainda é limitado, mas ela possui enorme peso devido à sua posição nos setores-chave do país – sobretudo na indústria do ouro. O setor industrial, em especial a mineração, desempenha um papel central. Como já dito, Burkina Faso é um dos maiores produtores de ouro da África, e o setor emprega tanto trabalhadores formais quanto informais. O setor de mineração industrial do país emprega cerca de 51.000 trabalhadores diretos e indiretos. A Confederação Geral dos Trabalhadores de Burkina Faso (CGT-B) é ativa nesse setor, englobando mineiros, além de pessoal de infraestrutura e logística. Com a inauguração da primeira refinaria de ouro (da Marena Gold), surgem novas camadas no processo de valorização, deslocando parte do valor agregado da simples extração para o processamento nacional.
Em contraste, no garimpo informal atuam de 1 a 1,3 milhão de pessoas, majoritariamente na extração de ouro. Esses trabalhadores são em geral camponeses pobres, migrantes ou trabalhadores temporários, que usam ferramentas simples para extrair ouro bruto de pequenas minas ou depósitos fluviais. O setor é marcado por insegurança, baixa produtividade e ausência de proteção social. Assim, as lutas se tornaram mais difíceis, já que muitos trabalhadores não são contratados formalmente e, portanto, não têm acesso ao apoio sindical. Enquanto a força de trabalho formal atua em grandes minas, milhões de trabalhadores informais trabalham em minas pequenas, muitas vezes ilegais.
A estatal Sociedade Burquinense de Fibras Têxteis (Société Burkinabè des Fibres Textiles/SOFITEX) tem papel central no processamento do algodão, operando fábricas onde o algodão é transformado em fios e tecidos. Os trabalhadores dessas fábricas, em sua maioria, recebem baixos salários e enfrentam condições precárias. O trabalho infantil é um grave problema na indústria do algodão, têxtil e de confecções.
O setor de serviços, em especial o serviço público, abrange áreas como educação, saúde, administração e transportes. O Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (SYNTSHA) é um dos mais antigos e ativos do país. Os trabalhadores desses setores são, em geral, mais organizados e já lutaram repetidamente por melhores condições e salários. O sindicato dos trabalhadores da educação e da pesquisa também integra a CGT-B.
Apesar de sua importância, os sindicatos enfrentam grandes desafios. O governo militar tem reprimido cada vez mais as atividades sindicais e restringido a liberdade de expressão.
Por outro lado, milhões de camponeses ainda compõem a maior parte da população, dependendo direta ou indiretamente da agricultura. Estima-se que 70 a 80% da força de trabalho esteja no setor agrícola. Isso significa que o campesinato ainda é numericamente dominante e responsável pela maior parte da produção. Mas está oprimido por comerciantes, endividado com bancos, explorado pelos mercados internacionais e afetado pelos impactos da destruição ambiental. A questão é se terão ao seu lado uma força dirigente capaz de abarcar a totalidade da sociedade. Essa força é o proletariado. Só ele pode cumprir a tarefa universal da emancipação. Não por ser moralmente superior, mas porque, a partir de sua posição no processo produtivo, pode arrastar consigo toda a sociedade.
A hegemonia do proletariado significa que ele não persegue apenas seus próprios interesses, mas também os do campesinato, da pequena burguesia urbana, das mulheres e da juventude. Pode liderar o campesinato incorporando suas reivindicações – por terra, água, acesso a sementes e ferramentas, proteção contra o deslocamento, crédito sem armadilhas de endividamento etc. Assim, a questão agrária se torna uma questão de controle social sobre todos os recursos. A questão da água se torna parte de um plano social geral, voltado para a vida e não para o lucro. A classe trabalhadora é a única que pode exercer esse papel. Construção socialista não significa realização imediata, mas sim trilhar o caminho em que cada medida concreta aprofunda a lógica da libertação.
As experiências de Burkina Faso mostram que lideranças bonapartistas criam sobretudo condições para mobilizar as massas, sem permitir que elas decidam. O bonapartismo equilibra-se entre as classes, em vez de superá-las. Mobiliza as massas, mas lhes nega o poder de decisão. Isso significa que a força motriz do desenvolvimento social em Burkina Faso não pode ser o governo bonapartista.
A descolonização da economia – seja pela ruptura com o franco CFA, pelo controle sobre os recursos minerais ou pela criação de indústrias próprias – é mais que uma questão de soberania nacional. Quem decide sobre produção, jornada, salários, padrões ambientais? Quem controla pesquisa, inovação, uso dos recursos? A autodeterminação é incompleta enquanto bancos, comerciantes e capital estrangeiro determinarem preços, créditos e investimentos. Matérias-primas, minas de ouro, plantações de algodão, projetos de infraestrutura – tudo o que for formalmente “nacionalizado” ou controlado permanece sob a lógica da maximização do lucro e da dependência do mercado internacional, enquanto o trabalho em si não for controlado socialmente.
A classe trabalhadora burquinense, por mais combativa e organizada que seja, depende da cooperação regional e internacional. Os meios de produção, mercados e infraestruturas da região são fortemente interligados; a economia depende em grande medida de exportações, investimentos externos e cadeias de fornecimento. Sem ligação com o movimento operário internacional, sem a solidariedade dos trabalhadores nos países vizinhos e nos centros imperialistas, as conquistas sociais em Burkina Faso seriam rapidamente bloqueadas, sabotadas ou esmagadas militarmente, como mostram as lições de revoluções anteriores na África.
O projeto socialista precisa da cooperação e da solidariedade entre os movimentos proletários da região e em escala internacional. Isso porque as relações de produção nacionais, isoladas, não têm força para superar o capitalismo em sua forma imperialista atual. A classe trabalhadora burquinense sozinha não pode controlar os mercados de matérias-primas nem organizar de forma autônoma as cadeias de produção industrial. Por isso, a solidariedade com os trabalhadores dos países vizinhos e do mundo é necessária.
Uma revolução socialista bem-sucedida exigiria planejamento econômico e coordenação regional no transporte, energia, comunicação e comércio, com distribuição organizada de bens, matérias-primas, energia e serviços conforme as necessidades sociais. Nessa perspectiva, a revolução em um país africano se torna ponto de partida de uma reação em cadeia que ultrapassa fronteiras e questiona as condições do capitalismo. Essa é a lógica da revolução permanente.
As tarefas do proletariado nesta fase são, portanto, duplas: libertar as massas tanto da dependência em relação a governos bonapartistas quanto do jugo do imperialismo.