Deixamos de acreditar em uma transformação radical no Brasil? Um diálogo com Douglas Barros
Desde o resultado do primeiro turno das eleições, todos aqueles que se consideram de esquerda começam a impulsionar um forte movimento com o objetivo de derrotar a extrema direita e toda a sua ideologia, representada por Flávio Bolsonaro e também todas as figuras asquerosas que tiveram votações significativas. Por todo o Brasil se expressa uma grande revolta contra essas ideias reacionárias do bolsonarismo com atos massivos, em que jovens e trabalhadores se propõe a enfrentar também nas ruas essas ideias, recuperando as bandeiras da esquerda, como o anti imperialismo, a defesa da Palestina e o direito de todos os oprimidos.
Ao mesmo tempo, queremos resgatar um debate programático e estratégico que coloque no horizonte o imaginário socialista, e por isso debatemos com recente entrevista do filósofo e psicanalista Douglas Barros que suscita esse debate. Numa recente entrevista ao podcast Rádio Rastilho, Douglas Barros busca analisar o resultado do primeiro turno das eleições, à luz de uma das maiores votações da extrema direita. O psicanalista e filósofo traz um panorama desse resultado que busca compreender os últimos anos da política brasileira para além do resultado imediato.
A primeira parte da entrevista se propõe a um balanço crítico, em que Douglas afirma que os que foram surpreendidos, ainda não tinham tido a realidade exposta à frente. Ele destaca uma série de problemas estruturais que não só não se resolveram como se acentuaram no último período: índices de letalidade policial, encarceramento em massa e precarização do trabalho.
O tema da terceirização também aparece na entrevista e foi fundamental em todas as áreas, a destruição da CLT corroeu o mundo do trabalho e nos últimos anos se alastrou, atingindo dezenas de milhares de trabalhadores. Nesse sentido, a degradação do mundo do trabalho desde 2002 sofreu um boom muito expressivo. Segundo dados, de 2002 a 2013 foi havendo uma expansão gradual que conformou um pico durante 2013 e 2014, o DIEESE estimava 12,5 terceirizados formais em 2014, ou o número de 12,7 milhões, mais de um quarto (26,8%) das ocupações formais. Num outro sentido, o golpe de 2016 representou uma virada, em que a burguesia se articulou para aprovar o mais rápido possível todas as reformas que terminaram de degradar a vida da classe trabalhadora no Brasil, vigentes até hoje: A reforma trabalhista, a reforma da previdência e o novo ensino médio.
O aspecto central da reflexão aqui, que é tema em boa parte da entrevista, diz respeito a uma compreensão de conjunto dos governos do PT. Segundo ele, o PT é identificado em duas posições igualmente insuficientes, a primeira é a de uma celebração nostálgica, em que os governos petistas aparecem como uma espécie de “idade de ouro”, que teria sido interrompida pelo golpe de 2016. Essa tal “idade do ouro”, nunca de fato existiu segundo o psicanalista. A segunda compreensão, igualmente insuficiente, é a compreensão liberal e conservadora em que o PT teria sido responsável por todos os males nacionais: corrupção, polarização, crise econômica e decadência institucional. O ponto crucial na verdade, é compreender o que o PT acabou revelando sobre o Brasil.
“O lulismo talvez tenha sido a mais sofisticada tentativa de administrar uma contradição histórica brasileira que funda a nação: incluir os excluídos, sem romper com as estruturas que produzem a exclusão.” Uma experiência política que melhorou concretamente a vida de milhões de pessoas não produziu uma hegemonia, nos termos de Gramsci, e acabou se transformando em uma aversão.
Nesse momento, milhares de trabalhadores comemoram a aprovação do fim da escala 6x1, demanda amplamente popular, apoiada por 70% da população e que condenava os trabalhadores a deixar suas vidas no trabalho. Em um sentido, essa é uma vitória que demonstra a reserva que ainda existe para lutar por plenos direitos para todos, e varrer todo o cenário de uberização, pejotização e terceirização. Essa ideia também é parte da reflexão na entrevista, de que nos últimos anos, se perdeu no Brasil a noção de que direitos não se garantem na institucionalidade, direitos de garantem nas lutas.
“Se manteve uma noção de inclusão através da gestão administrativa do Estado que em nada tocou o imaginário neoliberal produzido nesses governos: a lógica do consumo, a lógica da competição, de uma concorrência universalizada, nada disso foi abalado na forma de organização da subjetividade das pessoas”.
Ainda, Douglas compara a situação dos anos 90 até o início dos anos 2000, antes o país era profundamente marcado pela exclusão. Se assistiu à ascensão de mecanismos neoliberais que vão sequestrar o Estado e ao mesmo tempo aprofundar os processos de precarização do trabalho. “Não há um governo apenas para os pobres, há uma criação de uma narrativa nacional em que os pobres finalmente entravam na história, em uma política de inclusão como um projeto. Uma gama de trabalhadores passou a consumir e viajar.” A questão chave para ele é: quais transformações se organizaram a partir disso? Existia uma organização via consumo que mantinha a estrutura ideológica intacta, uma integração no mercado que não significava uma experiência coletiva de transformação social.
Nesse contexto, mesmo na arte se expressava essa subjetividade. Em 1997, os Racionais, porta vozes da periferia desde São Paulo para o resto do Brasil, lançaram o album que expressava todas as mazelas dos “sobreviventes do inferno”, retratava a miséria das favelas e a falta completa de perspectiva. As letras eram massacrantes e tinham como objetivo expressar a realidade crua e sufocante no Capão Redondo, que procovou também uma identificação profunda com quem vivia aquilo. Por outro lado, em 2002, foi lançado o album “Nada Como um Dia Após o Outro” que retratava uma realidade difícil de exclusão mas como um certo tom que de era “só questão de tempo o fim do sofrimento”, que pouco a pouco seria possível uma melhora através do consumo, “de poder comprar o azul, o vermelho, o balcão, o espelho”.
A exemplo disso, o que Douglas Barros busca argumentar é que nos anos 2000 se criou o imaginário da competição, da individualização exacerbada, e o sentimento de culpa diante do fracasso individual. O que cresceu foi o crédito e o consumo, a realização individual, e não a luta coletiva. Nesse sentido, a extrema direita tenta apresentar uma resposta a esse tipo de premissa neoliberal em que não existe sociedade, existem famílias.
Nessa reflexão, nos 4 anos que nos antecederam, o bolsonarismo se alimenta dessa raiz ideológica, da individualização e da ascensão pessoal para tentar dar uma resposta a uma degradação de décadas de neoliberalismo. Obviamente, essa é uma resposta falsa e perversa, já que na realidade o objetivo da extrema direita é multiplicar todo esse legado de ataques aos milhares, aprofundando a exploração existente e destilando todo ódio aos setores oprimidos, com a violência machista, racista e homofóbica.
Ainda, todos aqueles que se revoltam com essa podridão da extrema direita precisam combater pela raiz o imaginário neoliberal produzido até agora. Não é possível esperar que os direitos arrancados por décadas de lutas anteriores sejam recuperados por dentro de um regime neoliberal já degradado. Toda a revolta contra a extrema direita que está se expressando agora em atos massivos pelo país pode servir como ponta de lança de uma recuperação subjetiva que vise um imaginário socialista e efetivamente de emancipação, e isso é impossível com alianças com a direita, com discursos de moderação que considerem razoável se apropriar de pautas reacionárias como redução da maioridade penal, num país que já tem hoje uma das maiores populações carcerárias do mundo.
Se nesse mesmo Estado estão as bases de onde se ancora a extrema direita: 500 bilhões para o agronegócio através do plano safra, novo teto de gastos vulgo arcabouço fiscal que estrangula os gastos públicos, todas as reformas anti operárias mantidas, e uma estrutura que mantém a precarização do trabalho, onde está o espaço para garantir de novo através daí os direitos dos trabalhadores?
É necessário alimentar a confiança não em uma esperança em abstrato, de que com o tempo virá um progresso lento através de uma administração correta das instituições, com um pouco de pressão. A perspectiva da transformação social precisa entrar em jogo, com a certeza de que a força motora está nas mãos da nossa classe, de cada trabalhador e cada jovem que quer construir uma alternativa a esse sistema.
Se o capitalismo estimula a ideia de que somos sujeitos isolados, concorrentes e inseguros, subverter essa lógica é uma tarefa, construir uma lógica de comunidade, do potencial imparável da nossa força coletiva e convicta em torno de um objetivo comum, isto é, o imaginário socialista.