Sufocante, a noite de domingo, 7 de setembro, caiu sobre a gestão de La Libertad Avanza. Mesmo aceitando sua derrota, Javier Milei ratificou o rumo econômico. Atando seu destino ao FMI, dias depois vetou a Lei de Financiamento Universitário, a Lei de Emergência Pediátrica e a de Aportes do Tesouro Nacional (ATN). Ao mesmo tempo em que atacou a saúde de milhares de crianças e a educação de milhões de jovens, ofendeu os novos porta-vozes do poder econômico: os governadores reunidos em Provincias Unidas.
A condenação social à política de ajuste chegou há tempos. Nas milhares de cenas de luta e resistência que atravessaram o país apesar da traição da CGT. Nas greves gerais; em cada mobilização massiva; em conflitos de categorias estratégicas como aeronáuticos, petroleiros, trabalhadores de usinas de óleo ou portuários; nas ocupações de faculdades em dezenas de universidades; na persistente luta de aposentados e aposentadas. Foi ali, nas ruas, diante da chamada Argentina contenciosa, que o projeto mileísta se bloqueou.
A rejeição eleitoral massiva –que se concentrou no peronismo e, em menor medida, na esquerda– deixou o Governo fissurado. Em meio a um crescente marasmo social, quase incapaz de gerir seu próprio programa econômico, Milei enfrenta uma aguda crise de governabilidade. Persistindo no ajuste, enfrentará também o espectro da rebelião social.
Sombra terrível de 2001... vou evocar-te.
Nesse cenário crítico, o regime político que sustentou Milei não pode oferecer uma saída favorável às maiorias. Esta deve ser construída de baixo, apostando no desenvolvimento da mais ampla mobilização operária, popular e juvenil; no desenvolvimento da organização democrática, em cada local de trabalho e de estudo, no caminho de uma greve geral política, em que o poder social da classe trabalhadora quebre a agenda de ajuste da elite econômica.
Nesta quarta-feira, dia 17, o Congresso se reunirá para tratar dos vetos de Milei. Nesse dia temos uma oportunidade de inundar as ruas do país. Vamos?
Uma ruptura moral
Todo contrato eleitoral implica algum tipo de contrato moral. Gritando para a câmera, Javier Milei se apresentou como encarnação de uma renovação moral conservadora. Porta-voz de um igualitarismo para baixo, sua motosserra devia funcionar como ferramenta justiceira: cortar os privilégios da casta. Foi –como disse na quinta-feira Diego Sztulwark em Contrapunto– “um castigo eleitoral dos humilhados e humilhadas contra aqueles que os haviam denegrido”. O escândalo das propinas na área de deficiência, que envolve Karina Milei, dinamitou essa construção ideológica. Configurando outra humilhação para milhões, enterrou aquele contrato eleitoral. Aquela moralidade condensava tensões econômicas não resolvidas: as mesmas que levaram Milei à presidência.
Antonio Gramsci escreveu que no senso comum “predominam os elementos ‘realistas’, materialistas, isto é, o produto imediato da sensação crua” [1] . Por trás do marasmo ideológico reacionário expresso por Milei, habitava um desejo disseminado de reparação econômica. Mas a “sensação crua” foi outra, oposta: não chegar ao fim do mês; endividar-se para comer; perder o trabalho; viver para trabalhar; ter que sustentar mães e pais aposentados.
É nessa materialidade que se deve buscar a razão da ampla rejeição eleitoral. Também a fisionomia que parece ir adquirindo a base social governista. Como já havia acontecido na Cidade de Buenos Aires, esse apoio ganhou maior intensidade em zonas de maiores rendas e menor nas periferias populares. Uma espécie de clivagem de classe, que desarma a coalizão que levou Milei ao governo.
Desiludida, a juventude também reduziu o apoio que costumava apresentar-se como inquebrantável. Dias antes das eleições, Pablo Semán e Nicolás Welschinger escreveram que:
“...o entusiasmo se dissolveu (…) Se olharmos os dados da terceira seção eleitoral, vê-se que, diferente do que aconteceu em 2023, entre os jovens a intenção de voto no candidato da LLA é de 26%, um percentual similar, até mesmo alguns pontos menor, ao que alcança entre os maiores de 35 anos (26,5%), os maiores de 50 anos (31,8%) e maiores de 65 anos (30,4%). A falta de entusiasmo que assinalamos acima parece provir da queda do voto em Milei.”
Aquela paixão inicial dificilmente poderia ser estável. O mileísmo não trouxe a prometida “dolarização” dos salários nem garantiu uma vida laboral melhor. Ilustrando, um recente levantamento do Observatório dos Trabalhadores da LID indicou que:
“Os grupos etários mais afetados pela precarização laboral são os maiores de 65 anos e os jovens entre 14 e 29 anos, e também o são em relação à sua intensidade. 63% dos jovens e 62% dos adultos mais velhos encontram-se precarizados por duas ou três vias simultaneamente.”
As decepções não foram apenas essas. Como já se debateu aqui, a plataformização do trabalho parece encontrar um teto. Convergem aí aqueles que são demitidos com os que são obrigados a complementar rendas. Desempregados e sobrecarregados, amontoando-se em aplicativos que encontram outro limite na dramática queda do consumo. Esse empreendedorismo popular, que também conformou parte do dispositivo ideológico mileísta, já flutua no passado.
Experiência e consciência
Em Marxismo e literatura, Raymond Williams assinalou:
...costuma haver uma tensão entre a interpretação recebida e a experiência prática (...) A consciência prática é quase sempre diferente da consciência oficial (…) a consciência prática é o que verdadeiramente está sendo vivido, e não apenas o que se pensa que está sendo vivido...[2]
O voto em Milei –escreveu-se e disse-se muitas vezes– detonou uma série de consensos políticos e culturais que se supunham consolidados. Um deles era a intervenção estatal para atenuar a desigualdade social.
Aquele grito eleitoral concentrou sua raiva contra esse fantasmagórico “Estado presente”, que se mostrava incapaz de garantir escolas e hospitais públicos em boas condições. Inútil para sustentar serviços públicos de qualidade. Essa experiência dolorosa, essa consciência prática diante do fracassado relato estatalista, alimentou o discurso raivosamente neoliberal de Milei. Cimentou esse senso comum reacionário, que culpabiliza trabalhadoras e trabalhadores estatais pelos problemas da estatalidade.
Milei brandiu seu triunfo eleitoral como uma vitória das “ideias liberais”. Esse pacote discursivo coincidia, grosso modo, com o programa econômico do grande capital. Por isso foi comprado por toda a oposição, com exceção da Frente de Esquerda. Foi naquele momento que o peronismo –tentando se atualizar– escolheu o eufemismo de “atualização” para se referir à reforma trabalhista, tão reclamada pela elite empresarial.
O tempo do ajuste foi descascando o edifício mileísta, corroendo seus alicerces, danificando suas paredes. A resistência nas ruas mostrou que a sociedade não havia votado para os aposentados passarem fome ou destruir a universidade pública. Agora, após dois anos de gestão, no domingo passado emergiu de forma pungente essa tensão entre a consciência oficial e aquilo que “verdadeiramente está sendo vivido” por milhões de pessoas. O resultado foi um massivo voto de castigo à La Libertad Avanza.
Cenas explícitas de pós-mileísmo
A fraqueza de Milei configura um problema de regime e de Estado. O presidente em decadência foi a ferramenta política do grande capital para aplicar uma regressão social em seu próprio interesse. Aos olhos dessa elite, a tarefa está inconclusa.
Nesse cenário ergue-se a voz do arranjo político que assumiu o nome de Provincias Unidas. São os mesmos governadores que garantiram grande parte do ajuste mileísta. Nesta sexta-feira, a partir do sul sojeiro cordobês, ameaçaram o Governo com derrubar os vetos presidenciais. Esperam, esclareceram, um chamado para negociar: a articulação nunca descansa.
Bloco de lobistas, olham além de outubro. O santafesino Pullaro enunciou objetivos: “Vamos construir a primeira minoria no Congresso e vamos colocar o próximo Presidente”. O cordobês Schiaretti ofereceu algo parecido a um programa: “O audaz é ter equilíbrio fiscal e social”. Porta-vozes de um mileísmo moderado, de um “centro” que evite os “extremos” de Milei e do kirchnerismo, falam em nome de suas administrações, mas também de mineradoras, petroleiras, montadoras, alimentícias e, logicamente, grandes patronais agrárias.
A esse bloco político e social falta uma perna no cinturão metropolitano de Buenos Aires. Será um Axel Kicillof ainda mais moderado? Será um apoio de Cristina Kirchner e do kirchnerismo? O tempo, que se aproxima veloz, o dirá.
O peronismo: uma estratégia paralisante
Naufragando em sua própria crise, o peronismo encontrou nas urnas uma tábua de salvação. Axel Kicillof emergiu vitorioso da eleição. Aspira disputar a corrida presidencial; os resultados o deixam bem posicionado. Mas 2027 está a anos-luz de distância em termos econômicos, sociais e políticos. Ao governador ainda falta superar as disputas internas de uma força política estilhaçada. Também lhe resta governar por dois anos uma província mergulhada em crises, dando continuidade a um ajuste que já desperta descontentamento entre servidores públicos, professores e outros setores.
Entre La Plata e a Casa Rosada ergue-se outro obstáculo: o veto do poder econômico. Por mais que incomode a ultradireita, Kicillof não tem nada de “soviético”. Nos últimos meses, sua gestão foi tudo menos um “escudo” diante de demissões, ataques às condições de trabalho ou perseguições anti-sindicais. Mas esse alinhamento com os interesses empresariais pode não ser suficiente. Apesar de ter “ganhado rios de dinheiro”, o grande capital olha com desconfiança para o peronismo: foi nas oficinas da Associação Empresária Argentina (AEA) que se decidiu a proscrição política e a prisão de Cristina Kirchner.
Nesta crise nacional, o peronismo aparece como um ator de contenção e moderação. Durante dois anos de mileísmo, atuou como fator limitador da resistência social. Longe de impulsioná-la, desorganizou-a, repetindo que Milei “tinha o apoio das urnas”. Demolido esse argumento, o partido fundado por Juan Perón perpetua essa estratégia paralisante.
De acordo com essa perspectiva, no pódio da traição, a CGT eterniza sua trégua. Tornando patente essa posição patética, nesta quinta-feira Gerardo Martínez posou sorridente ao lado de Sandra Pettovello, amiga do presidente que mentiu ao país para esvaziar os refeitórios populares e deixar famílias humildes passando fome.
Estruturalmente em crise, o peronismo é incapaz de oferecer uma saída para as grandes maiorias populares. Seu discurso político antecipa uma nova frustração: uma grande “coalizão anti-Milei”, que atravesse fronteiras e partidos. Versão ampliada da Frente de Todos, essa nova enteléquia só poderia conduzir à impotência. Em uma construção assim, logicamente, não há lugar para um programa que ataque o poder do grande capital.
Uma força social e política desde baixo
Em uma eleição desdobrada, sem propaganda gratuita nos grandes meios e enfrentando gigantescos aparelhos políticos, a Frente de Esquerda Unidade conquistou duas cadeiras na estratégica Terceira Seção da província de Buenos Aires e alcançou 8% em La Matanza. Os números ratificam uma certeza: a esquerda é um ator na política nacional e canalizou parte da rejeição eleitoral a Milei.
As semanas de campanha evidenciaram, além disso, um reconhecimento amplo a uma força que enfrentou o ajuste mileísta desde o primeiro dia. Um aval a um espaço político reconhecido por sua honestidade, coerência e compromisso com cada luta. No crítico cenário nacional, essas cadeiras e essa simpatia são pontos de apoio. Para intervir na imediata batalha eleitoral nacional. Para impulsionar o mais amplo desenvolvimento da mobilização, apostando que as ruas derrotem os vetos de Milei. Para impulsionar – como propõe o PTS-FITU – a luta por um grande partido da classe trabalhadora; uma força social e política que expresse os interesses dos milhões que movem o país.
O pós-mileísmo está em discussão. Crítico e em aceleração, o cenário político e social obriga a traçar saídas. O poder econômico prepara as suas. A classe trabalhadora, a juventude e o povo pobre têm uma obrigação simétrica: dar passos para construir a sua própria saída, superando a estratégia paralisante que as direções do peronismo impõem.
O passado ilumina o presente. Grandes rebeliões como o Cordobazo ou dezembro de 2001 indicam uma direção; um rumo possível para que os explorados e oprimidos comecem a decidir os destinos do país. Um ponto de partida para reorganizar a sociedade sobre novas bases, deixando para trás o caos sistêmico ao qual a dominação capitalista empurra diariamente.