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Encontro Lula-Trump e a política agressiva dos EUA na América Latina

Parte da edição: 02.11.2025

O encontro entre Lula e Trump na Malásia confere ao mandatário brasileiro as credenciais de estadista habilidoso para tratar com o mercurial presidente norte-americano. Mas as dificuldades estão à mostra, numa nova etapa da ofensiva trumpista na América Latina.

O encontro de Lula com Trump em Kuala Lumpur, na Malásia, nas sidelines da reunião da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), vem aparecendo na conta de mais um - talvez o mais importante - êxito diplomático do governo.

A foto postada pela Casa Branca, exibindo Lula e Trump sorridentes e de mãos dadas, foi replicada em toda a grande imprensa como um “feito impensável”. No comentário adjunto à imagem, Trump diz que “é uma grande honra estar com o presidente do Brasil [...] Sempre tivemos uma boa relação - e seguiremos tendo”. Lula retoma as grandes manchetes na figura de habilidoso estadista, nesta conjuntura que combina o fortalecimento do governo com o enfraquecimento do bolsonarismo.

A reunião foi tratada como uma vitória política pelo governo. Não foi Bolsonaro nem Tarcísio de Freitas que apareceram em bons termos com um Trump assumindo a disposição de repensar as tarifas e “fazer alguns acordos muito bons para ambos os países”. O encontro na Malásia consolidou Lula não só como interlocutor privilegiado de Trump (faturando os louros da lambança feita por Eduardo Bolsonaro, como explica Andréia Sadi), mas um político com quem a Casa Branca mostra interesse em manter relações, ao menos por ora, brandas.

Ao contrário das imposturas humilhantes ouvidas por Volodymyr Zelensky da Ucrânia e Cyril Ramaphosa da África do Sul, ambos recebidos por Trump com explícita rispidez, Lula ouviu do presidente norte-americano palavras corteses. Trump declarou admiração pela trajetória política de Lula, elogiou seu vigor como chefe de Estado e mostrou particular interesse pela sua conquista de um terceiro mandato - uma ambição vocalizada não somente por Trump, mas por referências do movimento Make America Great Again como Steve Bannon. Ao fim, Trump demonstrou novamente interesse em viajar ao Brasil.

O índice do Ibovespa bateu recorde máximo após a reunião, e o dólar teve queda para R$5,36, influenciado também pelas notícias de um relaxamento nas tensões comerciais entre Estados Unidos e China (Pequim teria indicado aceitar a prorrogação da aplicação das novas regras restritivas para exportação de terras raras, e acenando favoravelmente à compra da soja americana).

Segundo o chanceler Mauro Vieira, a conversa “não tinha assuntos proibidos”, mas esteve centrada na suspensão das tarifas de 50% impostas às exportações brasileiras, assim como o fim da aplicação da Lei Magnitsky a personalidades do Estado, como Alexandre de Moraes. Trump teria dado novas instruções a sua equipe, encabeçado pelo secretário de Estado Marco Rubio, para avanço nas tratativas bilaterais. O Itamaraty divulgou imagens do encontro que Mauro Vieira e auxiliares tiveram com representantes do governo Trump, ainda na Malásia, para início do debate sobre as desavenças comerciais.

Dificuldades no horizonte

Do ponto de vista político, Lula deu continuidade à aproximação que veio tendo com Trump desde a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro. Naquela ocasião, um encontro de 39 segundos havia sido suficiente para suscitar afagos de Trump ao mandatário brasileiro, com quem havia descoberto uma “ótima química”. Enquanto Trump rompe relações comerciais com o Canadá, e sanciona países como o Vietnã e a Índia, Lula trata de capitalizar a imagem de um governo que não cedeu e que sabe negociar com a imprevisibilidade da Casa Branca (como reconhece Thaís Herédia da CNN).

Entretanto, isto não significa que a “indústria petroquímica” garanta as conquistas que Lula deseja.

Tomemos a questão das tarifas. Não há nenhuma indicação clara de que Trump queira desarmar completamente a contenda comercial com o Brasil. No embarque de retorno aos Estados Unidos, em meio às felicitações, Trump afirmou que “não sabe se algo vai acontecer, vamos ver, até agora eles estão pagando 50% em tarifas”. Segundo Lula, o que se estabeleceu foi uma “regra de negociação: toda vez que tivermos dificuldades, vamos conversar pessoalmente”. Mesmo Alckmin foi circunspecto: os chefes de Estado “abriram as portas do entendimento, mas é preciso avançar nas questões técnicas”.

Em outras palavras, o anseio do Planalto em reduzir as tarifas de 50% para 10% ainda deverá esperar. William Waack trata a distensão como um momento de alívio que poderia levar a auto-engano, dadas as credenciais mercuriais de Trump. É possível, por exemplo, que se aumente a lista de exclusão de ítens das taxações com maiores tarifas, considerando ítens que são importantes para o mercado dos EUA, como café e carne.

Na dimensão política interna, a postura de Trump é, no melhor dos casos, ambígua. Trump confere muita importância a aliados políticos ideologicamente afins. O caso Javier Milei é emblemático. Diante da possibilidade de um mal resultado nas eleições legislativas (com o risco inflacionário pendente sobre a desvalorização do peso), Trump arquitetou um programa de concessão de crédito e compra de moedas no montante de US$40 bilhões, a fim de estabilizar a economia argentina nas semanas prévias. Este fator teve influência significativa sobre o triunfo de Milei - ainda que não tenha sido o único, pois esteve combinado com a persistência de uma base social de direita estável na Argentina, o receio do retorno à instabilidade financeira do governo catastrófico de Alberto Fernández, e especialmente o fracasso da estratégia de moderação e passividade do peronismo/kirchnerismo, funcional à extrema direita. Nota à parte, a esquerda revolucionária alcançou muito bons resultados neste difícil cenário, com Myriam Bregman e Nicolás del Caño encabeçando a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade (FITU) conquistando 900 mil votos e três bancadas parlamentares no Congresso Nacional.

Trump celebrou a vitória de Milei como sua. É possível que este novo fôlego do mileísmo argentino tenha reaquecido as esperanças trumpistas de melhorar em alguma medida a situação da extrema direita brasileira - por ora acuada e destituída de iniciativa política, assistindo os efeitos indigestos dos movimentos desastrados de Eduardo Bolsonaro. Apesar de não ter sido um interesse temático em Kuala Lumpur, Trump mencionou seu desagrado sobre a condenação de Jair Bolsonaro ao ser perguntado por jornalistas, tendo um Lula levemente contrariado ao lado.

Mais importante ainda é o esquema geopolítico regional. Trump adotou seriamente a postura da Doutrina Monroe 2.0, e quer a “América para os americanos”. A América Latina se tornou um eixo vital da sua política externa, e alvo de medidas cada vez mais agressivas. Estas medidas, como explicamos aqui, respondem a um novo hiperativismo de reconquista latinoamericano, em especial contra a crescente influência econômica e política da China. Trump conta com um ativo político inesperado, vindo da Bolívia, com o triunfo do direitista Rodrigo Paz, que já se comprometeu a restaurar boas relações com Washington, e foi parabenizado pelo Departamento de Estado como uma “oportunidade transformadora para ambas as nações”. Sem dúvida, parte dessa reaproximação tem como objetivo debilitar a parceria comercial da Bolívia, que tem as maiores reservas de lítio do mundo, com a China, que através da CATL e da Citic Guoan, assinou contratos de exploração de lítio com a estatal Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB). Com o novo governo no Peru, liderado por José Jerí, Trump fará o possível para diminuir o peso da China em infraestruturas estratégicas como o Porto de Chancay, inaugurado em presença do próprio Xi Jinping.

Antes do encontro oficial, Marco Rubio anunciou que é do “interesse do Brasil” colocar os Estados Unidos como principal parceiro comercial, ao invés da China. É a primeira vez que a Casa Branca se expressa nestes termos acintosos. Não há dúvida que a pressão do governo norte-americano aumentará, e as tarifas são apenas um dos mecanismos de coerção e chantagem. Lembrando seu peso decisivo no triunfo de Milei, Trump já havia feito uma ameaça direta ao governo argentino: “Você pode negociar um pouco, mas não deve ir além disso. Não deve fazer nada relacionado ao âmbito militar com a China, e se isso estiver acontecendo, eu ficaria muito incomodado”. O avanço regional do capitalismo chinês, nem falar sua presença militar, é uma linha vermelha para Washington, em termos mais duros do que eram.

Em parte por isso, o centro de gravidade da política regional norte-americana é a Venezuela, laboratório de testes para a eficácia do discurso de “guerra ao narcotráfico” como questão de segurança nacional. É na Venezuela que Trump parece encontrar a via para recalibrar as coordenadas regionais latinoamericanas, e prejudicar a presença da China e da Rússia no subcontinente. Ademais, a Casa Branca adoraria ter em condições de poder uma aliada ideológica como a golpista e pró-sionista Maria Corina Machado - nefasta defensora das sanções econômicas e da intervenção militar direta dos Estados Unidos na Venezuela, e barganhista dos recursos minerais e petrolíferos da Venezuela num ritmo ainda maior que o do regime ditatorial e anti-operário de Nicolás Maduro.

A despeito do discurso “soberanista” de Lula, este vem tomando todos os cuidados para não irritar Trump na questão venezuelana, e na Malásia se limitou a dizer novamente que pode servir de mediador para a solução pacífica da crise. Hábil à sua maneira na relação diplomática, Trump busca instrumentalizar a trégua com Lula visando sua neutralização em caso de um ataque direto a Caracas. Não está descartado que Lula consiga operar como uma espécie de mediador diplomático, como ofereceu fazer em Kuala Lumpur. Entretanto, Washington pode também condicionar o papel do Brasil como cobertura para a preparação de uma agressão, seguindo a concentração de tropas e navios de guerra no Mar do Caribe. O que é certo é que Trump, até agora, não demonstrou nenhum interesse na mediação brasileira.

Como dissemos neste Esquerda Diário, é necessário repudiar categoricamente o envio de tropas estadunidenses ao sul do Caribe, e rechaçar as ameaças diretas de Trump e do seu Departamento de Guerra contra a Venezuela. Esta postura antiimperialista categórica exige a mais absoluta independência política em relação ao governo de Nicolás Maduro, um governo capitalista brutalmente ajustador e repressivo que, apesar de seus discursos nacionalistas e sua demagogia “anti-imperialista”, administrou o capitalismo dependente venezuelano em favor de uma nova casta governante, aliada de setores da burguesia nacional e estrangeira.

América Latina e soberania regional

Aqui colocamos o problema central: em troca de melhores condições para negociar sua relação bilateral, o tom amistoso de Lula com Trump termina sendo funcional para a ingerência imperialista na região. Apesar de ser visto como um negociador habilidoso e produtivo diante da intemperança trumpista, é impossível combater o imperialismo norte-americano com a política de Lula e da Frente Ampla. Isso é assim porque estamos diante de uma variante de submissão encarnada pelo governo brasileiro, que mantém e aprofunda a dupla dependência neo-extrativista do Brasil. Lula negocia a concessão das terras raras, minerais estratégicos como o nióbio e mesmo o petróleo da Margem Equatorial. Lula deixa Trump satisfeito ao autorizar a exploração de combustíveis fósseis da Foz do Amazonas, ecoando às vésperas da COP30 o espírito trumpista do “drill, baby, drill”.

Cada vez mais, a necessidade da unificação latinoamericana contra o imperialismo se mostra como a chave do momento. Nenhum governo capitalista, quaisquer que sejam suas colorações políticas particulares, demonstrou nas últimas décadas a capacidade de libertar o subcontinente das garras do imperialismo norte-americano. A unificação dos trabalhadores de toda a América Latina com os trabalhadores dos Estados Unidos, com uma política independente dos governos burgueses, é fundamental para o combate a Trump e ao imperialismo, no Brasil e na região.

Enfrentar Trump e a ingerência dos Estados Unidos - assim como de potências capitalistas em ascensão, como a China - exige uma postura anticapitalista e independente de todos os governos regionais. A reconquista do petróleo (um Petrobrás 100% estatal, administrada pelos trabalhadores e especialistas), a reforma agrária radical que termine com o latifúndio e partilhe a terra entre aqueles que nela trabalham, a derrubada do Marco Temporal e a garantia da demarcação das terras indígenas, a abolição das reformas trabalhista e da previdência, e a garantia de todos os direitos trabalhistas plenos (fim da escala 6x1), são fundamentais para um projeto de país que vislumbre a remoção das ingerências catastróficas das potências estrangeiras.