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Entre a revolta social e a ameaça de ataque militar imperialista: quem tentará decidir o futuro do Irã?

22.02.2026

Parte da edição: 22.02.2026

Imagem: AP photo

Compartilhamos a análise sobre o levante iraniano e a brutal repressão sofrida pelas mobilizações populares que, desde o final de dezembro de 2025, foi publicada originalmente em Left Voice.

O Irã enfrenta hoje a ameaça de uma ofensiva militar imperialista, com os Estados Unidos utilizando as negociações nucleares como meio de coerção contra um país oprimido. Essa pressão coincide com uma profunda crise social, à qual o regime iraniano respondeu reprimindo os protestos massivos que eclodiram em dezembro.

Desde o final de janeiro, o Irã tem sido cercado por uma força militar liderada pelos Estados Unidos. A ameaça trumpista não é um aviso abstrato. A história recente do Irã — mais especificamente, a Guerra dos Doze Dias, na qual colaboraram Estados Unidos e Israel — demonstra a rapidez com que a pressão imperialista pode se transformar em confronto aberto. O que Washington apresenta como “diplomacia” ou “negociação” — particularmente em torno do chamado acordo nuclear — não é uma alternativa à guerra, mas sua continuação por outros meios: um ultimato de rendição estratégica imposto pela presença da frota estadunidense e pelo desdobramento de todo o seu poder militar ao redor do Irã. Hoje, como ontem, o imperialismo não busca a “liberdade” do povo iraniano, mas quebrar o país e subordiná-lo, como tenta fazer na Venezuela e como fez regionalmente em países como o Iraque.

Essa ofensiva imperialista é inseparável da profunda crise social que atravessa o Irã. A administração de Donald Trump endureceu recentemente as sanções em setembro, que já haviam provocado cortes salariais e esvaziado as prateleiras dos supermercados, apostando que uma miséria ainda maior poderia quebrar o regime. O imperialismo optou por uma estratégia de “panela de pressão” para incentivar e instrumentalizar o protesto social. Quando essa manobra não conseguiu dobrar os clérigos, a Casa Branca recorreu ao envio de porta-aviões, a ameaças de mísseis e a declarações sobre “todas as opções estarem sobre a mesa”.

Essa análise da coerção imperialista e das tentativas de manipulação não implica negar a legitimidade da mobilização massiva contra a inflação, a repressão e a miséria social. Pelo contrário, o perigo reside em sua instrumentalização: a tentativa de Trump, do Estado israelense e da direita imperialista em geral de redirecionar uma revolta social legítima para um desfecho subordinado aos interesses imperialistas, que não apenas não resolveria as penúrias das massas, como reforçaria novas formas de dominação.

A história oferece advertências claras. Do Iraque à Líbia, da Síria à Ucrânia, o imperialismo buscou repetidamente transformar o descontentamento popular em supostas “transições democráticas” geridas de cima para baixo, com governos títeres a serviço de seus interesses, deixando as massas desarmadas, divididas e, em última instância, derrotadas. O fato de não estar totalmente claro o alcance da influência direta dos Estados Unidos ou de Israel no levante iraniano não diminui esse perigo; ao contrário, torna ainda mais urgente identificá-lo.

Nada disso implica apoio político ao regime teocrático e assassino da República Islâmica, cuja repressão contra milhares de pessoas deve ser denunciada sem vacilação. Mas a denúncia do regime não pode se transformar em neutralidade diante da agressão imperialista, cujo objetivo é subjugar o Irã. Diante da ofensiva imperialista, a alternativa é aceitar ultimatos e “transições” tuteladas ou afirmar um caminho independente contra a guerra e a intervenção estrangeira.

Uma crise social em gestaçãoOs protestos mais recentes fazem parte de um ciclo de revoltas que começou com as manifestações de “Pão, Trabalho e Liberdade”, no final de 2017, quando a classe trabalhadora ressurgiu como força política em resposta ao aumento dos preços dos alimentos, aos salários não pagos e ao colapso das promessas reformistas do governo de Rouhani, cujo pacto com o diabo no acordo nuclear significou apenas “alívio das sanções” para a elite governante ao estabilizar os lucros do capital vinculado ao Estado e aos setores comerciais, sem melhorar as condições de vida cotidianas da maioria.

Depois, em 2018, as sanções de “pressão máxima” de Trump se tornaram o contexto no qual o regime fez a classe trabalhadora pagar pela pressão imperialista por meio de aumentos nos preços dos combustíveis, cortes de subsídios e salários esmagados pela inflação — uma estratégia que desencadeou os protestos nacionais contra o combustível em novembro de 2019. Três anos depois, a crise de subsistência e a crise de legitimidade convergiram abertamente no levante “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022.

Entre essas explosões, a classe trabalhadora continuou a se organizar — nas greves dos trabalhadores de Haft Tappeh, nas mobilizações nacionais de professores e aposentados, nas lutas dos motoristas de ônibus de Teerã e nas repetidas greves dos trabalhadores terceirizados dos setores petrolífero e petroquímico — frequentemente por meio de organismos de coordenação informais e formas incipientes de auto-organização que retomam, de maneira embrionária, a ideia dos conselhos operários (shoras).

Dessas experiências acumuladas de revolta e ação operária surgiu um movimento social mais amplo que enfrenta o regime. Mesmo no momento de maior intensidade do último movimento, este carecia de coordenação, organização e de um conjunto unificado de reivindicações; no entanto, a situação social na qual estava enraizado não mostra sinais de desaparecer.

No contexto de uma sociedade que gradualmente ganhou confiança em sua própria capacidade de resistência, a crise no Irã não diminuiu, mas se intensificou, já que a guerra de 12 dias com Israel, em junho de 2025, perturbou o comércio e as finanças, e a reimposição das sanções da ONU, em setembro, desencadeou uma nova rodada de terapia de choque econômica supervisionada pela chamada ala reformista do regime, representada por Pezeshkian, que transferiu os custos da crise para a população por meio de cortes de subsídios, aumento dos preços da energia, colapso da moeda e salários esmagados pela inflação.

A divisão social se reflete na vida cotidiana, segundo informam os meios internacionais, com famílias obrigadas a dormir nos telhados após alugarem suas casas e lares que compram óleo de cozinha fiado, enquanto as elites do regime garantem uma vida confortável para seus filhos nos mesmos países “ocidentais” que dizem desprezar. É sobre esse pano de fundo de deterioração social e desigualdade crescente que se desdobram as pressões externas e as manobras políticas para impor um desfecho vindo de cima.

O horizonte imperialista: a tentativa de um desfecho reacionário

Embora a crise interna de Donald Trump tenha reduzido sua margem de manobra, isso não freou os esforços de Washington para explorar o atual confronto com o Irã em benefício próprio, especialmente num momento em que a autoridade estadunidense se encontra em erosão em escala global. Até agora, porém, Trump tem oscilado entre ameaças retóricas, demonstrações militares e sinais de possível negociação. Trata-se de uma mesma ofensiva: forçar o Irã a se render à mesa de negociações e abandonar seu programa nuclear — uma exigência compartilhada pelos Estados Unidos, por Israel e pelas potências regionais aliadas.

Assim como na recente escalada contra a Venezuela, a coerção e o espetáculo fazem parte de uma ofensiva mais ampla que, quando encontra condições favoráveis, avança para a ingerência aberta, a tentativa de sequestrar o poder estatal e a transformação do país em um protetorado imperialista, com setores do regime atuando como vassalos de Washington. No Irã, uma operação desse tipo enfrentaria obstáculos muito maiores, mas a lógica que a impulsiona é a mesma: mascarar, por meio de ameaças, demonstrações de força e manobras diplomáticas, a ausência de uma solução duradoura para as contradições que atravessam hoje o imperialismo estadunidense, originadas tanto na prolongada crise de rentabilidade do capitalismo quanto na ascensão de potências rivais como a China.

Junto ao arsenal mutável de manobras de Trump, gesta-se uma ofensiva ideológica paralela, enquanto os meios de comunicação e as elites políticas difundem respostas pré-fabricadas sobre o que deveria acontecer no Irã. Para alguns, a solução é a restauração da monarquia ou algum tipo de regime sob a liderança de Reza Pahlavi: não o empoderamento das massas, mas a substituição da elite clerical por uma elite real, ancorada em redes de exilados e no clientelismo estrangeiro.

A restauração monárquica é apresentada como “liberdade”. Mas, sempre que a “liberdade” foi imposta de cima na região, ela implicou um governo apoiado por potências estrangeiras e repressão. No Iraque, a derrubada de Saddam Hussein levou à ocupação e à guerra civil. Na Líbia, a destituição de Muamar Kadafi pela OTAN trouxe milícias e instabilidade duradoura.

Os monarquistas iranianos pedem que os iranianos esqueçam sua própria história. Na década de 1920, Reza Shah chegou ao poder com apoio britânico para esmagar as greves e as revoltas camponesas que se espalharam após a Revolução Russa. Em 1953, um golpe de Estado apoiado pela CIA e pelo MI6 restituiu seu filho, Mohammad Reza Shah, ao poder, para bloquear um movimento de massas que lutava pela nacionalização do petróleo iraniano. O que se seguiu não foi democracia, mas vinte e cinco anos de ditadura imposta pelas prisões e pela SAVAK, treinada pela CIA. Hoje, recicla-se a mesma solução. Reza Pahlavi não parece contar com apoio popular significativo dentro do Irã; seu respaldo parece provir principalmente de setores da diáspora e de círculos políticos estrangeiros. No entanto, isso nunca foi um obstáculo para transições apoiadas pelo imperialismo. A lógica das chamadas “revoluções coloridas” não depende de ampla legitimidade popular, mas de aproveitar momentos de agitação social, repressão e desorientação política para impulsionar uma liderança desde cima capaz de garantir a continuidade da ordem existente.

Por trás do ressurgimento da bandeira do leão e do sol esconde-se, portanto, um projeto bem conhecido: não uma luta pela autodeterminação popular, mas uma solução pró-imperialista imposta de cima, cujo objetivo é conter e, em última instância, reprimir a organização independente de trabalhadores, mulheres e jovens. A corrente monárquica agrupada em torno do filho do xá representa abertamente esse projeto, buscando reinserir o Irã na ordem regional imperialista sob a bandeira de uma “transição democrática”.

Diante dessas soluções pró-imperialistas encontra-se um segundo campo: aqueles que defendem o regime existente em nome da oposição aos Estados Unidos e a Israel, considerando a repressão como algo que deve ser aceito. Essa lógica também se reflete nos debates dentro do movimento pró-Palestina, onde algumas correntes apresentam o Irã como uma força regional progressista simplesmente porque parece “enfrentar” os Estados Unidos e Israel. No entanto, condenar esse massacre não implica apoiar a intervenção estrangeira.

Uma postura anti-imperialista hoje implica a defesa incondicional do Irã frente à agressão estadunidense e israelense, ao mesmo tempo em que se rejeita tanto uma transição pró-imperialista imposta de cima quanto a tentativa do regime de monopolizar o anti-imperialismo para desmobilizar e reprimir a dissidência interna. Essa tensão se agudiza pelo fato de que o próprio regime mobilizou sua base social não apenas contra os Estados Unidos, mas também contra os protestos, apresentando a luta independente como uma ameaça à sobrevivência nacional.

Não há dúvida de que as agências de inteligência dos Estados Unidos e de Israel buscam intervir na crise iraniana. Mas reduzir os protestos às maquinações da CIA ou do Mossad é, por si só, uma operação política. Isso transforma um levante social enraizado na inflação, no desemprego e na violência estatal em uma conspiração externa, ocultando a ação independente dos trabalhadores, das mulheres e dos jovens — a força social por meio da qual o anti-imperialismo pode adquirir um conteúdo progressista e emancipador.

Nem ataque imperialista nem tutela reacionária

A urgência de defender um caminho independente se acentua diante da conjuntura atual. Com a escalada das ameaças de Donald Trump e o desdobramento de uma enorme força naval estadunidense diante das costas do Irã, o imperialismo não é um fator externo ou secundário, mas um ator ativo que busca intervir para encerrar à força o desfecho da crise — o que torna prioridade imediata opor-se à guerra e a qualquer intervenção imperialista. Nada disso implica apoio político ao regime teocrático e assassino da República Islâmica, cuja repressão deve ser denunciada sem vacilação. Mas denunciar o regime não pode se transformar em neutralidade entre países opressores e oprimidos. Diante da ameaça de guerra e das tentativas de manipulação por parte de Trump, do Mossad e de toda a direita imperialista, a tarefa imediata é posicionar-se contra o imperialismo, advertindo que até mesmo uma mobilização massiva legítima pode ser desviada para uma saída reacionária ditada do exterior, cujo propósito é reafirmar o controle imperial.

A alternativa não passa por ultimatos disfarçados de diplomacia nem por “transições” tuteladas, mas por afirmar uma posição clara: contra a guerra imperialista, contra toda intervenção estrangeira e contra o uso reacionário da revolta popular. Somente assim a luta contra a repressão interna poderá manter-se independente e abrir uma perspectiva verdadeiramente emancipadora para os trabalhadores, as mulheres e a juventude iraniana.