Capa: Entrevista com Luis Meza Álvarez: "A rebelião boliviana prova que a relação de forças não é estática, e não pode ser usada como desculpa para o imobilismo e a conciliação de classe"

Entrevista com Luis Meza Álvarez: "A rebelião boliviana prova que a relação de forças não é estática, e não pode ser usada como desculpa para o imobilismo e a conciliação de classe"

Por André Barbieri |
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Luis Meza Álvarez é Antropólogo, pós-doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e integrante da Red de Ananse da Colômbia.

"[A rebelião] demonstra que a correlação de forças desfavorável para a classe trabalhadora não é estática nem eterna, de modo que não podem ser usados como desculpa para o imobilismo e para a conciliação de classe, que é justamente o discurso hegemônico da centro-direita representada pelo PT no Brasil que resultou na desmobilização e despolitização da classe trabalhadora".

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1. A Bolívia está atravessada por uma rebelião popular contra o presidente Rodrigo Paz. O que explica este estouro da luta de classes no país?

A rebelião popular em curso na Bolívia é a resposta da população organizada a uma tentativa de restauração neoliberal expressa em várias medidas concretas: perda do poder aquisitivo da moeda nacional, cortes do chamado gasto público e redução do Estado (congelamento de salários e novas contratações), a proposta da Lei 1720 que ataca a pequena propriedade rural para impulsionar uma contrarreforma, cortes de verbas da saúde e educação, a eliminação de subsídios aos combustíveis e a oferta de gasolina de baixa qualidade, entre outros. Ou seja, um pacote neoliberal que impõe uma política de austeridade, desregulação do mercado, entrega dos bens comuns (riquezas naturais) ao capital transnacional e ao imperialismo, assim como uma submissão política aos Estados Unidos da América, e econômica ao FMI. O pacote de medidas neoliberais apresentado num primeiro momento em dezembro de 2025 (Decreto Supremo 5503) já tinha sido derrotado pela mobilização popular em janeiro de 2026. Porém, os compromissos programáticos e ideológicos de Paz com o neoliberalismo obrigaram o governo a fragmentar o programa neoliberal numa série de medidas apresentadas ao longo de 2026 na expectativa de enfrentar menos resistência por parte da população boliviana. Porém, o resultado não foi o esperado, conforme vimos a partir do dia 1º de maio num processo crescente de mobilização que caminha para a quarta semana de ações de fato, e que ameaça a própria continuidade do governo no seu sexto mês de mandato.

Além da Central Operária Boliviana (COB) que liderou as mobilizações frente ao Decreto Supremo 5503 e, mais recentemente, no mês de maio convocou sindicatos e movimento operário, participam também os mineradores; setores camponeses e indígenas como os ‘Ponchos Rojos’ e a Confederação Nacional de Mulheres “Bartolina Sisa”; professores e trabalhadores urbanos; trabalhadores do transporte público; assim como apoiadores do ex-presidente Evo Morales. Os bloqueios se consolidaram em La Paz, já se estenderam a outras regiões do país (Oruro, Potosí, Chuquisaca, Cochabamba e Santa Cruz) e novos setores somam-se aos protestos.

Como esperado, a resposta governamental foi uma brutal repressão que já deixou quatro pessoas assassinadas, dezenas de feridos e mais de cem pessoas detidas. Além disso, a repressão também inclui a perseguição judicial de líderes dos diferentes setores mobilizados. Ordens de prisão foram emitidas contra Mario Argollo, dirigente da Central Operária Boliviana (COB); David Quispe, dirigente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores de Bolívia (Csutcb); Justino Apaza, vice-presidente da Confederação Nacional de juntas vecinales de Bolívia (Conaljuve); o dirigente camponês Héctor Huacani; o senador suplente Nilton Condori; e o líder dos “ponchos rojos” de El Alto, Winston Genio.

2. Paz é um aliado de Trump e de Netanyahu, em meio ao genocídio do povo palestino. Quais as consequências deste rebelião popular para esta situação?

Implica um sério empecilho aos planos de recolonização do imperialismo, um desafio ao disciplinamento da classe trabalhadora por parte das elites políticas e econômicas nacionais e internacionais, uma oposição férrea aos alinhamentos das elites conservadoras da Bolívia e da região ao imperialismo estadunidense e uma possível quebra de aliança com a entidade sionista de Israel. A rebelião coloca em risco a pilhagem das riquezas naturais da Bolívia por parte das empresas estadunidenses e reacende o debate sobre a necessidade da soberania nacional sobre esses recursos como base do desenvolvimento autônomo. Esta rebelião revela que a luta pela transformação das condições de vida no cotidiano da classe trabalhadora está fortemente conectada aos interesses das elites em nível nacional, continental e mundial. E que a luta implica enfrentar ao mesmo tempo os interesses da burguesia nacional, seus aliados internacionais e o imperialismo estadunidense. De fato, quando se deflagrou a mobilização popular por meio de ações de paralisação de atividades, bloqueios de estradas, marchas e reações à repressão estatal, Estados Unidos, Israel e seus aliados na região (Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai y Peru) saíram em defesa do governo Paz. Cabe destacar, no meio a essa espécie de internacional direitista solidária ao presidente Rodrigo Paz, a postura dissonante do presidente da Colômbia Gustavo Petro, que descreveu a situação como uma “rebelião popular”.

3. Qual a importância do desenvolvimento dos espaços de auto-organização na luta contra Rodrigo Paz?

É a condição de possibilidade para a somatória de forças necessária para enfrentar as forças repressivas do Estado, do governo de ocasião e seus aliados. Além disso, é a única via possível de construção de um programa político que consiga direcionar a rebelião popular em curso e colocar as bases de um possível governo da classe trabalhadora que reúna os diferentes setores mobilizados e outros que possam vir se somar à rebelião.

4. A mobilização na Bolívia está mostrando um novo caminho para enfrentar a extrema direita? Qual a importância dela para o Brasil?

Mais uma vez no século XXI o povo boliviano está demonstrando sua força organizativa, capacidade de mobilização e potencial de transformação da realidade. Demonstra que a ação política popular autônoma e independente do governo da vez é condição indispensável para atingir conquistas para a classe trabalhadora, enfrentar os interesses das burguesias nacional e internacionais, e transformar a correlação de forças desfavorável diante da capacidade repressiva dos aparatos de Estado e do imperialismo na região. Demonstra que a correlação de forças desfavorável para a classe trabalhadora não é estática nem eterna, de modo que não podem ser usados como desculpa para o imobilismo e para a conciliação de classe, que é justamente o discurso hegemônico da centro-direita representada pelo PT no Brasil que resultou na desmobilização e despolitização da classe trabalhadora.

A consequência lógica dessa postura é o reforço do consenso de que não existe alternativa ao neoliberalismo e o máximo que pode ser feito é ser bons administradores de uma ordem capitalista garantindo algumas políticas e programas sociais que não resolvem os problemas estruturais (analfabetismo, desemprego, endividamento, concentração da riqueza, degradação ambiental etc.) e cujas políticas de austeridade acabam fortalecendo a extrema-direita como opção antissistema. Os benefícios imediatos de tais políticas, embora importantes para as populações empobrecidas, são facilmente reversíveis e sempre estão sob ameaça por parte de uma extrema-direita que é também é neoliberal, porém de orientação fascista, o que acaba por reforçar a postura de uma centro-direita que se apresenta no discurso como de esquerda e única garantia de defesa da democracia. Uma democracia burguesa que exige que a disputa política seja feita em condições estritamente institucionais, ou seja, sem colocar em discussão os mecanismos que garantem a concentração da riqueza em poucas mãos produzida socialmente pela classe trabalhadora. E desse jeito a falsa polarização mantém intocada a ordem burguesa e aprofunda o modelo neoliberal.

Justamente a rebelião em curso na Bolívia aponta numa direção contrária ao conformismo dos setores de centro-direita e do social-liberalismo brasileiro, fieis defensores das regras do jogo da ordem política burguesa. O povo boliviano não foge ao conflito, procura sua resolução por fora dos limites da institucionalidade burguesa a partir da organização da classe trabalhadora e da mobilização popular, entendendo que as conquistas sociais não serão possíveis sem autonomia, independência e ruptura diante dos governos da vez e das regras de jogo da ordem burguesa. E isso já foi demonstrado na "Guerra da Água" (2000) e na guerra do "Gás" (2003), dois levantes populares históricos contra a privatização e a exploração estrangeira de recursos naturais, culminando na queda de presidentes, na reversão de privatizações e na eleição de Evo Morales; assim como na reversão do golpe de estado a Evo Morales em 2019 e a tentativa de golpe a Luis Arce em janeiro de 2024.