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França: o movimento de setembro e seus dilemas estratégicos

12.10.2025

Parte da edição: 12.10.2025

Como superar o impasse da intersindical?

Um começo e potencial promissor, uma radicalização política e destituinte

O dia 10 de setembro surpreendeu até mesmo aqueles que vinham participando das últimas lutas sociais na França. Não apenas se tratou de uma ação organizada de baixo para cima, mas, ao contrário de outras jornadas, o clima não era rotineiro, e sim de desafio direto. Os cantos já não eram contra uma reforma específica, mas contra Macron e contra todo um sistema que protege os ricos enquanto a maioria sofre com o aumento do custo de vida, a precarização do trabalho e o deterioramento dos serviços públicos.

Esse salto qualitativo se expressou em um elemento central: a rejeição social começou a adquirir um tom abertamente destituinte. É o que apontavam os principais analistas e institutos de pesquisa do país:

Após a censura de Barnier, os eleitores pressionaram os partidos a alcançar um compromisso por medo de que o país ficasse sem orçamento. Esse impulso se dissipou... O desejo de “mudar tudo” está ganhando terreno, observa o pesquisador Bernard Sananès (Elabe). E, pela primeira vez, a radicalidade parece (levemente) mais atraente do que a busca pelo consenso.

De modo mais geral, começa a surgir entre a população uma forte hostilidade à grande patronal — um elemento novo e muito interessante —, avançando sobre uma limitação importante dos próprios coletes amarelos, a luta mais radical e subversiva na França dos últimos anos [N1] .

No que diz respeito ao caráter específico do movimento, não se tratava de pedir “negociações” nem de esperar concessões parciais, mas de questionar a legitimidade do presidente e da própria Quinta República. Como afirma acertadamente o historiador e especialista em sindicalismo e movimentos sociais Stéphane Sirot:

... este movimento social pode abrir o caminho para um retorno a mobilizações que se afastem do registro puramente defensivo que predominou durante várias décadas. Ao não se limitar a lutar contra uma medida governamental, mas ao tentar impor uma ruptura com as orientações do modelo neoliberal, ao suscitar debates públicos que colocam em jogo a forma de sociedade, o âmbito sindical se encontra em condições de gerar uma dinâmica ofensiva.

O potencial era evidente: um movimento capaz de articular a raiva operária [N2] com a energia da juventude, o repúdio à desigualdade com a crítica ao autoritarismo institucional. Um terreno em que um movimento social nascente poderia dar uma saída progressista à crise da Quinta República, em estado terminal.

A “estratégia de pressão” da Intersindical mina o potencial e enfraquece a luta

Mas essa possibilidade se chocou rapidamente com o limite imposto pela Intersindical. Elevada ao posto de interlocutora legítima pela mídia [N3] e pelo próprio governo, seu papel foi o de conter o transbordamento. Em vez de transformar o dia 10 em trampolim para um plano de luta, as direções sindicais optaram por administrar a mobilização em doses homeopáticas.

Essa política teve efeitos imediatos: o dia 18, embora massivo, permitiu à Intersindical — que havia evitado e/ou combatido o dia 10 — recuperar o controle... apenas contestado na marcha parisiense pelo bloco da Gare du Nord, que marchou à frente com uma faixa clara: “Fora Macron. Greve geral para bloquear tudo”, sofrendo a repressão deliberada da polícia. Após essa jornada vitoriosa, a Intersindical deu um ultimato ao primeiro-ministro Sébastien Lecornu, o que desmobilizou os setores mais determinados, como se pôde ver pelo esvaziamento das assembleias, a menor participação nos canais do Telegram e outros sinais de refluxo.

Por fim, a jornada de 2 de outubro confirmou a tendência de declínio. Não porque a raiva social tenha se dissipado, mas porque as direções sindicais decidiram não lhe dar uma saída ofensiva. Evitaram, sobretudo, colocar sobre a mesa a consigna mais elementar e lógica diante da crise democrática que permaneceu aberta após a aprovação da reforma da previdência via artigo 49.3: a renúncia de Macron.

Ao renunciar a exigir sua saída, a Intersindical se converte em garantidora de sua continuidade. Assim, entrevistada no último domingo pela France Inter, a dirigente da CGT Sophie Binet manifestou descontentamento com os anúncios de Lecornu e afirmou que a correlação de forças é favorável aos trabalhadores... mas se recusou a exigir a renúncia de Macron:

“Não temos nada contra ele; além disso, precisamos de um presidente que presida no plano internacional, dada a crise geopolítica em que nos encontramos.”

O ciclo de luta de classes aberto em 2016 em um impasse estratégico

Esse bloqueio não se explica apenas por uma conjuntura particular. Desde 2016, a França vive um ciclo de lutas que revela tanto a força quanto os limites da classe trabalhadora. A resistência à Lei El Khomri, a greve ferroviária de 2018, a explosão dos Coletes Amarelos, a batalha contra a reforma das aposentadorias em 2019 e, sobretudo, em 2023, a revolta das banlieues nesse mesmo ano e agora o “setembro destituinte” fazem parte de um mesmo processo: ondas que colocam em crise o governo de turno, mas que não conseguem se traduzir em uma mudança política estrutural.

A burocracia sindical desempenhou um papel fundamental nesse sentido, ao limitar o potencial dos movimentos dentro de um marco estreito. Sob sua direção, as ações operárias mencionadas acima se limitaram a jornadas isoladas, como na batalha das aposentadorias em 2023, ou a setores específicos do proletariado, como o papel heroico desempenhado pelo setor de transportes da região parisiense em 2019–2020, que foi privado de um apoio efetivo do restante do movimento operário. Em outros casos, como o movimento dos Coletes Amarelos, as direções sindicais impediram a união entre os bastiões operários e a mobilização popular em seu auge.

Embora desde o retorno das férias tenha sido surpreendente a recusa da burocracia sindical em intervir na crise política, a vontade de limitar as mobilizações a um marco reivindicativo restrito e defensivo tem sido sistemática nos últimos anos. Em 2023, não foram apenas as jornadas isoladas que levaram o movimento ao fracasso, mas também a negativa de ampliar as reivindicações a questões como os salários — origem de uma importante onda de greves desde 2020 e da poderosa greve dos refinadores em 2022. Essa política impediu a expansão do movimento aos setores mais precários da classe trabalhadora.

Diante da recusa da Intersindical em fazer um balanço de sua política e de rejeitar a responsabilidade pela derrota — atribuindo-a à base, considerada insuficientemente mobilizada, ou a Macron, apresentado como imbatível —, cada momento de ofensiva se transforma, com o tempo, em frustração. E cada frustração alimenta, perigosamente, a ilusão de saídas reacionárias. A Reunião Nacional de Le Pen não cresce por sua capacidade de mobilizar, mas sim pelo vazio deixado por mediações sociais e políticas incapazes de resolver o impasse.

Como romper o conservadorismo da burocracia sindical? O papel dos comitês de ação

Aqui aparece o problema central: a vanguarda operária e juvenil, embora combativa, ainda não dispõe dos instrumentos políticos e organizativos para superar a burocracia sindical. As tentativas de coordenação independente que surgiram nos últimos anos — como a Inter-gares, a Coordenação RATP-SNCF, certas Assembleias Gerais Interprofissionais ou a Rede pela Greve Geral — ainda são embrionárias, fragmentadas e sem capacidade de disputar a hegemonia. A maturidade política das bases supera a de suas direções, mas a imaturidade organizativa da vanguarda impede traduzir essa radicalidade em um plano de ação.

A grande questão é como superar as cúpulas sem romper a unidade da luta. Aqui, a tradição do movimento operário oferece pistas. Trotsky, nos anos 1930, sustentava que a chave estava nos comitês de ação: órgãos de coordenação eleitos em assembleias de fábrica, em liceus, universidades e bairros, capazes de organizar de baixo o que as direções bloqueiam desde cima. Dizia o revolucionário russo:

“Não se trata de uma representação democrática de todas e quaisquer massas, mas de uma representação revolucionária das massas em luta. O comitê de ação é o aparelho da luta. É inútil tentar supor de antemão quais camadas de trabalhadores estarão ligadas à criação dos comitês de ação: as fronteiras das massas que lutam se determinarão na própria luta.”

Um comitê de ação não substitui os sindicatos, mas impede que a burocracia monopolize as decisões. Permite coordenar greves, estendê-las a setores indecisos, controlar serviços estratégicos sob direção operária e, sobretudo, decidir democraticamente os passos da luta. Sua mera existência questiona a ideia de que apenas as cúpulas têm o direito de definir o rumo. Nas palavras de Trotsky: “o significado dos comitês de ação é ser o único meio de quebrar a resistência contrarrevolucionária dos aparelhos dos partidos e sindicatos.”

Na prática, um comitê de ação, em determinadas circunstâncias, pode ser um embrião de duplo poder: mostra que os trabalhadores podem organizar a vida social sem delegar às instituições. É, além disso, uma escola de autogoverno, onde se forja a maturidade política e organizativa que hoje a vanguarda necessita para superar as direções burocráticas. Mas, na situação atual,

“Os comitês de ação… têm por tarefa unificar a luta defensiva das massas trabalhadoras na França e também dar a essas massas a consciência de sua própria força para a ofensiva futura.”

Romper o conservadorismo da Intersindical não se conseguirá apenas com discursos radicais, mas com organização independente desde baixo. O desafio é semear, em cada setor, a semente desses comitês, capazes de unir o que a burocracia separa e de preparar de forma real uma greve geral política.

Poder constituinte vs canalização eleitoral. A política impotente da LFI de Mélenchon

O debate não se limita ao terreno sindical. Ele também atravessa a política da esquerda. Que saída dar a este movimento? Confiar nas instituições da V República ou apostar em uma força constituinte desde baixo?

Uma perspectiva baseada no poder constituinte das massas propõe que a própria mobilização pode criar novas instituições democráticas, surgidas da auto-organização. É a lógica dos conselhos operários, das coordenações interprofissionais, das assembleias soberanas. Trata-se de transformar a luta social em germe de um novo poder.

A França Insubmissa (LFI), em contrapartida, aposta em canalizar o descontentamento no terreno institucional. Apesar de Mélenchon, no fim das férias, ter flertado com a ideia de uma greve geral, sua orientação estratégica foi em outro sentido. Se, no início, insistiu na complementaridade entre a rua e o Parlamento, ao mencionar a moção de destituição apresentada pela LFI, reafirmou posteriormente o conteúdo institucional:

“Nos encontramos em um momento de mudança e, após este momento de mudança, precisamos de um momento de refundação. Somente as eleições presidenciais, neste país, levando em conta como são as instituições, nos permitem ter esse momento de refundação.”

Essa ideia vem sendo repetida desde então, e os dirigentes da LFI a apresentaram como “a saída política do movimento de setembro”.

Essa política é impotente. Inscrita na lógica estratégica da “revolução cidadã” — que considera que o movimento de massas só pode se traduzir politicamente se respeitar as “formas democráticas”[N4] das instituições existentes e se submeter ao jogo eleitoral para transformá-las desde dentro —, ela subordina a energia destituinte a um calendário institucional que favorece o regime. Ao mesmo tempo, ao não oferecer um objetivo claro de luta em ruptura com as instituições da V República, para além da retórica exaltada, deixa espaço para que a extrema direita se apresente como a única força de mudança.

Diante do perigo da extrema direita, a classe trabalhadora deve se apresentar como alternativa hegemônica

Setores burgueses ou pró-burgueses reconhecem o perigo da situação para o regime de dominação da burguesia imperialista. Pessoas insuspeitas de esquerdismo percebem o clima mais geral que o país vive. Assim, Matthieu Pigasse, assessor financeiro e membro do conselho de supervisão do Grupo Le Monde, declarou no programa “L’Événement”, do canal France 2, em meados do mês: “Se as desigualdades não forem corrigidas, ocorrerá um choque de natureza insurrecional ou revolucionária”. Mais surpreendentemente, a editorialista Cecile Cornud, do jornal patronal Les Echos, poucos dias após a decisão histórica da Justiça de condenar um ex-presidente a cinco anos de prisão efetiva — uma primeira vez — escreveu: “Contra Nicolas Sarkozy e qualquer outro político, contra os ‘ricos’ e os poderosos, flutua no país real um ar revolucionário que muitas vezes é subestimado nos estúdios de televisão. O trovão de baixo, desta vez, que Paris não ouve”. Um texto que causou espanto nos meios políticos.

Nesse contexto, o freio da Intersindical responde a um cálculo político de fundo. As direções sindicais não querem a queda de Macron nem uma crise de regime que coloque em questão a V República. Sabem que um cenário destituinte abriria um terreno desconhecido, no qual poderiam perder seu papel de mediadoras privilegiadas. Em vez de impulsionar a radicalização, colocam-se como muro de contenção. Preferem preservar o status quo a arriscar que a classe trabalhadora, atuando de maneira independente, abra uma dinâmica revolucionária.

Esse conservadorismo não é novo: já em 1968, a CGT assinou os Acordos de Grenelle para conter uma greve geral que podia derrubar o gaullismo. Em 1995, as direções transformaram uma vitória contra Juppé em um acordo de recomposição do regime. Em 2023, diante da reforma da previdência, a Intersindical evitou a greve geral por tempo indeterminado, apesar de as condições estarem maduras — derrota que levou a um novo salto eleitoral do lepenismo, cujo governo foi evitado por pouco, pelo último suspiro da debilitada frente republicana. Mas, ao contrário do passado, no quadro da crise política aberta e do esgotamento do regime reacionário da V República, não haverá saída reformista para a crise.

Diante da crescente ingovernabilidade, a burguesia — passo a passo — começa a se abrir a outras saídas reacionárias: seja a ascensão, pela primeira vez, de um governo da Reunião Nacional (RN), seja a formação de um bloco entre direita e extrema direita, como na Itália. Não por acaso, Giorgia Meloni (que, aliás, enfrenta hoje o movimento de massas mais importante das últimas décadas em seu país) transformou-se na “nova musa da burguesia francesa”.

Somente o proletariado, desenvolvendo toda sua capacidade hegemônica como setor dirigente das massas exploradas e oprimidas, pode evitar essa perspectiva sombria. Desde o RP (Revolución Permanente), colocamos e colocaremos todos os esforços ao nosso alcance, como corrente revolucionária, para ajudar nossa classe a dar o maior número possível de passos nesse objetivo. Há muito em jogo!