Em seu livro Pensar después de Gaza: ensayo sobre la ferocidad y la extinción de lo humano, o filósofo italiano Franco Berardi apresenta um balanço apocalíptico das consequências do genocídio do povo palestino, que marcaria ao mesmo tempo “o fim da história” e a impossibilidade de uma “humanidade humana”.
Talvez essa história já tivesse terminado em Auschwitz e Hiroshima, mas, depois de 1945, pensávamos que era possível uma nova história, uma história finalmente humana, e prometemos a nós mesmos pôr fim às guerras, aos campos de extermínio, ao racismo e à tortura. No entanto, a tortura e o extermínio, o racismo e a guerra retornaram em grande escala em todo o mundo. Agora toda esperança foi aniquilada em Gaza, onde o retorno do genocídio pelas mãos das vítimas de outro genocídio demonstra que já não serve de nada seguir em frente. Não há razão para esperar que a humanidade possa algum dia tornar-se humana [1].
Para Berardi, essa catástrofe moral é a expressão de um processo de “desintegração” da ordem mundial que se traduz na ascensão da extrema direita e no início de um genocídio planetário: “Depois de 7 de outubro de 2023, entramos oficialmente na era do genocídio global e da proliferação de pontos de colapso caótico. O movimento reacionário global está criando pontos de ruptura caótica por toda parte” [1]. Uma dinâmica de autodestruição que seria a face negativa de outro projeto impulsionado pelos grandes grupos tecnológicos: a “criação de uma ordem superior, que seria a ordem da automação” e a extinção da humanidade enquanto tal.
Em Gaza, esse projeto genocida teria assumido a forma de um “tecnonazismo” e de um “extermínio inteligente”, realizado graças aos drones e à inteligência artificial: “O genocídio perpetrado por Israel constitui a primeira aplicação em grande escala da automação do extermínio” [1]. Um experimento de substituição do ser humano pela máquina, tanto no caso das vítimas do genocídio, pura e simplesmente exterminadas, quanto no dos genocidas, cuja obra de morte seria agora realizada por máquinas que superam seus “limites físicos e psicológicos”.
Embora os drones e os robôs explosivos utilizados massivamente por Israel ilustrem essa hipótese, Berardi baseia-se sobretudo no software Lavender: utilizado para fornecer ao exército israelense um banco de dados de alvos militares, o software gerou uma lista de 37 mil palestinos suspeitos de estarem vinculados ao Hamas. Para cada pessoa selecionada como alvo, o exército israelense optou por tolerar entre quinze e vinte vítimas colaterais, assumindo, desde o primeiro minuto da guerra, seu caráter genocida.
Para analisar esse “tecnofascismo” genocida, do qual Gaza seria a encarnação, Berardi retoma o conceito de “Império”, desenvolvido por Antonio Negri e Michael Hardt, para analisar o momento unipolar da ordem internacional e a hegemonia indiscutível dos Estados Unidos ao final da Guerra Fria: “Diferentemente do imperialismo, o Império não estabelece um centro territorial de poder nem se apoia em fronteiras ou barreiras fixas. É um aparelho de governo descentralizado e desterritorializado, que integra progressivamente o espaço do mundo inteiro dentro de suas fronteiras abertas e em perpétua expansão [1], escreviam na época.
Ao subestimar “a essência niilista da hegemonia estadunidense e a natureza destrutiva das novas tecnologias vinculadas ao período neoliberal” [1], Hardt e Negri teriam oferecido uma interpretação otimista de um novo sistema de controle totalitário (baseado no “psicopoder”, na automação e nas redes, segundo Berardi). O genocídio em Gaza e, em outro plano, Trump, Musk e os gigantes da tecnologia seriam os sintomas do surgimento desse império sombrio, reinterpretado em chave trágica. E, diante desse novo mundo, qualquer perspectiva de emancipação seria ilusória.
Em um trecho de seu livro, Berardi assinala que a história do século XX foi marcada pela oposição política fundamental entre o “darwinismo social” e o “internacionalismo operário”, que seriam opostos entre si. Para Berardi, Marx teria rompido com uma visão mecânica da história ao assumir o evolucionismo darwiniano, que postula que a evolução das espécies e a seleção natural não obedecem a uma finalidade predeterminada, mas derivam de relações de poder contingentes e da adaptação ao ambiente natural. Mas, enquanto a burguesia e as classes dominantes mobilizaram politicamente essa teoria para santificar a lei do mais forte e a competição entre os Estados e os indivíduos, a genialidade de Marx consistiu em insistir na dimensão universal dos interesses da classe operária, cuja sobrevivência ou libertação pressupõe a de todos os oprimidos.
Enquanto a lei do mais forte se traduz em nacionalismo, guerra ou divisão dos trabalhadores, o internacionalismo operário seria o princípio capaz de neutralizá-la no cenário da história. A luta de classes desviaria assim a seleção natural ao unir os oprimidos contra os opressores para criar uma sociedade livre da exploração e da própria força: “Somente quando a classe operária […] exerce sua hegemonia, o interesse particular pode se tornar universal. Nessas condições, a seleção natural se inclina para o igualitarismo, a solidariedade e o prazer coletivo da cooperação [1]”.
Mas o neoliberalismo, a globalização e a restauração burguesa teriam colocado fim definitivamente às condições de possibilidade do internacionalismo ao aniquilar sua força histórica, tal como escreve na última página de seu livro: “A fragmentação contemporânea do trabalho e a normalização cognitiva do espírito social fazem com que a solidariedade seja inviável: nessas condições, o século XXI bem poderia ser um século de guerras sem revolução. Por isso digo que a história humana terminou e que os seres humanos estão descendo às trevas [1]”.
Essa conclusão desesperada, sem dúvida, ressoa com a sensação de fim do mundo provocada pelo genocídio, com a impotência que pode nos invadir diante das imagens dos massacres. Mas, embora o movimento internacional de solidariedade, em aliança com as lutas de classe na região, ainda não tenha conseguido pôr fim ao genocídio, nada indica, por isso, que “a solidariedade seja inviável” e que seja necessário condenar toda a humanidade pela decadência das classes dominantes.
Essa afirmação é simplesmente falsa à luz do que presenciamos nos últimos meses: o ressurgimento de fortes sentimentos anti-imperialistas, desde as universidades estadunidenses até as ruas da Itália. Este último caso foi impulsionado, em parte, pela vanguarda dos estivadores de Gênova, que conseguiram arrastar consigo setores da classe trabalhadora e da juventude em duas greves gerais anticoloniais. Longe de ter desaparecido, o antagonismo entre a lei do mais forte e o internacionalismo — uma oposição política fundamental que Berardi considera superada — manifestou-se novamente com força graças ao ressurgimento do movimento operário italiano. Identificar as tendências à luta e à resistência, aprender coletivamente com elas e, ao mesmo tempo, buscar superar seus limites permite evitar a resignação ao “descenso às trevas”. Ao apagar essas resistências, Berardi consagra o pessimismo da vontade mais do que o da razão. Justamente, a força do internacionalismo operário consistia em articular esse pessimismo da razão com um otimismo da vontade.
A afirmação de Franco Berardi deriva de um objetivismo que já se tornou senso comum na esquerda: a destruição das grandes concentrações operárias, dos direitos trabalhistas conquistados, a internacionalização das cadeias de produção e as deslocalizações neoliberais teriam destruído a capacidade da classe operária de ser o grande sujeito que poderia ter sido no passado. No entanto, se analisarmos detidamente, a situação é mais contraditória.
Embora a fragmentação das cadeias de valor e sua globalização tenham prejudicado a organização coletiva dos trabalhadores, a interdependência objetiva entre locais de produção separados por milhares de quilômetros poderia, como aponta Sandro Mezzadra, ser o eixo central da recomposição de um “novo internacionalismo”. Desse ponto de vista, é preciso reconhecer que os pontos cruciais de trânsito dos carregamentos de armas com destino a Israel foram o epicentro das mobilizações operárias contra o genocídio. Enquanto a classe trabalhadora nunca foi tão numerosa e feminizada em escala mundial, a interdependência das economias nacionais talvez tenha multiplicado por dez seu poder de ação.
Poder-se-ia até mesmo levantar a hipótese de que as condições objetivas do internacionalismo operário nunca foram tão favoráveis em décadas: o peso objetivo da classe operária em escala internacional e a dispersão das cadeias de valor criaram grandes “cordões operários” que atravessam as fronteiras, enquanto as crises que abalam alguns países do mundo se propagam cada vez mais rapidamente em escala mundial. O espaço digital e as redes sociais — que Berardi critica duramente como uma forma totalitária de dominação do “semio-capital”, que estaria aniquilando até mesmo a própria consciência — conectaram, no entanto, a solidariedade com Gaza e permitiram difundir as imagens e os testemunhos que aceleraram a politização contra o genocídio, apesar da censura orquestrada pelos grandes bilionários que as possuem.
Desse ponto de vista, parece que é sobretudo no âmbito das condições subjetivas que a luta de classes fica para trás diante das ofensivas do imperialismo: as ideias soberanistas ou protecionistas retomadas pela esquerda vão contra a transformação da rejeição ao genocídio em uma estratégia internacionalista, enquanto as ilusões pacifistas ou os apelos ao direito internacional exercem uma pressão que paralisa as mobilizações. Acima de tudo, é o discurso interiorizado sobre o desaparecimento da classe operária ou a impotência da luta diante da história que gera um efeito de inércia. Onde a teoria política deveria assumir a tarefa de remediar esse atraso subjetivo, a reabilitação, por parte de Berardi, do mito do “fim da história” em chave trágica apresenta-se como uma profunda interiorização do discurso neoliberal impregnado de certo romantismo da rendição.
De fato, a situação atual não se deve tanto ao surgimento de uma ordem totalitária sem precedentes que aboliria a história, mas a um retorno brutal e acelerado das piores tendências da época imperialista, que Lenin definia como um período de crises, guerras e revolução.
Por trás dos projetos distópicos dos grupos tecnológicos escondem-se, sobretudo, os planos ultrarreacionários dos grandes monopólios que, depois de deixarem para trás as ilusões sobre o livre mercado, retornam à desumanização generalizada e à pilhagem colonial em um capitalismo em profunda crise. Quanto ao genocídio em Gaza, ele é a expressão mais evidente de uma tentativa contrarrevolucionária de destruir um povo cuja luta pela autodeterminação atua como catalisador das dinâmicas de luta de classes em toda a região, uma situação intolerável para um imperialismo estadunidense em crise, que enfrenta o surgimento de potências rivais como a China, que tenta fortalecer suas posições no Oriente Médio.
Sobretudo porque, como o próprio Berardi assinala: se essas forças de extrema direita são tão brutais, isso também é uma prova de sua fragilidade, e os “pontos de ruptura caótica” que abrem podem voltar-se contra elas. Como Trump não consegue reunir forças a partir de baixo, tenta dar livre curso às forças repressivas do Estado, como o ICE, que sofreu um primeiro revés na luta de classes em Minneapolis. Ao mesmo tempo, Israel entra em uma crise muito profunda, já que não conseguiu levar até o fim a limpeza étnica de Gaza nem alcançou nenhum de seus objetivos no Líbano, ao mesmo tempo em que enfrenta um isolamento internacional sem precedentes em sua história.
O fracasso do imperialismo no Irã desferiu um novo e duro golpe na hegemonia estadunidense, abrindo brechas entre Washington e seus aliados na Ásia, na Europa e no Oriente Médio, e enfraqueceu consideravelmente a internacional reacionária na Argentina, Hungria, Itália ou Chile. Nessas condições, os “pontos de ruptura caótica” poderiam muito bem se transformar em “pontos de ruptura de classe”, desde que nos lancemos a aproveitar a oportunidade. Uma lógica que implica romper frontalmente com as ideias do “fim da história” ou com o “adeus ao proletariado” herdadas da contrarrevolução neoliberal, para reconstruir um internacionalismo operário de luta.
Nesse contexto, é inegável que o genocídio em Gaza constitui um “acontecimento mundial”, como escreve Nancy Fraser, que evidencia a podridão moral das classes dominantes mundiais e, ao mesmo tempo, marca o retorno das piores tendências da era imperialista. Mas, mesmo em meio ao horror, o genocídio em Gaza deu lugar a uma poderosa solidariedade, alimentada pela resiliência do povo palestino, e despertou setores inteiros do movimento operário e da juventude que agora encarnam, junto aos palestinos, uma alternativa moral à lei do mais forte promovida pelos Trumps, pelos Netanyahus e pelos imperialistas franceses e alemães que são seus cúmplices. Em resumo, Berardi tem razão contra si mesmo: a lei do mais forte ou o internacionalismo operário. Essa é a alternativa política fundamental colocada pela história que se abre com Gaza.