Conversamos com Dario Salvetti, dirigente do Coletivo da Fábrica ocupada GKN, em Florença. A convergência das lutas, a Palestina e o despertar da classe operária na Itália.
A jornada de luta de 22 de setembro, a greve geral de 3 de outubro e manifestações com até 2 milhões de pessoas em solidariedade à Palestina foram um ponto de inflexão na Itália. A radicalidade da jornada de 22/09, convocada pelo sindicato USB e por outros do sindicalismo de base com o lema “Blocchiamo tutto”, lançado pelos portuários de Gênova, contou com a participação entusiasmada do movimento estudantil e de milhares de trabalhadores. Isso foi fundamental para impor a frente única à burocracia de uma das maiores centrais sindicais, a CGIL, que se viu obrigada a convocar uma greve geral pela Palestina.
Desde então, persiste um estado de “efervescência”. O “laboratório italiano” da luta de classes está dando lugar a novas experiências por parte de setores de vanguarda operária e estudantil. Um exemplo recente é a luta do movimento estudantil secundarista, com a ocupação de algumas escolas emblemáticas. Diante das provocações e agressões físicas por parte de grupos de extrema direita, que contam com o aval da polícia para agir, grupos de estudantes, professores e moradores se organizaram para defender as escolas ocupadas. Salas de aula rebatizadas como “Palestina” ou “Gaza” em diferentes universidades italianas, múltiplas assembleias e a convocação de uma greve nacional estudantil para o próximo 14 de novembro.
Talvez o mais avançado neste momento seja que um amplo setor da classe operária italiana está assumindo como objetivo a luta contra a “economia de guerra”. Ou seja, contra a escalada militarista que o governo direitista de Meloni compartilha com o restante dos governos europeus. Já houve várias concentrações e protestos em frente a fábricas de armas, e para o próximo 28 de novembro está convocada uma greve geral pelo USB e outros sindicatos, contra o projeto de orçamento do governo Meloni, que inclui um forte aumento dos gastos militares. O lema “Para cima os salários, para baixo o rearmamento” volta a aparecer na mobilização. Essa greve é uma oportunidade para que o movimento ganhe um novo impulso e constitui um exemplo avançado na Europa diante da política de rearmamento de todos os governos. No entanto, a burocracia sindical parece decidida a evitar que a greve se transforme em uma nova jornada histórica. A CGIL anunciou uma greve geral em outra data, para 12 de dezembro, dividindo assim o movimento.
Nesse contexto de irrupção da luta de classes na Itália, conversamos com Dario Salvetti, dirigente do Coletivo da Fábrica GKN, em Florença. A GKN é uma fábrica de autopeças que fechou em 2021 e foi ocupada por seus trabalhadores. Desde então, eles lutam por uma “reindustrialização” em sentido “ecológico”, para colocar a fábrica em funcionamento sob a forma de cooperativa, exigindo do governo regional que invista recursos para comprar o terreno e colocá-la em operação. A partir da GKN, foi lançado o movimento “Insorgiamo” para cercar a fábrica de apoio e solidariedade, e foi popularizada a ideia da convergência das lutas.
No último 18 de outubro, houve uma importante mobilização em Florença em apoio à luta da GKN, da qual participaram 10 mil pessoas. A mobilização, com um espírito muito combativo, terminou com a ocupação, por algumas horas, do hall central do aeroporto de Florença, como relatado aqui por La Voce Delle Lotte, integrante da Rede Internacional do La Izquierda Diario.
A conversa com Dario Salvetti, reconhecido lutador operário combativo, nos permite ter uma visão mais profunda sobre as mudanças que estão ocorrendo na subjetividade de setores de vanguarda operária e juvenil na Itália.
* Estamos observando com muita atenção tudo o que está acontecendo na Itália, a entrada em cena do movimento operário e estudantil, desde a jornada de 22 de setembro e a greve geral de 3 de outubro. Mas, antes de falar disso, gostaria de te perguntar sobre o que vem acontecendo na luta da GKN, que começou há alguns anos. Parece-me que essa luta antecipou muitas coisas que agora começam a se dar de forma mais generalizada. Você pode nos contar como surgiu a luta lá em 2021 e quais objetivos vocês estabeleceram?
Sim, a luta surgiu das próprias contradições do capital, portanto temos que dizer que tudo é “mérito” do próprio capital. No sentido de que somos uma fábrica do setor automobilístico, e esse setor vem sendo afetado mundialmente pela superprodução e pelo processo de financeirização especulativa há muito tempo. Há uma crise do setor automotivo, e há uma crise do automóvel que, na Itália, é ainda mais profunda do que no resto do mundo. A Fiat Stellantis reduziu sua produção na Itália, há dois anos, ao nível mínimo histórico desde 1953, e neste ano a produção foi reduzida ainda mais, em até 30%. Nossa fábrica estava centrada na produção de peças automotivas para as plantas italianas da Stellantis. E, quando foi preciso cortar postos de trabalho, chegaram os fundos especulativos para fazer o trabalho sujo. Foi o que ocorreu em 2018, com a chegada do fundo especulativo Melrose [N1], que fechou não apenas a nossa planta, mas também diferentes fábricas da GKN na Europa.
A primeira etapa da nossa luta foi meramente sindical, no sentido de que nos opusemos às demissões e conseguimos derrotá-las. E então começou uma nova etapa, que era nova para nós. Em certo sentido, não estávamos preparados, porque ficamos em um limbo: derrotamos as demissões, mas a multinacional não voltou a iniciar a produção. Assim, a fábrica permaneceu com os trabalhadores em estado de vigilância permanente, praticamente ocupada, em assembleia permanente. Primeiro lutando com salário e depois sem receber salário, porque em determinado momento deixaram de nos pagar, para obrigar as pessoas a aceitarem um “pedido de demissão voluntária”. Muito pouco voluntário, na verdade. Tentaram nos esmagar pela fome.
E assim se abriu a discussão sobre quem poderia preencher esse vazio da produção, já que o capital não voltava. Respondemos a essa pergunta não por um caminho acadêmico, mas pela via concreta das forças sociais que haviam entrado na luta: um setor do movimento contra as mudanças climáticas, movimentos sociais, cidadania ativa, haviam se incorporado à luta. Isso criou um ambiente no qual foi possível lançar a hipótese de que os trabalhadores, junto com movimentos ecologistas, poderiam pensar em preencher esse vazio com um programa de reconversão da fábrica. Evidentemente, esse programa de reconversão precisa ser público, porque a reconversão ecológica só pode ser pública e anticapitalista. Mas a verdade é que o poder estatal que existe hoje não é nem anticapitalista, nem realmente público. Assim, começamos claramente a desenvolver o plano de uma reindustrialização por baixo. Pública, mas não no sentido de ser feita pelo Estado. Pública no sentido de ser feita pela cooperativa dos trabalhadores, exigindo a propriedade pública da planta, que deve ser expropriada ou comprada pelo governo regional. E pública também no sentido de que os produtos da cooperativa operária devem ser levados ao mercado, não apenas por um mecanismo de capitalismo puro, mas por meio de um processo de desenvolvimento da luta social em torno desses produtos — por exemplo, em torno das placas fotovoltaicas ou das “cargo-bikes” [protótipo de bicicletas de carga desenhado pelos trabalhadores da GKN].
Neste momento, a luta está em uma situação muito difícil, porque estamos tentando enfrentar o boicote não apenas do inimigo de classe, mas também dos “amigos”. Isso porque, neste momento, o governo regional, “em teoria”, deveria comprar a planta para colocá-la à disposição da cooperativa operária. E, “em teoria”, o mundo das cooperativas deveria apoiar uma cooperativa operária que tenta recuperar a fábrica. Na verdade, acreditamos que esses dois poderes — a direção do cooperativismo italiano e o governo regional — não querem levar adiante o nosso plano. Por isso lançamos uma nova manifestação no dia 18 de outubro e uma nova campanha de acionariado popular, que começará em dezembro, para tentar quebrar o boicote ao nosso plano de reindustrialização.
Sobre o plano de reindustrialização, eu queria te perguntar especificamente, porque entendo que vocês estão colocando a ideia de que ele seja controlado pelos trabalhadores e que há acordos com organizações ecologistas. Você pode contar um pouco mais sobre isso?
Sim. O que aconteceu é que o capital usou o próprio vazio contra nós. E o capital sempre faz isso. Em alguns momentos, coloniza com seu extrativismo as fábricas e os territórios e, depois, quando quer, deixa um vazio. E, em determinado momento, o próprio capital avança com suas soluções. Isso está acontecendo com a indústria europeia. A indústria europeia foi atingida pela superprodução, pelas contradições do sistema, pela especulação, pela renda imobiliária, pela especulação financeira, pela guerra. Porque a guerra na Ucrânia aprofundou a crise de uma parte da indústria europeia. E agora eles apresentam sua própria solução para a crise que eles mesmos criaram: reindustrializar por meio da própria guerra — uma posição humanamente atroz e ideológica e economicamente falsa.
Aqui, o que aconteceu foi que a força social vinda de baixo se confrontou com o vazio criado pela retirada do capital do setor automobilístico, pela especulação financeira que fechou a fábrica e pela especulação imobiliária — que queria manter aquele espaço vazio por décadas apenas para realizar renda imobiliária. Mantendo sua própria presença física na fábrica, os operários não permitiram que esse vazio fosse criado e preenchido pelas falsas soluções do capital. Eles só querem a especulação financeira ou imobiliária. Assim surgiu a pergunta: o que podemos fazer? Como podemos retomar a produção sem o capital? E a resposta foi que precisamos retomar com uma produção ecológica. Isso nos levou a outra questão: em teoria, o espaço de mercado capitalista para produções ecológicas é muito grande, porque todo mundo diz que é necessário produzir esses bens para acelerar a transição ecológica. Mas, na verdade, a própria inércia do mercado capitalista não permite o desenvolvimento dessas produções em escala massiva. Assim, eles destroem as fábricas. A especulação quer que essas fábricas permaneçam vazias. O capital global não oferece soluções, exceto a solução bélica. Se queremos resistir na fábrica, como podemos substituir a produção se não temos um plano de reconversão ecológica da fábrica?
Isso também os levou a forjar laços de solidariedade muito fortes, como se viu na grande mobilização de 18 de outubro. Vocês têm o apoio do movimento estudantil e de outros setores. Ao longo desses anos, a partir da luta da GKN, vocês lançaram como lema a ideia da convergência. Você pode nos contar algo sobre como vem se articulando a unidade com outros setores?
Acho que há algo parecido no movimento que se expressou em 22 de setembro e 3 de outubro, embora em uma escala maior. Vivemos tempos em que existe um senso comum entre as pessoas, entre os estudantes, de que o capitalismo é um desastre. Todos os filmes que vemos mostram como algo normal que as multinacionais oprimem, que há um sistema em crise. Isso é algo que as pessoas percebem. O que às vezes falta é um processo de transição, dessa convicção, para uma luta que seja aqui e agora, um combate aqui e agora. Por exemplo, no caso do genocídio palestino, estava claro na Itália, há muito tempo, que a maioria da população era contra o genocídio e não aceitava a ideia da “autodefesa de Israel”. Mas a ação da flotilha — ter que lutar para defender, aqui e agora, uma flotilha que tentava romper o bloqueio naval de Israel — criou um clima diferente. Porque estabeleceu um vínculo entre uma convicção geral, que pode ser fatalista e também frustrante se não encontra um terreno de luta, e algo que eu tinha que defender aqui e agora.
E a fábrica e seu plano de reconversão ecológica também criaram, de certa forma, esse efeito. Não no sentido de que a reindustrialização ecológica da GKN seja a solução para todos os problemas, mas como um exemplo de uma convicção geral de que o capitalismo é completamente destrutivo e não quer a transição climática. Sustentando essa luta, posso criar um exemplo que expressa exatamente essa medida. E acho que é por isso que a GKN teve esse apoio popular, dos estudantes.
Uma luta que dura quatro anos não mantém sempre o mesmo nível de interesse nem a mesma força. Há períodos de fluxo e refluxo. O 18 de outubro foi a décima segunda manifestação em quatro anos. Não fizemos apenas manifestações, mas também muitas atividades sociais. A questão não é apenas dizer que o capital é mau porque fecha fábricas e demite operários, mas mostrar que, lutando aqui e agora, existe um exemplo — não a alternativa, mas um exemplo de alternativa — porque mostra o que poderia ser feito se o sistema fosse transformado em geral.
Sim, totalmente, é muito inspirador. Na Argentina, acompanhamos muito a luta dos trabalhadores da fábrica Zanon sob gestão operária, e de outras fábricas recuperadas como a Madygraf, que é uma gráfica sob controle operário. Também são exemplos de que pode existir uma alternativa, se todo o sistema for transformado.
Você mencionava a luta pela Palestina. E há algo especialmente alentador hoje na Itália no fato de que a classe trabalhadora tenha assumido com tanta força as demandas do povo palestino. É também um exemplo enorme. Nestes dias, eu estava lendo sobre o “outono quente” italiano de 1968/69 em diante, com grandes lutas da classe operária e do movimento estudantil. Ali aparecia o lema “o Vietnã também está na fábrica”. E hoje, em certo sentido, poderíamos dizer que a luta da Palestina está nas fábricas, nas universidades, nas escolas. O que você acha do fato de a classe operária ter saído às ruas para lutar pela Palestina na Itália?
Bem, é preciso dizer que, em geral, essas lutas recentes chegaram em um momento em que o movimento italiano, se não estava completamente em crise, certamente atravessava um período de grande dificuldade. E creio que essa dificuldade ainda persiste, em certo sentido. A contradição e o paradoxo são que existe dificuldade para organizar lutas e greves por causa da própria condição econômica da classe, mas não para se solidarizar com a Palestina e lutar contra o genocídio. Isso nos ensina um pouco sobre como pode funcionar a dialética da história. Uma classe operária que, neste momento, ainda não tem confiança de poder impactar suas próprias condições econômicas — porque o trabalho precário é muito difundido, porque os salários são muito baixos e também pela falta de determinação da direção dos sindicatos de massas — acabou, por sua própria contradição dialética, fazendo da Palestina um símbolo. Um símbolo de injustiça. De tudo o que é injusto na minha vida, de tudo o que é injusto neste sistema, de tudo o que é arbitrário. Do fato de que eles escrevem suas próprias regras e depois violam suas próprias regras. Todo esse sentimento de arbitrariedade e injustiça fez com que um movimento operário que não encontrava seu próprio caminho para lutar por suas condições acabasse encontrando algo mais importante, algo mais vital para despertar.
E isso é claramente um fato histórico, porque o que vimos é o que, na nossa história recente, mais se assemelha ao que aconteceu com o Vietnã. Mas agora existe outra contradição dialética. Os estudantes podem voltar às ruas várias vezes pela Palestina. O movimento operário não pode entrar em greve várias vezes sem que exista uma transição da luta pela Palestina para uma luta com a Palestina, em que eu também entre em greve pelas minhas próprias condições. Claramente, não é possível consolidar um movimento de greves se esse tema não se relacionar com as condições econômicas e de trabalho da classe operária. Assim, nas próximas greves existe um perigo. Temos que trabalhar sobre isso. Não é automático que o que se expressou em relação à Palestina possa se expressar também em lutas de caráter mais econômico, mais local. Isso é algo que precisa ser conquistado, mas ainda não está garantido.
E aí também, como você dizia, entram em jogo os grandes aparatos sindicais, tentando dividir, frear. Nesse sentido, como você avalia as perspectivas em relação à greve geral de 28 de novembro, convocada pela USB e pelo sindicalismo de base?
Há o perigo de que o velho volte a tomar o controle do movimento. O movimento pela Palestina foi muito forte porque se combinaram dois fatores. Um foi a ação da flotilha: ali, claramente, o movimento lutava por um objetivo muito concreto, que era defender a flotilha. O segundo fator, que tornou o 22 de setembro e o 3 de outubro tão fortes, foi o chamado que veio de baixo, do coletivo CALP dos portuários de Gênova, muitos dos quais são filiados ao sindicato de base USB, mas que também representam, em certa medida, a unidade por baixo das lutas. O perigo é que esses dois fatores — por um lado, uma ação clara e imediata; por outro, esse chamado vindo de baixo — no dia 28 de novembro sejam mais fracos do que no período anterior, e que se volte a uma divisão e competição entre as diferentes centrais sindicais.
Nossa posição é que toda a energia deve ser concentrada no dia 28 de novembro. Infelizmente, a CGIL, o sindicato mais importante, não fará isso e convocará outra greve em dezembro. Vamos denunciar isso como um erro gravíssimo, uma tentativa de voltar à etapa anterior, em que as divisões sindicais são usadas não para traçar perspectivas diferentes — o que é legítimo no movimento sindical —, mas para dividir o movimento. Por outro lado, também é verdade que, se a CGIL comete um erro tão grande ao convocar outra greve, isso ocorre porque a carga do imaginário coletivo em torno do dia 28 ainda não foi colocada em prática como deveria [N2].
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Em dezembro, os trabalhadores da GKN vão lançar uma nova campanha de arrecadação popular, com o objetivo de destravar o boicote ao seu projeto de reindustrialização ecológica. Nestes dias, estão convocando assembleias abertas junto com estudantes e trabalhadores da região para relançar a luta. Como assinalava Salvetti, a luta da GKN ao longo desses anos despertou a imaginação anticapitalista em setores de estudantes e trabalhadores, tendo como ponto forte a ideia da convergência de todas as lutas. Na nova situação aberta na Itália, essa experiência pode dar um salto como polo aglutinador de novas lutas e setores de vanguarda. A greve geral do próximo 28 de novembro pode se transformar em um novo marco nesse sentido.
Agradeço a Giacomo Turci pela colaboração na realização desta entrevista.