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Godido (EXTRA)

01.06.2025

Parte da edição: 01.06.2025

João Bernardo Dias nasceu em Moçambique em 1926. João Dias não publicou nenhuma obra em vida (faleceu em 1949). O conto Godido (EXTRA) foi publicado em seu único livro - Godido e Outros Contos em 1952 e é considerado um dos primeiros contos moçambicanos a denunciar a exploração do colonizado (negro) pelo colonizador (branco) marcando fortemente a literatura moçambicana.
«Era um vêgi um dia. Barranco chigou no nosso terra. Paiota, tinha degi. E patrrão ficou falar assi»: — «Agora machamba não é de prreto». «Brranco ficou no terra». O senhor Manuel Costa veio à povoação e assentou seus projectos ao lado dos negros. Trazia máquinas, autoridade, réguas. Espalhou dinheiro e panos de fantasia pelas gentes, trazendo à sua quinta os braços do sector. Trabalhar para o senhor Costa era mais seguro porque se abrigavam dos maus tempos que destroem os cultivos. Os brancos até lutam vantajosamente contra a Natureza. Os pretos dividiam-se em dois grupos: os das pequenas machambas independentes e os empregados da quinta. Os primeiros, sentindo o peso dos impostos, vendiam seus produtos ao caseiro. De modo que uns subordinados directamente e outros conscientes de uma liberdade que não tinham, todos viviam para o grande proprietário. Quatro meses andados, no lugar o senhor Costa se tornou um verdadeiro soba. Até fazia de juiz entre os indígenas. Grandes camiões paravam ali. Os armazéns falavam de tudo que se produzia e os carros afastavam-se de  pneus em baixo, pingando amendoins ou feijões que sacos rotos não seguravam. Aquela carga descongestionava os armazéns e ia espalhar libras no senhor Costa. Os produtos seguiam para grandes cidades. Na aldeia, a fome. «Di modo qui os prreto trabaia, trabaia e, às vêzi, fica fome no barriga dele. Não te˜ comida para o gente.» Um feiticeiro disse uma vez que a fome que começava nascendo era uma praga dos antepassados. Que andava um anjo mau na povoação. «Dá mim 20 cábêça hadi matar este chatice qui te˜ no terra». Mas os negros supersticiosos desconfiaram do que se lhe dizia e seguraram suas cabeças de gado. O branco raivando riso, empurrou para longe o negro ladrão. Os indígenas viram depois uma sombra e quiseram bater no feiticeiro que deitava pesos em seus pensamentos. De manhã, ainda a claridade rasgava farrapos de escuridão, um sino chamava às charruas e colheitas. Carlota trabalhou enquanto se lhe enchia o ventre. Certo dia sentiu náuseas, voltou à palhota. Descontaram-lhe horas de trabalho. A barriga rompeu e vazou. O senhor Costa espiou. — Azar! Se fosse mulher, a mão de obra... Mas não havia dúvidas. Nem a barba lhe faltaria ao crescer. Homem com todas as características. Na idade, havia de distrair as tombazanas da faina diária, rebolar por elas na mata. E as horas de sexo quem nas perdia em trabalho era ele, caseiro, que não tinha olhos em todos os cantos simultâneamente. Carlota continuou entre o quarto do senhor Costa e os negros da palhota. Entre eles, Godido germinou sem cinismos a roer até aos dedos a mandioca que a mãe lhe dava pelo dia. A vida fazia-se fábrica de descasque: os homens entravam, descascavam-se e saíam farelo para a estrumeira. Na máquina ficava suor. Amadureciam os campos, desfazia-se a vida em adubo. Não se pintavam novas cores no cenário; era aquele o método único, com mais ou menos pormenores. «Escola pra preto num tinha. Branco estava a falar cos preto é só pra cavari, cavari ni chão». Mamaria Carlota lembrou que tinham passado tantos anos quantos os dedos das mãos e de um pé, depois que Godido nascera. Cercavam-no olhos brancos de cobiça do senhor Costa, guiavam-lhe charruas e sementeiras no campo. Mãe-negra desgastara-se naquilo; sabia os trabalhos dos que nem corpo haviam para a sexualidade do senhor Costa. Godido precisava outros rumos. A vida realiza-se sempre certa onde quer que seja, mas nós não somos suficientemente fortes para o compreender e executar. O negro olhou-se entre campos e montes, a alma sangrando lágrimas aos cantos dos olhos. «Patarrão não esconfiou eu estava fugir». A mãe ficara a mentir um inesperado desaparecimento como se esquecesse aquelas últimas palavras ditas ao filho, que a vida estava um bocado além da mandioca e do chicote. Mas havia de dizer ao senhor Costa: — «Minha Godido ficou maluco; fugiu... fugiu do soroviço. Dêxou patrão, dêxou mãe. Maluco!» Godido mediu a falta de uma voz de mãe onde apoiar as acções, uma voz de mãe a cansar-lhe os ouvidos: «Num fagi isso!, Godido vênha qui». A estrada parecia doida no seu andar, atirando-se de colina ao vale quantas vezes com brusquidão. Morava em baixo uma respiração de grades. Vazio de casas e homens. A falar-nos da vida humana só a estrada.  Despropositadamente, raríssimos quase-pastores irmanados a suas ovelhas. Profundamente irmanados a elas. Ninguém acredita que sejam homens. Mantém-se que ali só estiveram os construtores de estrada e viajantes. Godido deu um passo menos seguro e pestanejou. Lembrara-se que podia passar alguém por ele. Com mil diabos! — «Mim vai no cidade viver co brancos» diria a seus patrícios. Complicavam-se as coisas se passasse por um branco. E neste pensamento falhou-lhe o coração e sentiu frio nos pés. Que ia em serviço, havia de dizer. A cidade agora começou a assustá-lo. Tinha medo. Era terra dos brancos. Os brancos eram como o senhor Costa. A cidade era muitos senhores Costas. A paisagem à volta despiu-se e o caminho entrou de oscilar num — «Vou? não vou?». Os negros lá deviam ficar sufocados. O seu caminho era para trás, na senzala. Que se não metesse em cavalarias altas. Mas a quinta dava-lhe náuseas e um caminho novo pedia ser pisado. «Os branco di cidade não fagi mal. Ni mato já mi chatia catinga de mamana, e paiota do gente co chuva no cama». Vertigens de novo, esperavam-no. Os pretos não estariam mais puxando carroças, como na quinta. O chão e o céu perderiam areia e azul e tudo seria oiro como o Sol. Ná! Aquele cheiro a suor da mãe e do senhor Costa enjoavam. A imagem do burgo deu-lhe sonho e medo alternados. A estrada ora escorregava gulosa, ora oscilava em vontades de palhota. Ao longe pinceladas amarelo-avermelhadas davam cidade. Era como que o limiar de outra existência mais real para Godido. — «Hih! Tão bom! Olhó o cidade». O ambiente ter-se-ia rido do seu estado de alma se o soubesse. Como se não fosse humano um negro pensar que a «vida do negro há-de acabar». Notas *Foto: Banco Mundial/Peter Kapuscinski