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Guerra imperialista, aiatolás e feminismo: com as mulheres, sempre!

Parte da edição: 08.03.2026

Nos tempos atuais, é fácil cair em simplificações. Mas o que funciona para as redes sociais não serve para tomar posição diante de uma situação complexa. Existe um regime teocrático repressivo e profundamente patriarcal no Irã e existe uma guerra imperialista contra esta nação oprimida. O que fazemos nós, feministas?

A polarização social e política e o imediatismo que se impõe no debate público das redes sociais fomentam, com frequência, uma distorção cognitiva: aquela que percebe ou julga situações e ideias eliminando as nuances e as complexidades que elas encerram. No X (antigo Twitter), se faz piada sobre as postagens que superam os 280 caracteres como se fosse "muito texto"; no Instagram, a média de visualização de um reel é de 3 segundos, o que não impede que muitas pessoas disparem insultos desmedidos porque no vídeo não foi dito algo que, na verdade, foi dito após esses 3 segundos. As crenças rígidas e inquestionáveis podem nos ajudar a lidar com a ansiedade, a instabilidade e a insegurança geradas por este mundo em que vivemos, mas nunca poderão nos oferecer uma visão realista que nos permita transformá-lo.

Algo assim acontece quando se lê a palavra "Irã". Nem se fala quando se acrescenta o termo "feminismo". Se ao debate se incorpora o fato de que os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão imperialista contra aquela nação oprimida, onde existe um regime político reacionário, especialmente repressivo contra as mulheres, ninguém quer ouvir nem ler mais nada. Mas, por mais que respondamos com o emoji da cabeça explodindo, os aiatolás oprimem as mulheres ali, as bombas israelenses matam meninas em idade escolar e Trump persegue ditadores em países onde — ora, que coincidência! — existem reservas de petróleo.

Novamente: onde estão as feministas?

Existe unanimidade no movimento feminista sobre que posição adotar diante desta situação? Não. Também não existe na esquerda. E surpreendam-se: até na direita trumpista se debate se é apropriado ou não lançar uma guerra contra o Irã! A realidade é complexa, diversa e está cheia de contradições.

Então, falamos pelo Pão e Rosas, que é a nossa corrente feminista socialista; portanto, internacionalista, anti-imperialista, anticapitalista, antirracista e, obviamente, antipatriarcal. Nesta guerra, distinguimos entre nações opressoras e nações oprimidas, ainda que seus governos nos pareçam desprezíveis. Por isso, consideramos uma obrigação lutar pela derrota política e militar dos Estados Unidos e de Israel no Irã.

Quem pode pensar que os mesmos que massacraram as mulheres e as meninas palestinas, os líderes sobre os quais chovem denúncias por abusos sexuais de adolescentes, os que iniciaram estes ataques bombardeando uma escola iraniana matando mais de cem meninas trarão, junto com os mísseis, a emancipação das mulheres iranianas? Não se pode esperar nada de quem são os máximos responsáveis políticos e militares pelo genocídio mais estarrecedor do século XXI, cometido a apenas 1.600 quilômetros do Irã.

Mas também somos conscientes de que não se pode forjar nenhuma força moral para enfrentar os ataques belicistas do imperialismo ianque e do sionismo colonialista enquanto o regime teocrático dos aiatolás descarrega, sobre as mulheres e todo o povo trabalhador iraniano, assim como contra a população curda, uma repressão implacável e sanguinária. Por isso, defendemos: "Abaixo a guerra imperialista de Trump e Netanyahu contra o Irã", com total independência política em relação ao regime antioperário, repressivo e reacionário dos aiatolás.

Com elas, não sobre elas

As mulheres iranianas não precisam da "proteção" do véu islâmico para se guardarem dos olhares lascivos dos homens; nem tampouco do paternalismo ocidental de líderes políticos ultrarreacionários — e inclusive de feministas progressistas — que pretendem "salvá-las" daqueles que as oprimem.

Elas possuem uma resistência e uma força poderosa para enfrentar a opressão, como demonstraram em 2022, com o movimento "Mulher, Vida, Liberdade", que levantaram quando a Polícia da Moral do regime islâmico assassinou Mahsa Amini. Mas também muito antes, quando foram protagonistas destacadas da revolução da classe trabalhadora e do povo iraniano que, em 1979, derrotou o monarca Reza Pahlavi e os Estados Unidos, que lhe davam apoio contra as massas radicalizadas que se auto-organizaram em conselhos operários.

A expropriação política que a ditadura teocrática dos aiatolás fez daquele enorme processo revolucionário teve a finalidade de sufocar a classe trabalhadora que se propunha a "tomar o céu de assalto". Mas também, de sufocar a força incomensurável daquelas jovens iranianas que, com suas minissaias e penteados diferenciados, saíram das universidades, das fábricas e dos escritórios e se lançaram às ruas contra a monarquia opressora e o imperialismo democrático que a acobertava.

Seria bom avisar aos "libertadores armados" da atualidade que não é recomendável subestimar mulheres que guardam em sua memória essa força de luta. E também àqueles que acreditaram que, cobrindo-as da cabeça aos pés e mandando-as para casa, conseguiriam domesticá-las.

Nós, feministas socialistas, não podemos fechar os olhos

Diante deste cenário complexo, há quem, na esquerda e no movimento feminista, esboce posições "nem, nem" ou "pelo fim da guerra", inclusive pelo retorno das relações diplomáticas com os Estados Unidos, como se isso pudesse acontecer de maneira mágica apenas por manifestá-lo. Mais ainda, como se fosse uma saída possível, quando a opressão dos Estados Unidos durante décadas afundou o povo iraniano na miséria, como revanche imperial contra aquela revolução que enviou ao exílio o monarca que melhor representava seus interesses de espoliação. Também existem aqueles que exigem, em meio ao combate contra o ataque belicista, um silenciamento absoluto sobre os crimes perpetrados pelo regime dos aiatolás. Não querem que se mencione sequer que metade da população vive uma opressão cotidiana devastadora.

Pão e Rosas sustenta que é urgente desenvolver a mobilização internacional das mulheres, de toda a classe trabalhadora e dos povos oprimidos do mundo, pela derrota dos Estados Unidos e de Israel, pela vitória da nação oprimida, com total independência política frente ao regime iraniano. Estamos junto às mulheres iranianas na luta contra o imperialismo, mas não nos subordinamos aos reacionários aiatolás. Consideramos indispensável unir todas as forças anti-imperialistas, especialmente nos Estados Unidos, para lutar pela derrota de Trump e Netanyahu no Irã, pela retirada de todas as tropas imperialistas e colonialistas na região. Como também pela expulsão do imperialismo estadunidense da Venezuela e de Cuba e pelo fim do genocídio na Palestina.

A direita trumpista e seus aliados como Milei, na Argentina; ou os bolsonaristas, no Brasil, atentam todos os dias contra os direitos das mulheres em seus respectivos países; ostentam discursos de ódio contra os feminismos e destilam misoginia em cada uma de suas políticas de governo; além de exibir, obscenamente, um machismo grosseiro em sua vida pública e privada. Se vencerem esta atroz empreitada, estarão mais fortalecidos para avançar contra todas nós e nossos direitos nos países onde governam e em qualquer lugar do mundo.

Por isso, as feministas devemos somar nossos esforços para colocar de pé um grande movimento mundial contra a agressão imperialista, junto com a classe trabalhadora e a juventude de todo o planeta. Na história das próprias mulheres iranianas temos uma fonte de inspiração formidável.

Tradução e adaptação ao português: Cristina Santos