No meio do vale, o bruxo fez um solo num bule de café eletrizado, pulando e dançando como o jovem que nunca deixou de ser. Foi a primeira mágica que presenciei. Lembro até hoje como se fosse um filme.
Dois ou três anos depois, na Concha Acústica do Taquaral, vi Hermeto soltado faísca, acelerado, improvisando nas teclas e, ao mesmo tempo, cantando cada nota, como numa cerimônia religiosa, sem perder o fôlego, sem errar um único som. Magia, pura magia. Foi ali que me convenci da bruxaria. Nenhum ser mundano seria capaz daquilo.
Com o tempo, fui conhecendo seus discos. Nunca esqueço a primeira vez que ouvi Slaves Mass, de 1977. Um turbilhão, com violão e sanfona misturados a um piano que às vezes parecia quebrado, temperado com sax e trombone. Era jazz com baião, mas também com coisas que só podiam ter sido inventadas por ele. Um excesso ordenado, uma confusão harmônica que só ele sabia organizar.
A música de Hermeto sempre me pareceu um quebra-cabeça infinito, impossível de ser montado por mãos comuns. Ele ordenava o caos, transformava barulhos, gritos, falas e qualquer som em parte de uma arquitetura secreta, completamente sua.
Tudo que vinha dele era só dele. Às vezes penso que era um catalisador de tudo o que passava por seus ouvidos, um filtro capaz de ressignificar e devolver em forma original. Transformava matéria viva em matéria mágica. O que já era belo virava fantástico.
Hermeto foi criador no sentido mais estrito da palavra, uma coisa cada vez mais rara. Criou como poucos já criaram, incessantemente, sem nunca parar. Sua obra monumental permanecerá, inesquecível, para gerações.
Ainda não me dei por convencido que essa cabeça já não vai produzir coisas novas. Queria que fosse mais uma bruxaria. A morte é uma espécie de anti-Hermeto. Ela é inerte e Hermeto era movimento.