Quando em dezembro passado publicamos a segunda edição ampliada de El imperialismo en tiempos de desorden mundial, assinalávamos como, ao longo do último lustro, teria ocorrido um salto qualitativo nas tendências ao caos sistêmico global e ao avanço belicista. A invasão russa da Ucrânia, a guinada de Israel para uma ofensiva genocida em Gaza e a aceleração do rearmamento na Europa e na Ásia foram algumas das principais expressões. Também registrávamos como o retorno de Donald Trump à Casa Branca havia se convertido, em 2025, em um dos vetores centrais de aceleração da desordem: seu retorno trouxe um relançamento das guerras comerciais, novo recrudescimento contra a China, endurecimento da política anti-imigração e tentativas de subversão do entramado de governança internacional, forjado pelos Estados Unidos, mas que, na visão de Trump, constitui um condicionante ao poderio da principal potência.
Em poucos meses, o panorama mudou significativamente. O ano de 2026 começou com a incursão dos Estados Unidos na Venezuela para sequestrar o presidente Nicolás Maduro e colocar em seu lugar a então vice-presidenta, Delcy Rodríguez, em troca de concessões do regime, como despachar petróleo para os Estados Unidos. E em 28 de fevereiro, Trump anunciou que iniciava, junto com Israel, uma operação militar no Irã com objetivos que desde então vêm mudando. Esses acontecimentos colocam mudanças no panorama internacional e devemos nos perguntar sobre o alcance dos novos eventos e suas consequências.
Política e guerra
Em termos do ambicioso redesenho das relações internacionais que Trump proclamou buscar, ele tem poucos resultados para mostrar até agora fora do campo militar. O primeiro ano do segundo governo de Donald Trump não foi uma marcha triunfal. Houve ofensivas disruptivas importantes — novas tarifas sobre produtos chineses e europeus, ameaças de retirar-se da OTAN caso os aliados não aumentassem seus gastos militares, sanções ampliadas a empresas de tecnologia, pressões abertas sobre o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial —, mas também recuos e reveses. A Suprema Corte bloqueou parte de suas tarifas “retaliatórias” mais arbitrárias, apontando violações de procedimentos e competências, e algumas tentativas de impor restrições generalizadas às importações esbarraram na resistência combinada de grandes conglomerados importadores, agroexportadores e governadores de estados-chave. Esse primeiro ano expôs os limites institucionais e de classe do trumpismo: uma fração da burguesia norte-americana está disposta a romper regras, mas outra teme o custo de uma guerra comercial sem rumo que desorganize as cadeias globais de valor das quais obtém seus lucros.
Trump pôde reivindicar, no entanto, um resultado bem-sucedido em sua intervenção na guerra de doze dias entre Israel e Irã. Os Estados Unidos realizaram, no último dia desse conflito, bombardeios que enfraqueceram, segundo a inteligência norte-americana, as capacidades do Irã para o desenvolvimento nuclear. Isso foi suficiente para que o mandatário norte-americano proclamasse vitória.
Uma guerra que acelera o caos sistêmico
Na Venezuela, e agora novamente acompanhando a ofensiva militar de Israel contra o Irã, Trump voltou a buscar no terreno militar uma demonstração de força. Um dos fios condutores que El imperialismo en tiempos de desorden mundial propõe para ler a conjuntura atual é a combinação entre o declínio relativo do poder norte-americano e o aumento de sua agressividade. À medida que os Estados Unidos perdem capacidade de liderança e seus rivais se multiplicam, recorrem cada vez mais ao uso aberto da força para tentar conter tendências que os ultrapassam. Isso estimula a desordem mundial, determinada por um conjunto de fatores.
Essa lógica de uso da força militar condensa, de forma particularmente crua, a relação entre unilateralismo imperial, crise de hegemonia e decomposição acelerada do sistema de governança global. Por enquanto, a capacidade bélica é um dos terrenos em que o Estado norte-americano mantém ampla vantagem sobre seus rivais, incluindo a China. Os atos de Trump mostram a decisão de usar essa força e fazê-la valer, aproveitando o fato de que a Rússia, concentrada na Ucrânia, está limitada para agir em outras regiões, enquanto a China permanece focada nos problemas de segurança ao redor de suas fronteiras, começando pela questão de Taiwan.
A guerra contra o Irã, que envolve ataques massivos, assassinatos seletivos e o risco objetivo de desencadear uma guerra regional, é um exemplo concentrado desse movimento: recorrer à intervenção militar para alterar o tabuleiro do Oriente Médio em favor de seu principal aliado regional.
A combinação de unilateralismo e apoio incondicional expressa um modo específico pelo qual a presidência de Trump busca lidar com o declínio relativo do poder dos Estados Unidos, tentando perpetuar pela força uma primazia que enfrenta múltiplos desafios. Nesse movimento, acelera a decomposição da ordem sistêmica.
Rivalidade com a China atravessando a guerra
A China é a grande ausente-presente da guerra com o Irã. Ausente porque não participa diretamente; presente porque o conflito toca vários de seus nervos vitais. É o principal comprador de petróleo iraniano — cerca de 1,3 a 1,4 milhão de barris diários em 2025 —, o que significa que qualquer interrupção prolongada nas exportações iranianas ou no trânsito pelo Estreito de Ormuz afeta imediatamente sua segurança energética.
Ao mesmo tempo, sua resposta oficial é calculada: condena os ataques dos Estados Unidos e de Israel, pede um cessar-fogo imediato, destaca a importância de respeitar a soberania iraniana e propõe mediações, mas evita compromissos militares ou sanções que possam arrastá-la para uma confrontação direta. Assim, posiciona-se como defensora da estabilidade e do direito internacional, em contraste com um Washington que aparece como principal violador das regras.
A China não pode se dar ao luxo de um Oriente Médio em chamas, porque sua economia depende desses recursos; mas também não quer ajudar os Estados Unidos a restabelecer uma hegemonia incontestável sobre a região. Como apontam alguns analistas, a aposta chinesa é que a guerra não saia de controle, mas que desgaste a imagem dos Estados Unidos e alimente a percepção — especialmente no Sul global — de que Pequim é um parceiro mais confiável. O cientista político John Mearsheimer acrescenta um ângulo realista: China e Rússia têm incentivos para “manter o Irã na luta” — fornecendo armas, inteligência e apoio diplomático — porque um Estados Unidos atolado no Golfo terá menos recursos para concentrar-se no Leste Europeu ou no Indo-Pacífico. Mas também sublinha seus limites: nenhum dos dois está disposto a arriscar um confronto direto com os Estados Unidos por causa do Irã e, portanto, privilegiam contribuir, na medida de suas possibilidades, para alimentar uma guerra por procuração.
Uma tentativa bonapartista em crise
O caos sistêmico não é apenas uma categoria do sistema interestatal; ele tem seu correlato na crise política interna dos Estados Unidos. No livro já assinalávamos a tendência à “bonapartização” do regime: um poder executivo que busca se situar acima das frações de classe e dos equilíbrios institucionais, apoiando-se no aparato repressivo e em um bloco social mobilizado, em um contexto de polarização e deslegitimação dos partidos tradicionais.
Mas, como mostra a experiência recente, essa tentativa bonapartista se apoia em bases frágeis. Em janeiro de 2026, as batidas do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) e operações em Minnesota e outros estados desencadearam protestos massivos em Minneapolis, Los Angeles e outras cidades, onde milhares de manifestantes bloquearam centros de detenção, denunciaram execuções arbitrárias e exigiram o desmantelamento do aparato de deportação. Surgiram conexões explícitas entre a violência migratória e a violência imperial: cartazes com a frase “Sem mais guerras, sem mais jaulas”, palavras de ordem que ligam o Irã e Gaza às prisões e aos bairros racializados dos Estados Unidos.
Passadas quase três semanas de guerra, Trump enfrenta uma série de dilemas estratégicos que não pode resolver apenas com mais mísseis. Por um lado, precisa demonstrar que os Estados Unidos continuam capazes de impor sua disciplina quando decidem usar a força militar; por outro, sabe que a margem material e política para uma campanha longa é limitada. Deve calibrar até onde escalar para quebrar capacidades iranianas sem desencadear uma resposta regional que envolva outros atores armados e faça disparar o preço do petróleo a níveis que atinjam diretamente a economia norte-americana. Cada decisão tática — que alvos atacar, por quanto tempo manter operações de alta intensidade, que tipo de represálias tolerar — carrega implicações estratégicas que vão muito além do teatro de operações.
Se Trump interromper as operações cedo demais, sem conseguir mostrar uma degradação visível das capacidades iranianas ou concessões claras do regime no terreno nuclear ou de mísseis, ficará exposto à acusação — vinda de sua própria direita — de “fraqueza” e de ter desperdiçado uma oportunidade histórica. Mas, se prolongar a guerra, enfrentará uma espiral de ataques e contra-ataques iranianos, assédio a bases e navios norte-americanos, tensões com aliados que não querem ser arrastados para uma conflagração regional e uma deterioração constante do clima econômico. Qualquer desfecho que não seja uma vitória esmagadora (o que hoje é muito difícil) corre o risco de parecer uma derrota ou, ao menos, um “não triunfo” custoso.
Sobre tudo isso pesa a preocupação com os impactos eleitorais. Uma guerra prolongada, que eleve o preço do combustível, obrigue a manter um alto nível de alerta militar e resulte em baixas norte-americanas corre o risco de fraturar sua própria base, dentro da qual já existem setores que se manifestaram contra essa volta dos Estados Unidos a se envolver em conflitos distantes que produzem efeitos concretos no bolso da população.
Se a guerra no Irã se prolongar sem uma “vitória” convincente e se traduzir em mais inflação, mais cortes, mais militarização interna, é razoável prever que essa articulação possa se aprofundar. Pesquisas já registram um apoio oscilante à guerra: enquanto alguns levantamentos mostram respaldo inicial aos primeiros ataques, outros indicam maiorias céticas quanto à condução do conflito e seu impacto sobre a segurança dos Estados Unidos. Quanto mais o conflito se prolongar, maior será a pressão social e política para interrompê-lo.
O empreendimento de Trump flerta com um perigo ainda maior: a mobilização de massas. A perspectiva de uma guerra incerta com impactos econômicos rapidamente perceptíveis no custo de vida, somada às imagens de destruição e às baixas militares, pode dar fôlego a irrupções mais amplas vindas de baixo. Trump já sofreu um golpe no início deste ano com as ações de massas contra sua política anti-imigração. Em janeiro, milhares de pessoas em Minneapolis, Los Angeles, Nova York e Boston foram às ruas contra a operação “Metro Surge” do ICE após a morte de Renee Good e outros casos de violência letal de agentes migratórios. Houve marchas, boicotes, chamados a “apagões” trabalhistas e estudantis, bloqueios diante de centros de detenção; estabeleceram-se conexões explícitas entre a violência de um Estado que atira contra migrantes ou pessoas racializadas internamente e o Estado que bombardeia populações no exterior.
Esses protestos mostram que existe uma base social — especialmente entre jovens, setores racializados e parte do movimento sindical — disposta a ultrapassar os marcos institucionais quando percebe que as agências repressivas atuam com impunidade.
A crise do bonapartismo trumpista ocorre no cruzamento de duas dinâmicas: um imperialismo que se torna mais agressivo externamente à medida que sua hegemonia declina e uma sociedade profundamente fraturada na qual setores significativos começam a experimentar, em sua vida cotidiana, os efeitos combinados da guerra externa, da guerra comercial e da guerra social interna.
As irrupções vindas de baixo — contra o ICE, contra a brutalidade policial, em solidariedade à Palestina ou aos povos bombardeados — ainda são embrionárias e heterogêneas, mas apontam para um ponto estratégico: a compreensão de que o mesmo Estado que destrói cidades no Irã e sustenta o genocídio em Gaza é o que deporta migrantes, militariza bairros, congela salários e destrói direitos.
Uma guerra prolongada e sem desfecho claro pode funcionar como catalisador dessa raiva acumulada. Se às imagens de destruição em Teerã, Isfahan ou Bandar Abbas se somarem cortes de gastos sociais para financiar o orçamento militar, aumentos no preço do combustível que atinjam trabalhadores pobres e novas batidas e deportações usadas para fabricar bodes expiatórios internos, o vínculo entre “guerra lá fora” e “guerra aqui dentro” se tornará mais evidente para camadas cada vez mais amplas.
Nesse cenário, os protestos contra o ICE e a Border Patrol podem conectar-se com mobilizações contra a guerra, boicotes a empresas ligadas ao complexo militar, greves em portos ou fábricas que se recusem a colaborar com envios de armas e ações em campi universitários que exijam desinvestimentos em contratistas do Pentágono.
A guerra não é apenas uma questão de política externa; pode tornar-se um dos detonadores de uma aguda crise de regime. A lógica de “não em nosso nome” passa a adquirir um conteúdo de classe e racial concreto.
No cruzamento entre o desgaste imperial externo e as irrupções vindas de baixo joga-se uma possibilidade: que a guerra, longe de consolidar o bonapartismo trumpista, termine por enfraquecê-lo, abrindo espaço para novas ondas de luta que questionem tanto a violência imperialista quanto o entramado repressivo e racista que a sustenta dentro das fronteiras dos Estados Unidos.