Em viagem à Europa, Lula participou em Barcelona, na Espanha, da primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG). Ao falar a uma audiência de milhares de pessoas, incluindo chefes de Estado como o espanhol Pedro Sanchez e o colombiano Gustavo Petro, Lula fez um diagnóstico sobre os problemas do “progressismo”.
Ao destacar os avanços do chamado “campo progressista", Lula ponderou que a “esquerda não conseguiu superar o pensamento econômico dominante”, abrindo caminho para forças reacionárias ganharem espaço na sociedade.
"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.
O que Lula chama de “esquerda” é em realidade a centro-esquerda nacionalista burguesa, que governou a América Latina em distintos ciclos econômicos a partir da década de 2000.
A definição é lapidar e o auto-diagnóstico é preciso: há já muito o PT é parte do sistema capitalista e do pensamento dominante. Enquanto a direita neoliberal cavou o abismo da dependência e do atraso latinoamericanos, a centro-esquerda dita “pós-neoliberal” administrou as mazelas do neoliberalismo com um suposto “rosto humano”. Isso é parte fundamental do porque a extrema-direita segue com peso eleitoral no Brasil, com Flávio Bolsonaro chegando estar a frente de Lula em algumas pesquisas.
Em outras palavras, durante o ciclo ascensional das commodities, até 2010, os governos do PT no Brasil faziam algumas concessões a segmentos da população mais pobre em troca de governar o capitalismo para as grandes patronais nacionais e estrangeiras. Após a inversão do ciclo expansionista, com a contração do comércio mundial em 2013 fruto da desaceleração na China e da retração na entrada de dólares, o PT passou a aplicar uma agenda de ajustes neoliberais que fortaleceram a extrema direita ascendente (que no Brasil culminou com o golpe institucional de 2016 e a eleição de Bolsonaro). “Sucumbindo à ortodoxia” capitalista, o PT de Lula pavimentou o caminho para alternativas ultraliberais que se serviram do trabalho realizado: cortes nas aposentadorias, precarização do trabalho e expansão exponencial da terceirização, estímulos financeiros extraordinários ao latifúndio e ao capital financeiro (“nunca os banqueiros lucraram tanto quanto comigo”, Lula dixit), retração primário-exportadora e submissão nacional.
Sem dúvida, Lula e os governos petistas são responsáveis pela prática da austeridade em nome da governabilidade. O governo de Frente Ampla Lula-Alckmin é um monumento à contribuição do PT ao fortalecimento da extrema direita. Geraldo Alckmin, carrasco dos professores em São Paulo e responsável pela repressão (junto a Fernando Haddad) da juventude nas Jornadas de Junho, é o “neoprogressismo” dentro do governo. Partidos da base bolsonarista, como o Republicanos (de Tarcísio de Freitas) e o União Brasil, possuem ministérios no governo. Em São Paulo, Tarcísio é agraciado com benefícios financeiros do BNDES para levar adiante seus projetos de privatização. O agronegócio, sustentador do bolsonarismo e da extrema direita, recebeu de Lula o maior Plano Safra da história (mais de 400 bilhões de reais), enquanto trabalhadores de todo o país se enfrentam com os cortes de gastos impostos pelo Arcabouço Fiscal, o Teto de Gastos de Temer atualizado pelo governo Lula-Alckmin.
O suposto aliado na defesa da democracia no Brasil — o Supremo Tribunal Federal (STF), em particular o ministro Alexandre de Moraes —, que Lula ajudou a fortalecer como parte de sua estratégia institucional de enfrentamento à extrema direita, encontra-se agora envolvido em grandes escândalos de corrupção, como mostra o caso Banco Master. Essa situação acaba alimentando novamente o bolsonarismo. O STF foi peça chave e decisiva não somente no golpe institucional de 2016 que destituiu Dilma Roussef do PT mas também na prisão arbitrária de Lula.
Para que essa aliança com a direita e as instituições do regime possa prosperar, como historicamente fez o PT, é necessário sacrificar o programa dos trabalhadores e do povo pobre. Mostrar-se como melhor administrador do capitalismo implica reproduzir o ciclo incessante de geração de novas direitas, habilitadas a fazer ataques econômicos e sociais com uma velocidade ainda maior do que o PT.
Alguns exemplos lapidares estão à mão. “Gerenciar a mazela do neoliberalismo”, como disse Lula, tem como contracara atacar os indígenas do Alto Tapajós para permitir que uma multinacional imperialista, a Cargill, privatize os rios Tapajós, Madeira e Tocantins - o que foi freado pela luta de classes dos povos indígenas e trabalhadores no Pará, contra Lula, Boulos e a direita que lhes faz sombra. Não precisamos lembrar o grau de perseguição e repressão do movimento indígena durante a gestão Bolsonaro.
“Tornar-se sistema e sucumbir ao pensamento dominante” significa que a população escuta um discurso social — distinto do bolsonarismo —, mas não vê mudanças substanciais em suas condições de vida. Efetivamente, boa parte da agenda econômica bolsonarista está de pé, incluindo a reforma trabalhista e a reforma da previdência. A retórica de enfrentamento à extrema-direita busca “unir” em uma só frente inimigos de classe para preservar o Estado capitalista, conter e impedir qualquer saída independente e à esquerda, o que implica o esforço clássico do PT em desmobilizar, passivizar e desativar processos de luta de classes com sua burocracia sindical.
O “projeto neoliberal” que fracassou em todo o mundo é o projeto que sustenta a conciliação de classes de Lula e do PT. Ao contrário do que apregoam defensores do governo, como Breno Altman, o neoliberalismo penetra em muitos poros do Lula 3. O que dizer da entrega dos recursos naturais ao imperialismo? Já fomos testemunhas do desprezo "desenvolvimentista” de Lula contra o meio ambiente na voracidade com que busca entregar o petróleo da Margem Equatorial às multinacionais, colocando em risco a Foz do Amazonas e as comunidades indígenas.
Outro exemplo gráfico do entreguismo lulista é a venda, para os Estados Unidos, da mineradora Serra Verde. Uma das maiores exploradoras de terras raras do mundo, esta mineradora é a única empresa em escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Foi comprada pela USA Rare Earth, ligada ao governo estadunidense e aos esforços de Trump para controlar os minérios estratégicos da América Latina contra a presença da China. Se a eletricidade já foi entregue a Pequim, os minerais passam a ser postos nas mãos de Trump e do imperialismo norte-americano. Diante disso, a estatização da Serra Verde sob administração dos trabalhadores, em aliança com especialistas ambientais e universitários, é o programa alternativa para enfrentar o neoliberalismo lulista.
O desmonte e a entrega dos recursos nacionais ao imperialismo é um símbolo da submissão nacional, e do que Lula chamou de “tornar-se sistema”. A extrema direita, capacha de Trump e defensora acérrima do que existe de mais podre no sistema capitalista, ganha o direito de aparecer ilusoriamente como “antissistema”, pelo próprio programa da conciliação de classes lulista.
Na geopolítica, Lula busca se colocar no polo oposto a Trump, mas cede a ele nos temas mundiais candentes. Lula exalta sua “petroquímica” com Trump, um beligerante que junto ao Partido Democrata garantiu o necessário para o genocídio do Estado terrorista de Israel contra os palestinos. Segue dizendo que tem muito boas relações com o Republicano, que com Netanyahu operou uma guerra imperialista contra o Irã. Diante da intervenção neocolonial de Trump na Venezuela, Lula se limitou a dizer que “deseja uma vida melhor aos venezuelanos”, refreando qualquer denúncia do sequestro de Maduro e Cília Flores. De onde poderiam surgir melhores condições de vida a uma população sujeitada aos Estados Unidos através da capitulação do chavismo? Já tendo sido celeiro de bolsonaristas, as intervenções militares do Brasil no Haiti agora estão acompanhadas pela chefia brasileira da missão da ONU na República Democrática do Congo (MONUSCO), com o cometimento de barbaridades contra a população africana, a serviço dos EUA.
Enfrentar a extrema direita sem enfrentar o poder econômico capitalista e o imperialismo é preparar a ressurreição dos piores inimigos das massas. É preciso pôr fim à este ciclo incessante de reciclagem de novas direitas por parte do programa de conciliação de classes petista. O governo Lula-Alckmin, “sucumbindo ao pensamento dominante, à austeridade e gerenciando o neoliberalismo” prepara novos Bolsonaros. Mais que nunca é necessário um programa de independência de classe anti-imperialista que prepare a superação do PT pela esquerda e abra caminho à construção de um partido revolucionário internacionalista no Brasil.