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O golpe de 1964 revisitado: não esquecemos, não perdoamos

29.03.2026

Parte da edição: 29.03.2026

Artigo originalmente publicado no dia 01/04/2025, portanto, alguns de seus elementos estão desatualizados

Nesta nota queremos muito mais do que relembrar os atos heróicos e a disposição combate de marinheiros, operários, camponeses e estudantes, que tinham todas as condições de enfrentar e vencer a ofensiva militar golpista. A grande homenagem que podemos fazer a esses lutadores é aprender e tirar as lições da sua derrota.

Para enfrentar o golpismo só podemos contar com nossas próprias forças, nenhum dispositivo militar ou judicial do estado capitalista pode afastar a ameaça golpista, ou, trazendo para o nosso presente, derrotar a extrema direita. Para um balanço aprofundado dos acontecimentos que levaram ao golpe de 1964 indicamos a leitura do texto “O processo revolucionário que culmina no golpe de 64 e as bases para a construção de um partido revolucionário no Brasil”

Era possível derrotar o Golpe de 1964

Primeiro de abril de 1964, um destacamento de marinheiros que se reagrupam depois que Jango, já em fuga para o Uruguai, depõe as armas, vivem um impasse dramático. Morrer lutando e deixar gravada em sangue para a posteridade sua disposição de combate ou depor as armas e se entregar? Haviam passado a madrugada e os dias anteriores preparando a resistência para o golpe que se organizava à luz do dia. Se dispunham a distribuir as armas do arsenal da Marinha entre operários e estudantes e formar destacamentos de combate. As ordens esperadas nunca vieram e já não havia mais esperança de combate quando decidiram se render frente à iminência da chegada do corpo militar conduzido por Mourão, com 50 mil soldados, que teria esmagado o destacamento de alguns milhares de marinheiros e suas armas obsoletas.

Do outro lado, entre os generais, ainda no dia 31, Castelo Branco tentava retardar o avanço das tropas de Mourão que vinham de Minas Gerais. Temia-se que o seu avanço descoordenado abrisse brechas que Jango poderia aproveitar. Como se sabe hoje, a IV Frota dos EUA havia enviado um porta-aviões rumo à costa carioca, preparado para dar apoio aos golpistas, se programando para um longo conflito. A resistência legalista esperada em ambos os lados não ocorreu e, ao fim do dia 1º de abril, Jango já estava no Rio Grande do Sul, a caminho do seu exílio uruguaio.

O Fracasso do “dispositivo militar” de Jango e da Frente Ampla de 1966

Não foi nenhum fator surpresa ou habilidade especial das Forças Armadas brasileiras os responsáveis pelo total fracasso do governo de João Goulart na defesa da ordem constitucional. Nem, tampouco, qualquer falta de apoio popular, dado que as pesquisas mostravam um grande apoio ao seu governo e um apoio maior ainda às reformas de base. O que explica então a derrota vergonhosa do trabalhismo e do nacional-desenvolvimentismo em 1964?

O governo de João Goulart ficou paralisado frente ao avanço das tropas golpistas em função das suas próprias contradições. Seu governo buscava se apoiar em setores da burguesia supostamente nacionalista e nas alas militares varguistas, o chamado “dispositivo militar”, articulado em torno do general Amaury Kruel, comandante do II Exército em São Paulo. As condições para um contra-ataque que deixaria os golpistas numa situação difícil estavam colocadas. Só que o dispositivo militar não somente falhou, como passou inteiro para o lado do golpe e a burguesia nacionalista, a favor de quem o governo acreditava estar, na verdade não passava de uma ilusão.

As únicas forças efetivas para barrar o avanço da contrarrevolução eram as forças das massas, do processo revolucionário em curso desde 1961. A revolta dos marinheiros em 25 de março mostrou um amplo apoio popular. Inclusive colocou em questão a disciplina militar das tropas chamadas a reprimi-la e fez os generais temerem as consequências de um conflito aberto. A solução conciliatória permitiu ao Almirantado restabelecer seu comando que havia sido abalado e a revolta que assustou as cúpulas militares terminou por convencer o alto oficialato de que era o momento de agir.

Depois de consolidado o golpe, desmantelado brutalmente o movimento das ligas operárias, com os sindicatos sob intervenção e as bases das Forças Armadas expurgadas dos setores mais rebeldes, em 1966, as forças burguesas depostas em 1964 ainda tentaram a organização de uma frente ampla, com Jango, JK, Brizola e… Carlos Lacerda. Seu peso foi nulo e caiu no esquecimento. O grande movimento de resistência contra ditadura, que entrou para a história e inspira as novas gerações, foi o movimento estudantil, desmantelado somente em 1968.

A falência da conciliação de classes do PCB e as lições da derrota

balanço de Caio Prado Júnior sobre o golpe é sintomático da bancarrota do velho partidão e do beco sem saída em que entrou a estratégia etapista do PC em 1964. Apesar de não reconhecer nenhuma burguesia nacionalista, como fazia o PCB, Caio Prado se mantinha nos marcos da concepção etapista. Segundo essa visão - tributária do stalinismo e mais aproximada a do velho menchevismo do que da atuação de Lenin e do Partido Bolchevique na Revolução Russa - nos países atrasados e de origem colonial a primeira etapa da revolução seria democrática, baseada na aliança entre a classe trabalhadora e a burguesia nacionalista. A derrota não levou à revisão dessa teoria equivocada, mas a jogar a culpa na radicalização das massas, que teria sido um obstáculo à aliança com a burguesia e provocado a contrarrevolução.

Já na época, o PCB passou por grandes rupturas, especialmente na juventude, que seguiram o caminho da luta armada. Porém, sem tirar todas as conclusões da derrota, enveredaram pelo caminho da guerrilha, pelo voluntarismo do foco guerrilheiro, abandonando a luta de massas. Foi uma geração corajosa e determinada, mas seus esforços esbarram nos limites de uma estratégia equivocada, vanguardista e voluntarista. A guerra é, e continua sendo, a continuação da política por outros meios. Não era possível superar apenas o pacifismo partidão sem ir até o fim na crítica à sua ilusão numa burguesia progressista

É preciso trilhar um novo caminho

Voltando aos dias de hoje, é preciso reconhecer que resta pouco das velhas ilusões do partidão. O próprio surgimento do PT no fim dos anos setenta era resultado da busca da classe trabalhadora por uma organização de classe própria, independente de qualquer fração das classes dominantes. A ideia de uma burguesia nacionalista só sobrevive nos livros de história, como um trágico erro.

Hoje a ideologia da conciliação de classes não é mais a do nacionalismo burguês e da revolução por etapas, primeiro democrática e popular e depois socialista e operária. O petismo, que nasceu do esforço da classe operária em superar o velho partidão e sua subordinação à burguesia, reproduz por outros caminhos a velha política de conciliação de classes.

O partidão apoiava sua política de conciliação de classes no otimismo em relação a frações da burguesia, esperando que pudessem se aliar com o movimento de massas contra o imperialismo. Já o PT apoia completamente sua capitulação no ceticismo em relação à capacidade da classe operária. Sem prometer nenhum futuro redentor, a confiança no STF e outras instituições do Estado para combater o golpismo e o bolsonarismo se apóia simplesmente no “é o que tem pra hoje”, o chamado menos pior. Nisso não inventam nada novo, por caminhos diferentes chegam na mesma estratégia derrotista.

O stalinismo em decomposição nos anos setenta - do PCB, PCdoB - condenou as greves operárias e chamava a apoiar o ditador Geisel e sua abertura controlada, como um mal menor frente à linha dura militar, que teve como líder ninguém menos que o irmão mais velho de Ernesto, o também general Orlando Geisel. Hoje são os dirigentes da CUT, que surgiram desafiando o discurso derrotista, quem impulsiona esse discurso, sufocando a luta de classes em nome da governabilidade e confiando no “dispositivo judicial” do STF como o grande dique de contenção contra a extrema direita bolsonarista e militar. A direção do PT segue integralmente o conselho de não assustar a burguesia e toma em suas mãos a tarefa de aplicar os ajustes e os ataques que ela demanda. Dessa forma, como dizemos e não cansamos de repetir, enfraquece a classe trabalhadora e abre caminho para a extrema direita.

A classe trabalhadora foi além dessa estratégia da passividade em 1964, foi além dela ao retomar o caminho da luta de classes para enfrentar a ditadura nos setenta e oitenta e ao fundar o PT. Hoje mais uma vez começa a mostrar que não conterá suas mobilizações no estreito limite da estratégia eleitoral do mal menor. As lições do golpe de 1964 e do fracasso da Frente Ampla de 1966 são parte do arsenal de experiências da classe operária no Brasil, que precisam ser retomados na luta pela construção de uma alternativa política à esquerda do PT, que não repita os erros do passado.