Luta negra e marxismo: lições para enfrentar a extrema direita, o imperialismo e o capitalismo
Confira a intervenção de abertura do curso Luta negra e marxismo, feita por Odete Assis, que aconteceu na Casa Marx BH no dia 17 de outubro de 2026.
Boa tarde a todas, todos e todes. É um prazer enorme poder dar início aos cursos na Casa Marx BH falando sobre a Luta negra e o marxismo. E ver essa casa cheia. Antes de começar propriamente a discussão eu queria explicar um pouco como pensei esse curso, pois teria diversas formas de abordar e discutir esse tema, existem muito debates e reflexões, mas pensei um formato que pudesse permitir uma compreensão das bases da reflexão, como o marxismo e antirracismo estão totalmente interligados e que o debate de hoje possa servir como uma ferramenta que motive a cada um aqui seguir seus estudos, desenvolvendo suas reflexões e atuando na realidade.
A aula vai ser desenvolvida a partir de 3 tópicos fundamentais:
As bases teóricas da relação entre capitalismo, imperialismo e racismo;
Porque a luta negra é luta de classes?
O enfrentamento ao racismo como um componente estratégico da luta socialista.
As bases teóricas da relação entre capitalismo, imperialismo e racismo
Uma das primeiras definições centrais é compreender que o racismo tem uma origem histórica. A concepção materialista da história nos permite questionar as ideias sobre uma essência humana universal, como é muito difundida por teorias que definem que o racismo é algo imutável, inerente aos seres humanos, ou que existe uma oposição dualista entre brancos e negros que nunca poderá ser resolvida.
A partir da perspectiva do marxismo revolucionário nós podemos identificar que existe uma história concreta, que atravessa distintas gerações, e que são os seres humanos os que fazem a história, embora não o façam por puro e livre arbítrio, mas a partir de determinadas circunstâncias, independentemente de suas vontades. E tudo isso permitiu com que pudéssemos identificar o racismo como um fenômeno histórico, que surgiu em um determinado período e por determinadas condições. Consequentemente, a conclusão mais importante é que assim como surgiu historicamente o racismo também pode acabar um dia.
Um dos melhores artigos que sintetizam essa perspectiva é o do George Breitman, chamado “Quando surgiu o preconceito contra o negro”, que foi escrito 1954. Ele estava na sugestão de bibliografia complementar, mas tudo bem se vocês não conseguiram ler. Eu vou tentar usar algumas referências para explicar a ideia e fica como um convite à leitura futura. Nesse artigo o Breitman faz uma análise detida de pesquisas historiográficas disponíveis na época sobre as diferentes sociedades onde existiu escravidão e ele consegue identificar como a justificativa da escravidão pela cor da pele só aconteceu na escravidão moderna nas Américas
A partir disso, ele afirma categoricamente como o preconceito contra os negros nasceu somente depois do capitalismo. E retomando as observações de Oliver Cox, um historiador que também busca pensar as relações raciais a partir das lentes do marxismo, Breitman afirma que:
Seja qual for o século escolhido, a questão é esta: o preconceito racial contra o negro surgiu para justificar e preservar o sistema de trabalho escravagista que operava de acordo com os interesses do capitalismo nos estágios pré-industriais, e manteve-se ligeiramente modificado pelo capitalismo industrial após a escravidão se tornar um obstáculo para o desenvolvimento posterior do capitalismo e ser abolida. Poucas coisas no mundo estão mais carimbadas pelas características do capitalismo. (BREITMAN, 2019, p.55)
E porque o capitalismo precisou criar o racismo para poder se desenvolver? Isso tem uma relação com aquilo que Marx e muitos marxistas buscaram explicar como o processo de acumulação primitiva do capital. Citando o próprio Marx, numa passagem do cap XXIV do Capital:
A descoberta das terras auríferas e argentíferas na América, o extermínio, a escravização e o soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para caça comercial de peles-negras, caracterizam a aurora da era da produção capitalista. Esses processos idílicos constituem momentos fundamentais da acumulação primitiva. A eles se segue imediatamente a guerra comercial entre as nações europeias, tendo o globo terrestre como palco. Ela é inaugurada pelo levante dos Países Baixos contra a dominação Espanhola, assume proporções gigantescas na guerra antijacobina inglesa e prossegue ainda hoje nas guerras do ópio contra a China. (MARX, 2013, p.821)
Uma das mais importantes conclusões que Marx desenvolve no Capital é como a escravidão cumpriu um papel fundamental na acumulação primitiva que permitiu as bases do desenvolvimento desse sistema.
O Eric Willians, outro autor muito interessante, em um livro chamado Capitalismo e Escravidão aprofunda esses apontamentos e faz um estudo muito detalhado para demonstrar como os principais comerciantes responsáveis pelo tráfico negreiro inglês são os que acumulam capital para posteriormente criar as primeiras indústrias na Inglaterra. Ou seja, é bastante direta a relação entre escravização dos negros africanos, que passam a ser tratadas como mercadorias, e o acúmulo de capital para novos empreendimentos como as indústrias.
O Clovis Moura também desenvolve bastante essa relação entre tráfico de negros escravizados e a acumulação primitiva no Brasil. Fica a sugestão para quem quiser aprofundar os estudos.
E tudo isso é muito importante para compreender como o racismo surgiu como ideologia para justificar a escravidão. Mas ele não está só na base de acumulação do capital. O racismo seguiu sendo fundamental para a manutenção do sistema capitalista e é por isso que se manteve. Voltando novamente ao Breitman ele diz que:
O racismo hoje opera de uma forma diferente de um século atrás, mas foi mantido depois da abolição exatamente pela mesma razão que foi introduzido sob o sistema escravista que se desenvolveu no século XVI em diante: por sua utilidade como um instrumento de exploração; e por essa mesma razão, não será abandonado pela classe dominante de qualquer sociedade exploradora desse país. (BREITMAN, 2019, p.55)
Ou seja, existe uma estrutura social que é baseada na exploração de uma classe sobre a outra, o capitalismo, e ele acentuou as divisões de classes em um antagonismo fundamental: aqueles que detém os meios de produção, a burguesia, e aqueles que só tem a sua força de trabalho para vender, a classe trabalhadora.
É o trabalho humano o que produz toda a riqueza criada. A classe trabalhadora é a força criativa que move as estruturas do planeta, mas essa força fica aprisionada pela exploração. E é justamente a exploração do trabalho alheio a fonte de riqueza da burguesia. Para garantir essa exploração, ela combina esse mecanismo de exploração com as distintas opressões. Ou seja, com o uso de diferenças existentes para dividir, fragmentar e explorar.
O racismo, assim como o machismo, a lgbtfobia são distintas formas de opressão utilizadas e mantidas pela burguesia para garantir seu sistema de dominação. E isso é importante porque como Breitman falou, o racismo ganha distintas formas ao passar dos séculos, mas ele segue como instrumento de dominação dos capitalistas.
Na segunda metade do século XIX essa relação racismo e capitalismo ganha novos patamares com o início da fase imperialista do capitalismo. Retomamos aqui a definição do Lênin, que trata o imperialismo como uma fase superior do capitalismo caracterizada de forma mais esquemática por 5 elementos:
Concentração da produção e do capital em um grau tão elevado que cria monopólios com papel decisivo na vida econômica.
Fusão do capital bancário com o capital industrial, criando uma oligarquia financeira que controla a economia.
A exportação de capitais (investimentos e empréstimos no exterior) ganha maior importância do que a simples exportação de mercadorias.
Partilha Econômica do Mundo: Formação de associações monopolistas internacionais de capitalistas (cartéis e trustes) que dividem o mercado mundial entre si.
Partilha Territorial do Mundo: Conclusão da divisão territorial do planeta entre as grandes potências imperialistas.
Nessa fase imperialista do capitalismo, o racismo opera de forma conectada com a pilhagem de bens naturais, a opressão nacional e a imposição de dívidas aos países dependentes. Uma imagem emblemática do que é o imperialismo é a Conferência de Berlim (1884-1885) na qual potências europeias partilharam o continente africano, impondo fronteiras coloniais, línguas e culturas arbitrárias que ignoraram a autodeterminação e a diversidade das populações locais.
Mesmo após as independências no século XX, os projetos de unificação continental foram frustrados e a maioria dos Estados pós-coloniais preservou essas mesmas divisões territoriais traçadas pelas potências europeias. Como consequência dessa estrutura neocolonial, o continente passou a conviver com profundas instabilidades políticas, dependência econômica, extrema pobreza e a frequente instrumentalização de divisões étnicas pelas elites locais e pelo imperialismo para perpetuar a dominação sobre os trabalhadores.
O imperialismo segue saqueando e roubando os bens comuns naturais desse continente, e é o grande responsável pela fome, os genocídios e todos os conflitos na África. Enquanto a classe dominante se utiliza do racismo e da xenofobia como ferramentas estratégicas para fragmentar a classe trabalhadora internacional. Ao precarizar e desumanizar trabalhadores negros e migrantes, ao rebaixar os salários e as condições de vida do conjunto do proletariado, a redirecionam a raiva das massas diante das crises sociais contra esses setores e suas conquista de direitos, mesmo que elementares, em vez de enfrentar o próprio sistema de exploração.
Podemos dizer que hoje as condições dessa fase imperialista se reatualizam, vivemos crises, guerras e queremos nos preparar para as revoluções, mas já existem inclusive inúmeros processos de revoltas e rebeliões em curso. E é assim que chegamos ao segundo tópico dessa aula.
Porque a luta negra é luta de classes?
Toda essa relação entre capitalismo, imperialismo e racismo nunca se deu pacificamente. No texto “A revolução e o negro”, que também estava como sugestão de leitura, o CRL James diz:
A história revolucionária dos negros é rica, inspiradora e desconhecida. Negros se rebelaram contra os caçadores de escravos na África; rebelaram se contra os comerciantes de escravos no Atlântico. Se rebelaram nas plantations. O negro dócil é um mito (...) O único lugar onde os negros não se rebelaram é nos livros de historiadores capitalistas. (JAMES, 2019, p.23)
Essa é uma das minhas frases preferidas porque ela demonstra muito da potência da luta negra, mas também o medo dos capitalistas que precisam escondê-la.
Partindo disso, que os negros sempre lutaram e se rebelaram contra a escravidão, que nunca aceitamos passivamente o racismo e a exploração capitalista, é interessante observarmos como a luta negra carrega historicamente um potencial revolucionário, antes mesmo que esse potencial revolucionário pudesse significar o fim do capitalismo.
Os quilombos, as revoltas, as inúmeras formas de resistência e luta que o povo negro foi desenvolvendo ao longo de séculos são todas parte de uma rica tradição. Com o desenvolvimento da classe trabalhadora assalariada foi também gerando formas muito bonitas de luta comum entre trabalhadores livres e escravizados, brancos e negros. Seria necessário um curso inteiro para abordar toda essa rica história e experiência. Já podemos deixar como uma ideia para seguir esse curso, se vocês gostarem.
O James desenvolveu muito bem como a Revolução Francesa e a independência nos EUA, eventos centrais para a constituição do capitalismo, foram totalmente atravessadas pela questão colonial e a luta negra como um fator decisivo. E eu queria abordar mais isso.
A independência das 13 colônias britânicas na América em 1776 gerou um impacto importante para a Grã Bretanha e acirrou o conflito, pois o comércio de escravos e a produção de algodão ali era algo fundamental para a economia desse país. Isso golpeou fortemente o governo conservador britânico que precisou se voltar para as ilhas do Caribe, como uma possível alternativa.
Vamos então compreender o papel dos negros nesse processo. James enfatiza algo que a gente já discutiu no primeiro tópico: a Revolução Francesa foi uma revolução burguesa e a base da riqueza da burguesia era o comércio de escravos e as plantations nas colônias. E aqui é muito importante as conclusões que ele vai desenvolvendo porque a burguesia que começa a aspirar a sua liberdade, era a que dependia fortemente a escravidão negra para manter seu poder economico. Os abolicionistas liberais franceses tinham essa contradição fundamental, assim como os dos EUA e do Brasil. E nas palavras do James:
Diante da revolução, estavam prontos para capitular. Eles deixaram meio milhão de escravos na escravidão, mas pelo menos aos mulatos, homens com propriedades (incluindo escravos) e educação, deveriam ser concedidos os mesmo direitos que aos colonos brancos. Os colonos magnatas brancos se recusaram a conceder e eram pessoas que não podiam ser ignoradas, aristocratas de nascença ou por casamento, burgueses em consequência de suas conexões comerciais com a burguesia marítima. Eles se opuseram a qualquer mudança nas colônias que pudesse diminuir seu domínio social e político. A burguesia marítima, preocupada com seus milhões em investimentos, apoiou as colônias e, contra 11 milhões de libras por ano em trocas comerciais, os políticos radicais foram impotentes. Foi a revolução que lhes empurrou por trás e os forçou adiante. (JAMES, 2019, p. 25)
Ou seja, diante do poder econômico e político da burguesia escravista, os liberais estavam dispostos a conciliar, defendendo a liberdade só para aqueles que tivessem propriedade privada, mesmo que isso significasse deixar meio milhão de pessoas na escravidão. Mas nem isso os colonizadores queriam. Qualquer semelhança com a realidade hoje não é mera coincidência.
Como essa estratégia era impotente para fazer frente a esses colonizadores, porque o caminho da conciliação de classes leva a isso, a cada vez mais abrir mão dos nossos direitos. O que empurrou esses setores burgueses para a revolução foi a luta das massas, inclusive a das massas negras. E desse acontecimento temos uma das lições mais fantásticas. Quando os liberais quiseram capitular e abrir mão da liberdade para o conjunto do povo negro, as massas trabalhadoras e populares se colocaram em luta na França, e principalmente: a revolução chegou nas colônias.
O início do processo revolucionário começou com os mulatos de São Domingos em 1790, seguidos depois de alguns meses pela revolta escrava em 1791. Tudo isso obrigou que em 1792 os girondinos, a ala moderada da revolução, tivessem que garantir os direitos políticos e sociais dos mulatos. Diante dessa força social, a grande burguesia teve que concordar. Os aristocratas coloniais tentaram até ganhar o apoio dos mulatos, mas não conseguiram. Então, eles preferiram entregar a colônia para a Inglaterra, ao invés de aceitar que interferisse no seu sistema de dominação dando conquistas ao povo que, para eles, deveriam ser sempre subordinados e submissos.
Lembrem-se que a Inglaterra agora precisava das ilhas do Caribe depois da independência dos EUA. E diante disso, cada setor burguês e conservador tentava ver como usar a força social dos negros ao seu favor diante das massas em luta. Mas a força das massas nessa rebelião era tão grande, que como nos conta James, eles começaram a temer até onde isso poderia chegar.
Assim, apesar das diferenças entre eles, os donos de escravos, a nobreza e burguesia francesa, os aristocratas coloniais e mulatos, todos eles passaram a concordar que a rebelião escrava deveria ser reprimida e os escravos, permanecer em estado de escravidão. E aqui eu quero novamente citar o James:
Os escravos, porém, se recusaram a escutar as ameaças e nenhuma promessa foi feita a eles. Liderados do começo ao fim por homens que tinham sido escravos e não sabiam ler ou escrever, lutaram uma das maiores batalhas revolucionárias da história. Antes da revolução, eles pareciam sub-humanos. Muitos escravos eram chicoteados sob qualquer pretexto, até mesmo para se levantar e se mover, a revolução os transformou em heróis. (JAMES, 2019, p.26)
Mesmo diante da grande articulação para parar a rebelião escrava que questionava as bases da dominação colonial e consequentemente o poder na burguesia em ascensão, os escravos insurretos seguiam em luta. E essa luta se potencializou ainda mais, quando em 1792 as massas francesas começaram a revolução triunfante na França. Agora, ao invés da indiferença, eles combatiam com frenesi revolucionário contra todo abuso do antigo regime e na luta comum das massas se forjou essa unidade contra os inimigos de classe, contra o racismo que os dividia.
No dia 4 de fevereiro de 1794, a Convenção, que foi o orgão de poder criado pela revolução francesa para dirigir de fato o país, decretou a abolição da escravidão negra e deu seu apoio a revolta em curso. Não foi por bondade de um lider, não foi pela consciência dos liberais sobre a importância dos direitos aos negros, foi pela força das massas francesas no continente e dos escravos insurretos nas colônias.
Essa notícias se espalhou pelo caribe francês e o sob a bandeira revolucionária, os negros foram os mais bravos combatentes contra os colonos britanicos e espanhois. Depois de 5 anos eles expulsaram os britânicos das ilhas e essa batalha de anos foi um grande golpe que enfraqueceu profundamente os britânicos nos anos da guerra. A ponto de um historiador do exército britânico declarar que “Pode-se afirmar que o segredo da impotência da Inglaterra nos seis primeiros anos da guerra repousa em duas palavras fatais: São Domingos.” (JAMES, 2019, p.27-28)
O papel da luta negra foi tão decisivo e fundamental, que James define de forma muito acertada que “Exceto pelas massas parisienses, nenhuma ala do Império francês desenvolveu, proporcionalmente ao seu tamanho, papel tão grandioso na Revolução Francesa quanto o meio milhão de negros e mulatos nas remotas ilhas do Caribe.” (JAMES, 2019, p.28)
A revolução tinha um caráter profundamente internacional e essa rebelião impactou um dos principais polos econômicos do século XVIII. Os ingleses não se tornaram abolicionistas porque eles de repente pararam e pensaram, nossa somos liberais democratas, está mal escravizar as pessoas, para a direita seguir existindo precisamos ser mais democráticos com os escravizados.
Não foi porque um setor achou que o caminho da sua luta era convencer os liberais que a Inglaterra precisava de uma direita “democrática” e os escravistas eram uma aberração por fora desse sistema. Não foi isso gente. Foi a luta de classes, foi a luta negra que derrotou a Inglaterra e deu um golpe de morte na dominação conservadora nesse país.
Em resposta a força da revolução francesa, surgiu Napoleão Bonaparte, que era o representante dos elementos mais reacionários da nova burguesia francesa e ele tentou restaurar a escravidão em São Domingos. Mas os negros derrotaram novamente um dos exércitos mais poderosos do mundo e diante de tudo que eles haviam enfrentado ao longo desses anos, chegaram a conclusão lógica da revolução: era necessário declarar a independência.
A força da luta revolucionária negra era tão forte que não parou nessa derrota inglesa, eles seguiram em luta, como o próprio James relata em seu livro, os Jacobinos Negros. Em 1804, eles conquistaram não só sua liberdade, mas ao proclamarem sua independência, os haitianos registraram na sua constituição que aquele era um país livre da dominação colonial, onde a escravidão estava abolida para sempre, que os cidadãos eram irmãos com igualdade de direitos, e que a partir daquela data todos os habitantes do Haiti passariam a serem denominados genericamente de “negros”.
Essa revolução triunfante despertou o medo nas classes dominantes ecoa até hoje. Todos os anos seguintes foram marcados pelo potencial revolucionário da luta negra e a burguesia nascente em todas as partes do mundo temia o quanto essa luta poderia desafiar o seu poder como fizeram os haitianos.
Inclusive uma definição fundamental dos marxistas para compreender o caráter da burguesia brasileira e latino americana é que ela nasce espremida entre o medo da revolta negra e as ameaças da potência imperialista. Mas diante disso, ela sempre prefere se subordinar aos imperialistas, do que apostar no potencial das massas negras que podem superar sua dominação e romper também os limites da propriedade privada.
A ideia de que a luta negra era uma luta pela liberdade, que era uma luta revolucionária que poderia ameaçar a dominação colonial encorajou milhares de negros escravizados por todo o continente e pelo mundo. Ser negro era ser revolucionário. E os negros com a consciencia de que lutar pela sua liberdade era ser revolucionário era algo muito perigoso para um capitalismo que precisa do racismo como base da sua dominação.
Essa luta seguiu reverberando profundamente em distintos processos de libertação nas Américas e ao redor do mundo. E é aí que chegamos em nosso terceiro e último ponto dessa exposição.
O enfrentamento ao racismo como um componente estratégico da luta socialista
Em 1860, Marx escreveu para Engels, o seguinte: “Do meu ponto de vista, o que há de mais grandioso acontecendo no mundo neste momento, é o movimento dos escravos - por um lado, na América, iniciado com a morte de Brown; por outro lado, na Rússia.” (MARX, ENGELS, 2022, p. 241).
Essa conclusão simplesmente demonstra como não existia uma separação mecânica entre luta negra e de luta de classes para Marx. Eles acompanhavam vivamente a luta negra como expressão da luta de classes. E no Capital, expressam que: “Assim como a guerra de independência americana do século XVIII fez soar o alarme para a classe média europeia, a guerra civil americana do século XIX fez soar o alarme para a classe trabalhadora europeia.” (MARX, 2013, p. 79)
Essa conclusão parte de um acompanhamento permanente de Marx e Engels sobre a Guerra de Secessão nos EUA. Em vários escritos, presentes nesse livro, A guerra civil nos EUA, eles apontavam como a questão fundamental em disputa era a liberdade dos negros escravizados. Eles analisaram as relações entre o desenvolvimento da produção capitalista inglesa e a escravidão no sul dos EUA, como ela ganhou novas dimensões depois da revolução industrial. Enquanto os capitalistas na Inglaterra se aproveitavam do chamado trabalho barato, com a introdução das mulheres e crianças na produção, o desenvolvimento dessa indústria impulsionava a produção de algodão nos EUA produzida a partir do trabalho escravo.
Nas palavras do Marx “a escravidão disfarçada dos assalariados na Europa necessitava, como pedestal, da escravidão “sem rodeios” do Novo Mundo.” (MARX, 2013, p. 79). Eles também colocaram a atuação da Associação Internacional dos Trabalhadores e sua militância revolucionária a serviço de batalhar contra todo o racismo que estava entranhado na classe trabalhadora inglesa.
Marx e Engels não somente debatiam e escreviam em seu jornal como a luta contra a escravidão poderia ganhar força e se fortalecer nos EUA como um impulso para revolução mundial, eles atuavam cotidianamente para que os trabalhadores pudessem expressar uma solidariedade ativa. Foi por causa dessa luta que Marx escreveu no Capital a ideia de que “O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro.” (MARX, 2013, p. 464).
A unidade entre os trabalhadores negros e brancos e a luta antirracista está na base da constituição do marxismo revolucionário. E a luta negra tem um potencial estratégico para o desenvolvimento da revolução porque questionar o racismo seriamente leva ao questionamento das bases do poder burguês.
O racismo é uma ferramenta de dominação para subordinar uma parcela muito importante da população às jornadas extenuantes e escravistas, como a 6x1, a precarização. É uma ideologia usada para dividir os trabalhadores, assim, como o machismo, a lgbtfobia e tantas outras. Combater essa divisão é central para os revolucionários. E fazemos isso batalhando para que os trabalhadores vejam o racismo como algo alheio a nossa classe, como uma ideologia que só serve para a burguesia.
Nada a ver com a visão estalinista que falava que primeiro vem a revolução, depois pensamos a luta das mulheres, do negros, das diversidades sexuais. Não, isso é a degeneração do marxismo revolucionário levada a frente por Stalin e seus detratores, o marxismo nunca teve essa concepção.
E foi justamente vendo todo potencial da luta negra que o Marx também começou a refletir sobre o programa pelo qual deveríamos combater. Ele conclui que a luta pela abolição a escravidão poderia ser um impulso tão forte que deveria ter sua continuidade na luta pela jornada de 8h de trabalho.
Então para ir concluindo, a gente tá fazendo esse curso na mesma semana que pela primeira vez em mais de 10 anos, a classe trabalhadora brasileira impôs uma conquista histórica: que foi o fim da 6x1. E nós achamos que essa luta tem potencial para ir por mais, para que o conjunto da nossa classe possa ter direito a uma vida além do trabalho, lutando pela revogação da reforma trabalhista, contra a terceirização irrestrita, a uberização e precarização do trabalho, tudo que foi mantido e aprofundado pelo governo de frente ampla.
É emocionante ver os vídeos dos trabalhadores comemorando essa conquista, é daquelas coisas que combatem qualquer ceticismo ou a mentira que tentam colocar de que quando a gente luta a burguesia fica mais forte. Imaginem se os negros insurretos tivessem acreditado nessa mentira, se eles não tivessem lutado dessa forma, onde é estaríamos hoje.
A gente segue lutando inclusive para que de fato seja implementada essa conquista do fim da 6x1, pois sabemos que ela está sob a mira do ataque de Flávio Bolsonaro e todos esses patrões herdeiros da casa grande. Esses escravistas que constroem suas riquezas com o sangue e suor da nossa classe. E nós tamo lado a lado, ombro a ombro com todos os que estão nas ruas se enfrentando com essa escória racista que quer retomar todo o legado desses escravistas malditos. Como estivemos em cada greve, em cada manifestação, em cada luta sempre batalhando pela organização independente da nossa classe.
E fazemos isso também deixando claro como se aliar com aqueles que também defendem ataques a nossa classe, ainda que sejam mais moderados ou com verniz “democrático” significa abrir mão de demandas muito sensíveis da nossa classe. E foi isso que o PT fez, e é por isso também que tem tanta dificuldade de dialogar com a insatisfação das massas.
Não podemos cair nessa armadilha que alguns setores da esquerda inclusive começam a disseminar, que o problema é só a comunicação, que o governo foi ótimo. O povo sente no dia a dia na sua vida concreta os efeitos da precarização da vida, que foi uma decisão de Lula e o PT ao manter a reforma trabalhista, a terceirização, a precarização do trabalho, ao implementar o arcabouço fiscal. Não podemos aceitar que agora a saída é convencer setores da direita, que sempre foram nossos inimigos, que sempre defendeu e defende os ataques contra a nossa classe.
É absurdo que o Lula vá à rede nacional e sinalizando para essa base conservadora passe a defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos. A redução da maioridade penal historicamente é pauta da burguesia mais reacionária, herdeira dos escravistas, para reprimir a luta negra. Surgiu como demanda para ampliar a repressão contra a juventude que se rebelava contra a escravidão pudesse seguir lutando. É coisas desse tipo o que fortalece a extrema direita. Não a crítica dos revolucionários a essa política de conciliação.
Apesar do Lula e PT quererem que as manifestações sejam estritamente eleitorais, elas têm um potencial muito mais forte, surgiram, assim como a demanda da 6x1, de um desejo espontâneo de milhares de pessoas que não querem que essa extrema direita fique mais fortalecida. E justamente para fazer juz a história de luta da nossa classe e ao potencial que tem se demonstrado da luta nas ruas nós precisamos superar essa política de conciliação, porque foi ela que nos trouxe até aqui.
Nós estamos fazendo esse curso aqui também como um ferramenta de combate para tirar as lições do potencial explosivo da luta negra e como o marxismo revolucionário encara essa luta porque queremos derrotar o Flávio Bolsonaro. Porque queremos Fora Trump da América Latina. E damos essa batalha ombro a ombro com cada setor que se mobiliza nas ruas por nenhum voto na extrema direita. Para construir a mobilização anti-imperialista.
O potencial que está colocado hoje, com a conquista da 6x1 sendo uma inflexão importante, a gente vê nas manifestações com cartazes e gritos contra o imperialismo que quer roubar nossas terras raras e nos deixar mais mil marianas e brumadinhos. Com a juventude, em grande parte negra, batendo seus leques orgulhosos, levantando seus blacks, expressando seus corpos de forma livre, defendendo sua liberdade e principalmente com a nossa classe colocando na ofensiva seu programa.
Essa juventude que também se levanta em todo mundo. Como foi nas revoltas no continente africano, em Angola, no Nepal, em Bangladesh, na luta contra o ICE nos EUA. Como está sendo com os secundaristas franceses, numa unidade maravilhosa entre os filhos dos trabalhadores brancos e imigrantes. Na juventude do Estado Espanhol que se levanta com a demanda movimento por moradia e fez disparar as buscas pelo Manifesto Comunista. Queremos nos conectar com as mobilizações no Chile e da Argentina, contra dois capachos do Trump que também são aliados do Flávio aqui na América do Sul. E como James coloca em seu texto:
O que nós como marxistas devemos enxergar é o tremendo papel desempenhado pelos negros na transformação da sociedade ocidental do feudalismo ao capitalismo. Somente desse ponto de vista correto, seremos capazes de valorizar (e nos preparar para) o papel ainda maior que necessariamente desempenharão na transformação do capitalismo em socialismo. (JAMES, 2019, p. 24)
Se há mais de dois séculos atrás meio milhão de negros escravizados foram capazes de derrotar dois exércitos imperialistas. Imaginem o potencial que tem a força de uma classe trabalhadora composta por quase cem milhões de pessoas, uma classe de maioria negra e feminina. Que é herdeira da luta negra em nosso país e em todo mundo. Que enquanto a burguesia da qual Flavio Bolsonaro é o principal representante hoje, nasceu nas Casas Grandes dos latifundiários escravocratas, nossa classe é herdeira de Zumbi, que nunca conciliou com a Coroa.
Somos herdeiros daqueles trabalhadores, livres e escravizados, que fundaram suas primeiras organizações operárias para lutar contra a escravidão, da incansável luta de um povo que sempre se rebelou contra a escravidão e defendeu a liberdade. Essa é a tradição de combatividade que se expressou no ascenso operário durante a ditadura, nas greves selvagens contra a precarização do trabalho, nas manifestações culturais que pulsam a luta negra e em tantos outros momentos de luta da nossa classe.
E por isso devemos colocar de pé um partido revolucionário e internacionalista é retomar esses fios de continuidade da nossa luta histórica, potencializando a unidade entre negros, indígenas, imigrantes e brancos, homens, mulheres, para combater com um só punho a burguesia racista herdeira dos escravocratas, e para isso, é preciso superar as direções reformistas e conciliadoras.
Nossa classe é internacional e sem fronteiras, e podemos jogar na lata do lixo da história, não só essa extrema direita escravista, mas todo esse sistema capitalista e construir uma nova sociedade livre de toda a forma de opressão e exploração, uma sociedade sem classes e sem Estado, onde o racismo seja apenas uma página dos livros da história. E a vida vai ser tão bonita quanto a arte.
Bibliografia Geral
Referências
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A guerra civil dos Estados Unidos. Organização de Murillo van der Laan. Tradução de Luiz Felipe Osório e Murillo van der Laan. São Paulo: Boitempo, 2022.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
JAMES, C. L. R.; TROTSKI, Leon; BREITMAN, George. A revolução e o negro: textos do trotskismo sobre a questão negra. Organização de Daniel Alfonso, Letícia Parks e Marcello Pablito. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Edições Iskra, 2019.