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Malvinas e o marxismo: uma resposta a Bhaskar Sunkara

Por Luca Bonfante |
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Texto publicado originalmente em espanhol no La Izquierda Diario Argentina no dia 16/06/2026

A seleção argentina venceu a Inglaterra após uma partida épica nas semifinais da Copa do Mundo. Como era previsível, o confronto foi atravessado pela história, pelos símbolos e pela histórica reivindicação argentina de soberania sobre as Ilhas Malvinas. Isso provocou o incômodo da FIFA, de vários direitistas e também de Bhaskar Sunkara, fundador e editor da revista Jacobin e uma das principais referências dos Socialistas Democráticos da América (DSA).

A reivindicação pelas Malvinas não nasceu com a ditadura

Um dos principais problemas do comentário de Bhaskar Sunkara é que ele reduz a questão das Malvinas ao uso político que dela fez a ditadura militar em 1982: "Essa foi a bandeira de uma ditadura militar..." ("This was the banner of a military dictatorship..."). Essa identificação não resiste a uma análise histórica. A reivindicação argentina sobre as ilhas não nasceu com a ditadura, nem com Galtieri, nem sequer no século XX. Trata-se de um conflito colonial que remonta à ocupação britânica das ilhas em 1833, quando a Coroa britânica expulsou as autoridades das Províncias Unidas do Rio da Prata, que exerciam funções de governo nas ilhas.

Desde então, a ocupação britânica das ilhas representa, nada mais nada menos, a permanência de um enclave colonial em um país dependente. A Grã-Bretanha foi a principal potência imperial com influência sobre a Argentina durante a segunda metade do século XIX e grande parte do século XX. Embora o país tenha preservado sua independência política formal — após se tornar independente da Coroa espanhola em 1816 —, sua economia foi ficando cada vez mais atrelada ao capitalismo britânico: as ferrovias, os portos, os frigoríficos, os bancos e boa parte do comércio exterior estiveram sob domínio de capitais ingleses. A ocupação das Ilhas Malvinas, nesse sentido, funcionou e continua funcionando como um lembrete permanente: a relação entre a Argentina e a Inglaterra (ou outras potências) nunca foi nem será a de duas nações que trocam livremente em um mercado mundial neutro (como sustentam os defensores radicais do livre mercado, como Javier Milei), mas sim a de um país opressor com um país oprimido.

Dito isso, não é por acaso que um governo profundamente alinhado aos Estados Unidos, como o de Javier Milei, tente esvaziar o conteúdo da reivindicação de soberania sobre as ilhas. Milei não apenas elogiou reiteradamente Margaret Thatcher, como também seu governo aceitou, sem resistência, a imposição da FIFA de vetar qualquer referência às ilhas antes da partida contra a Inglaterra.

A posição do marxismo e da esquerda

De fato, a ditadura de 1976–1983 apropriou-se dessa causa nacional preexistente (por meio de uma aventura militar) para tentar recuperar legitimidade em meio a uma profunda crise econômica, social e política. A Junta Militar estava longe de representar um projeto anti-imperialista. Desde 1976, havia construído uma estreita aliança com os Estados Unidos, aplicando um programa econômico favorável ao grande capital internacional e participando ativamente da estratégia contrainsurgente impulsionada por Washington na América Latina.

Segundo diversos testemunhos e documentos posteriores, Galtieri acreditava que a prioridade estratégica dos Estados Unidos na Guerra Fria levaria o governo Reagan a mediar favoravelmente ou até mesmo a apoiar a Argentina diante do Reino Unido. Bem, ocorreu exatamente o contrário. Quando o conflito colocou frente a frente uma nação dependente e uma potência imperialista como a Inglaterra, Washington fechou fileiras com Londres. Reagan forneceu apoio diplomático, militar e de inteligência a Thatcher, confirmando que a solidariedade entre as grandes potências pesa mais do que qualquer aliança circunstancial com governos periféricos. A Guerra das Malvinas foi também uma lição (mais uma vez) sobre os limites de qualquer ilusão em um "imperialismo amigo".

Tudo isso é importante para mostrar que uma apropriação oportunista da causa das Malvinas não altera o conteúdo histórico da reivindicação. Aceitar o raciocínio de Sunkara implicaria concluir que toda causa utilizada por um regime reacionário fica irremediavelmente desacreditada. O marxismo não pode raciocinar dessa maneira. As classes dominantes frequentemente se apropriam de reivindicações populares para seus próprios fins, mas isso não elimina o caráter objetivo dessas reivindicações nem determina qual deve ser a posição da esquerda diante delas.

Trotsky escrevia, em 1938, que, se a Inglaterra entrasse em guerra com o Brasil de Getúlio Vargas — um regime que ele definia como "semifascista" na década de 1930 —, os revolucionários deveriam se posicionar militarmente ao lado do Brasil e contra a "democrática" Grã-Bretanha. Não porque Vargas representasse interesses progressistas naquele momento, mas porque uma derrota do imperialismo britânico enfraqueceria a principal potência colonial e abriria melhores condições para a luta revolucionária em ambos os países. Esse mesmo critério poderia ser aplicado para analisar e tomar posição diante das agressões imperialistas sofridas pelo Irã nos dias de hoje. Reduzir o conflito a uma oposição entre democracia e ditadura, advertia Trotsky, era ter "a cabeça vazia"...

Uma análise das guerras do ponto de vista socialista, da classe trabalhadora, deve partir não dos regimes políticos dos Estados em confronto, mas do lugar que eles ocupam no sistema imperialista mundial. A Grã-Bretanha era — e continua sendo — uma potência imperialista que mantém um enclave colonial no Atlântico Sul desde 1833 (entre outros). A Argentina, por sua vez, constitui um país dependente (cada vez mais), cuja burguesia não apenas jamais conseguiu completar as tarefas de libertação nacional diante das grandes potências, como também a afunda cada vez mais no atraso e na dependência de organismos internacionais como o FMI e de magnatas bilionários como Peter Thiel.

Durante a Guerra das Malvinas, organizações trotskistas como o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) sustentaram uma posição de independência política em relação à Junta Militar, denunciando simultaneamente o caráter criminoso do regime, sua política que impedia a vitória na guerra e defendendo a derrota do imperialismo britânico. A palavra de ordem não era "apoiar Galtieri", mas "contra a ditadura e contra o imperialismo". Uma política revolucionária para vencer a guerra teria implicado, por exemplo, convocar a mobilização internacional da classe trabalhadora contra a Grã-Bretanha e expropriar todos os bens britânicos na Argentina (algo que a ditadura, obviamente, não fez). Derrubar a ditadura para vencer a guerra.

Por que isso é fundamental para o desenvolvimento da luta de classes em cada país e em escala internacional? Para Lenin e a III Internacional (e nós compartilhamos essa posição), a luta de classes nunca se desenvolve em um terreno abstrato. Ela ocorre em um mundo organizado hierarquicamente pelo imperialismo, no qual um punhado de Estados concentra o poder econômico, militar e financeiro, enquanto dezenas de nações permanecem submetidas a diferentes formas de dependência. Essa estrutura condiciona tanto a exploração da classe trabalhadora nos países oprimidos quanto as possibilidades da revolução internacional.

Essa posição implicava romper com uma antiga concepção da II Internacional (que Sunkara reproduz), segundo a qual a única contradição verdadeiramente relevante era a que opunha trabalhadores e capitalistas dentro de cada país. Lenin respondeu que essa visão ignorava um fato decisivo: o capitalismo havia entrado em sua fase imperialista, e a opressão das nações havia se convertido em um mecanismo central de reprodução do sistema. A história é conhecida: os principais partidos da II Internacional, rompendo com o internacionalismo, acabaram votando os créditos de guerra na carnificina imperialista da Primeira Guerra Mundial. Em consequência, a luta de classes e a luta contra a opressão nacional não são processos paralelos, mas dimensões de uma mesma estratégia revolucionária.

Sob essa mesma análise, deve-se avaliar a vitória britânica sobre a Argentina em 1982: ela não foi simplesmente a derrota da ditadura argentina, mas também uma vitória estratégica do imperialismo. Fortaleceu o governo de Margaret Thatcher, consolidou a ofensiva neoliberal e representou um retrocesso para a classe trabalhadora em nível internacional.

A reação de Sunkara tampouco constitui uma novidade histórica. Durante a guerra de 1982, amplos setores da esquerda britânica foram incapazes de romper com a pressão ideológica exercida por "seu" próprio imperialismo. O Partido Trabalhista apoiou abertamente a expedição militar de Thatcher; outras correntes optaram pelo pacifismo ou por uma falsa neutralidade entre a potência imperialista e o nosso país. Inclusive organizações trotskistas, como a Militant, negaram o caráter semicolonial da Argentina e rejeitaram a política de defesa de uma nação oprimida diante do imperialismo. A força adquirida por Thatcher seria decisiva para lançar, dois anos depois, a ofensiva contra o Sindicato Nacional dos Mineiros (NUM), durante a greve de 1984–1985, uma derrota que marcou um ponto de inflexão no desmantelamento do poder do movimento operário britânico e na consolidação do neoliberalismo. Os erros se pagam caro.

Por fim, Sunkara pergunta: "Por que não deixar que os ilhéus cuidem de suas ovelhas e se casem com seus primos, e concentrar a luta nos capitalistas?" ("Why not let the islanders tend to their sheep and marry their cousins & focus fight on capitalists?"). Já respondemos acima qual é a relação entre essa questão e a luta contra o capitalismo. Agora, será que Sunkara realmente acredita que o Reino Unido mantém, há quase dois séculos, uma colônia a 13 mil quilômetros de Londres por solidariedade aos ilhéus? As Malvinas constituem um enclave estratégico que abriga uma importante base militar, permite projetar poder sobre o Atlântico Sul e a Antártida e assegura o controle de valiosos recursos pesqueiros, de potenciais reservas de hidrocarbonetos e de rotas marítimas. Reduzir essa disputa a uma caricatura sobre "ovelhas e primos" significa invisibilizar justamente aquilo que o marxismo sempre colocou no centro da análise: as relações de poder, de dominação e os interesses materiais que sustentam o imperialismo. Sua caricaturização do conflito é bastante funcional aos interesses imperialistas da Inglaterra.

A origem do problema

A reação de Sunkara não constitui um erro isolado. Ela expressa uma tensão que atravessa, há anos, uma parte da nova esquerda norte-americana: a dificuldade de transformar o anti-imperialismo em um critério estratégico de análise. O resultado é um deslocamento do problema: a relação entre uma potência imperialista e uma nação oprimida fica subsumida a uma oposição entre democracia e ditadura. Esse mesmo problema, já apontado em diversos artigos da Left Voice (organização norte-americana irmã do PTS argentino), volta a se manifestar nas postagens apressadas de Bhaskar Sunkara, que mais uma vez reproduz um erro histórico de boa parte da esquerda das potências imperialistas: acabar enxergando o mundo a partir da perspectiva do seu próprio Estado.

A discussão, em última instância, não gira em torno de uma comemoração futebolística. Tampouco de uma bandeira exibida durante alguns segundos. O que ficou exposto foi a tentativa de transformar o esporte em um espaço politicamente esterilizado, no qual as reivindicações dos povos oprimidos são consideradas "provocações", enquanto as relações de poder que sustentam a ordem mundial permanecem invisíveis. Não é por acaso que seja justamente a FIFA quem pretenda estabelecer essa fronteira, tentando proibir de antemão manifestações em defesa das Malvinas. Uma instituição estreitamente ligada a grandes patrocinadores, governos e organismos internacionais dificilmente poderia aceitar que um dos maiores eventos esportivos do planeta se transformasse em uma tribuna para questionar um enclave colonial que ainda existe. Mas, de uma forma ou de outra, sempre surgem brechas para que a verdade venha à tona, seja como fez o técnico da seleção do Egito ao levantar a voz em defesa das crianças palestinas, seja como fizeram os jogadores argentinos ao erguer sua bandeira pelas Ilhas Malvinas. A neutralidade proclamada pela FIFA não consiste em excluir a política do futebol, mas em excluir aquelas manifestações que incomodam o poder estabelecido — e também Sunkara.

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