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Marx: dialética, lógica e filosofia

14.12.2025

Parte da edição: 14.12.2025

Texto publicado originalmente na edição de 23/11/2025 do semanário argentino Ideas de Izquierda.

Apontamentos sobre A estrutura lógica de O capital de Marx, de Jindrich Zeleny.

Introdução

Para dar continuidade às reflexões que temos desenvolvido em torno da questão da dialética no marxismo, vamos retomar algumas das principais discussões apresentadas em um clássico do segundo pós-guerra dedicado ao tema.

Jindrich Zeleny (1922–1997) foi um destacado intelectual e professor universitário marxista tcheco. Seu livro A estrutura lógica de O capital de Marx oferece uma reflexão muito elaborada sobre questões como o tipo de procedimentos lógicos utilizados por Marx (formais e dialéticos), sua concepção de ciência e a relação desses temas com um enfoque filosófico mais geral. O trabalho constitui uma contribuição substancial para a célebre discussão (nunca inteiramente resolvida) sobre o “método de Marx”, mas também sobre a orientação filosófica do marxismo, ao mesmo tempo em que se situa em certas coordenadas do marxismo do segundo pós-guerra, no qual tinham peso as discussões sobre esses temas, impulsionadas pela publicação dos Manuscritos de 1844 e dos Grundrisse, bem como pelas leituras de Marx postas em prática por autores como Althusser e outros.

O livro divide-se em duas partes. A primeira intitula-se “Sobre a análise genético-estrutural materialista-dialética” e a segunda “A lógica de O capital e a crítica de Hegel por Marx”. Após essas duas partes, o autor apresenta um último apartado de conclusões. Neste artigo, trabalharemos sobretudo com a primeira parte, embora recuperemos alguns temas colocados na segunda e nas conclusões. Antes disso, resumiremos os pontos principais que o autor assinala na introdução, pois eles ajudam a compreender os objetivos do trabalho de Zeleny em linhas gerais, bem como o tipo particular de enfoque a partir do qual ele analisa os temas em discussão.

Zeleny sustenta que o tema de fundo — para o qual sua pesquisa prepara materiais auxiliares — é o de “saber se e em que sentido o surgimento do marxismo significa uma transformação da concepção de ciência”, assim como qual “conteúdo lógico” possui essa transformação (Zeleny, 1978, p. 11). Essa discussão se articula, por sua vez, com outras duas: se o tipo de análise levado adiante por Marx em O capital tem validade geral como um novo tipo de pensamento científico, questão que, por outro lado, só pode ser respondida mediante “uma clarificação da relação de Marx com a metafísica europeia tradicional” (Zeleny, 1978, p. 12). Como não poderia deixar de ser, essa questão remete à relação de Marx com o pensamento de Hegel e à discussão sobre em que medida Marx, criticando simultaneamente a filosofia hegeliana e a economia política burguesa, dá lugar, com sua obra, a “um novo e transformador começo na concepção da racionalidade” (Zeleny, 1978, p. 12). Aqui, Zeleny conclui que a contribuição de Marx nesse plano consiste na “superação da contraposição tradicional entre gnoseologia e ontologia em um método filosófico de investigação lógica dos fundamentos que é novo em princípio e que, por seu conteúdo, pode ser qualificado como ontopraxeológico” (Zeleny, 1978, p. 12).

A partir dessas definições, Zeleny aborda de maneira um pouco mais específica a questão da “lógica de O capital”. Assinala que aprofundar esse tema permite tanto resolver um déficit nos estudos marxistas do período, ao tentar “clarificar a relação entre a dialética materialista e a teoria analítica da ciência” (Zeleny, 1978, p. 12), quanto intervir no debate marxista por meio da elaboração de “alguns critérios úteis” que permitam ir além do “cisma entre a intenção antropológica e a cientificista” (Zeleny, 1978, p. 13), em referência a uma das contraposições típicas do marxismo no segundo pós-guerra.

Nesse marco, Zeleny encerra sua introdução com algumas definições relacionadas à questão da lógica. Sustenta que seu estudo nos fornecerá alguns fundamentos para a discussão sobre “as relações entre a lógica formal e a lógica dialética” (Zeleny, 1978, p. 13), passando a definir o que entende por lógica, por “lógica de O capital” e os distintos níveis de problemas teóricos com os quais elas se relacionam (Zeleny, 1978, pp. 13–14):

Entendo por lógica a ciência das formas do pensamento que conduz ao conhecimento da verdade objetiva. A lógica ocupa-se, antes de tudo, das formas do pensamento que encontramos no pensamento científico teórico, tal como este as utiliza e tal como, portanto, se nos apresentam no desenvolvimento plurimilenar da ciência e, em particular, nos resultados e na atividade das ciências modernas. A expressão “estudar a lógica de O capitalde Marx” é evidentemente metafórica. Com ela se entende o estudo de qual lógica, quais conceitos e quais soluções da problemática lógica estão implícitos na obra econômica de Marx.

Essa proposta de leitura da obra de Marx fundamenta-se do seguinte modo (Zeleny, 1978, p. 15):

[N]ão é possível conceber a colocação da problemática lógica no marco de uma divisão rígida da lógica em duas partes: uma delas formal, sem qualquer relação com o conteúdo, e a outra material ou de conteúdo, sem qualquer perspectiva formal.

Para Zeleny, a lógica não pode ser totalmente separada da teoria do conhecimento, e a questão do conhecimento está vinculada a uma concepção da realidade em termos “ontopraxeológicos”, isto é, contrária a uma divisão rígida entre gnoseologia e ontologia. Daí que ele questione a limitação da lógica ao estudo da relação de consequência lógica, mas sem dissolver a lógica na gnoseologia. Propõe distinguir “várias camadas e esferas dos campos lógicos conhecidos pela investigação contemporânea” (Zeleny, 1978, p. 17): 1) a teoria da relação de consequência (lógica de enunciados, lógica de predicados, lógica de classes); 2) as relações lógicas de probabilidade; 3) o estudo da formalização como objeto da investigação lógica; 4) a interpretação dos sistemas formalizados, que pode ser subdividida em uma parte geral (relação entre semântica e sintaxe lógica) e uma parte particular (aplicação às ciências especiais); 5) a construção dos sistemas científicos em geral; e 6) a questão dos tipos lógicos do pensamento científico. Esclarecendo que a classificação não pretende ser exata e que vários dos pontos enumerados separadamente, na realidade, se sobrepõem entre si, Zeleny destaca que seu livro se dedica sobretudo às questões agrupadas nos pontos 5 e 6, embora em distintos momentos faça referência às próprias dos pontos 1 a 4. Ele conclui a introdução da obra com a seguinte ideia (Zeleny, 1978, pp. 19–20):

O estudo do tipo lógico do pensamento científico é mais abstrato do que o do pensamento científico exercido em uma disciplina especial. Por isso, “a lógica de O capital” pode ser tomada como objeto de estudo em uma investigação que se interesse, antes de tudo, pelos métodos especiais da economia política. Evidentemente, não é possível separar totalmente ambas as investigações, a geral e a particular. Trata-se apenas de precisar qual é o ponto de vista predominante. Neste trabalho, trata-se sobretudo de estudar “a lógica de O capital” em sua relação com a questão da novidade e do caráter específico do tipo lógico marxista de pensamento científico.

No que segue, retomaremos as questões centrais da abordagem de Zeleny, nem sempre seguindo a ordem em que o autor as apresentou, a fim de facilitar a exposição dos problemas.

Rumo a uma nova concepção da ciência?

Esse tema percorre todo o trabalho de Zeleny e abrange diversos aspectos: o tipo de análise teórica levado adiante por Marx; a relação que ele estabelece entre estrutura e gênese, entre aspectos qualitativos e quantitativos; a relação dos conceitos com seu objeto; a relação entre teoria e história; entre essência e aparência; entre análise e síntese. Zeleny destaca que Marx pretende expor tanto a “estrutura interna” quanto “as leis do movimento” do sistema capitalista. A combinação dessas duas preocupações caracteriza a análise “genético-estrutural” própria de O capital. A comparação com Ricardo permite a Zeleny estabelecer com mais clareza a especificidade do tipo de análise posto em prática por Marx, assim como sua concepção da atividade científica. Deter-nos-emos brevemente nessa questão, pois ela é central para compreender as discussões subsequentes em torno da “lógica de O capital”. Vejamos as principais características da análise de Ricardo segundo o autor (Zeleny, 1978, p. 26):

A análise ricardiana do capitalismo implica uma concepção da explicação científica caracterizável, em primeiro lugar, do seguinte modo: A) Distingue-se entre superfície empírica e essência. B) A essência, ou o essencial, é entendida como algo imutável, dado de uma vez por todas, à maneira dos princípios de Newton. As formas empíricas aparentes são consideradas como formas imediatas de manifestação de uma essência fixa, às vezes investigada e comprovada, outras vezes aceita como pressuposto evidente. As formas empíricas aparentes são fixas no sentido de dotadas de caráter a-histórico e, ao mesmo tempo, mutáveis no sentido da alteração quantitativa. C) As questões às quais todo esse tipo de análise responde são, em formulação generalizada: c-a) que alterações quantitativas das formas empíricas se produzem, por força de lei, como consequência de alterações quantitativas da essência; c-b) que alterações quantitativas das formas empíricas se produzem, por força de lei, como consequência da alteração quantitativa de algumas das formas empíricas que se encontram em interação.

Zeleny prossegue afirmando que “a quantidade de trabalho necessária para a produção de uma mercadoria” é essa “essência fixa” que permite compreender “todas as manifestações da economia capitalista”, especialmente as leis que determinam as relações entre proprietários de terra, capitalistas e trabalhadores (Zeleny, 1978, p. 26). Partindo da pergunta “qual é o fundamento real do valor de troca?”, Ricardo procura pensar o problema de qual é a causa principal das alterações do valor relativo da mercadoria, investigando que papel podem desempenhar nessas alterações questões como a existência de trabalhos de diferente qualidade, o aumento ou a diminuição dos salários, as alterações do valor do dinheiro, a apropriação da terra e a consequente produção de renda, assim como se pergunta qual é a causa da constante alteração do lucro e das constantes alterações da taxa de juros. Em síntese, trata-se — segundo Zeleny — de um estudo centrado nos aspectos quantitativos. Isso não significa que Ricardo não mencione ou não leve em conta determinações qualitativas dos processos, mas sim que, em sua exposição, elas são tomadas “da simples representação, da empiria, de modo acrítico, e como fixas, imutáveis e não mediadas” (Zeleny, 1978, p. 29). Assim ocorre, por exemplo, com o salário, o lucro e a renda da terra, que não são estudados “do ponto de vista de sua especificidade qualitativa”, mas “como três fontes ‘naturais’ constantes de três classes ‘naturais’ constantes da população” (Zeleny, 1978, p. 29).

Zeleny destaca que Marx se apoia nas investigações de Ricardo, mas considera que seu método é unilateral e defeituoso, razão pela qual vai além dele (Zeleny, 1978, pp. 31–33): a) Marx não rejeita nem considera inúteis ou sem importância as investigações ricardianas das relações quantitativas da troca mercantil; considera-as úteis para a compreensão dos “verdadeiros fundamentos do valor de troca” e do “caráter do capital”. Marx reconhece a função positiva dessas investigações no caminho do conhecimento científico dos objetos estudados. b) Contudo, as investigações quantitativas de Ricardo fornecem, segundo Marx, uma “descrição defeituosa” e insuficiente, e resultam “errôneas”, porque, no contexto ricardiano, não se percebe o caráter limitado e provisório de sua função no conhecimento do objeto, sua limitação, o fato de que são apenas um momento na totalidade do processo do conhecer; ao contrário, apresentam-se como conhecimento total, como conhecimento do caráter da essência (da “nature”, como se comprazem em dizer Ricardo e Smith) dos objetos investigados. Isso implica inevitavelmente uma concepção a-histórica das categorias.c) A superação, por Marx, do ponto de vista unilateralmente quantitativo de Ricardo não significa que o primeiro preste menos atenção à determinação quantitativa do objeto. Marx reconhece de modo cada vez mais exato e completo o aspecto quantitativo do objeto quando este tem importância para o conhecimento científico (isto é, para o conhecimento das leis do desenvolvimento necessário do objeto, para a realização da análise genético-estrutural do objeto). Assim, por exemplo, as análises marxianas dos traços quantitativos da taxa média de lucro são mais amplas e mais precisas do que as de Smith e Ricardo. Do mesmo modo, Marx estuda a magnitude do valor, primeiro a magnitude “absoluta”, depois a relativa, depois em relação com o dinheiro etc. d) Marx reconhece a justificativa de uma limitação e concentração da investigação no estudo das alterações quantitativas em um determinado estágio do desenvolvimento da ciência e do desenvolvimento do conhecimento científico de determinados objetos. Essa limitação e essa concentração produzem um ponto de vista unilateralmente quantitativo quando ocorrem nas condições descritas em b). Mas podem ser uma fase totalmente legítima do processo do conhecimento, situada no terreno da concepção geneticamente superior da explicação científica (do tipo lógico geneticamente superior), desde que se tenha consciência do lugar e da função do conhecimento limitado ao quantitativo.

Nesse marco, prossegue Zeleny, embora em Ricardo haja passagens nas quais se assinala certa historicidade das categorias econômicas — como quando o chamado “preço natural do trabalho” ou a distribuição da renda da terra, o lucro do capital ou o salário da classe trabalhadora mudam segundo as épocas históricas —, o tipo de mudança concebido está ligado a alterações quantitativas e, portanto, não se concebem mudanças qualitativas nessas relações segundo os diferentes contextos e estruturas sociais. No caso de Marx, a conceituação é muito mais elástica e afastada do “fixismo”, baseando-se em uma concepção da realidade que pensa unidas a práxis e a materialidade. No mesmo sentido, Zeleny destaca que Marx torna mais fluídas e interdependentes as relações entre essência e aparência e entre causa e efeito, indo além de uma estrutura de argumentação “substancial-atributiva”, na qual o objeto é apresentado como substância dotada de atributos (argumentação que ele identifica em Descartes e Locke), bem como superando o tipo de causalidade característico da ciência moderna segundo os modelos de Galileu e Newton, de causalidade unilinear inspirada no mecanicismo (Zeleny, 1978, pp. 59 e 143). Sem desconhecer a importância desse tipo de pensamento, e inclusive apoiando-se nele em muitos momentos, Marx aponta para uma concepção que compreenda a realidade em termos de processos e, portanto, relativize os conceitos (no sentido de que seu significado não está fixado de uma vez por todas, assim como tampouco as realidades às quais aludem), estude suas inter-relações e os vincule ao momento histórico e às características específicas da realidade sob análise.

Conectando essas questões com a da relação entre Marx e Hegel, Zeleny (1978, p. 125) destaca que:

O sistema científico materialista e dialético constitui um todo artístico de arquitetura complicada, no qual se encontram em unidade orgânica processos em diferentes profundidades da cena histórica, procedimentos muito abstratos e outros plenamente factuais e singulares; essa arquitetura complicada produz, em seu conjunto, a imagem teórica do modo de produção capitalista “em sua estrutura interna”.

Todas essas questões entram em jogo no que Zeleny denomina a “forma lógica” própria desenvolvida por Marx: a derivação dialética.

Análise genético-estrutural e derivação dialética

Zeleny assinala que Marx desenvolve uma concepção de “conhecimento conceituante”, proveniente de uma reelaboração da ideia hegeliana de “conceito”, que ele sintetiza do seguinte modo (Zeleny, 1978, p. 77):

O conceito marxiano de “conceito” expressa a forma lógica que não encontramos na economia política clássica inglesa e que é essencial para a concepção materialista-dialética da reprodução intelectual da realidade e para a análise genético-estrutural marxiana como tipo específico de análise. O “conceito” é, para Marx, a reprodução intelectual da articulação interna, da estrutura interna de um objeto, precisamente dessa estrutura interna em seu desenvolvimento, em sua gênese, em sua existência e em sua morte. No conceito de “conceito”, Marx elabora a forma lógica que unifica intimamente o ponto de vista estrutural e o genético, tal como corresponde à nova concepção lógico-ontológica, dialético-materialista. “Conceito” significa a apreensão racional, a reprodução intelectual, o reflexo intelectual do objeto em sua natureza genético-estrutural, isto é, em sua legalidade genético-estrutural.

O “conhecimento conceituante” não apenas define uma realidade ou um estado de coisas, mas busca elucidar seu processo e suas leis internas. A partir daí, Zeleny polemiza com o autor soviético Grusin a respeito de sua classificação das análises de Marx, segundo se trataria do “objeto já constituído” (a estrutura do capitalismo) ou da “história do objeto” (o processo histórico anterior à sua constituição plena). Zeleny destaca que esses tipos de análise não transcorrem paralelamente, mas que, em Marx, combinam-se em proporções diversas conforme os momentos; e que é uma característica específica tanto do “conhecimento conceituante” quanto da “derivação dialética” a combinação desses níveis e tipos de análise. Aqui surge um tema ao qual voltaremos mais adiante, mas que nos parece importante assinalar desde já. A terminologia utilizada por Zeleny, que combina vocabulário próprio do marxismo com o da lógica formal, pode dar lugar a certos equívocos ou — mais precisamente —, para os fins do que estamos propondo aqui, implica uma transposição de termos de um contexto para outro, modificando seu conteúdo.

No marco da lógica formal (Sacristán, 1964, p. 104), a derivação (Manuel Sacristán preferia utilizar o termo “demonstração”) costuma ser definida como:

… uma sucessão de fórmulas, cada uma das quais está fundamentada, o que significa que cada uma delas é: ou um axioma, ou uma fórmula obtida imediatamente de um axioma pela aplicação de uma regra de transformação, ou ainda uma fórmula obtida de uma ou mais das anteriores, desses dois gêneros, mediante a aplicação das regras de transformação.

Trata-se dos procedimentos para determinar se uma forma de argumento é válida, aplicando às suas premissas as regras de transformação que permitirão estabelecer se a conclusão decorre necessariamente delas. Ou seja, trata-se de um procedimento que se realiza no contexto de uma codificação simbólica de determinados enunciados, que presta atenção à relação de consequência entre premissas e conclusão, e não a seus conteúdos — o aspecto da lógica que Zeleny havia classificado anteriormente no ponto 1), correspondente à lógica formal clássica ou simbólica.

A derivação dialética possui outras características, e Zeleny a apresenta não necessariamente em oposição, mas sim diferenciando-a da derivação própria da análise dos raciocínios dedutivos (Zeleny, 1978, p. 95):

A diferença em relação à dedução tradicional aparece de modo mais claro na parte estudada da teoria marxiana do valor, quando Marx expõe as transições das formas do valor. O objetivo dessa parte é “conseguir aquilo que a economia burguesa sequer tentou, a saber, mostrar a gênese dessa forma monetária, isto é, o desenvolvimento da expressão do valor contida na relação de valor das mercadorias, desde sua figura mais simples e insignificante até a forma monetária deslumbrante. Com isso, dissipa-se ao mesmo tempo o enigma do dinheiro”. Assim, essa derivação dialética, essa análise dialética, é a investigação da gênese e do desenvolvimento de formas determinadas e, portanto, o desvelamento do enigma de um determinado objeto.

Detenhamo-nos, então, um pouco no capítulo I do Livro I de O capital, sobre a forma do valor. Partindo da definição da mercadoria como célula básica do capitalismo e de seu caráter dual como valor de uso e valor, Marx apresenta primeiro a forma simples do valor, consistente na antítese entre dois polos: a forma relativa (representada por uma mercadoria cujo valor deve ser determinado) e a forma equivalente (representada pela mercadoria que serve para “medir” o valor da forma relativa), com os exemplos do linho e do casaco, respectivamente. Aqui, a dualidade entre valor de troca e valor de uso se expressa no fato de que o casaco atua como forma equivalente do valor não por seu valor de troca, mas enquanto valor de uso, que serve como referência para determinar o valor da forma relativa (linho). Em seguida, vem a forma total ou desdobrada do valor, que supõe uma multiplicação de formas equivalentes para a forma relativa; isto é, 20 varas de linho já não se equiparam apenas a um casaco, mas também a 10 libras de chá ou a 40 de café. Passa-se, como diz Marx, “de uma relação social com uma mercadoria singular” a uma relação “com o mundo das mercadorias” (Marx, 2008, p. 78). A apresentação de múltiplos equivalentes particulares para o linho coloca a possibilidade de inversão da fórmula: assim como o linho equivale a diversas quantidades de múltiplas mercadorias, essas múltiplas mercadorias podem ser trocadas por linho e ter seus valores medidos segundo o linho, tomado como “terceira mercadoria”, o que nos dá a “forma geral do valor” (Marx, 2008, pp. 79–80). Diz Marx:

As mercadorias representam agora seu valor 1) de maneira simples, porque o representam em uma só mercadoria, e 2) de maneira unitária, porque o representam na mesma mercadoria. Sua forma de valor é simples e comum a todas e, portanto, geral.

Essa forma geral apresenta o mundo social das mercadorias como produto do trabalho humano (Marx, 2008, p. 82). Do mesmo modo, coloca a questão do equivalente geral pelo qual todas as mercadorias podem ser trocadas, isto é, o dinheiro (Marx, 2008, p. 85).

Zeleny retoma essa exposição de Marx, destacando que a análise começa com a relação de qualquer mercadoria com qualquer outra, como “forma simples, singular ou casual do valor”. Esse ponto de partida não tem um caráter lógico, mas “lógico-histórico”, isto é, trata-se do ponto de partida de uma conceituação destinada a estabelecer nexos e relações a partir de um ponto de vista teórico, realizando um procedimento de abstração e totalização que pressupõe uma realidade histórica, mas não constitui um relato histórico, e sim uma elaboração conceitual das relações existentes nessa realidade. Posteriormente, Marx assinala que ambas as mercadorias cumprem funções diferenciadas: uma como forma relativa e outra como forma equivalente do valor. São “polos contrapostos e inseparáveis da mesma expressão de valor” (Zeleny, 1978, p. 96), a partir dos quais se desenvolve a análise posterior de Marx até chegar ao dinheiro como equivalente geral.

Essa explicação pressupõe as definições anteriores, realizadas no início do capítulo I, sobre mercadoria, valor de uso, valor e magnitude do valor, não como definições de conceitos fixos (no sentido de Ricardo, comentado anteriormente), mas como conceitos que surgem da elaboração teórica da compreensão das características de uma realidade histórica na qual a troca de mercadorias é predominante (Zeleny, 1978, p. 110):

Somente se reconhecermos, de acordo com Marx, que a análise da mercadoria e da forma simples do valor é o núcleo da derivação lógico-dialética da forma monetária do valor, podemos compreender a estrutura lógica da exposição das transições das formas do valor por Marx. Pois a derivação, a relação necessária de consequências dessas transições, pressupõe, de fato, frequentemente de modo tácito, uma determinada noção da estrutura ontológica do fenômeno estudado, e precisamente a ideia que se expressa com a análise da forma do valor do ponto de vista de sua substância, de sua magnitude e de sua expressão necessária na forma simples do valor.

A esse tipo de exposição, Zeleny dá o nome de “lógico-dialética” (Zeleny, 1978, p. 112) e destaca que a gênese da forma monetária não se limita à exposição das formas do valor feita por Marx, mas que essa questão é objeto de todo o capítulo I. Ao mesmo tempo, a explicação das transições da forma simples do valor à forma monetária no capítulo I está estreitamente ligada à análise do processo de troca, própria do capítulo II, que nos fornece a derivação “histórica” do dinheiro. Ambos os tipos de análise, o lógico-dialético e o histórico, unidos, caracterizam o tipo de análise posto em prática por Marx (Zeleny, 1978, p. 113).

Zeleny conclui essa primeira explicação da “derivação dialética” assinalando que, para Marx, devem existir certas condições para a realização desse tipo de procedimento teórico: a primeira é o conhecimento empírico da matéria; a segunda, que a construção teórica esteja baseada em uma realidade histórico-factual que constitui seus pressupostos verificáveis (assinalando aqui que a forma dialética também tem seus limites, isto é, que não se pode pretender esgotar a conceituação de um processo apenas expondo dialeticamente suas conexões necessárias a partir de um ponto de vista teórico); e a última é o grau de maturidade alcançado, na realidade, pelo todo estudado.

Tendo assinalado uma série de questões básicas em torno da “derivação dialética”, passemos agora ao tratamento que Zeleny realiza de suas implicações mais amplas no que diz respeito à problemática lógica da obra de Marx.

Contradições da “superioridade” lógica da dialética e retorno à filosofia

Vimos que a derivação dialética, que Zeleny define como uma “nova forma lógica”, é um procedimento teórico que consiste em combinar a construção de explicações que expõem a estrutura e o desenvolvimento do objeto estudado, mostrando as interconexões que podem ser estabelecidas a partir de certas definições, mas sem buscar a validade de uma forma de argumento e sim, sobretudo, a concretização de uma combinação entre desenvolvimento lógico-dialético e histórico, própria da análise genético-estrutural e correspondente ao movimento do objeto real e de suas relações. Para essa tarefa, a referência ao desenvolvimento histórico também é ineludível, já que, para Marx, esse tipo de trabalho teórico não apenas pressupõe certa correlação entre a construção teórica e seus pressupostos materiais (as formas expostas na teoria devem existir de modo suficientemente desenvolvido na realidade), como também a necessidade da referência histórica, inclusive em nível empírico, como forma de impor limites a uma conceituação que pretenda trabalhar com a dialética como se esta fosse uma forma independente do conteúdo.

Ora, esse tipo de trabalho teórico não esgota os procedimentos lógicos que Marx emprega em O capital, e Zeleny assim o assinala ao abordar a questão das afinidades e diferenças entre o trabalho teórico de Marx, a matemática de sua época e a lógica de relações. Essa parte do livro é particularmente árida, razão pela qual tentaremos oferecer uma síntese compreensível, que irá necessariamente contra a citação detalhada.

Zeleny percorre as fórmulas matemáticas utilizadas por Marx no Livro III de O capital, destacando que elas estão mais ou menos em consonância com os procedimentos da disciplina na época e que — em termos da lógica simbólica do século XX — podem ser pensadas como parte da lógica de relações. No entanto, essa lógica de relações constitui um elemento subordinado ao procedimento de derivação dialética (Zeleny, 1978, p. 178). Com o objetivo de aprofundar a discussão sobre o lugar da lógica formal em O capital, Zeleny propõe considerar como parte A da obra de Marx aquela em que se utiliza a derivação dialética e como parte B aquela em que se empregam recursos da matemática e da lógica formal. Para ambas as partes, Zeleny sustenta (Zeleny, 1978, pp. 185–186):

Se compararmos a parte A e a parte B do ponto de vista do caráter da conexão entre os enunciados, podemos afirmar, em primeiro lugar, que em ambos os casos se trata: a) de uma derivação intuitiva (isto é, cujas regras não estão explicitadas), e b) de uma derivação de caráter entimemático.

Ou seja, trata-se de raciocínios intuitivos realizados por meio de silogismos abreviados.

Para o que nos interessa neste artigo, destacaremos o que Zeleny afirma a respeito de como caracterizar os entimemas da parte A, isto é, aqueles que correspondem à derivação dialética. Aqui, para Zeleny, predominam os entimemas caracterizados por regras de derivação que vão além da lógica formal (na terminologia que ele utiliza, “regras extra F-lógicas”). Daí decorre sua afirmação de que as regras próprias de uma lógica dialética ainda não se encontram formuladas (Zeleny, 1978, p. 187):

Sua formulação sistemática — na medida em que se pode falar de formulação sistemática quando se trata dessas regras — ainda não foi elaborada; a enumeração feita por Lênin dos elementos da dialética deve ser considerada, sem dúvida, como a formulação mais completa existente, uma vez transformados esses “elementos” em forma de regras.

Recordemos a enumeração de Lênin, bem como o fato de que seus Cadernos filosóficos constituem um rascunho e não uma obra escrita para publicação, para não tomá-los como algo mais sistemático do que realmente são (Lênin, 1977, pp. 209–210):

Talvez se pudessem apresentar esses elementos de maneira mais detalhada, como segue: 1) a objetividade da consideração (não exemplos, não divergências, mas a coisa em si). 2) a totalidade integral das múltiplas relações dessa coisa com as outras. 3) o desenvolvimento dessa coisa (respectivamente, do fenômeno), seu próprio movimento, sua própria vida. 4) as tendências (e os aspectos) internos contraditórios nessa coisa. 5) a coisa (fenômeno etc.) como soma e unidadedos contrários. 6) a luta, respectivamente o desdobramento desses contrários, tendências contraditórias etc. 7) a união da análise e da síntese — a ruptura das partes separadas e da totalidade, a soma dessas partes. 8) as relações de cada coisa (fenômeno etc.) não são apenas múltiplas, mas gerais, universais. Cada coisa (fenômeno, processo etc.) está vinculada a todas as demais. 9) não apenas a unidade dos contrários, mas a transição de CADA determinação, qualidade, traço, aspecto, propriedade, a cada uma das outras [a seu contrário?].10) o processo infinito de descoberta de novos aspectos, relações etc. 11) o processo infinito de aprofundamento do conhecimento humano da coisa, dos fenômenos, dos processos etc., do fenômeno à essência e da essência menos profunda à mais profunda. 12) da coexistência à causalidade e de uma forma de conexão e de interdependência a outra forma mais profunda, mais geral. 13) a repetição, em um estágio superior, de certos traços, propriedades etc. do nível inferior; 14) o aparente retorno ao antigo (negação da negação). 15) a luta do conteúdo com a forma, e vice-versa. A rejeição da forma, a transformação do conteúdo. 16) a transição da quantidade à qualidade e vice-versa. [1]. Em resumo, a dialética pode ser definida como a doutrina da unidade dos contrários. Isso encarna a essência da dialética, mas exige explicações e desenvolvimento.

Em síntese, estamos falando de critérios que excedem amplamente os de uma inferência lógica e remetem a questões teóricas e filosóficas muito mais amplas. Essa circunstância já havia sido assinalada por Zeleny no início de sua argumentação. Recordemos que, na introdução do livro, o autor coloca o problema de que, para pensar a “estrutura lógica” de O capital, não se pode restringir a lógica à lógica formal. Agora podemos ver a dificuldade de uma argumentação que parte desse pressuposto e, ao mesmo tempo, tenta investigar a mesma problemática a partir de um ponto de vista lógico estrito, como complementar ao mais amplo. Para resolver essa diferença de registros, Zeleny remete à originalidade do pensamento de Marx, assinalando que o “sistema dialético-materialista”, correspondente ao sistema capitalista como objeto específico, implica uma derivação sempre concreta e, portanto, “não será possível nenhuma formalização no sentido em que é possível para muitos objetos matemáticos e de outra natureza” (Zeleny, 1978, p. 189).

Aqui se coloca uma questão complexa, assinalada por Manuel Sacristán (Sacristán, 2009, pp. 169 e 181). A relação entre a dialética e a lógica formal não pode ser formulada como se aquela fosse uma versão “superior” desta última, isto é, no próprio terreno da análise formal, porque uma “lógica do material” é precisamente o oposto da lógica formal, que estuda a validade de uma forma de argumento e não seus conteúdos. Daí que, como não poderia deixar de ser, uma tentativa de analisar Marx a partir de um ponto de vista estritamente lógico-formal nos dê como resultado aquilo que Zeleny assinala acerca do uso de entimemas, o que, por outro lado, é algo característico dos discursos escritos expressos em linguagem natural e não por meio de uma linguagem formal.

No entanto, Zeleny considera inadequada a solução da “lógica do material”, contraposta à lógica formal, porque recairia em um dualismo. Em seu lugar, oferece novamente a ideia de uma nova concepção do lógico, que por sua vez remete a uma concepção ontopraxeológica da realidade (Zeleny, 1978, p. 192):

É evidente que não se pode estudar o problema da relação entre a derivação F-lógica e a derivação lógico-dialética na análise de Marx sem levar em conta a nova concepção deste sobre a estrutura ontológica da realidade. Sem levar isso em conta, é impossível atender às novas e específicas formas lógicas utilizadas no sistema científico de Marx, ou ao deslocamento e às transformações das formas lógicas tradicionais conhecidas no pensamento pré-marxista, transformações devidas ao fato de que passam a ser momento de um todo novo.

O problema dessa argumentação é que esse “todo novo” se constrói sobre a base da predominância de um tipo de raciocínio lógico cujas regras não estão elaboradas, de modo que a argumentação de Zeleny acaba sendo circular: a redução da derivação dialética às ferramentas da lógica formal implicaria um empobrecimento do procedimento teórico de Marx, mas tampouco ela pode ser exposta com o mesmo nível de clareza com que a lógica formal analisa as formas de argumento. Isso também tem um impacto direto na questão do “método de Marx”. Segundo Zeleny, Marx inaugura uma nova forma lógica e uma nova concepção de ciência, mas estas não são generalizáveis a outros objetos para além do capital (Zeleny, 1978, pp. 226/227). Um sistema científico e um método que buscam reconstruir de maneira precisa o movimento de seu objeto não podem ser utilizados para qualquer outro. Mas, ao mesmo tempo, esse sistema científico único em seu gênero implica uma reformulação dos modos de compreender a realidade e a atividade prática humana. Daí que a reflexão tenha de remontar, da problemática lógica e metodológica, à filosófica. A segunda parte do livro trata especialmente do desenvolvimento filosófico de Marx e de sua relação com Hegel, e as conclusões retornam à questão da concepção ontopraxeológica de Marx, apresentando sua teoria como uma superação das diversas tradições anteriores (Aristóteles, Kant, Hegel), sustentando que o estudo dessa nova racionalidade pode permitir “continuar avançando na explicação da problemática ontopraxeológica da segunda metade do século XX” (Zeleny, 1978, p. 402).

Algumas conclusões

Parece que nos metemos em um enredo complicado. Na verdade, quem nos colocou nisso — antes de Zeleny — foi Marx. Mas a questão é que, uma vez alcançado o limite da impossibilidade de competir com a lógica formal com suas próprias armas, a dialética tem de retornar à sua casa original: a filosofia. Isso não tem nada de estranho, já que o pensamento de Marx, para além de sua crítica à filosofia tradicional, continua sendo profundamente filosófico. Retomando, porém, as questões tratadas com mais detalhe nas linhas precedentes, podemos dizer, a título de conclusão, que o livro de Zeleny constitui uma tentativa muito bem elaborada de refletir sobre os procedimentos lógicos (em sentido amplo) utilizados por Marx, caracteriza de modo adequado o tipo de construção teórica realizada por Marx com o que ele denomina “derivação dialética” e “análise genético-estrutural” e se depara com certas dificuldades mais ou menos intransponíveis no momento de buscar demonstrar a superioridade da dialética no mesmo terreno da lógica formal. Isso tampouco surpreende: é o que costuma ocorrer quando se pretende sobrepor níveis de análise que não abrangem o mesmo tipo de problemas, ainda que se tomem emprestadas certas palavras de um para o outro. O ambicioso programa de investigação de Zeleny, ao chocar-se com as limitações da lógica formal, revela também as limitações das posições que pretendem apresentar a dialética como uma espécie de (super) lógica formal especial. A afirmação de que Marx inaugura um novo tipo de racionalidade, mas, ao mesmo tempo, a impossibilidade de generalizar o método de O capital para qualquer tipo de objeto, parece corroborar essas dificuldades intransponíveis, na medida em que se busca compreender a especificidade tanto da dialética quanto da prática científica de Marx, sem pretender, com isso, oferecê-las simplesmente como uma alternativa frente a qualquer tipo de disciplina ou prática científica em geral. Por fim, a indicação do substrato filosófico da concepção de Marx nos dá a medida de que, para além do que Marx ou Engels possam ter pensado em algum momento, o marxismo é inseparável da filosofia, ainda que essa possa ser uma ideia impopular, sobretudo para a filosofia acadêmica, que — salvo honrosas exceções — abomina ou ignora Marx.

Bibliografia

Lenin, Vladimir Ilich (1977), Obras Completas, Tomo XLII, Cuadernos filosóficos, Madrid, Akal.

Marx, Karl (2008), El capital, Tomo I/Vol. 1. Libro primero. El proceso de producción del capital, CDMX, Siglo XXI.

Sacristán Luzón, Manuel (1964), Introducción a la lógica y el análisis formal, Barcelona, Ariel.

Sacristán Luzón, Manuel (2009), Sobre dialéctica, Barcelona, Viejo Topo.

Zeleny, Jindrich (1978), La estructura lógica de El capital de Marx, CDMX, Grijalbo.