Arte de capa feita por Gabriel Brisi a partir da arte de Afonso Martins para a capa da edição de 2003 de "Falo".
Um dos principais objetivos deste trabalho é resgatar a vida e a obra de Paulo Augusto, um poeta potiguar pioneiro da luta e da arte homossexual brasileira nos anos 70 ao qual não foi resguardado um espaço devido na nossa história da literatura bem como no que temos até hoje de pesquisas da história dos LGBTs no Brasil. A modo de exemplo, em importantes trabalhos sobre a literatura potiguar como “Literatura RN: livros selecionados”, de Anchieta Fernandes, e “Poesia submersa: poetas e poemas no Rio Grande do Norte 1900-1990”, de Alexandre Bezerra Alves, Paulo não é citado; no grande “Informação da Literatura Potiguar”, de Tarcísio Gurgel, ele é citado apenas uma vez, em referência ao seu trabalho de cronista já nos anos 90.
No âmbito dos estudos sobre a história da homossexualidade no Brasil, Paulo é apenas brevemente referido (com o nome errado) no artigo “Um lampião iluminando esquinas escuras da ditadura”, de Jorge Câe Rodrigues, em meio à enumeração dos poetas que compuseram a primeira edição do jornal gay Lampião da Esquina, sendo também brevemente citado em “Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade”, de João Silvério Trevisan, como exemplo dos “versos categóricos” sobre a erótica homossexual que poderiam ser vistos nos anos 70 (Trevisan, 2018, p.257). Mesmo dentro da esfera da pesquisa acadêmica, existem pouquíssimos trabalhos dedicados à sua obra. Partindo disto, vejo importância em retomar brevemente (mesmo que deixando de fora vários aspectos) um curto panorama da vida do autor que vamos analisar aqui.
Paulo Augusto da Silva nasceu em Pau dos Ferros, no Alto Oeste do RN, em 3 de agosto de 1950. Sua família se mudou para Natal aos seus 3 anos de idade, sendo Paulo o último entre seus 17 irmãos a ter nascido em Pau dos Ferros. Na adolescência, ele se encantou com a Jovem Guarda e se inspirou a ser compositor e cantor. Em 1969, aos 19 anos, se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em jornalismo pela UFF em 1976 e trabalhou nos jornais O Fluminense (RJ) e Última Hora (RJ). No mesmo ano, Paulo lançou “Falo”, seu único livro de poemas.
No ano seguinte, teve textos seus publicados no livro Antologia de Contos Marginais Queda de Braço, organizado por Glauco Mattoso e, desde o Rio de Janeiro, faz o chamado da primeira tentativa de um dia do orgulho, o “Dia do Homossexual”, em 4 de Julho no Passeio Público.[N1] Em 1978, foi um dos fundadores do jornal gay Lampião da Esquina bem como do Somos: Grupo de Afirmação Homossexual, primeiro grupo organizado de homossexuais brasileiros. De volta ao RN a partir de 1982, trabalhou em jornais da grande mídia potiguar como Diário de Natal e Tribuna do Norte, tendo também nomeado o primeiro grupo gay de Natal: o Grupo Oxente de Libertação Homossexual em 1991.
E por que, para além de sua vida, é importante estudar a obra de Paulo Augusto? A obra de Paulo aparece como um marco no que podemos debater como uma história da literatura LGBT brasileira.[N2] Do poema apaixonado por um menino que o frei Junqueira Freire escreveu em letras miúdas no canto de um caderno em pleno século XIX, passando por nomes como Álvares de Azevedo, Auta de Souza, Mário de Andrade, Mário Faustino e Edy Star[N3] , a história da literatura e da arte LGBT brasileira vive um novo momento a partir dos anos 60 com o aceleramento do processo de urbanização e o surgimento do movimento homossexual ao redor do mundo após a revolta de Stonewall. Mas por que esse contexto é tão determinante? Mikhail Bakhtin, um importante marxista teórico da literatura argumentou em um dos seus últimos textos que
A literatura é parte inseparável da cultura, não pode ser entendida por fora do contexto pleno de toda a cultura de uma época. É inaceitável separá-la do restante da cultura e, como se faz constantemente, ligá-la imediatamente a fatores socioeconômicos, passando, por assim dizer, por cima da cultura. Esses fatores agem sobre a cultura no seu todo e só através dela e junto com ela influenciam a literatura. (Bakhtin, 2017, p.11)
É uma concepção fenomenal que se por um lado é superadora de concepções que apartam a obra de arte das condições materiais e históricas que possibilitaram a sua existência, como o fazem os formalistas e estruturalistas, também é um combate ao mecanicismo e economicismo da tradição estalinista, responsável esta pela censura, prisão e morte de gerações de artistas tanto na URSS quanto em outros lugares do mundo. Nesse aspecto inclusive Bakhtin se aproxima muito da concepção de outros revolucionários e teóricos marxistas como Leon Trótski.[N4]
Trazendo essa concepção de Bakhtin para o debate sobre a poesia do Paulo, certamente podemos dizer que “Falo” é um livro inseparável das condições materiais de crise econômica internacional, de fatores políticos como a ditadura empresarial-militar brasileira e sua repressão sexual, de todo um ciclo internacional da luta de classes que nessa mesma época correu o mundo com grandes ascensos operários na América Latina, revoluções na Europa e em África e, como parte disso, o surgimento de um forte movimento homossexual anticapitalista com exemplos no surgimento da Gay Liberation Front e do Gay Left, nos Estados Unidos e Inglaterra respectivamente, da Frente de Libertação Homossexual na Argentina e da Frente Homossexual de Ação Revolucionária na França — todos estes movimentos que em distintos níveis reconheciam que a luta contra a repressão sexual era inseparável da luta contra o sistema capitalista.
Mas justamente, se vamos pensar na esfera da literatura, é preciso perceber que toda a cultura de uma época foi moldada por esses acontecimentos e no âmbito da cultura, um fator é determinante pra a existência de “Falo” que é a consolidação de uma identidade homossexual no Brasil. Este é um longo debate que não cabe no escopo dessa apresentação, mas nos anos 60 pra 70, já podemos debater a ideia de uma identidade e cultura homossexual relativamente consolidada no Brasil. Mas junto com isso, outro fator importante da situação brasileira é que o golpe militar de 1964, suprimindo os direitos de organização política e cultural, atrasou a organização política dos LGBTs brasileiros, contribuindo também para distanciar a influência do caráter anticapitalista mais radical da primeira onda de libertação sexual que surgiu com Stonewall
Isso tudo quer dizer que quando Paulo lança “Falo” em 1976, seu livro é produto de um momento em que já podemos falar de uma identidade homossexual mas não ainda de uma organização política consolidada dos homossexuais brasileiros, que começava seus primeiros ensaios. É nesse interregno entre uma coisa e outra que começam a aparecer diversas expressões subversivas dessa identidade e cultura homossexual na arte brasileira: da expressão corporal e musical de Ney Matogrosso e Edy Star ao Teatro das Dzi Croquettes, resgatando elementos do Teatro de Revistas e se apoiando no terremoto gerado pela Tropicália na cultura brasileira. Na poesia, Glauco Mattoso, um nome importante da poesia marginal brasileira, vai nos dizer que
O único paralelo nacional [a Paulo Augusto] seria, talvez, Roberto Piva. Meus próprios versos escancaradamente homoeróticos ainda estavam por sair. Paulo Augusto foi, portanto, precursor de toda uma safra de poetas setentistas e oitentistas cujo lirismo já não ousava esconder seu nome. (Mattoso, 2002)
E como a ditadura reagia a isso? Primeiramente, sobre a relação com a arte, o Roberto Schwarz, um crítico literário e teórico fenomenal, em um ensaio chamado “Cultura e Política, 1964-1969” mostra como nos primeiros anos da ditadura militar, “apesar da ditadura da direita, ha[via] relativa hegemonia cultural da esquerda no país”, uma contradição que ele coloca como “o traço mais visível do panorama cultural brasileiro entre 1964 e 1969” (Schwarz, 2008, p.71). Em linhas gerais, Schwarz argumenta que para a ditadura durante seus primeiros anos, estando cortadas as pontes entre os movimentos culturais e as massas, seria possível manter a circulação teórica e literária esquerdista ocorrendo, desde que restrita para evitar que influenciasse os movimentos operários e camponeses. Isso durou com altos e baixos até 1968, onde esse caldo cultural fermentou fortes mobilizações do movimento operário e um movimento estudantil radicalizado que, como parte da onda mundial de mobilizações em torno do maio de 1968 francês, ameaçou a estabilidade do regime.
A resposta é o Ato Institucional N°5, com um aprofundamento brutal da perseguição, prisão e tortura de diversos trabalhadores, camponeses, mas agora também de intelectuais, artistas e estudantes das classes médias, usando também da censura direta às formas de expressão artística e cultural pra conter a revolta. Isso tem grande impacto na arte brasileira da virada da década e no surgimento de expressões artísticas como a poesia marginal dos anos 70.
Quanto à reação à identidade homossexual, Benjamin Cowan, num excelente artigo intitulado “Homossexualidade, ideologia e ‘subversão’ no regime militar”, mostra como para além do ato sexual em si, a repressão da ditadura militar mirava a identidade homossexual no receio de que “promovesse os interesses dos comunistas” (Cowan, 2022, p.42) e, acrescento, no receio da força potencial que essa teria se se fundisse ao movimento operário. E diversas foram as formas de ataque aos homossexuais e travestis. Entre os mais diversos recursos utilizados pelo Estado capitalista brasileiro contra os homossexuais, há por exemplo o que Rafael Freitas Ocanha relata no seu artigo “As rondas policiais de combate à homossexualidade na cidade de São Paulo (1976-1982)”: a “Lei de vadiagem” foi largamente utilizada para prender arbitrariamente os homossexuais e travestis. Apenas no semestre seguinte ao que o Paulo escreveu o livro, houveram no mínimo 460 travestis detidas (Ocanha, 2022, p.157). É sabido também que mesmo após o fim da ditadura, seguiram operações contra homossexuais e travestis, como no caso da Operação Tarântula conduzida em 1987 pelo delegado Guido Fonseca onde travestis foram perseguidas e atiradas no rio Tietê, quando não assassinadas.[1]
Mas como isso tudo se expressa então na poesia do Paulo? Quero aqui analisar um de seus poemas mais famosos:
SYSTEM-ATTICA
Porque sou fresco,
hábil, lépido,
a gerontocracia sente medo,
se arrepia
como um rato.
Cospe leis, editos, atos.
Se agasalha, modorrenta, rouca,
recua
na cadeira de balanço
botando graxa
na dobradiça das pernas.
A tosse, a vista cansada,
a velha despótica me espreita.
Quando exibo meu porte,
meu corte,
me chama de trans
viado
me cobra pedágio - a doida
quer me ver casado,
parindo mão-de-obra
para eternizá-la.
Para destruí-la, esterilizo-me.
Minha práxis.
Por puro capricho
me amedronta, me persegue, me degrada.
Nego, renego, faço ouvido mouco.
Se me encontra pela rua
madrugada
quer violentar-me,
ver meus documentos,
me revista e se delicia
apalpando minhas partes,
pensa em coito.
Nego, renego, abomino.
E ficamos eternamente
nessa cachorrada.
Quer me tributar,
me chupar – foder-me
porque sabe que é maravilhoso
ser fresco
como um dia de domingo
ensolarado e pendurado
no varal.
Há várias coisas a serem desdobradas aqui. Primeiramente, podemos ver duas personagens claras no poema: um eu-lírico descrito como “fresco, hábil e lépido” (lépido significa jovial, alegre) e uma “velha despótica” que sente medo, modorra (apatia, extremo sono/falta de energia), tem tosse, a vista cansada, mas espreita o eu-lírico enquanto “cospe leis, editos, atos”. Aqui, já se expressa um conflito central: o eu-lírico em conflito com a “velha despótica” onde — e isso aparece em muitos poemas do Paulo — existe um certo transcrescimento do individual para o coletivo, com a “velha despótica” sendo figura representativa da “gerontocracia” (uma ditadura dos velhos) ou, mais diretamente, da ditadura militar brasileira, e o eu-lírico uma figura representativa desse homossexual à aurora do desenvolvimento da sua identidade.
É interessantíssimo pra entender a visão do Paulo atentar aos descritivos que ele usa nesse conflito: o homossexual jovial, alegre, hábil, aparece como moderno, libertário, uma certa expressão de futuro. A ditadura é descrita como uma idosa doente, extremamente cansada, em uma construção imagética que aponta seu fim próximo, o seu atraso histórico, que a aponta como expressão de algo que está para ser superado e está fadado a morrer. É esse sistema caduco que Paulo vê cuspir “leis, editos, atos”, se utilizando do aparato judicial que é um braço do Estado capitalista para reprimir a classe trabalhadora e os homossexuais — caducas então também são as suas leis. Dessa mesma expressão de jovialidade e questionamento ao atraso pode vir o corte no título onde a palavra “sistemática” é dividida em “System-Attica”, com a primeira metade escrita na forma inglesa (o que pode ser uma alfinetada ao discurso artisticamente conservador de setores da esquerda brasileira à época, principalmente o stalinismo, contra “influências do imperialismo”) e a segunda podendo se referir à antiga região da Ática, na Grécia, de certa forma apresentando desde o título o choque jovial/antigo.
O poema segue com a exibição de um “porte”, a marca da presença corporal e da expressão da identidade de gênero. É muito acertada aqui a interpretação que Azevedo, Cadó e Melo Júnior fazem no artigo “O gozo e o jugo em Falo (1976), de Paulo Augusto” de que a fala do eu lírico não se contenta com o plano discursivo e alia à quebra de padrões de comportamento uma fissura linguística, imprimindo ao comportamento disruptivo do sujeito poético uma potencialidade que chega a romper com a linearidade do verso (Andrade; Cadó; Melo Júnior, 2025, p. 120). Isso fica explícito no como o Paulo retrata a estigmatização com a qual o regime responde: chama de “trans/viado”. A quebra da palavra é ao mesmo tempo um questionamento ao estigma e também a construção de uma polissemia.
Por um lado, é a conjulgação das palavras “trans” e “viado”, explicitando no poema ao mesmo tempo identidades reprimidas pelo capitalismo e os termos originalmente utilizados de forma pejorativa, mas ressignificados pelos LGBT (o que pro Paulo tem um significado especial, sendo uma espécie de arauto de uma “poesia-bicha”). Por outro lado, a conjunção dos termos resulta no termo “transviado”, que traz a ideia de rebeldia, remetendo ao famoso filme “Juventude Transviada”, estrelado por James Dean, mas também à música “Juventude Transviada” de Luiz Melodia, lançada poucos meses antes de “Falo”.
No trecho seguinte, o eu-lírico aponta que ao estigma da opressão se vincula também o fator material da exploração capitalista: o mesmo sistema que estigmatiza também cobra um “pedágio”, o trabalho, e “quer me ver casado/ parindo mão de obra/ para eternizá-la”. Aqui para entendermos mais a fundo cabe uma reflexão central da geração do Paulo sobre qual a função da repressão sexual para o capitalismo. O militante Nestor Perlongher, um principais membros da Frente de Libertação Homossexual argentina analisou isso em um texto chamado “Sexo e Revolução”, de 1973, onde diz
A dominação da libido (da sexualidade) culmina com sua redução a determinadas partes do corpo, os genitais. Na realidade, todoo corpo é capaz de contribuir ao gozo sexual, mas a sociedade de dominação necessita da maior quantidade possível de partes do corpo para atribuí-las ao trabalho. A genitalização está destinada a retirar do corpo a sua função de produtor de prazer para convertê-lo em instrumento de produção alienada, deixando para a sexualidade apenas o indispensável para a reprodução. É por isso que o sistema condena com especial severidade todas as formas de atividade sexual que não sejam a introdução do pênis na vagina, chamando-as de perversões, desvios patológicos, etc. Para acorrentar o ser humano ao trabalho alienado é necessário mutilá-lo, reduzindo sua sexualidade aos genitais. (Perlongher, 1973, p.6)
A repressão da sexualidade é aqui entendida como uma ferramenta do capitalismo para garantir a reprodução das forças produtivas, o que tem tanto esse impacto direto, quanto um impacto subjetivo de minar o questionamento à estrutura social. O eu-lírico do poema aqui, para destruir o sistema, se esteriliza, o que ele coloca como “minha práxis”. No diálogo desse poema com o restante do livro, mas também internamente ao poema pelo que vimos até agora, a gente consegue ver que a esterilização aqui não é uma pregação de puritanismo e ascetismo, mas a reivindicação de formas de expressão sexual que não são voltadas apenas para a reprodução e que se chocam contra a repressão sexual capitalista. De forma direta, o eu-lírico conecta a própria identidade homossexual ao enfrentamento à sustenção do sistema capitalista.
A isto segue a repressão (“me amedronta, me persegue, me degrada.”) e a negativa (“Nego, renego, faço ouvido mouco.”) que desperta uma reação maior da ditadura: enquanto esta aparecia primeiramente metaforizada como “velha despótica”, agora aparece materializada na polícia como braço armado do Estado capitalista em “Se me encontra pela rua/ madrugada/ quer violentar-me,/ ver meus documentos,/ me revista e se delicia/ apalpando minhas partes,/ pensa em coito.”. O eu-lírico aponta nesse mesmo trecho uma subjetividade personalizada do sistema capitalista que anseia pela genitalização e pelo controle dos genitais — como já vimos — para o controle da reprodução das forças produtivas, “pensando em coito”. Deste trecho vale também destacar o isolamento da palavra “madrugada”, construindo imageticamente o cenário de assédio pelas forças repressoras do Estado, às escuras, na surdina indicada pelo silêncio seguinte à palavra isolada no verso. No trecho final da estrofe, o eu-lírico responde de forma mais contundente à repressão, diz “Nego, renego, abomino.” — o que antes era “fazer ouvido mouco” agora vira “abominar”, em um processo que escala “nessa cachorrada”.
Na última estrofe do poema, o eu-lírico retoma a subjetividade do sistema que “Quer me tributar/ me chupar — foder-me”, imputando um caráter sexual (em que vejo um tom de chiste) ao desejo de controle da ditadura sobre a sexualidade dos homossexuais e encerra expondo o medo do sistema capitalista: ele reprime a sexualidade “porque sabe que é maravilhoso/ ser fresco/ como um dia de domingo/ ensolarado e pendurado/ no varal.”. Fresco aqui é mais uma polissemia importante: se refere tanto ao sentido de frescor, novidade, jovialidade, bem-estar, quanto ao termo pejorativo contra os homossexuais — particularmente utilizado no nordeste — e, novamente, ressignificado. A imagem de domingo fecha o poema de forma significativa, tanto fortalecendo a imagem de “frescor” com as roupas penduradas no varal de um dia tranquilo e ensolarado, em contraste com a madrugada escura da violência repressiva, quanto se referindo especificamente a um dos dias da semana (em tempos de reforma trabalhista e escala 6x1, majoritariamente o único) em que se quebra com a rotina desgastante do trabalho alienado (Andrade; Cadó; Melo Júnior, 2025, p. 121).
Esse forte poema do Paulo ficou gravado em livro como uma lição a ser guardada para gerações futuras de LGBTs. Primeiramente, é preciso esclarecer que o que à época se debatia como identidade homossexual agremiava uma série de expressões de gênero e sexualidade hoje consolidadas como identidades distintas, o próprio caso da Marsha P. Johson se reivindicar à época como gay é um exemplo disso. Esse primeiro fator é importante para se ter em mente que o enfrentamento artístico de poemas como “System-Attica” à repressão sexual da ditadura empresarial-militar brasileira não é em nome apenas dos gays, mas de uma libertação sexual plena.
O “lirismo que não teme dizer seu nome” nasceu no Brasil confrontando a repressão sexual e apontando seu entrelaçamento à exploração capitalista. Isso é algo importantíssimo de ser retomado, pois a geração do Paulo e de tantos outros lutadores dos anos 70 sofreu uma dura derrota com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Um dos impactos da queda da URSS na luta das LGBTs foi o sumiço do fim do capitalismo como horizonte possível. O novo horizonte resultante é a categorização e visibilização de cada nova identidade e expressão de sexualidade, o que evidentemente é também uma conquista contra um sistema que quer apagar nossas identidades, mas limitada ao terreno do capitalismo que nos oprime e explora.
É preciso ir muito além para impor de fato uma nova sociedade onde a sexualidade se liberte. Como muito bem formulou Virgínia Guitzel no seu artigo “Crime e Castigo: o Estado capitalista na vida das pessoas LGBTQIAPN+”, cabe à diversidade sexual “o papel de vanguarda revolucionária para forjar uma organização da classe trabalhadora profundamente internacionalista, com um programa anticapitalista, para colocar abaixo os Estados Capitalistas ao redor do mundo, para abrir caminho a uma sociedade capaz de permitir uma vida verdadeiramente plena, onde nossa sexualidade encontre harmonia com um prazer inesgotável de redefinir a ideia de humanidade, sem classes sociais, sem opressão e sem exploração.” (Guitzel, 2025).
É preciso levantar nossas identidades como bandeiras de luta contra o capitalismo e que por isso mesmo precisam flamular ao lado de cada luta operária. Essa é uma das lições que a poesia de Paulo Augusto guarda para nós.