Uma comparação entre os artistas russo e brasileiro desvela a crítica mordaz aos valores ideológicos de uma classe herdeira de senhores de servos e de escravos.
Período histórico, circunstâncias políticas e dilemas pessoais sempre são um terreno de diferenciação das grandes personalidades, mas também são fatores que permitem aproximações, especialmente nesse caso, porque Machado de Assis, que viveu entre 1839 e 1908, admirava extraordinariamente Nikolai Gogol, que viveu uma geração antes, entre 1809 e 1852. Ambos os dois compartilharam a “Era das Revoluções”, segundo a denominação de Eric Hobsbawm. Sofreram ambos a influência da Revolução Francesa de 1789. Em estágios diferentes da vida, viram ambos os efeitos da Primavera dos Povos na Europa. Também se tornaram mestres da ironia, admiradores dos humoristas ingleses do século XVIII (Jonathan Swift, Laurence Sterne), e dominavam o realismo, incluindo o realismo fantástico que vemos em O Capote, ou O Alienista.
Foram críticos da sociedade do seu tempo: no caso de Gogol, apesar das suas inclinações políticas conservadoras, sua obra artística atacava as raízes do sistema da servidão; Machado era crítico consciente do regime da escravidão. E, como não podia deixar de ser, os dois ironizam em suas obras as camadas dominantes que se aproveitavam desses regimes, incluindo a nascente burguesia comercial.
Essas aproximações, que significaram a influência de Gogol na escrita de Machado, a partir das peripécias memorializadas de do Memórias Póstumas de Brás Cubas, já são suficientes pra estabelecer uma relação altamente frutífera entre esses gênios literários. Talvez uma aproximação frutífera para esse propósito seja explorar a relação de dois trabalhos, Almas Mortas, obra-prima de Gogol publicada em 1842, e o conto “Teoria do Medalhão”, publicado por Machado de Assis em 1881. Meu interesse é traçar a influência da ironia realista do Almas Mortas nesse conto de Machado, naquilo em que eles têm em comum: a construção do personagem a partir de conselhos inescrupulosos de pai para o filho visando a alcançar prestígio em uma sociedade de aparências. A partir do estabelecimento dessa relação, vamos ver a crítica social ao protótipo da figura burguesa, gananciosa e despojada de filosofia e ideias próprias, que ganhava contornos mais claros na Europa do século XIX, e que tinha seus espelhamentos na Rússia e no Brasil.
O russo que cativou Machado
Em primeiro lugar, é preciso estabelecer a origem da influência recebida por Machado de Assis da obra de Gogol - aliás, um dos escritores russos de destaque na biblioteca de Karl Marx.
Existem evidências fornecidas pelo próprio Machado de Assis de que apreciava Gogol. Ao que nos consta, o Bruxo do Cosme Velho pôde ler não apenas Almas Mortas, mas diversos contos do criador do realismo fantástico russo - a título de exemplo, o “Diário de um Louco”, que segundo a interpretação de Eugênio Gomes, deixou marcas notáveis no romance Quincas Borba (publicado em 1892). Gomes, em seu livro “Machado de Assis”, diz o seguinte sobre essa conexão: “Exatamente como ocorre no Diário de um Louco, no romance brasileiro à ideia fixa de caráter amoroso junta-se pouco depois a da megalomania imperial, com Rubião transfigurado em Luís Napoleão, imperador da França, sendo interessante salientar a circunstância de que a mulher, por quem ambos suspiraram tão estranhamente, tem o mesmo nome: Sofia. Coincidência?”. Segundo Jean-Michel Massa, um biógrafo da juventude de Machado de Assis, nosso gênio literário tinha na sua biblioteca particular uma antologia de contos de Gogol publicada em alemão, que poderia ser tida como uma das fontes de acesso às obras do russo. Ainda que o alemão não tenha sido o idioma de encontro, a professora Ana Cláudia Suriani da Silva aponta a edição francesa dos contos gogolianos, pela Hachette, em julho de 1845, (que incluía Vyi, Taras Bulba, o Diário de um Louco, etc.), enquanto Almas Mortas havia tido uma edição importante, em francês, no ano de 1859.
Essas informações são importantes porque sabemos que Machado lia fluentemente o idioma francês, assim como era leitor assíduo da Revue de Deux-Mondes, em que muito autores de renome, como Sainte-Beuve e Prosper Merimée, faziam resenhas sobre os escritos do gênio russo e o ligavam com os humoristas ingleses do século XVIII, como Sterne e Swift, que Machado adorava.
Outro tópico humorístico de interesse que liga Machado a Gogol são as inúmeras ironias nosológicas, ou seja, sobre o nariz, que se encontram nas duas obras. É muito provável que Machado tenha na melhor conta a sátira social “O Nariz”, que Gogol havia publicado originalmente em 1836 na Rússia, e que pela década de 1840 deve ter encontrado sua versão em francês.
Nesse conto, o major Kovaliov se vê certa manhã despojado do nariz sem qualquer explicação racional. Imediatamente se inicia um grotesco processo de perda de identidade: o protagonista já não consegue se relacionar socialmente e despenca na catatonia quando encontra o seu próprio nariz caminhando por São Petersburgo… em um uniforme oficial de carreira, em um grau de hierarquia acima do seu, dentro da velha estrutura verticalizada da Rússia tsarista! O major tenta conversar com seu próprio nariz, com um tom respeitoso e muito modesto, porque está se dirigindo a um superior. O nariz sequer dá importância para um funcionário inferior na hierarquia, é grosso com Kovaliov e simplesmente se retira porque tem assuntos de Estado mais importantes a tratar.
Trata-se de uma sátira gogoliana a toda a autocomplacência, arrogância e pedantismo do sistema do funcionalismo público medieval russo, algo que povoa sua obra, e não menos em Almas Mortas. Machado tem muitos trabalhos dedicados ao nariz, por exemplo no capítulo “A ponta do nariz”, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, ou no conto “O segredo do Bonzo”, que relata uma doença de inchaço dos narizes na cidade de Fuchéu, em que os moradores afetados pela doença sofrem menos por ela que pela perspectiva de perderem seus narizes por meio de extração cirúrgica, único método encontrado até então para frear o malefício. Nada mais aborrecido que perder o nariz! Preferiam “o excesso à lacuna”, brinca Machado. A solução foi encontrada pelo impostor Diogo Meireles, que oferecia a “substituição do nariz inchado por um nariz novo, puramente metafísico”, inacessível aos sentidos humanos mas tão verdadeiro quanto, e assim ia trocando os narizes reais por delicados narizes invisíveis. Os enfermos desnarigados olhavam uns aos outros, e apesar de não verem nada no lugar, tinham certeza de que ali estava o órgão substituto, e até se serviam de lenços de assoar.
A sátira machadiana está dirigida ao positivismo cientificista da época, e à influência que falsas informações disseminadas como reais tomavam a atenção do público. É provável que Machado tenha tirado sua inspiração, nesse tema, de autores como Sterne, que no seu Tristram Shandy dedica longas páginas humorísticas às analogias do nariz com a virilidade masculina. Mas a maneira como Machado aborda o tema tem maior semelhança com Gogol, especialmente no poder da ridicularização dos maneirismos sociais e das instituições estabelecidas.
À moda de Tchitchikov
De particular interesse é o atestado feito pelo próprio Machado de que Almas Mortas faria parte da sua ideação literária da maturidade. E numa situação política absolutamente singular!
Duas semanas depois da abolição da escravatura no Brasil, a 26 de maio de 1888, Machado publica a crônica “À moda de Tchitchikov”, nada menos que o nome do herói da obra-prima de Gogol, para fazer uma crítica ácida tanto à escravidão (assim como Gogol havia feito à servidão russa), quanto à lógica mercantil com que a classe dominante carioca buscava tirar proveito financeiro dos escravos libertos.
Bons dias!
Eu, se tivesse crédito na praça, pedia emprestados a casamento uns vinte contos de réis, e ia comprar libertos. Comprar libertos não é expressão clara; por isso continuo.
Conhece o leitor um livro do célebre Gógol, romancista russo, intitulado Almas Mortas? Suponhamos que não conhece, que é para eu poder expor a semente da minha ideia. Lá vai em duas palavras.
Chamam-se almas os campônios que lavram as terras de um proprietário, e pelos quais, conforme o número, paga este uma taxa ao Estado. No intervalo do lançamento do imposto, morrem alguns campônios e nascem outros. Quando há déficit, como o proprietário tem de pagar o número registrado, primeiro que se faça outro recenseamento, chamam-se almas mortas os campônios que faltam.
Tchitchikov, um espertalhão da minha marca, ou talvez maior, lembra-se de comprar as almas mortas de vários proprietários. Bom negócio para os proprietários, que vendiam defuntos ou simples nomes, por dez-réis de mel coado. Tchitchikov, logo que arranjou umas mil almas mortas, registrou-as como vivas; pegou dos títulos do registro, e foi ter a um Monte de Socorro, que, à vista dos papéis legais, adiantou ao suposto proprietário uns 200.000 rublos; Tchitchikov meteu-os na mala e fugiu para onde a polícia russa o não pudesse alcançar.
Creio que entenderam; vejam agora o meu plano, que é tão fino como esse, e muito mais honesto. Sabem que a honestidade é como a chita; há de todo o preço, desde meia pataca.
Suponha o leitor que possuía duzentos escravos no dia 12 de maio, e que os perdeu com a Lei de 13 de Maio. Chegava eu ao seu estabelecimento, e perguntava-lhe:
— Os seus libertos ficaram todos?
— Metade só; ficaram cem. Os outros cem dispersaram-se; consta-me que andam por Santo Antônio de Pádua.
— Quer o senhor vender-mos?
Espanto do leitor; eu, explicando:
— Vender-mos todos, tanto os que ficaram, como os que fugiram. O leitor assombrado:
— Mas, senhor, que interesse pode ter o senhor…
— Não lhe importe isso. Vende-mos?
— Libertos não se vendem.
— É verdade, mas a escritura de venda terá a data de 29 de abril; nesse caso, não foi o senhor que perdeu os escravos, fui eu. Os preços marcados na escritura serão os da tabela da lei de 1885; mas eu realmente não dou mais de dez mil-réis por cada um.
Calcula o leitor:
— Duzentas cabeças a dez mil-réis são dois contos. Dois contos por sujeitos que não valem nada, porque já estão livres, é um bom negócio. Depois refletindo:
— Mas, perdão, o senhor leva-os consigo?
— Não, senhor: ficam trabalhando para o senhor; eu só levo escritura.
— Que salário pede por eles?
— Nenhum, pela minha parte, ficam trabalhando de graça. O senhor pagar-lhes-á o que já paga. Naturalmente, o leitor, à força de não entender, aceitava o negócio. Eu ia a outro, depois a outro, depois a outro, até arranjar quinhentos libertos, que é até onde podiam ir os cinco contos emprestados; recolhia-me à casa, e ficava esperando.
Esperando o quê? Esperando a indenização, com todos os diabos! Quinhentos libertos, a trezentos mil-réis, termo médio, eram cento e cinquenta contos; lucro certo: cento e quarenta e cinco.
Com uma sutileza ácida, Machado termina a crônica dizendo “Eu até desconfio que há já quem faça isto mesmo, com a diferença de ficar com os libertos. Sabem que no tempo da escravidão, os escravos eram anunciados com muitos qualificativos honrosos, perfeito cozinheiros, ótimos copeiros, etc. Era, com outra fazenda, o mesmo que fazem os vendedores, em geral: superiores morins, lindas chitas, soberbos tecidos de cânhamo. Se os tecidos, as chitas e os escravos se anunciassem, não poderiam fazer essa justiça a si mesmos.”
Com efeito, muitos proprietários de terras, especialmente em áreas rurais isoladas, simplesmente mantiveram os cativos. Embora a lei tenha decretado aquilo que seria o “fim oficial” da escravidão, a falta de fiscalização, a distância dos centros urbanos e a resistência dos fazendeiros fizeram com que a libertação não fosse imediata ou automática em todas as regiões. Veremos como Machado de Assis faz uso desse exemplo do herói gogoliano.
O painel grotesco da educação imoral: Almas Mortas
Em Almas Mortas, Gogol retrata uma galeria de personagens psicologicamente detalhados, que compõem um quadro extremamente perspicaz de um país que ainda buscava sua identidade e os caminhos para se modernizar.
Publicado em 1842, o romance, que é chamado de “Poema” pelo autor, é uma espécie de Divina Comédia da modernidade, um retrato satírico e ao mesmo tempo afetuoso da Rússia, com a história de um especulador de São Petersburgo, um espertalhão como disse Machado, chamado Tchitchikov, que chega a uma cidade de província e procura conquistar, com suas boas maneiras, a simpatia da sociedade dos senhores de terra locais. Tudo em função de um único objetivo: comprar “almas mortas”, ou seja, servos camponeses já falecidos, mas que não haviam sido declarados como tais no censo anterior. O objetivo era pagar barato por almas que não existiam mais, e depois de acumular muitos servos - que diria ao Estado estarem vivos - receber o dinheiro que o governo tsarista concedia aos proprietários de terras que queriam explorar a agricultura.
O poema vai muito além da narrativa engraçada e das peripécias de Tchitchikov pra conseguir isso. Na sua peregrinação pelo vasto interior russo, o protagonista encontra muitos personagens singulares, que terminaram sendo reverenciados como símbolos literários queridos pelos russos, e com nomes que segundo o crítico Boris Schnaiderman até já passaram para a linguagem comum. Pliúchkin, que é a personificação da avareza, é dos mais conhecidos da literatura russa, por sua incrível avareza; Manílov, outro personagem do poema, simboliza a mediocridade sentimental e ingênua; o hilário Nozdriov, personificação da trapaça e do cinismo, do mentiroso contumaz, mas que critica abertamente, “sem papas na língua”, as falhas reais existentes em todos aqueles que o cercam. O próprio Tchitchikov, que é tratado muito amavelmente por Gogol, talvez da mesma maneira como Homero trata o seu Odisseu, imediatamente cativa o leitor pela imaginação, a irreverência, e a criatividade com que embaça os proprietários de terra, afetando a maior seriedade.
Tchitchikov é um personagem que vai além do pícaro das novelas burlescas, porque se detém em profundas observações sobre a vastidão e o significado da vida humana, intrigado filosoficamente pela atração misteriosa que a Rússia exerce sobre ele. A obra ultrapassa de fato as intenções conscientes e declaradas do Gogol, que foi educado no respeito à tradição, ao poder monárquico e à “Santa Rússia”: o poema Almas Mortas foi considerado uma duríssima crítica à servidão. É uma comédia que também inspira angústia. O próprio Aleksandr Púchkin, maior poeta russo de todos os tempos, quando ouviu trechos do rascunho, disse sobre a obra “Meu Deus, como é triste a nossa Rússia!”. É uma prosa que se qualifica como poema, e que tem personagens que apesar de terem tudo pra provocar só desprezo e ridículo, geram simpatia, e mesmo afeto. A mesma Rússia, apresentada em toda a sua beleza no movimento da troika em corrida vertiginosa pela estepe, é retratada pelo Gogol em seus velhos caminhos lamacentos, com casinhas acachapadas, em que viviam seres mergulhados na mediocridade provinciana.
O convite está feito para que todos leiam Gogol e conheçam seu Tchitchikov, um “herói” bem comum por estas paragens tropicais. É nesse eixo, justamente, que encontraremos a relação com o personagem do conto machadiano, Janjão - em verdade, um espectador da sabedoria do pai, figura que qualifica sua teoria da ascensão social de modo portentoso: teria o mesmo valor que O Príncipe de Maquiavel.
Já o veremos em ação. Por ora, a sabedoria do genitor de Tchitchikov.
A formação do caráter de Tchitchikov
Na seção final da primeira parte de Almas Mortas, que é o que nos restou dessa grande obra (restam apenas alguns fragmentos da Parte II, que foi queimada pelo autor antes de falecer em 1852), Gogol se dedica a mostrar o pano de fundo da formação do seu herói Tchitchikov. Como em toda a obra, Gogol lança mão da ironia para descobrir a gênese formativa do protagonista, que está ligado a conselhos inescrupulosos do pai para conseguir se elevar na sociedade das aparências.
No caso específico do poema russo, essa elevação significa a obtenção de riqueza, fartura e bem-estar, o que implicaria silenciar as mazelas da sociedade e submeter-se ao comando dos superiores. Gogol, que criticou em toda a sua obra a mesquinhez e o atraso dos costumes monárquicos, registra um ar de seriedade ao que considera absurdo. Levado quando criança para estudar no colégio de uma cidade famosa, que o autor não nomeia - mesmo expediente de Cervantes no início do Dom Quixote, que “não deseja se lembrar” do lugar de origem do seu protagonista - Tchitchikov se despede do pai, que aproveita o momento decisivo para passar os conselhos solenes que deveriam dirigir sua vida.
Qual o teor do conselho?
“Tome cuidado, Tchitchikov, estude, não seja bobo e nada de travessuras, acima de tudo seja bom com os professores e com os superiores. Se agradar a um superior, ainda que você não tire boas notas nas matérias e que Deus não tenha lhe dado talento, tudo vai andar nos trilhos, e você vai passar na frente de todos. Não fique muito ligado a seus colegas, eles não vão lhe ensinar nada de bom; mas se isso tiver de acontecer, ande com os mais ricos, para o caso de poderem ser úteis a você. Não convide nem ofereça nada para ninguém comer ou beber, é melhor que os outros ofereçam a você, e, acima de tudo, guarde e acumule os copeques [o dinheiro]: é a coisa mais confiável que existe no mundo. Um colega ou um amigo vai enganar você, e quando você estiver em apuros, ele será o primeiro a denunciá-lo; já o copeque nunca vai denunciar você, por maior que seja o seu apuro. Com o copeque, tudo no mundo se arranja e tudo se consegue”.
A importância destes conselhos cínicos é a síntese de valores colocada em foco: que tipo de sujeito social se forma assim? Subserviência aos superiores, desprezo pelos amigos. Coquetismo com os colegas ricos para adquirir vantagens, desmerecimento da solidariedade com os companheiros de pouca renda. Pisar a cabeça do vizinho para subir na vida, individualismo tirânico e ganância financeira como telos, como finalidade de vida. Esses são os valores da burguesia. Quanta risada Gogol deve ter dado desenhando os contornos do seu Odisseu! Como o favorito de Homero, Gogol deu ao seu as características do homem polítropo (de múltiplas faces) que usava o engenho e a astúcia para sair das enrascadas, embair os demais e se dar bem na vida. Mas nesta versão, diferente do personagem homérico, Tchitchikov oferece zero heroísmo e muita torpeza. O comprador de almas mortas seguiu à risca os conselhos do pai, com as consequências óbvias na construção de um personagem que resumia em si a acusação contra toda a sociedade tsarista.
Tchitchikov não revelou nenhuma aptidão especial para qualquer matéria nos seus estudos. Seu único talento era a bajulação, uma “inteligência de tipo prática”, brinca Gogol, que era se sujeitar às autoridades, aceitar todas as opiniões dos superiores, nunca se opor a eles, renunciar a toda ideia própria que pudesse colocar em risco sua ascensão social e financeira, e substituir as relações entre pessoas por relações entre coisas: uma bela definição que depois, com uma construção própria, vamos encontrar n’O Capital do Marx.
Do meio rublo que tinha ganhado do pai, não só não gastou nada como foi acumulando e se privando de tudo para ter mais dinheiro. Tudo que fazia, buscava vender. Entrava em empreendimentos especulativos cruéis: depois de comprar alguma guloseima, sentava-se na sala de aula perto de alguns colegas mais ricos, e quando percebia que ficavam com fome, mostrava a guloseima pra atiçar ainda mais a vontade de comer que tinham, e cobrava mais caro a venda do quitute aos que queriam saciar a fome. Com muita avareza, guardava cada moeda que conseguia. Com o professor, figura de autoridade, comportava-se com extrema docilidade, agia como um puxa-saco que assim que terminava a aula entregava o gorro ao professor e fazia três mesuras antes dele sair da sala, respeitando a vontade do professor de não ser questionado em aula por alunos inteligentes.
A sina deste professor foi ser demitido e debater-se com a fome. Precisando de ajuda para sobreviver, encontrou apenas nos ex-alunos mais inteligentes e sagazes - os mesmos que silenciava em sala e que condenava como rebeldes - pessoas capazes de organizar solidariamente uma coleta filantrópica para ajudá-lo. Adivinham o único que não ajudou? Tchitchikov, que o professor adorava pelo “bom comportamento”. Dentro da narrativa dos negócios ilícitos e dos péssimos valores do heroi, Gogol não deixa de encerrar um golpe mortal na estupidez das autoridades que criminalizam a criatividade e o senso crítico.
A formação do medalhão brasileiro
Podemos encontrar muitos pontos de intersecção com a crítica social de Machado de Assis no seu conto A Teoria do Medalhão. Vale lembrar que Machado era crítico consciente do regime da escravidão e do “darwinismo social”, que advogava a tese da superioridade das raças. O falso cientificismo e o racismo nele embutido foram condenados em muitos momentos pela pena sutil e mordaz de Machado (no personagem Brás Cubas, ou em contos como Pai contra Mãe e O Espelho, este último em que a filosofia hegeliana do senhor e do escravo aparece na forma de um alferes que perde sua identidade ao não poder mais dispor de seus escravos). A classe dominante, que nutria esses valores racistas e cientificistas, também era ironizada em sua educação, postiça muitas vezes, nessas mesmas obras.
Em A teoria do medalhão vemos essa formação ser ridicularizada em estado puro.
O conto se ambienta numa conversa reservada que o pai quer ter com seu filho, Janjão, logo em seguida ao seu aniversário de maioridade. Aqui se trata de uma conversa, ao contrário do que ocorre com Tchitchikov, que só ouve calado. O topos é muito similar ao da escola de formação de caráter ironizada por Gogol: conselhos paternos sobre como ser um interesseiro egoísta que abandona qualquer princípio de solidariedade e companheirismo, além de renunciar às ideias próprias, com o intuito de ascender socialmente.
Algumas passagens são célebres nesse quesito.
“Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante. - Sim, senhor. - Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade”.
E então o pai explica que o melhor ofício é o de medalhão. O medalhão é um sujeito que anula sua individualidade em nome de agradar a todos os públicos. Como diz Machado, “O sábio que disse: a gravidade é um mistério do corpo, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito”. Ser querido por todos, sem nenhuma ideia própria e com uma visão neutra do mundo, é o caminho mais simples para galgar a fama na sociedade e, claro, adquirir riqueza, como Tchitchikov fora instruído por seu pai. Ser medalhão, diz o pai de Janjão, era seu sonho de vida, mas por falta de instruções, não pôde conseguir essa proeza, e agora deposita todas as esperanças no filho.
“Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.
- Mas quem lhe diz que eu...
- Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.”
A seriedade com que a figura paterna dá um conselho absurdo ao bom moço lembra a narrativa russa: a pessoa de bem que conviverá na boa sociedade da burguesia carioca deve renunciar a qualquer ideia própria, a fim de não importunar as pessoas de maior hierarquia, do qual dependem ajudas, favores, e posses.
E conhecemos a natureza de classe do protagonista pelos lugares comuns que vai apontando como forma de evitar que as ideias, que surgem “de natureza espontânea e súbita”, sejam completamente anuladas do espírito. O pai aconselha o filho a jogar bilhar, dominó, jogos de azar ou de cartas, como o whist (“que tem a vantagem de acostumar ao silêncio”), a caminhar acompanhado pelas ruas, tomando as fofocas do dia. O conselho sobre as livrarias é excelente: não se deve ficar dentro delas “porque por alguma coisa na sua atmosfera, não são propícias ao nosso fim”; mas é muito bom entrar e sair delas, fazendo questão de ser visto. Entrar em lugares públicos para repetir as ideias mesquinhas do cotidiano, uma anedota, um cometa, as crônicas de jornais, tudo aquilo que gera as mesmas opiniões. Também se sugere a que não abuse do vocabulário, e diga sempre as palavras comuns, tíbias, apoucadas.
Outro modo de entender a natureza de classe dos conselhos é a chacota com a falsa cultura que os jovens da burguesia costumavam absorver para ocasiões de celebração e autopromoção: diz o pai “podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento”. Mas rapidamente se coloca um limite a esse já limitado treinamento: “Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil”.
Sobre as novidades científicas, o conselho é que devem ser decoradas, e não compreendidas: “Com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas”.
Uma das diferenças com Tchitchikov é que este se deteve na formação prática da vida corrente, no tratamento “monetário” das pessoas à volta. Janjão é treinado ideologicamente, incentivado a domesticar suas capacidades intelectuais para melhor encaixar-se no Rio de Janeiro. Então, diz o protagonista de Machado, “De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses - suponhamos dois anos, - reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum”.
O uso da fama e da publicidade não escapa ao treinamento do medalhão. “Que D. Quixote solicite os favores da fama mediante, ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo”. Na ocasião de uma festa particular, por mais insignificante ao público que seja, o personagem machadiano aconselha a que se dê a maior pompa, tal como a gente vê hoje nas redes sociais: “Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente”.
Então chega a parte da política, e o comportamento do medalhão nessa arena das opiniões. Essa parte é a pérola que retrata o regime político da burguesia, e reconhecemos plenamente no Brasil. Janjão pergunta se o ofício do medalhão exclui a participação na política, e seu pai responde que não: “Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.” “Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: - ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; - é mais fácil e mais atraente. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória”.
Ainda sobre uma última advertência. À pergunta de Janjão sobre se é necessário ser sempre sério, o pai diz que não, mas alerta: “Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios”.
Os valores subversivos vão contra os Janjões e Tchitchikovs
Assim termina essa construção da personagem pela ironia. Todos os valores da classe dominante, da burguesia ascendente, são ridicularizados com maestria. Tanto em Gogol quanto em Machado, por motivos diferentes, podemos identificar a crítica social ao regime constituído sem que eles sequer sejam mencionados, usando o expediente do absurdo e da torpeza a que se é levado quando se opta pelos valores da ganância, do individualismo, da falta de escrúpulos.
Essas são ótimas coordenadas para reflexão. Com o fortalecimento de expressões de extrema direita no mundo, incentiva-se a operação ideológica segundo a qual ser conservador significa ser subversivo, ou a noção segundo a qual a extrema direita é que quer transformar o mundo. Transformar, voltando tudo ao século XIX, e até antes. Não existe nada de subversivo nos valores daqueles que buscam atomizar os seres humanos na melancolia da vida capitalista: são agentes de manutenção da ordem, que tem a ajuda das grandes corporações para nos convencer a sermos Janjões ou Tchitchikovs, a desprezar o próximo, a bajular os poderosos, a enxergar futuro somente dentro do permitido pelas autoridades, a renunciar a toda visão de mundo verdadeiramente subversiva para além do capitalismo. Machado e Gogol, sem submeter sua arte aos propósitos de pasquins da pequena política, elevam a compreensão do efeito corruptivo da educação padronizada dos senhores de servos e de escravos de ambos os lados do mundo.
A defesa dos valores da solidariedade, da cooperação, da fraternidade, da dedicação a projetos comuns de transformação da realidade, a ambição de um mundo sem exploração nem opressão, sem fronteiras nacionais, em que a humanidade possa desfrutar de todas as suas capacidades criadoras reduzindo o tempo de trabalho necessário a um mínimo, o reordenamento tempo humano para a arte, a ciência e a cultura: essa defesa audaz de valores verdadeiramente subversivos são os que podem abrir caminho a um mundo novo. Essa é uma forma de se aproximar do núcleo fundante da arte de grandes mestres como Gogol e Machado.