Algumas considerações sobre a luta indigena, socialismo e classe trabalhadora
Mariátegui foi o pioneiro, nos anos vinte, em traçar as coordenadas estratégicas da aliança, fundamentada na identidade de interesses, entre a luta dos povos indígenas e a classe trabalhadora, partindo da análise das condições originais da formação social peruana. Ainda que tenha partido de uma posição marxista, socialista e revolucionária, suas elaborações o tornaram referência obrigatória até para aqueles que querem negar o marxismo a partir de posições pós-modernas, pós-estruturalistas ou decoloniais.
Aqui queremos retomar algumas ideias centrais de Mariátegui que nos parecem de grande vitalidade para pensar a realidade brasileira atual. Dizia Mariátegui sobre o problema indígena que “nosso primeiro esforço tende a estabelecer o caráter fundamentalmente econômico do seu problema. Nos insurgimos em primeiro lugar contra a tendência instintiva –e defensiva– do criolo ou "misti", de reduzi-lo a um problema exclusivamente administrativo, pedagógico, étnico ou moral. Não nos contentamos em reivindicar o direito do índio à educação, à cultura, ao progresso, ao amor e ao céu. Começamos por reivindicar, categoricamente, seu direito à terra.” (7 Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana)
Seguindo por este caminho, Mariátegui se mantém firmemente no terreno da tradição bolchevique e da III Internacional de Lênin e Trotski, que situavam no problema estrutural da terra na sociedade russa a base da aliança do proletariado com o campesinato contra a aristocracia czarista, à qual se aliava a burguesia liberal. Assim, no mesmo trabalho ele coloca que “o regime de propriedade da terra determina o regime político e administrativo de toda nação. O problema agrário - que a República não conseguiu até agora resolver - domina todos os problemas de nossa república. Sobre a base de uma economia semifeudal não podem prosperar nem funcionar instituições democráticas e liberais.”
Ao definir assim as relações entre as classes no Peru, Mariátegui se afasta do reformismo da II Internacional e da política que a III Internacional de Stalin aplicou na segunda revolução chinesa, de aliança com a burguesia nacional (Kuomintang). Utilizando as ferramentas do marxismo, que incorpora na teoria as lições dos grandes processos revolucionários como guia para a ação e a organização, Mariátegui incorporou ao arsenal teórico do proletariado internacional a perspectiva de um socialismo andino, internacionalista, apoiado em balanços históricos da Revolução Chinesa e Mexicana [1]. Na sua perspectiva, as tradições comunitárias milenares dos povos incaicos se encontram com a organização coletiva da classe trabalhadora moderna e suas tradições socialistas, na luta comum contra o imperialismo e o sistema capitalista. Se mantém fiel ao marxismo, mais precisamente ao marxismo revolucionário, que nunca foi cópia e recalque em nenhum lugar onde se manteve fiel a si mesmo. Lenin e Trotski também renovaram o marxismo revolucionário sem fazer da revolução russa uma simulação da revolução européia. Assim como Gramsci na Itália, ou como os comunistas chineses que aderiram à oposição de esquerda e a IV Internacional a partir da própria experiência da revolução chinesa.
O revolucionário peruano não se deteve profundamente nos problemas brasileiros. Um dos seus únicos textos em que trata da questão negra e a dos chamados então povos “silvícolas” da América do Sul, “o problema das raças na América Latina” , é na verdade um documento enviado para a Primeira Conferência Comunista Latino-Americana realizada em Buenos Aires em junho de 1929 à qual não pôde comparecer. Nesse texto, como Mariátegui não esteve presente à reunião, as partes que falam da realidade brasileira são citações diretas dos informes da delegação brasileira do PCB nessa reunião. Na parte dedicada aos problemas peruanos, entra em rota de colisão com o esquema etapista rígido da III Internacional stalinizada, um esquema que é uma cópia reformista mal feita da dinâmica histórica da revolução europeia.
O informe que segue, do relatório apresentado pelo PCB, parece mais com uma síntese dos preconceitos burgueses e colonialistas sobre o problema das “raças” no Brasil, do que com a exposição de um comunista. Os stalinistas brasileiros, neste informe, reproduziram a tese da democracia racial, de que na sociedade miscigenada brasileira não existiria racismo (tese inclusive implicitamente questionada na anotação dos peruanos). E sobre a questão indigena, compartilharam a visão hegemônica do pensamento desenvolvimentista da burguesia brasileira, sobre populações remanescentes residuais, de povos nômades e culturalmente atrasados, que não tem nenhuma relação com as lutas do proletariado, e que tenderiam a assimilação gradual.
Não por acaso as expressões da luta e da identidade indigena apareceram sempre diluidas nas lutas camponesas, proletarias ou, na melhorar das hipóteses, como parte da luta do povo negro, que no Brasil também possui o significado unificador de “não branco”. Estudamos a Cabanagem nas escolas, como parte das revoltas da regência, mas seu caráter de luta popular indigena fica em segundo plano. Menos conhecido, o exemplo do líder guerreiro indigena Sepé Tiaraju nas chamadas “guerras guaraníticas” é ainda hoje fruto de tentativas de assimilação. Até bem avançado o século XX a postura predominante, inclusive por parte da esquerda, foi a da tutela e do paternalismo, com algumas poucas, mas signifficativas excessões [2].
Passados quase 40 anos da promulgação da constituição de 1988 que pela primeira vez reconheceu o direito à terra aos povos indígenas como algo permanente e não provisório, e sendo incluída a autodeclaração indigena nos censos do IBGE [3], as velhas visões burguesas não se sustentam. Caiu por terra já a ideia de que os povos indígenas caminhavam para o fim, já que a partir da inclusão da origem indigena nos censos, a autodeclaração tem crescido paulatinamente, assim como a população das reservas indígenas. As coordenadas traçadas por Mariátegui no Peru de cem anos atrás se mostram atuais para pensar o Brasil do século XXI.
Ainda no século XVI, alguns cronistas da conquista sugeriam que a Amazônia possuía uma densidade populacional muito maior do que se supôs durante grande parte do século XX. Na narrativa da expedição de Francisco de Orellana pelo rio Amazonas, por exemplo, o frade Gaspar de Carvajal descreveu longos trechos do rio ocupados por aldeias sucessivas, sugerindo uma população indígena numerosa e distribuída ao longo das margens. Essas descrições foram consideradas exageradas pelos historiadores, no entanto novas descobertas arqueológicas estão reavaliando esse quadro. Utilizando a tecnologia LiDAR - (Light Detection and Ranging), um sistema remoto que utiliza pulsos de laser emitidos a partir de aeronaves para mapear o relevo do solo mesmo sob a cobertura da floresta -, pesquisadores têm identificado extensas redes de assentamentos, estradas de terra, canais e estruturas monumentais em várias regiões da Amazônia.
Esses achados, ao contrário do que se acreditava, evidenciam grandes áreas densamente povoadas, e articuladas entre si por complexas redes de circulação terrestre e fluvial. Entre as “aldeias”, algumas teriam populações estimadas do tamanho de Londres para a mesma época. Ao mesmo tempo, as descobertas sugerem formas de coordenação e cooperação, mesmo sem o desenvolvimento de um proto-estado centralizado como entre os Incas e os Aztecas [4]. Do conhecimento da existências dessas importantes civilizações amazônicas milenares, surge também uma nova floresta histórica. Eis que começamos a reaprender, depois de 500 anos de colonização, a técnica de domesticação da floresta e da criação da “terra preta” como formas avançadas de agricultura florestal. Aos poucos vamos conhecendo a grandiosidade do cultivo indigena ao longo dos milenios, moldando a floresta e suas espécies vegetais e naturais, assim como o próprio solo.
A permanência da luta indigena ao longo dos séculos e suas intensificações nas últimas décadas, reatualiza para os povos originários da Amazônia e a imensa classe trabalhadora multiétnica brasileira as ideias de Mariátegui pensadas a partir da realidade peruana. As formas de organização coletiva e as formas de cultivo integradas ao manejo e preservação dos ecossistemas que os povos indígenas conseguiram manter vivas na sua resistência histórica, hoje influenciam o imaginário coletivista da juventude e da classe trabalhadora nos grandes centros urbanos, enriquecendo o arsenal das ideias do socialismo revolucionário e da luta de classes do nosso tempo.
A partir das reflexões sobre a tradição coletivista dos povos originários e o caráter da sua relação com a terra - assim como poderíamos estender a relação das comunidades quilombolas com a terra tomando como base as formas de cultivo do Quilombo de Palmares por exemplo- seria muito produtivo revisitar todo o debate histórico e sociológico sobre as relações entre campesinato e proletariado rural e qual forma de reforma agrária e dinâmica revolucionária que delas decorrem. Mas o objetivo aqui, no entanto, é outro: partir dessas considerações históricas e teóricas para buscar as conexões entre luta proletária e indigena na formação do PT e pensar a profundidade do processo de experiência em curso atualmente.
Chico Mendes, os seringueiros e o proletariado rural: uma ponte entre a luta indigena e a classe trabalhadora
Na dinâmica da luta de classe nos oitenta, marcada pelo ascenso das greves operárias e a formação do PT e da CUT, nas lutas contra a ditadura e depois contra o governo Sarney, as conexões entre o coletivismo indigena e o socialismo proletário se manifestaram como parte do movimento de massas real. A luta dos seringueiros do Acre, que teve em Chico Mendes um grande símbolo e porta-voz, é um posto de observação avançado para pensar as relações entre luta de classe e luta indigena na formação do PT.
No passado, o látex coletado pelo “caboclo” no coração da floresta serviu para abastecer a indústria da borracha, no nascimento da indústria automotiva global. Desmentido os despautérios do informe do PCB brasileiro na reunião que já citamos, já desde o final do século XIX o extrativismo do látex conectou os povos da Amazônia às cadeias produtivas do imperialismo internacional, através do trabalho do seringueiro. O que não deixou de provocar inúmeras tensões entre os seringueiros e os povos indígenas nesse processo.
O trabalho do seringueiro tem uma série de particularidades. Ele não cultiva a terra, mas sim coleta a seiva da seringueira, se aproximando nas técnicas de manejo da floresta das formadas legadas pelos povos originários. Ao seringueiro interessa sobretudo, assim como aos povos indígenas, a preservação da floresta, onde crescem as seringueiras. Ao vender a seiva coletada, recebe a sua parte em dinheiro, como salário, de forma similar ao bóia-fria que trabalha, por exemplo, na lavoura da cana.
O PT no Acre nasceu no fim dos anos setenta e início dos oitenta vinculado diretamente aos seringueiros, em um primeiro momento através das comunidades de base da Igreja Católica. Desde sempre o ataque contra as suas lideranças foi brutal. Em 1980, Wilson Pinheiro, fundador do sindicatos dos trabalhadores rurais de Xapuri ao lado de Chico Mendes, foi brutalmente assassinado. Foi nesse contexto que empregaram a tática do “empate” em defesa da floresta, uma fusão de formas de luta proletárias com formas tradicionais da luta indigena. Os empates eram espécies de piquetes coletivos, unindo diferentes povoados, que usavam diretamente seus corpos para formar barreira humana entre a selva e os tratores e as escavadeiras. Essa tática tem um parentesco da que foi utilizada agora pelos povos do Tapajós para bloquear a empresa Cargill.
Anos depois, sob a liderança de Chico Mendes, os seringueiros do Acre, se organizando através do PT e da CUT, relacionaram sua luta e a tática dos empates com a luta dos movimentos ambientalistas da época. Isso deu um significado e uma projeção nacional e internacional para as demandas dos seringueiros e dos povos indígenas, que estavam se unindo na Aliança dos Povos da Floresta, fundada em 1987. A luta dos seringueiros, que ao defender a sua fonte de vida mostra que a preservação da floresta é ao mesmo tempo a preservação dos povos que nela vivem, carrega a marca da tradição das resistências indígenas.
Da constituinte aos primeiros governos estaduais petistas: o início de uma dolorosa experiência
Todo o rico processo da luta de classes no norte do país, da convergência entre os movimentos dos povos indígenas, camponeses, dos seringueiros e povos extrativistas levou à formação da Aliança dos Povos da Floresta em 1987, em meio a Assembleia Constituinte. Em 1988 Chico Mendes foi assassinado em Xapuri. Isso não impediu a luta indígena e dos povos da floresta de impor como questão nacional suas demandas no contexto da Assembleia Constituinte de 1987–1988. Momentos célebres, como o discurso de Ailton Krenak no plenário, pintando o rosto com tinta de jenipapo, ou a famosa foto de 1989, da líder Tuíra Kayapó encostando um facão no rosto do presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz, durante um encontro sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte em Altamira, são exemplos que ficaram na história da luta de classes nacional.
O resultado dessa luta foi a imposição, na Constituição de 1988, do reconhecimento dos direitos originários dos povos indígenas às suas terras e da obrigação do Estado de promover sua demarcação. Pouco tempo depois as lutas dos seringueiros e dos povos extrativistas da Amazônia conquistaria à institucionalização das reservas extrativistas, formalizadas em 1990 como política de proteção territorial e ambiental. Entretanto, essas conquistas se deram em meio a uma violência ímpar contra o processo de organização dos povos da floresta e do campo, que revela o lado sangrento do pacto de anistia para uma transição “pacífica”. Para os povos indígenas, os seringueiros, os trabalhadores rurais e o conjunto dos movimentos sociais do campo, o preço do pacto com as oligarquias da terra, do boi e da bala foi pago com o sangue de muitos Marçais de Souza, líder guarani-ñandeva assassinado em 1983, Chicos Mendes, Margaridas Alves e inúmeros outros como os yanomamis assassinado por invasores garimpeiros, antes de que terra Yanomami fosse demarcada em 1992.
A constituição de 1988 foi um marco histórico importante para a luta indigena. Foi a primeira vez que o estado racista e genocida brasileiro reconheceu direitos territoriais permanentes aos povos indígenas. Até então os povos indígenas tinham apenas direitos transitórios, vistos como uma população fadada ao desaparecimento. Que a luta dos povos indígenas tenha se imposto na constituinte, conquistando o reconhecimento da sua existência e o direito a ter suas terras demarcadas, se explica pela confluência das lutas do campo e da floresta com a luta da classe trabalhadora contra a ditadura. No entanto, a política de conciliação de classe da direção do PT, da CUT, do MST (e de figuras históricas como Juruna, ligado ao PDT e ao trabalhismo), que conduziu a insatisfação para o pacto de transição e os canais institucionais da nova república e abriu o caminho para a ofensiva neoliberal se instalar nos anos noventa, o fortalecimento do agronegócio em detrimento dos movimentos do campo e dos povos indígenas durantes os governos petistas, o que foi parte de criar as condições para o golpe institucional de 2016.
A partir da canalização institucional das grandes lutas dos seringueiros nos anos oitenta, e das alianças sociais que se estabeleceram entre os povos indígenas e os sindicatos e organizações petistas, tendo os seringueiros como o ponto central de articulação social, os governos de Jorge Viana e Tião Viana (PT) implementaram o conceito de "Florestania", com apoio local de Marina Silva. No discurso, declaravam a intenção de conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental. Embora internacionalmente aclamado, o modelo já de início enfrentou críticas severas de antropólogos e lideranças locais.
Lideranças como Lindomar Padilha denunciaram o papel dos governos petistas no Acre: “A espoliação dos territórios e o roubo e saques aos bens naturais, de todos nós, sempre foram a base de sustentação dos governos do PT no Acre”. Lindomar denuncia o papel do PT e de Marina Silva em dar “um discurso ambientalmente correto e que justificasse a pura e simples exploração dos bens comuns”
A experiência da luta indigena no Pará
O caso do Pará, ao contrário dos anteriores, se tornou um laboratório das experiências dos povos indígenas, particularmente em sua relação com o PT. Para entender essa rica e multifacetada experiência , que tem o Pará como palco privilegiado, é útil uma pequena consideração mais geral. Indígenas não são somente os povos aldeados. A descendência e influências das tradições dos povos originários é predominante entre as camadas populares nos estados do Norte. Só com essa definição mais ampla do que é luta indigena no Brasil, a riqueza e força da tradição da luta indigena do Pará pode ser considerada na sua real grandeza. A Cabanagem tem lugar de destaque entre as chamadas revoltas da regência no século XIX e talvez seja a única que possa efetivamente ser tratada como uma verdadeira revolução popular. Um processo que tem como precedente imediato o grande envolvimento das massas indígenas nas batalhas pela independência frente à rebelião dos governadores portugueses nas províncias da Bahia e do Grão-Pará. Não é digno de surpresa, portanto, que seja no Pará do século XXI que os povos indígenas assumam em nome próprio a liderança da resistência ao imperialismo e aos ataques extrativistas do governo de Frente Ampla.
O estado do Pará é o nono mais populoso do país e de longe o maior da região norte. Ao contrário do Amazonas, do Acre e demais estados (com exceção parcial do Tocantins) em que as capitais concentram mais de um terço da população, no Pará Belém concentra apenas cerca de um sexto. Os povos da floresta e particularmente os povos indígenas têm um peso demográfico, cultural, econômico e político enorme neste estado que é a “porta de entrada” para a Amazônia.
Em 1996 Edmilson foi eleito prefeito de Belém e reeleito em 2000 estando ainda dentro do PT. Só depois da vitória de Lula em 2002, o PT governou o estado. A partir da vitória em 2006, a governadora Ana Júlia Carepa (PT) alinhou-se incondicionalmente ao projeto neodesenvolvimentista do governo federal (Lula/Dilma), tornando-se uma das principais articuladoras políticas para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Em sua gestão, o PT paraense passou a governar diretamente contra os interesses daqueles aliados que haviam sido fundamentais para sua vitória, as populações ribeirinhas e indígenas do Xingu e de todo o estado. Foi o executor direto das grandes obras de infraestrutura rejeitadas por essas mesmas populações, priorizando a aliança com o setor elétrico e as grandes empreiteiras.
A luta de Belo Monte[5] talvez seja a mais representativa desse momento, na imbricação de dois processos de luta e de experiências com o governo Lula que não chegaram a se unificar. A construção da Hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu foi amplamente questionada pelos povos indígenas e movimentos sociais da região. Belo Monte era parte das grandes obras do primeiro PAC, junto com Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, o Porto de Suape em Pernambuco e outras, que passaram por um intenso ciclo de greves crescentemente radicalizadas e antiburocráticas entre 2008 e 2013. A luta nas obras explodiu com força na demanda da chamada “baixada”, o direito de retornar periodicamente às suas cidades de origem, de três em três meses e não mais de seis em seis, com incêndios nos alojamentos para forçar o retorno e a paralisação temporária das obras.
No terceiro governo Lula a luta indigena ocupa o centro do palco
O protagonismo que os movimentos indígenas assumiram neste terceiro governo Lula tem algo de singular e novo, que não pode ser explicado somente por uma causa. O ascenso dos anos oitenta, as conquistas da constituição de 1988 e a inserção da autodeclaração indigena são um marco histórico fundamental, que mostra a conexão histórica entre os interesses dos povos originários com os da classe trabalhadora brasileira. Os povos indígenas conquistaram com sua própria luta, aliados aos trabalhadores do campo e da cidade, essas conquistas. Foram parte do ascenso de lutas mais geral deste anos, pois são também indígenas os camponeses do MST, os operários que construíram a CUT e o PT (principalmente no Norte, Centro-Oeste e Nordeste), ainda que o fator indigena ficasse diluído, dentro desses movimentos, no fator social. O caminho do protagonismo indigena a partir das conquistas comuns dos anos oitenta não foi linear.
A constituição de 1988 trouxe, é verdade, conquistas fundamentais aos povos originários, o direito à terra e ao reconhecimento cultural. Só que no pacto entre as elites que deu lugar à Nova República elas cederam posições, em troca da manutenção do seu próprio poder. As redes criminosas ligadas aos militares, às polícias e aos grandes latifundiários não foram desmanteladas, cresceram e se fortaleceram. Os governos petistas, a partir das primeiras prefeituras ainda nos anos oitenta, dos governos de estado nos noventa e, em grande escala a partir do governo federal, não atuaram no sentido de promover mudanças estruturais, ao contrário, atuaram fortalecendo as estruturas do domínio burguês, fortalecendo o agronegócio, os bancos, os grandes monopólios internacionais. Mostraram sempre sua vocação extrativista, voltada para as grandes obras, como geradoras de emprego e renda, e seu menosprezo pela ecologia. Esses setores, fortalecidos, se voltaram contra os governos petistas que os apoiaram e em 2016 foram parte do golpe institucional, buscando romper pela direita o pacto de 1988.
Toda intensificação da resistência e, como estamos chamando, do protagonismo indigena, está diretamente ligada à crise da Nova República e a um processo profundo de experiências dos povos originários. A ofensiva golpista e militarista, que despertou velhos fantasmas, junto com a expansão das fronteiras agrícolas e minerais, colocou a questão indigena da demarcação das terras do centro dos ataques da burguesia. Lembremos que o general Heleno, representando o pensamento da cúpula militar, escolheu a questão da reserva Raposo Serra do Sol como um alvo de ataque desde o primeiro governo Lula. A boiada era pra passar sobretudo sobre os povos indígenas. Com a pandemia, o governo Bolsonaro e a busca crescente do imperialismo pelos minerais estratégicos ficou evidente a vontade da burguesia de retornar não só de fato, mas também de direito, à situação pré-1988. Como sabemos, essa ofensiva não parou ao longo do governo Lula, mas inclusive se intensificou. Apesar de agora ter a indigena Sônia Guajajara (PSOL) no ministério, a turma da boiada segue lá.
Essa é uma experiência com regime de 1988 mais ampla, uma desilusão com as promessas da “constituição cidadã”, que atua em diversos níveis, e tem expressões à direita e à esquerda entre os povos indígenas. Junto com esse processo, se dá outro, o da institucionalização dos movimentos sociais do campo, que foi muito intensa durante os primeiros governos petistas. Fruto das suas próprias lutas, o MST conquistou uma base de trabalhadores rurais assentados e o foco da sua atividade se deslocou profundamente, atuando muito mais diretamente ligado ao Estado. Esse conjunto de movimentos, dos sem terra, dos atingidos por barragens e outros - que foram também formas de expressão e de organização de setores indígenas - se enfraqueceram ou simplesmente deixaram de existir, pelo menos enquanto ferramentas de luta e organização independente do jogo institucional da Frente Ampla e seu consenso extrativista.
No início de 2025 a confluência entre a luta indigena e da educação já mostrava um acúmulo importante de experiência do movimento indigena do Pará e da classe trabalhadora de Belém com o governo petista e inclusive com as lideranças do PSOL. A ocupação da Seduc em Belém, junto com a greve da educação foi um marco ao impor uma vitória contra o governo de Barbalho, apoiado pelo governo federal. Como escreveu Diana Assunção em editorial do MRT naquele momento, “a luta do Pará se converteu em um importante exemplo de luta nacional. Com uma forte ocupação indígena e quilombola na Secretaria de Educação em Belém, com cortes de rodovias e a fundamental aliança com professores, estamos vendo um processo novo que está dobrando os políticos tradicionais que são parte da Frente Ampla, como é o caso de Helder Barbalho do MDB.” Veja mais sobre esse processo aqui e aqui . Essa experiência se desdobraria na COP30 com a ocupação da Blue Zone e um protagonismo indigena que pautou o debate nacional sobre meio ambiente frente ao fracasso da COP30.
Com a grande batalha em defesa do Tapajós e dos rios da Amazônia contra o absurdo do decreto de privatização, esse processo deu um salto. Depois de mais de um mês de ocupação da Cargill o movimento indigena se radicalizou e se impôs. A vitória contra o odiado decreto de privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, foi o exemplo para todo o país de que é possível vencer o governo federal e sua aliança com os monopólios imperialistas, nesse caso a Cargill. Mostra que a forma como se enfrenta a extrema-direita é na mobilização, com os métodos da luta de classe e da luta popular, assim se defende a soberania contra a ofensiva de Trump.
A vitória da ocupação da Cargill incentivam agora um crescimento de toda a resistência que os povos indígenas têm travado nos últimos anos, e jogam mais publicidade nos ataques brutais e nas ações genocidas em curso (como o envenenamento por agrotóxico de rios e aldeias, como vem ocorrendo no Maranhão, ou os assassinatos denunciados na Bahia e outras regiões). Duas lutas concentram o enfrentamento ampliado depois da vitória em Santarém. A ocupação da Funai em Altamira, contra as atividades da mineradora canadense Belo Sun, desdobramento da luta em defesa dos rios do Pará, agora na defesa do Rio Xingu e a defesa do Pedral do Lourenço, seguindo a batalha na defesa do Rio Tocantins.
A ocupação da Cargill e todas as medidas radicalizadas apontadas pelo movimento indigena triunfaram, pela sua força, e pelo apoio conquistado nas grandes cidades, entre a juventude de esquerda e progressista e setores da classe trabalhadora. Quando os indígenas desmascararam as mentiras do governo Lula e de Boulos, sua mensagem foi muito além do Tapajós e não será esquecida tão cedo. A luta indígena, fortalecida e moralizada pelas vitórias conquistadas, está se intensificando. A pergunta que temos que nos fazer, para além da conjuntura mais imediata, é se a intensificação das lutas e do protagonismo indigena poderia provocar e confluir com um despertar também das lutas da juventude e da classe trabalhadora nos grandes centros urbanos contra os inimigos comuns.
Confluência entre a luta indigena e classe trabalhadora e a perspectiva revolucionária e socialista
É preciso, e tentamos nesta nota, colaborar nesse sentido, superar um grande mal entendido. Aquele que confunde as posições do stalinismo com as do marxismo, nos debates sobre a formação do capitalismo e na posição em relação às questões nacionais e aos processos revolucionários. Essa não é uma questão do passado, de história somente, mas tem uma atualidade cada vez maior. A polarização assimétrica e eleitoral entre a extrema-direita bolsonarista e o progressismo encabeçado por Lula é a expressão de um mal estar social mais profundo, que precisa superar a perspectiva do mal menorismo petista e frenteamplista, abrindo o caminho para uma alternativa revolucionária.
No esquema teórico do stalinismo os países atrasados, coloniais e semicoloniais estariam fadados a repetir as fases do desenvolvimento dos países mais avançados. Do feudalismo ao capitalismo e deste ao comunismo. Como subproduto desse esquema a classe trabalhadora se aliaria à burguesia para combater a elite agrária. Só que o marxismo se desenvolveu nos países atrasados e semicoloniais em oposição a esse esquema. Na Revolução Russa, os bolcheviques e Trotski se opuseram a esse esquema, que naquele momento era defendido pelos Mencheviques, da II Internacional, que ficaram do lado da contra-revolução, e defenderam a aliança entre proletariado e campesinato contra o bloco da grande burguesia com o czarismo e os latifundiários. Na II Revolução Chinesa, de 1925/27, sem conhecer as posições de Trotsky e da Oposição de Esquerda na Rússia que contra Stalin exigia a ruptura com o Kuomintang, dois importantes dirigentes do PC chines faziam o mesmo, e desde 1924 Pen Shu Tse havia chegado à mesma conclusão teórica. E também Mariátegui, no Peru, como já pontuamos. Se, a partir justamente da análise teórica das particularidades nacionais todas chegam à mesma conclusão, da aliança entre a classe trabalhadora e o campesinato, não é por importar mecanicamente um modelo, mas por que o desenvolvimento do colonialismo, do capitalismo e de um mercado mundial, e, na sua fase imperialista de disputa das grandes potências pela hegemonia mundial, penetram em todas as formações nacionais, transformando as relações tradicionais em todas a partes.
Nos debates sobre a revolução brasileira a Oposição de Esquerda, nas “teses sobre a situação nacional” os trotskistas Mário Pedrosa e Lívio Xavier combateram o esquema stalinista com uma colaboração fundamental, ao afirmar que no Brasil o capitalismo a burguesia nasceu no campo, e não seria, portanto, uma aliada na luta contra o atraso, dito feudal, o agrarismo brasileiro. Apesar dessa incorporação criativa do conceito do desenvolvimento desigual e combinado de Trotski, os trotskistas brasileiros não desenvolveram uma visão mais profunda do campo brasileiro, nem incorporaram a questão negra e muitos menos a questão indigena teórica e programaticamente, ao contrário de Marx, de Lenin, de Trotski, que dedicaram grande atenção aos problemas agrários e das nacionalidades e povos oprimidos. Na primeira metade do século XX Mariátegui era praticamente desconhecido no Brasil e mesmo após sua introdução tardia, sobretudo com Florestan Fernandes dos anos setenta, permaneceu um autor marginal no cenário marxista brasileiro. E o problema indígena, ao contrário da questão negra que se impôs apesar do stalinismo dentro dos debates nacionais, não teve a mesma sorte.
Integrar os desenvolvimentos de Mariátegui sobre o socialismo andino, com a lei do desenvolvimento desigual e combinado e a teoria da revolução permanente de Trotsky, já presentes de forma estrutural nos debates brasileiros, tem um potencial de enriquecer a visão marxista da realidade brasileira e o programa de reforma agrária. A forma pré capitalistas do campo brasileiro não comportam somente a grande lavoura de monocultura e uma massa de pequenos camponeses posseiros, constantemente expulsos das suas terras e trabalhadores rurais. Também as tradições de cultivo e extrativismo florestal coletivistas dos povos originários e quilombolas, que vão estabelecendo diferentes formas frente a penetração capitalista e imperialista e suas lutas de resistência. Em livro publicado em 2010, “Comunismo, indigenismo e marxismo”, Javo Ferreira desenvolve a partir da realidade boliviana e em debate com o marxismo uma série de teses que ajudam muito, se a tomarmos sem dogmatismos, a pensar a realidade dos povos indígenas no Brasil e concluiu uma ideia forte que retomamos aqui, de uma “cultura de transição ao socialismo”, em que a socialização dos meios de produção e reprodução da vida, as formas de produção coletivas não vão tender a homogeneidade, mas a uma rica diversificação das tradições e costumes como nunca vista, a partir da produção coletivizada.