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O arriscado jogo de Benjamin Netanyahu e Donald Trump contra o Irã

01.03.2026

Parte da edição: 01.03.2026

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A questão decisiva, entretanto, é de ordem estratégica: qual é o plano de saída? Os Estados Unidos e Israel se contentarão com um cenário — bastante provável — em que infligiriam danos consideráveis ao seu adversário sem conseguir derrubá-lo nem forçá-lo a capitular?

A nova ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã marca um salto qualitativo na crise regional aberta após 7 de outubro de 2023. Já não se trata, ao menos no discurso oficial, de frear o programa nuclear iraniano, mas de um objetivo muito mais ambicioso e arriscado: impor uma mudança de regime no Irã.

Para Netanyahu, a guerra tem uma lógica política interna evidente. Às vésperas das eleições, ele precisa reconstruir sua imagem de “homem da segurança” após o trauma estratégico causado pelo ataque do Hamas. Atacar o inimigo existencial por excelência, o Irã, lhe permite reorganizar a agenda nacional e reunir uma sociedade fragmentada sob o relato de uma renascença nacional que teria varrido o “eixo do mal”. As pesquisas que se seguiram à guerra de 12 dias de junho de 2025 já haviam mostrado um aumento significativo de popularidade para o primeiro-ministro israelense. O desafio agora é consolidá-lo.

No caso dos Estados Unidos, ao contrário do episódio anterior, Washington assume abertamente sua participação e fixa como objetivo explícito a queda do regime iraniano. A ausência de uma justificativa sólida — além de vagas alusões a ameaças futuras — e as reservas expressas por alguns setores do exército americano revelam fissuras internas. Tentar derrubar, a partir dos ares, um regime com décadas de experiência em sobrevivência, sem um desdobramento terrestre e com limitações conhecidas em matéria de munições, é uma operação de resultado muito incerto.

O cálculo americano-israelense parece claro: golpear rápido e forte, degradar a capacidade balística iraniana e provocar um choque interno que frature o poder, atingindo o maior número possível de objetivos antes que a guerra se torne demasiado custosa para a opinião pública americana, para os aliados do Golfo e para a economia mundial em caso de disparada dos preços do petróleo. Do lado iraniano, a resposta rápida contra as bases americanas no Golfo indica que Teerã escolheu internacionalizar o custo do conflito desde o início. Essa iniciativa visa provavelmente incitar os países do Golfo a interceder junto a Trump para pôr fim às hostilidades, mas pode se voltar contra o Irã, como sugerem as declarações da Arábia Saudita, que afirmou reservar-se o direito de responder aos ataques iranianos em seu território.

No que diz respeito ao front dos “proxies”, a situação é mais ambígua do que sugere a retórica belicosa. O Hezbollah, apresentado durante anos como o principal instrumento de dissuasão iraniano contra Israel, até agora optou por uma implicação medida e cuidadosamente calibrada. Seus ataques a partir do sul do Líbano foram simbólicos e controlados, suficientes para manter a tensão, mas não para desencadear uma guerra total. Essa contenção não é fortuita: uma intervenção total acarretaria uma devastação quase certa para o Líbano, um país exaurido econômica e politicamente, e poderia até mesmo corroer a base social do próprio movimento.

Vinte e três anos após a invasão do Iraque, os Estados Unidos voltam a apostar em sua capacidade de redesenhar o mapa político do Oriente Médio, desta vez sem tropas em terra, mas com um objetivo igualmente ambicioso. Para além do plano estritamente militar dessa confrontação assimétrica, a verdadeira batalha se joga na capacidade do regime iraniano de absorver o choque sem se fragmentar, na tolerância da opinião pública norte-americana diante de um conflito de custos crescentes e na disposição dos aliados regionais em apoiar a escalada.

A questão decisiva, entretanto, é de ordem estratégica: qual é o plano de saída? Os Estados Unidos e Israel se contentarão com um cenário — bastante provável — em que infligiriam danos consideráveis ao seu adversário sem conseguir derrubá-lo nem forçá-lo a capitular? A duração e as consequências do conflito dependem em grande parte da resposta a essa incógnita.