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O dilema estratégico dos Estados Unidos e de Israel: ganhar batalhas, perder a guerra

22.03.2026

Parte da edição: 22.03.2026

Os últimos ataques mostram que as vitórias táticas não conduzem a uma vantagem estratégica determinante.

O conflito em curso entre Estados Unidos, Israel e Irã está entrando em uma fase que já não pode ser interpretada apenas em termos de sucessos operacionais. Os ataques recentes — incluindo o bombardeio israelense sobre o campo de gás de South Pars e a posterior retaliação iraniana contra infraestruturas energéticas no Catar, nos Emirados e na Arábia Saudita — ilustram com clareza um paradoxo central: o acúmulo de vitórias táticas não está produzindo uma vantagem estratégica decisiva.

Pelo contrário, tudo indica que o conflito está evoluindo para uma guerra de desgaste prolongada, com implicações potencialmente sistêmicas para a ordem regional e para a economia global.

Sucesso tático, ambiguidade estratégica

No terreno, tanto os Estados Unidos quanto Israel conseguiram degradar capacidades-chave iranianas. No entanto, esses avanços não alteraram um fato fundamental: o regime iraniano continua funcionando. Longe de colapsar, demonstrou uma notável resiliência, absorvendo danos significativos enquanto mantém sua coesão interna e sua capacidade de resposta.

Esse descompasso entre conquistas militares imediatas e objetivos políticos de longo prazo revela uma fraqueza que se mantém desde o início na condução da guerra: busca-se forçar uma negociação, enfraquecer estruturalmente o regime ou provocar seu colapso?

Cada um desses objetivos exige estratégias diferentes. O que se observa atualmente é uma combinação inconsistente de todos eles.

A armadilha da escalada

Aqui emerge o dilema central. Para alterar decisivamente o equilíbrio — seja por meio de uma mudança de regime ou de uma degradação irreversível do poder iraniano — seria necessária uma escalada significativa. No entanto, essa escalada envolve riscos extraordinários.

O Irã não é um adversário convencional. Sua força não reside na simetria militar, mas em sua capacidade de explorar vulnerabilidades estruturais do sistema global, em particular sua posição geográfica em torno do estreito de Ormuz.

Nesse ponto, o poder militar dos Estados Unidos encontra seus limites. A superioridade aérea ou naval não garante o controle de um espaço onde bastam minas, drones ou mísseis de baixo custo para interromper o tráfego marítimo. A geografia, nesse caso, favorece o Irã.

Energia como campo de batalha

A dinâmica recente de ataques confirma que a guerra está se deslocando para o domínio energético. O bombardeio israelense sobre o campo de South Pars — parte do maior campo de gás natural do mundo, compartilhado entre Irã e Catar e situado no Golfo Pérsico — marca um ponto de inflexão. Estima-se que esse campo contenha cerca de 1,8 trilhão de pés cúbicos de gás utilizável, suficiente para cobrir a demanda mundial por mais de uma década.

A resposta iraniana não demorou. A Arábia Saudita foi um dos primeiros alvos, com mísseis balísticos atingindo instalações em Jubail, o maior complexo petroquímico do mundo. Posteriormente, foram atacados os campos de Al Hosn e Bab, nos Emirados Árabes Unidos, bem como a refinaria catariana de Ras Laffan, o maior centro de produção de gás natural liquefeito (GNL) em operação. Mais tarde, o Irã atingiu instalações da SAMREF em Yanbu, no Mar Vermelho — um nó-chave para as exportações sauditas e parte da infraestrutura utilizada para mitigar a dependência do estreito de Ormuz.

Essa sequência não é aleatória. Responde a uma estratégia clara: internacionalizar o custo do conflito. Ao ameaçar nós energéticos críticos em todo o Golfo, Teerã busca pressionar os atores globais dependentes desses fluxos, forçando indiretamente concessões políticas.

Nesse contexto, a ideia de soluções rápidas — como a captura da ilha de Kharg, por onde passa a maior parte do petróleo iraniano — mostra-se ilusória. Mesmo que uma operação desse tipo fosse militarmente viável, dificilmente produziria uma capitulação iraniana. Mais provavelmente desencadearia uma escalada ainda maior.

Radicalização e fechamento das opções diplomáticas

Outro efeito crítico da campanha é a transformação interna do sistema iraniano. Longe de enfraquecê-lo politicamente, a pressão externa está fortalecendo seus setores mais duros.

A possível consolidação de figuras como Mojtaba Khamenei, respaldadas pelo aparato de segurança, sugere que o resultado pode ser um regime mais radicalizado, menos permeável à negociação e mais orientado para a confrontação.

Nesse contexto, ações como a eliminação de atores considerados pragmáticos reduzem ainda mais a margem diplomática, criando um círculo vicioso: quanto mais se intensifica a pressão, mais difícil se torna alcançar um acordo.

Uma guerra sem saída clara

A evolução do conflito aponta para uma conclusão inquietante: os Estados Unidos e Israel podem estar entrando em uma guerra prolongada sem uma estratégia de saída definida.

As opções são limitadas e todas implicam custos elevados. Por um lado, escalar significativamente o conflito, com o risco de uma guerra regional aberta e consequências econômicas globais severas — entre elas, o aumento dos preços dos alimentos, com efeitos particularmente graves nos países semicoloniais e dependentes. Esse cenário também poderia sacudir a política interna dos Estados Unidos até seus alicerces.

No outro extremo, aceitar uma forma de acomodação com o Irã significaria reconhecer, de fato, sua capacidade de influência sobre os fluxos energéticos do Golfo. Por fim, manter o atual status quo equivale a prolongar uma guerra de desgaste com resultados incertos.

Em suma, trata-se de uma campanha impulsionada mais pela urgência do que por uma estratégia coerente: uma tentativa de forçar resultados sem assumir plenamente os meios, os riscos e o tempo que isso exigiria.

Talvez, como adverte o jornalista britânico do The Guardian, Larry Elliott, “o Irã possa ser a guerra dos bôeres para os Estados Unidos: uma vitória vazia que marca o começo do fim do império”. A analogia não é menor. A Segunda Guerra dos Bôeres foi, em termos estritamente militares, uma vitória britânica, mas também uma guerra longa, cara e profundamente desgastante, que expôs os limites do poder imperial em um momento em que sua hegemonia começava a ser desafiada por potências emergentes como os próprios Estados Unidos.

Mais do que consolidar seu domínio, aquele conflito corroeu seu prestígio e revelou uma verdade incômoda: a superioridade militar nem sempre se traduz em controle político nem em estabilidade estratégica.

Esse é, precisamente, o risco que Washington enfrenta hoje. Mesmo no cenário de uma sucessão de êxitos operacionais, a ausência de um objetivo político claro e alcançável pode transformar a campanha contra o Irã em uma vitória tão custosa quanto estéril.