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O DSA deve romper com o Partido Democrata

30.11.2025

Parte da edição: 30.11.2025

Artigo publicado originalmente em inglês em 20/11/2025 na página da organização Left Voice dos EUA.

O DSA é a maior organização nos Estados Unidos que defende abertamente o socialismo. Ele carrega uma responsabilidade particular no processo de criar — ou impedir — a formação de um novo partido.

A vitória de Zohran Mamdani em Nova York é um momento decisivo. Um socialista democrático irá liderar a cidade mais influente dos Estados Unidos e um dos centros financeiros do mundo. Antigamente uma “cidade operária”, Nova York se tornou um bastião do neoliberalismo: a sindicalização caiu drasticamente nas últimas décadas, e o custo de vida disparou — é a cidade mais cara dos Estados Unidos e uma das mais caras do mundo. A vitória de Mamdani reflete uma rejeição massiva não apenas às políticas do neoliberalismo, mas a um status quo baseado na contínua acumulação de riqueza e poder por parte de poucos capitalistas, às custas da miserabilização, do aumento exponencial da exploração e da opressão violenta de todos os que estão abaixo. Também simboliza a ascensão de um movimento operário revitalizado nos Estados Unidos nos últimos anos, um ascenso profundamente conectado ao gigantesco levante do Black Lives Matter em 2020, no qual mais de 26 milhões de pessoas foram às ruas em praticamente todas as cidades do país para lutar contra a violência policial e o racismo.

Esse novo setor do movimento operário, com seus fluxos e refluxos, inclui uma multidão de jovens e grupos de trabalhadores que avançaram em suas conclusões políticas e enfrentam a complexa relação entre exploração e opressão. Ele é impulsionado pelos esforços de trabalhadores precarizados que estão organizando sindicatos, que escolheram voluntariamente integrar as fileiras da classe trabalhadora e dedicar suas vidas a lutar pelos direitos dos trabalhadores. Apesar dos esforços de ambos os partidos e da mídia tradicional, a classe trabalhadora voltou a ser parte da vida política nacional de um modo que não ocorria havia décadas. O apoio à Palestina e a denúncia do genocídio sinalizam uma mudança significativa na consciência coletiva contra o sionismo, o imperialismo e em favor de uma Palestina livre. Os protestos em grande escala de 2023 — as batalhas corajosas travadas contra administrações universitárias, a polícia e a extrema-direita — fazem parte da mesma força organizativa que foi central para a vitória de Mamdani.

Os millennials são a primeira geração em décadas que provavelmente terá condições de vida piores do que as de seus pais. A Geração Z cresceu confrontando uma crise capitalista agravada após a pandemia ter aumentado o desemprego, o custo de vida e após o levante do BLM ter se tornado um dos sinais mais claros de que a ordem política estava se rompendo. Essa geração de jovens também esteve na linha de frente da construção de uma posição fortemente anti-imperialista. A crescente precarização do trabalho, uma extrema-direita fortalecida, ataques aos direitos LGBTQ+ e reprodutivos, níveis históricos de depressão e solidão, e um genocídio transmitido ao vivo são apenas alguns dos ingredientes que os levaram a seguir os passos dos millennials e abraçar o socialismo em massa. Milhões de trabalhadores nos Estados Unidos chegaram à conclusão de que o capitalismo não tem nada a oferecer além de desespero. Milhões mais se mostraram abertos à ideia do socialismo.

A vitória de Mamdani também evidencia a profunda desconfiança dos eleitores em relação a ambos os partidos. O sistema bipartidário altamente antidemocrático dos Estados Unidos vem perdendo sua capacidade de conquistar a confiança política dos eleitores. O Partido Democrata enfrenta sua crise mais grave em décadas e está à procura de um caminho. Embora estas eleições possam apontar uma solução de curto prazo, as causas da crise são profundas. Ao longo dos anos, os democratas consolidaram seu papel como o partido do status quo, ancorado na política anti-Trump. Barack Obama, o presidente que gerou os maiores níveis de esperança em uma possível renovação política, terminou seu segundo mandato conhecido como o “rei dos drones” e o “deportador-em-chefe”; sua administração ainda mantém o recorde de deportações. Sob Biden, o Partido Democrata foi um entusiástico apoiador do genocídio. Do Salão Oval ao Congresso e à prefeitura, é evidente que, mesmo quando os democratas afirmam defender os interesses dos trabalhadores e dos pobres, o partido se curva a Wall Street. Mesmo comentaristas pró-Democratas precisam admitir o que é evidente para todos: a vitória de Mamdani representa um desafio ao status quo.

Essa indignação e disposição para lutar contra a ordem econômica, social e política também influenciaram o crescimento significativo dos Socialistas Democráticos da América ao longo da última década. A crise de 2008 destruiu as esperanças de mobilidade geracional ascendente. A simpatia pelo socialismo cresceu a níveis históricos após a crise econômica e as duras dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora, pelos pobres e pelos oprimidos. A campanha de Bernie Sanders nas primárias de 2015-2016 e a subsequente vitória de Trump nas eleições presidenciais alimentaram ainda mais esse crescimento, e as fileiras do DSA chegaram a mais de 90.000 membros. Muitos desses membros se organizaram para lutar pelos direitos dos imigrantes, justiça ambiental, justiça habitacional, direitos reprodutivos e contra os ataques do primeiro — e agora do segundo — governo Trump sob a bandeira do socialismo. Nesse contexto, a organização se tornou um nome familiar associado ao socialismo nos Estados Unidos. Infelizmente, a liderança do DSA optou repetidamente por ancorar a organização ao Partido Democrata — um partido capitalista e imperialista — uma escolha que trai as expectativas das dezenas de milhares de pessoas que ingressaram no DSA justamente porque queriam uma ruptura real com a ordem política que fracassou com elas e com tantos jovens e trabalhadores ao redor do mundo.

Apesar de nuances importantes, as principais organizações políticas do DSA ainda se agarram a essa estratégia. Isso é um erro grave. O regime bipartidário — e, portanto, o poder político de nossos inimigos de classe — não será seriamente desafiado se o DSA continuar nesse curso. Segundo a posição do DSA, permanecer dentro do Partido Democrata se justifica pelo acesso que ele proporciona à linha de votação — construir poder para políticas socialistas democráticas implica na acumulação gradual de forças dentro do governo. Nessa visão, a mobilização de dezenas de milhares de pessoas só é possível porque o Partido Democrata permite que candidatos do DSA disputem eleições competitivas. Consequentemente, acreditam que uma organização socialista tem mais a ganhar dentro do Partido Democrata do que fora dele. Na nossa perspectiva, ocorre o oposto. Acreditamos que é importante lançar candidaturas nas eleições como uma plataforma para defender os interesses da classe trabalhadora e dos oprimidos — e é crucial lutar pelo direito político básico de acesso às urnas para tornar essas demandas e nossos movimentos o mais visíveis possível.

O centro de gravidade de um partido socialista, porém, é a luta de classes. O surgimento de um partido socialista em nosso tempo está ligado a estimular a confiança dos trabalhadores em sua capacidade de deter os ataques do governo Trump, da extrema-direita, do sistema político e de toda a classe capitalista. É impossível levar essa luta até o fim preso dentro dos limites de um partido burguês. Defendemos que o DSA rompa com o Partido Democrata. Esse seria o passo mais promissor rumo a um partido socialista nos Estados Unidos em décadas. Permanecer dentro do Partido Democrata — seja para ter acesso à sua linha de votação ou por ilusões reais de reformá-lo e transformá-lo em um veículo da política da classe trabalhadora — inevitavelmente canaliza a energia da classe trabalhadora e da juventude para os limites desse partido capitalista. Há amplo apoio e impulso por uma alternativa política que represente a classe trabalhadora, os pobres e os oprimidos fora do Partido Democrata.

Ao permanecer no partido dos Clintons, Obama, Schumer e Pelosi, o DSA acaba, em última análise, restringindo a atividade de todos os que são céticos em relação ao capitalismo; confina essa energia a estratégias eleitorais e sindicalistas em vez de liberá-la para enfrentar a classe capitalista. É verdade que lançar candidatos fora do Partido Democrata será mais difícil; seria ingênuo acreditar no contrário, dada a natureza antidemocrática do sistema bipartidário norte-americano. No entanto, romper o DSA com o Partido Democrata injetaria força significativa na luta contra as restrições eleitorais antidemocráticas. Assim como com outras demandas centrais da classe trabalhadora, o direito democrático fundamental à representação política nas eleições nacionais, estaduais e locais será conquistado nas ruas. Não precisamos de um partido socialista no futuro; precisamos de um aqui e agora. Precisamos de um partido para organizar e participar da luta contra as políticas pró-bilionários, xenófobas e autoritárias de Trump, e contra os ataques de todo o regime bipartidário.

Um partido socialista com um programa que desafie a ordem capitalista e coloque os métodos da classe trabalhadora no centro não surgirá automaticamente a partir de uma ruptura do DSA com o Partido Democrata. Para aproveitar ao máximo o momento, é vital que o DSA e outras organizações socialistas criem iniciativas para coordenar a luta por um partido socialista da classe trabalhadora. Com mais de cem mil pessoas mobilizadas ativamente em torno de um candidato cuja vitória representa uma rejeição retumbante dos eleitores à alma capitalista do Partido Democrata, Nova York pode desempenhar um papel de liderança nesse processo. Por exemplo, poderia convocar assembleias ou reuniões nas quais diferentes organizações, ativistas independentes e simpatizantes possam debater publicamente o programa e coordenar intervenções para lutar juntos em defesa dos interesses dos trabalhadores, contra o racismo e a xenofobia, contra ataques aos direitos LGBTQ+ e contra todas as formas de opressão — com total liberdade de debate e de crítica a qualquer administração. Isso estabeleceria bases sólidas para a construção de um partido socialista da classe trabalhadora com completa independência política em relação ao Partido Democrata.

Não há caminho para a burguesia imperialista que não seja acelerar seus esforços para dividir e atacar os trabalhadores. Precisaremos de um movimento trabalhista dinâmico e fortalecido, junto com a força dos movimentos sociais, para conquistar as demandas que Mamdani foi eleito para entregar. Ao contrário do que afirma a liderança do DSA, permanecer no Partido Democrata tornará mais difícil para o DSA mobilizar seus recursos significativos para organizar a base. A luta contra a austeridade, por uma Nova York verdadeiramente acessível para todos, e contra os ataques que se aproximam contra os trabalhadores da cidade exige mobilização em massa e auto-organização de grandes setores da classe trabalhadora urbana. O DSA não pode contribuir plenamente para isso dentro do Partido Democrata, que sempre atua contra os trabalhadores e a favor dos patrões e de Wall Street. Precisamos de um partido que possa lutar seriamente para unificar as fileiras da classe trabalhadora — de pilotos a carregadores de bagagem, de motoristas a trabalhadores de armazém, de professores a zeladores, de trabalhadores internos a terceirizados, de trabalhadores documentados a indocumentados — em todas as indústrias e níveis. Precisamos de um partido para enfrentar a conformidade e a adaptação da burocracia sindical aos interesses do Partido Democrata e dos capitalistas que ele representa, e lutar pela construção de uma frente única contra os ataques dos patrões e do regime político. Sem vínculos com o Partido Democrata, um partido socialista seria muito mais atrativo para as centenas de milhares de trabalhadores que acreditam no socialismo e para os milhões que estão fartos do sistema capitalista.

Um forte anti-imperialismo corre pelas veias de um grande setor da juventude e dos trabalhadores. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas defender a Palestina nos últimos anos. O apoio à Palestina e o antissionismo tornaram-se posições centrais de um amplo setor de trabalhadores que impulsionou o apoio à Palestina dentro da política estadunidense. O apoio à Palestina está em alta histórica, enquanto o apoio a Israel está em baixa histórica. Esse sentimento tornou-se parte da solidariedade ativa de trabalhadores, vizinhos e comunidades contra as ações nefastas do ICE e em apoio aos imigrantes em Los Angeles, Portland, Chicago, Nova York e em todo o país. Não há caminho para que uma força socialista organizada cresça nos Estados Unidos estando lado a lado com o partido do “Genocida Joe”, um pilar central do regime bipartidário racista, xenófobo e imperialista. A resposta contra o ICE revelou um profundo desejo de amplos setores da classe trabalhadora e de suas comunidades de repelir as posições chauvinistas que prevalecem na grande maioria da burocracia sindical. É um poço profundo de força que deve ser mobilizado para unir ainda mais trabalhadores documentados e indocumentados, o que transformaria o cenário da luta de classes nos Estados Unidos.

Uma ruptura com o Partido Democrata também é imperativa para a democracia interna necessária para organizar nossos movimentos e o apoio às ideias socialistas. Existem inúmeras formas pelas quais esse partido, que ganhou o título de “cemitério dos movimentos sociais”, pressiona sua ala esquerda — em nome da governabilidade — a posições mais “aceitáveis” e mais “palatáveis” ao Grande Capital. Seus efeitos não se limitam às votações de seus representantes; eles são sentidos dentro do DSA. Há algumas semanas, o NYC-DSA endossou uma resolução que desencorajava os membros de criticarem abertamente a administração Mamdani — uma mensagem preventiva e pouco sutil a aqueles insatisfeitos com a aproximação de Mamdani com o establishment, especialmente a decisão absurda de convidar Jessica Tisch a permanecer como comissária de polícia da cidade. Essa foi a primeira de muitas restrições à crítica livre que provavelmente serão impostas pelo NYC-DSA.

Como pode uma organização que afirma ser socialista impedir seus membros de criticar uma administração? Mesmo que os vínculos de Alexandria Ocasio-Cortez e Jamaal Bowman com o DSA sejam frouxos, e sua relação varie conforme os interesses políticos, eles e outros membros do Congresso representam o DSA na política nacional. AOC e Bowman foram contra as demandas predominantes da base do DSA na luta pela libertação palestina, primeiro na questão do financiamento do Iron Dome (com Bowman votando a favor do financiamento e AOC mudando seu voto de “não” para abstenção) e depois em legislações que equiparavam antissionismo a antissemitismo. Eles podem ir contra as posições políticas de grande parte da base do DSA, nessa e em outras questões, porque o DSA vacila em sua relação com o Partido Democrata. Permanecer dentro do Partido Democrata nesta nova era política apenas fortalecerá as tendências burocráticas da liderança do DSA.

Um partido socialista da classe trabalhadora baseado na democracia de base não pode se desenvolver dentro dos limites burgueses do Partido Democrata. Romper com o Partido Democrata é o único caminho para garantir completa independência política em relação aos nossos inimigos de classe e as condições necessárias para uma organização verdadeiramente democrática. Além disso, esse tipo de democracia é necessária para debater o caminho à frente de nossas lutas, incluindo o que significa lutar por uma sociedade socialista livre de exploração e opressão.

O DSA é a maior organização nos Estados Unidos que defende abertamente o socialismo, e carrega uma responsabilidade particular no processo de criar — ou impedir — a formação de um novo partido. Já existem dezenas de milhares de ativistas dispostos a dedicar sua energia a um partido completamente independente dos Democratas. Aqueles que ainda depositam sua fé nos Democratas podem mudar sua posição se forem apresentados a um partido combativo que não deve nada aos patrões. Dezenas de milhares mais despertarão para a política e desenvolverão suas experiências em um ambiente político muito mais rico. A juventude e a próxima geração de socialistas merecem um novo começo, longe das correntes do Partido Democrata. Este momento exige um movimento para criar um partido socialista da classe trabalhadora independente dos Democratas — um que seja mais do que a soma de suas partes.

Socialist Alternative, o PSL, Tempest, setores do Labor Notes que acreditam ser imperativo ir além do sindicalismo, e outras organizações e coletivos devem fazer parte desse processo. Não concordamos com essas organizações em muitas questões críticas de política e estratégia, assim como elas não concordam com tudo o que o Left Voice defende. No entanto, chegou o momento para uma experiência política vibrante, na qual organizações se reúnam para organizar nossa luta unificada contra os males de um imperialismo em decadência e, ao fazê-lo, avancem para debater — publicamente e sem censura — a estratégia necessária para lutar pelo socialismo e o que está em jogo quando falamos de socialismo; em nossa visão, uma sociedade socialista só pode ser alcançada por meio de uma revolução socialista e da expropriação do capital, com a classe trabalhadora liderando os pobres e amplos setores da classe média em organismos massivos de auto-organização nas cidades e no campo.

Devemos ajudar a fomentar as condições para um partido cujo coração pulsante sejam os milhares de trabalhadores e jovens que abraçaram o socialismo e o anti-imperialismo, e cujo desejo é nada menos do que dedicar suas vidas à construção de uma sociedade livre de exploração e opressão. Como Left Voice, colocaremos nossa publicação e nossas energias políticas para apoiar esse esforço. Abrimos nossas páginas para essa discussão e convidamos você a responder a este chamado.