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O expurgo de Zhang Youxia, as dúvidas estratégicas de Pequim e o espelho norte-americano

08.02.2026

Parte da edição: 08.02.2026

A destituição do general Zhang Youxia condensa uma profunda crise: as crescentes dúvidas sobre a real preparação da China para uma guerra de alta intensidade, a dificuldade de mobilizar socialmente uma população golpeada pelas dificuldades econômicas e, em um plano mais geral, a deriva bonapartista que hoje atravessa as duas grandes superpotências, China e Estados Unidos, em um contexto de margens de manobra cada vez mais estreitas.

A destituição do general Zhang Youxia — figura central do Exército Popular de Libertação (EPL), membro do Politburo e antigo companheiro de trajetória de Xi Jinping — não pode ser lida como mais um episódio da já rotineira campanha anticorrupção do Partido Comunista Chinês. Pelo contrário, condensa uma crise mais profunda: as crescentes dúvidas sobre a real preparação da China para uma guerra de alta intensidade, a dificuldade de mobilizar socialmente uma população golpeada pelas dificuldades econômicas e, em um plano mais geral, a deriva bonapartista — tão autoritária quanto frágil — que hoje atravessa as duas grandes superpotências, China e Estados Unidos, em um contexto de margens de manobra cada vez mais estreitas.

Pequim: expurgos, medo e preparação fracassada para a guerra

O primeiro significado político do expurgo é militar. Durante mais de uma década, Xi Jinping apostou em uma modernização acelerada do Exército Popular de Libertação como suporte material de seu projeto de “rejuvenescimento nacional” e como peça-chave que permitiria à China resolver a seu favor o “dossiê Taiwan” e reposicionar-se frente aos Estados Unidos no Indo-Pacífico. Zhang Youxia foi um dos arquitetos desse processo: supervisionou o sistema de equipamentos, avalizou a expansão da Força de Mísseis e encarnou a continuidade da aristocracia militar “revolucionária”.

No entanto, investigações recentes trouxeram à luz uma realidade inquietante: capacidades de combate infladas, corrupção sistêmica e falhas técnicas grotescas — desde mísseis com tanques cheios de água até silos inutilizáveis — que colocaram em dúvida a eficácia real do arsenal chinês. Mais grave ainda, a queda anterior do ministro da defesa Li Shangfu revelou vulnerabilidades de contrainteligência que sugerem uma profunda penetração norte-americana no EPL. Em 2024, o general He Weidong, segundo vice-presidente da Comissão Militar Central — posteriormente também demitido — havia pedido medidas drásticas contra as “capacidades de combate falsas” no exército, confirmando o que apontamos. Ou poderia também referir-se a manobras “falsas” que não atingem os padrões exigidos, como os “exercícios noturnos” realizados ao entardecer. Ainda mais eloquente: embora a China tenha obtido melhorias notáveis no âmbito naval (como o lançamento do terceiro porta-aviões, o Fujian) e hoje supere os Estados Unidos em número de unidades no mar, o afundamento, nesse mesmo ano, de um submarino nuclear ainda fora de serviço não foi um sinal encorajador quanto à qualidade da tecnologia disponível em Pequim. Para Xi, obcecado com a consigna de “lutar e vencer guerras”, a conclusão foi brutal: o exército que deveria ser o instrumento decisivo de seu projeto histórico corria o risco de se tornar um “dragão de papel”, impressionante nos desfiles, mas pouco confiável no campo de batalha.

Em outras palavras, as falhas documentadas em equipamentos navais e aéreos, o histórico de acidentes graves na frota de submarinos e a maior detectabilidade acústica de suas unidades submersas revelam uma lacuna estrutural entre a inovação proclamada e a capacidade efetiva em um conflito prolongado. Soma-se a isso uma cadeia de comando fortemente politizada e uma cultura organizacional pouco testada sob pressão bélica real, fatores que limitam a autonomia tática e a adaptação em combate. Mais do que uma força militar plenamente madura, o poder armado chinês aparece hoje como um instrumento de dissuasão em rápida expansão, mas ainda frágil quando medido pelos critérios clássicos de operatividade, confiabilidade e resistência estratégica.

Nesse contexto, o expurgo de Zhang, ao mesmo tempo em que demonstra autoridade interna de Xi, constitui também uma confissão indireta de fraqueza. Longe de anunciar uma iminente aventura militar, como apontam rapidamente vários analistas com base no maior controle político do novo “Grande Timoneiro”, indica que Pequim duvida de sua própria capacidade de sustentar uma guerra real, ainda menos um conflito prolongado contra os Estados Unidos e seus aliados regionais.

A disposição social para a guerra em questão

A essa fragilidade militar soma-se uma contradição ainda mais profunda: a ausência de uma base social disposta a sustentar uma guerra prolongada. O contexto interno é radicalmente diferente do de décadas anteriores. O capitalismo chinês atravessa uma fase de esgotamento estrutural. Crescimento insuficiente para suas necessidades, crise imobiliária, desemprego juvenil massivo e colapso demográfico — com mínimos históricos de natalidade — corroem o contrato social implícito que o PCCh ofereceu durante décadas: prosperidade em troca de obediência.

A juventude urbana, presa entre precariedade e falta de horizonte, expressa um desencanto radical sintetizado na consigna “somos a última geração”. Nessas condições, pedir sacrifícios em nome de uma guerra imperial no Pacífico é politicamente explosivo. Xi sabe disso. Por isso, sua prioridade imediata não é lançar uma ofensiva externa, mas fechar fileiras internamente, esmagar qualquer autonomia do aparato militar e bloquear toda possibilidade de que as tensões sociais se articulem com divisões na cúpula do Estado.

Bonapartismo chinês: concentração de poder e medo do vazio

De uma perspectiva histórica, a guinada de Xi pode ser caracterizada como uma forma de bonapartismo tardio: concentração extrema de poder em uma figura que se eleva acima das facções, governa por meio de expurgos e arbitra entre interesses contraditórios, mas o faz sobre uma base social cada vez mais erodida. A decapitação da Comissão Militar Central — reduzida de fato a Xi e ao responsável disciplinar — expressa tanto força quanto fraqueza. Força, porque nenhum outro ator pode desafiar abertamente o líder; fraqueza, porque essa autoridade se sustenta no medo, não em uma legitimidade social renovada nem em instituições sólidas. Fragilidade agravada em Xi, que não goza da “marca histórica” dos líderes da geração revolucionária (especialmente Mao, mas também Deng) e se sente constantemente desafiado por ainda não ter consolidado um legado. A obsessão pela lealdade absoluta revela o temor permanente a conspirações, deserções ou golpes preventivos, um medo ancorado na própria história do regime. O poder se concentra porque o regime percebe que já não pode apoiar-se nem na economia nem no consenso social.

O espelho norte-americano: Trump e o bonapartismo em crise

Essa tendência não é exclusiva da China. Os Estados Unidos, em sua própria crise de hegemonia, mostram traços semelhantes. O trumpismo encarna uma deriva bonapartista dentro de uma democracia burguesa em decomposição: personalização do poder, apelo direto a uma base social reacionária e uso do aparato repressivo — especialmente contra imigrantes — como mecanismo de recomposição da autoridade.

No entanto, diferentemente da China, o bonapartismo norte-americano é estruturalmente mais frágil. O recuo parcial de Donald Trump após a resposta da comunidade e da classe trabalhadora em Minneapolis frente à sua política migratória ilustra isso com clareza. A mobilização social sem precedentes, o peso de diversos atores da sociedade civil, como as igrejas, e as contradições internas do aparato estatal impuseram limites concretos à sua ofensiva autoritária. Onde Xi pode expurgar generais e fechar fileiras sem mediações, Trump encontra resistências que o obrigam a recalibrar, recuar ou negociar; e, caso perca as eleições de meio de mandato, não se pode descartar até mesmo um possível impeachment.

Duas superpotências, o mesmo beco estreito

A rivalidade entre China e Estados Unidos não expressa a ascensão de dois projetos históricos seguros de si mesmos, mas o choque de duas potências presas em um sistema internacional em decomposição. Chantagens, pressões e compromissos parciais substituem as grandes estratégias expansionistas do passado. Nesse contexto, a guerra aberta aparece mais como uma ameaça permanente do que como uma opção racional imediata — ainda que evidentemente não esteja isenta de erros perigosos.

O expurgo de Zhang Youxia, longe de anunciar uma China lançada sem freios rumo à guerra, revela uma potência presa entre ambições imperiais e limites materiais, sociais e políticos cada vez mais duros. E, ao mesmo tempo, reflete uma tendência mais geral: o recurso ao bonapartismo como resposta de emergência à crise da ordem mundial, um recurso que pode concentrar poder no curto prazo, mas que expõe, justamente por isso, a fragilidade profunda dos regimes que o encarnam.

Em Pequim como em Washington, a autoridade se endurece porque o terreno sob os pés se torna instável. Para os trabalhadores e a juventude, a conclusão é decisiva: nem o autoritarismo chinês nem a reação imperialista norte-americana oferecem uma saída progressiva. Ambos preparam o terreno para mais repressão e mais tensões internacionais. Diante disso, apenas a intervenção independente desde baixo — social, operária e internacionalista — pode romper a lógica de guerra e bonapartismo que as potências impõem como única saída para seu próprio beco sem saída.