Estamos diante de um momento histórico. O memorando assinado entre Estados Unidos e Irã não representa uma vitória diplomática de Washington, mas sim a formalização de uma derrota estratégica que já havia se manifestado no campo de batalha. A conclusão pode ser desconfortável para aqueles que ainda pensam o sistema internacional em termos de uma hegemonia norte-americana incontestável, mas os fatos apontam para outra direção. Os Estados Unidos não conseguiram impor seus objetivos políticos fundamentais e terminaram aceitando condições que, até muito recentemente, consideravam inaceitáveis.
No entanto, o acordo constitui provavelmente a menos ruim das opções disponíveis para Donald Trump. Nesse sentido, vale recordar uma observação feita por George Kennan ao se referir à retirada norte-americana do Vietnã: “Ganha-se mais respeito perante a opinião pública mundial com uma liquidação resoluta e corajosa de políticas equivocadas do que com a perseguição mais obstinada de objetivos extravagantes ou pouco promissores”. Ao contrário de vários de seus predecessores, Trump parece ter compreendido parcialmente essa realidade. Não porque tenha abandonado as ambições imperiais norte-americanas, mas porque foi obrigado a reconhecer limites que a realidade estratégica impõe. A incógnita é se manterá essa orientação ou se tentará revertê-la sob pressão de seus aliados regionais e de setores do próprio establishment norte-americano.
Os perigos do acordo
A assinatura do memorando não elimina as causas profundas do conflito. Pelo contrário, abre um período de prova durante o qual múltiplos fatores podem provocar um novo deterioramento da situação. O primeiro foco de tensão é o Líbano. O Irã elevou consideravelmente o custo político e militar de qualquer nova ofensiva israelense. Ao mesmo tempo, Teerã busca consolidar uma nova forma de dissuasão regional que lhe permita responder a futuras provocações sem precipitar uma guerra generalizada. O equilíbrio continua extremamente frágil.
A segunda questão é o programa nuclear iraniano e o fim das sanções econômicas. Trata-se do aspecto mais complexo do ponto de vista técnico e diplomático. Qualquer desacordo sobre os mecanismos de verificação, os prazos ou o alcance das sanções pode colocar em risco o entendimento alcançado.
O terceiro elemento é o estreito de Ormuz. A exigência iraniana de que se reconheça formalmente seu controle efetivo sobre essa via marítima estratégica cria condições potenciais para futuros incidentes. Embora Teerã não reclame pedágios de trânsito, a questão afeta diretamente um dos pontos nevrálgicos do comércio energético mundial. Por isso, os primeiros sessenta dias serão decisivos.
As autoridades iranianas observam o acordo com uma mistura de esperança e desconfiança. Esperança porque uma estabilização econômica, um alívio parcial das sanções e um período de reconstrução militar são objetivos valiosos após uma guerra cujos danos foram estimados em centenas de bilhões de dólares. Desconfiança porque a experiência histórica lhes ensinou que Washington costuma reinterpretar os acordos conforme suas necessidades em cada momento.
Os limites do poderio militar norte-americano
Para além dos detalhes diplomáticos, a guerra evidenciou uma questão de alcance muito mais amplo: a crescente dificuldade dos Estados Unidos em sustentar conflitos prolongados. O Afeganistão já havia mostrado o desgaste da capacidade militar norte-americana. O Irã aprofundou essa tendência. A sociedade norte-americana carece hoje da disposição necessária para assumir guerras longas e custosas, enquanto a enorme interdependência da economia mundial multiplica os custos econômicos de qualquer escalada militar.
A campanha militar também não conseguiu alcançar os objetivos políticos iniciais. Pelo contrário, expôs limitações operacionais e estratégicas significativas, gerando uma situação que pode ser interpretada como uma humilhação para o aparato militar mais poderoso do planeta. Mais importante ainda, a capacidade de converter a força militar em resultados políticos duradouros aparece cada vez mais erodida. Os limites norte-americanos tampouco são exclusivamente militares. A guerra evidenciou restrições econômicas cada vez mais importantes. Diferentemente de outros períodos históricos, Washington já não pode travar conflitos prolongados sem considerar suas consequências sobre uma economia mundial profundamente integrada. Uma interrupção séria do tráfego no estreito de Ormuz teria provocado uma comoção energética global com consequências imprevisíveis para a inflação, os mercados financeiros e as cadeias de suprimento. Paradoxalmente, a interdependência econômica que permitiu décadas de expansão da globalização sob liderança norte-americana também se converteu em um fator que restringe sua liberdade de ação militar. Quanto mais integrada se encontra a economia mundial, maiores são os custos potenciais de uma guerra prolongada.
O reconhecimento de um novo status ao Irã
Um dos aspectos mais significativos do memorando é o reconhecimento implícito do novo lugar que o Irã ocupa no equilíbrio regional. Ao finalizar a guerra, Washington se viu obrigado a aceitar que Teerã mantenha capacidades defensivas de mísseis, preserve seu programa nuclear civil e continue desempenhando um papel relevante na configuração política do Líbano. Todas essas questões eram consideradas linhas vermelhas pelos Estados Unidos apenas alguns meses atrás. Não se trata de concessões menores. Constituem o reconhecimento prático de que o Irã não pode ser excluído da ordem regional e de que os intentos de reduzi-lo a uma potência subordinada fracassaram.
O questionamento da hegemonia marítima dos EUA
A dimensão mais profunda dessa guerra talvez seja outra. Diferentemente de derrotas anteriores sofridas pelos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial, o conflito colocou em questão o controle dos estreitos marítimos e, por extensão, o domínio das rotas comerciais globais. A hegemonia norte-americana foi construída sobre uma combinação de superioridade financeira, tecnológica e militar, mas também sobre o controle efetivo dos mares. A segurança das rotas marítimas tem sido, durante décadas, um dos pilares fundamentais da mundialização capitalista sob liderança norte-americana.
A crise em torno do estreito de Ormuz demonstrou que esse controle já não pode ser dado como garantido. Por essa razão, pode-se afirmar que estamos ingressando talvez em uma etapa pós-hegemônica. A época em que Washington podia definir unilateralmente as regras do jogo internacional parece aproximar-se de seu fim. O que virá depois ainda é incerto, mas as fissuras do velho ordenamento tornam-se cada vez mais visíveis. No entanto, uma era pós-hegemônica não significa necessariamente a substituição imediata dos Estados Unidos por outra potência dominante. Tampouco implica a desaparição do poder norte-americano. Mais exatamente, descreve uma situação na qual a principal potência mundial conserva uma superioridade militar, financeira e tecnológica considerável, mas perde progressivamente a capacidade de traduzir essa superioridade em obediência política automática.
Durante os anos posteriores à Guerra Fria, Washington podia intervir militarmente, impor sanções ou exercer pressão diplomática com a expectativa razoável de que seus aliados o seguiriam e seus adversários terminariam adaptando-se. Hoje essa capacidade encontra-se crescentemente erodida. Os aliados negociam, hesitam ou diretamente recusam acompanhar determinadas iniciativas; os adversários, por sua vez, mostram uma disposição cada vez maior para desafiar as linhas vermelhas norte-americanas. O resultado não é ainda um novo ordenamento estável, mas sim uma transição. As grandes potências, as potências regionais e até mesmo atores de menor dimensão começam a atuar sob o pressuposto de que os Estados Unidos continuam sendo extraordinariamente poderosos, mas já não são onipotentes. As demais potências tomarão nota dessa realidade e ajustarão seus cálculos estratégicos em consequência. É que, como afirmamos em abril, a guerra “também mina a dissuasão, isto é, o mecanismo central do poder norte-americano: a confiança dos aliados em sua proteção e o temor dos adversários em desafiá-lo”.
Nesse contexto, a China emerge como a principal beneficiária estrutural do conflito. Não porque tenha intervindo diretamente nem porque obtenha vantagens imediatas espetaculares, mas porque cada retrocesso relativo da capacidade norte-americana de impor unilateralmente suas decisões amplia a margem de manobra de Pequim. Enquanto Washington consumia recursos políticos e militares tentando sustentar uma guerra cada vez mais impopular, a China consolidou sua imagem como potência “prudente”, reforçou seus vínculos econômicos com o Oriente Médio e observou como vários aliados tradicionais dos Estados Unidos evitavam alinhar-se completamente com a estratégia norte-americana. Mais importante ainda, o conflito demonstrou que até mesmo uma potência da magnitude dos Estados Unidos encontra crescentes dificuldades para mobilizar coalizões internacionais em torno de seus objetivos. O isolamento político dos EUA contrasta com a guerra no Afeganistão, respaldada internacionalmente após os atentados de 11 de setembro de 2001, e até mesmo com a Guerra do Iraque, na qual, apesar da oposição da França e da Alemanha, um bom número de países se uniu à invasão de Bush em 2003.
Uma derrota diferente daquela no Vietnã
A comparação com o Vietnã, contudo, tem limites evidentes. A derrota norte-americana no Vietnã foi resultado de uma extraordinária mobilização popular e de uma resistência nacional que terminou alimentando um poderoso movimento antiguerra dentro dos próprios Estados Unidos. No caso iraniano, o desfecho teve características distintas. Teerã evitou conscientemente, devido ao caráter burguês de sua direção, apelar a uma mobilização revolucionária regional e baseou sua estratégia principalmente em suas capacidades de guerra assimétrica: mísseis, drones e controle de posições geográficas estratégicas. Tampouco surgiu um movimento antiguerra internacional comparável ao que recentemente repudiou o genocídio na Palestina. Em parte, isso se explica pelo caráter reacionário do regime iraniano, que dificulta a identificação política de amplos setores progressistas com sua causa. Não obstante, a resistência iraniana frente a duas potências militares superiores gerou simpatias em setores de vanguarda em nível internacional e poderia ter consequências políticas de médio prazo.
Do ponto de vista político e ideológico, é evidente que o regime iraniano tentará capitalizar a derrota norte-americana para reforçar sua legitimidade. No entanto, seria um erro concluir que apenas o aparato estatal se beneficiará das novas condições criadas pela guerra. Essa questão adquire especial importância se recordarmos o movimento de contestação de dezembro e janeiro e a posterior onda repressiva que se abateu sobre amplos setores da população iraniana. À primeira vista, poderia parecer que uma vitória frente aos Estados Unidos não fará mais do que fortalecer as tendências autoritárias do regime. Contudo, a realidade é mais complexa.
Ao contrário do que ocorreu durante os primeiros anos da guerra entre Irã e Iraque, as autoridades tentaram limitar ao máximo a participação popular no conflito. Ainda assim, foi o conjunto da população quem suportou os bombardeios, as privações e as consequências econômicas da guerra. E, contrariamente ao que esperava a propaganda imperialista, não se produziu uma decomposição interna nem uma deserção massiva diante da agressão externa. Nesse sentido, a derrota norte-americana transforma também as coordenadas objetivas e subjetivas da situação interna iraniana. As reivindicações por salários, condições de vida e liberdades democráticas, que inevitavelmente voltarão a emergir, o farão em um contexto distinto. A derrota do imperialismo não resolve as contradições internas da sociedade iraniana; simplesmente modifica o terreno sobre o qual estas voltarão a manifestar-se. A população terá comprovado que até mesmo a principal potência mundial pode ser contida e que as relações de força não são imutáveis.
Por isso, seria equivocado identificar mecanicamente o enfraquecimento do imperialismo com um fortalecimento ilimitado do regime. As futuras lutas sociais poderão tentar aproveitar também essa nova situação, do mesmo modo que o governo buscará utilizá-la em seu benefício. Em nível regional, as minorias xiitas do Golfo, assim como amplos setores explorados das petromonarquias, observaram que os regimes considerados invulneráveis possuem debilidades importantes. Essa constatação pode influenciar futuras dinâmicas sociais e políticas.
A fratura entre Washington e Tel-Aviv
A consequência política mais visível da guerra é provavelmente a crescente distância entre Estados Unidos e Israel. Pela primeira vez em décadas, as acusações mútuas se expressam publicamente. Desde Washington se reprocha a Israel ter contribuído para uma escalada impossível de sustentar. Desde Tel Aviv se acusa a Casa Branca de ter abandonado seu principal aliado regional. As declarações de Trump e de J. D. Vance foram particularmente reveladoras. Ambos deixaram entrever que os Estados Unidos não estão dispostos a respaldar indefinidamente novas aventuras militares israelenses, especialmente no Líbano. A mensagem implícita é clara: se Israel decidir continuar escalando o conflito e provocar uma nova resposta iraniana, não pode assumir automaticamente que contará com a mesma cobertura norte-americana que no passado.
Trata-se de uma transformação de enorme relevância política, que deixou surpreendidos o governo israelense e as Forças de Defesa de Israel (FDI). De modo geral, “os israelenses encontram-se atualmente em estado de choque, tentando assimilar a guinada de 180 graus de Trump e esperando que se trate de um tropeço passageiro, mas as coisas nunca voltarão a ser iguais” (Al-Monitor). Durante décadas, Israel construiu boa parte de sua influência internacional sobre a percepção de que dispunha de um acesso privilegiado e ilimitado a Washington. Muitos governos acomodaram suas políticas exteriores a essa realidade. Se essa percepção começar a se erodir, as consequências poderão estender-se muito além do Oriente Médio.
Isso não significa que o Estado israelense vá modificar substancialmente sua orientação, sua política a-estratégica de vingança após o 07/10/2023. Com Netanyahu ou sem Netanyahu, Israel continuará atuando em função de uma lógica baseada na busca de segurança absoluta mediante a guerra permanente. Essa orientação seguirá expressando-se em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. A diferença é que o fará com menor legitimidade internacional e possivelmente com um respaldo norte-americano menos automático. Se já antes do memorando a guerra indefinida havia levado o Estado sionista a perder quase tudo, nas novas condições isso pode ser terminal. O primeiro a pagar os custos poderia ser seu primeiro-ministro: “Segundo a fonte política israelense de alto escalão, ‘Netanyahu não tem cartas. Está em bancarrota. Contava com uma vitória total, mas acabou aceitando a rendição em três frentes: Hezbolá, Hamas e Irã. Também contava com o apoio continuado de Trump, e isso também está se desmoronando’” (Al-Monitor).
A realidade é que a guerra também expõe contradições mais profundas dentro do projeto sionista. A busca de segurança absoluta mediante uma expansão constante dos objetivos militares parece conduzir a um paradoxo: quanto mais se ampliam os frentes de conflito, mais difícil resulta alcançar a segurança buscada.
O começo de uma nova etapa
É demasiado cedo para determinar todas as consequências dessa derrota estratégica norte-americana. Mas algumas tendências já são visíveis.
Os governos que apostaram na restauração plena da hegemonia norte-americana deverão revisar seus cálculos. Isso tem implicações particularmente importantes para a América Latina, onde Washington havia tentado reconstruir mecanismos de influência inspirados em uma nova versão da Doutrina de Segurança Nacional. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento da posição israelense poderia reduzir a intensidade de determinadas campanhas de pressão política e ideológica que marcaram a cena internacional desde outubro de 2023.
Nada disso implica uma transformação imediata da situação internacional favorável ao movimento de massas. Mas indica, sim, o início de uma transição histórica. A questão decisiva não é se os Estados Unidos continuarão sendo a principal potência mundial. A questão é outra: sua capacidade de transformar sua imensa superioridade militar em resultados políticos efetivos parece cada vez mais limitada. O memorando com o Irã expressa precisamente essa contradição. Washington conserva um poder sem equivalente, mas já não pode impor sua vontade da mesma forma que há vinte ou trinta anos.
Ninguém pode prever com exatidão qual será o resultado final desse processo. O que parece claro é que o memorando não marca o fim de uma crise, mas o começo de uma nova etapa na evolução da ordem mundial. A era de um imperialismo aparentemente imbatível, que durante décadas reforçou as ofensivas neoliberais contra os trabalhadores e os povos de todo o mundo, pode estar chegando ao seu fim.