Em Wall Street, os papeis da dívida venezuelana foram a ‘aposta quente’ das primeiras semanas de 2026. O que sustentou a alta foi a “nova” política externa de Trump, importada direto das práticas colonialistas do século XIX. O ataque imperialista de janeiro alimenta a expectativa de que o país retome o pagamento de dívidas, em default[N1] desde 2017. O que está em disputa é a pilhagem da riqueza presente e a arquitetura da apropriação futura, com a dívida pública como instrumento central nessa engrenagem. Essa solução está longe de ser “só sobre a Venezuela”: é um precedente perigoso para outras economias dependentes.
Enquanto Wall Street celebrava, a população de Caracas enfrentava um aumento de cerca de 30% no preço dos alimentos. O custo da caixa de ovos chegou a ultrapassar em mais de oito vezes o salário-mínimo oficial[N2]. Para os investidores, o ataque dos EUA à Venezuela é uma oportunidade de negócio e de especulação; para a população venezuelana, significa aumento no custo de vida e fome.
A ação de Trump foi a implementação de uma nova política externa dos Estados Unidos. Essa política, que Trump chamou de “Doutrina Donroe”, significa uma virada neocolonialista focada no continente latino-americano (mas não só). Os bombardeios e sequestro em Caracas abriram a porteira da corrida de empresas, bancos e fundos estrangeiros pela apropriação das riquezas atuais e da renda futura do país[N3]. Cabe lembrar que a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, diversos minerais como ouro e uma importante parte do seu território é de floresta amazônica.
O que está em jogo na Venezuela não é apenas a mudança de governo, mas quem controlará as rendas do petróleo e em que termos o default da dívida será resolvido. Os envolvidos vão além do mercado financeiro (bancos e fundos de investimento), mas também empresas petrolíferas e mineradoras, e a China, que é a principal credora do país.
A pilhagem
A Venezuela possui uma dívida externa de pelo menos US$100 bilhões[N4]. A revista The Economist[N5] estimou que o país deve cerca de: US$60 bilhões para credores privados; US$22 bilhões para companhias de petróleo; e US$16,5 bilhões para a China[N6].
A parcela da dívida na mão dos credores privados ajuda a explicar o mecanismo central. Fundos e empresas operam dentro de uma arquitetura financeira internacional desenhada para proteger os seus interesses, em detrimento dos países periféricos.
Entre os credores privados, por exemplo, estão os fundos de investimento especializados em comprar dívidas de países em dificuldades financeiras. Essas instituições, também conhecidas como fundos abutres, têm como prática adquirir títulos em default a preços extremamente baixos para buscar o pagamento integral por meio dos tribunais ‘internacionais’ (frequentemente de Nova York ou Londres, onde os títulos globais são emitidos), muitas vezes se recusando a entrar em acordos de reestruturação de dívida.
Um dos casos mais emblemáticos desse tipo de atuação foi o do default argentino de 2001, quando o país vivia uma profunda crise econômica e social. A justiça de Nova York decidiu a favor dos fundos abutres e, em 2016, o governo argentino de Maurício Macri reconheceu juridicamente essas dívidas, firmando um acordo de pagamento de cerca de US$4,6 bilhões. Esse episódio criou um precedente perigoso para os países em crise da dívida.
No caso da Venezuela, o default de final de 2017 foi desencadeado pelas sanções financeiras dos EUA. As escolhas internas, em meio a crise econômica e política do governo de Maduro também foram importantes, sobretudo para definir a margem de manobra do governo e principalmente quem pagou a conta. O fundamental aqui é que o default não foi uma estratégia de enfrentamento do governo, ao contrário, o governo Maduro seguiu pagando a dívida enquanto pode, utilizando as reservas internacionais do país para isso.
Em meados de 2017, o primeiro governo Trump expandiu as sanções aprovadas no governo Obama, até então restrita a indivíduos. A Casa Branca passou a proibir que cidadãos, empresas e instituições sob jurisdição dos Estados Unidos concedessem novos empréstimos ao governo venezuelano e às empresas estatais, comprimindo dramaticamente a capacidade de rolagem da dívida e o acesso ao crédito.
Nos anos seguintes essas restrições foram intensificadas, com a proibição da negociação de títulos venezuelanos ou de seu uso como garantia em outras transações, bem como o congelamento dos ativos da empresa estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) e o bloqueio de qualquer transação que tivesse conexão entre a empresa estatal e o sistema financeiro estadunidense. Essas medidas, que não foram revertidas pelo governo de Biden, foram fatores centrais para inviabilizar o pagamento da dívida.
O fundo Elliott Investment Management, que recebeu sozinho US$2,2 bilhões do governo argentino, também está atuando na Venezuela. A instituição foi a ganhadora de um leilão da subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos, a CITGO, no final de 2025. A liquidação dos ativos venezuelanos foi autorizada pela justiça de Delaware (onde a CITGO está localizada), como forma de pagamento das dívidas em aberto. A venda foi fechada por US$5,9 bilhões. Segundo o governo venezuelano, que está contestando essa decisão, a CITGO é avaliada em pelo menos US$12 bilhões e gera cerca de US$5 bilhões somente de receita anual.
Dentro desse roubo institucionalizado está previsto, também, o pagamento a diversos outros credores privados, como a mineradora canadense Crystallex - a primeira a entrar com um processo desse tipo - e outras como ExxonMobil e ConoccoPhilipps. Essas empresas entraram no Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimento, o fórum de arbitragem internacional do Banco Mundial, onde ganharam decisões favoráveis, com valores maiores do que aqueles pagos pelo governo venezuelano pelas estatizações.
Atualmente, os Estados Unidos assumiram o controle direto das receitas venezuelanas derivadas da venda de recursos naturais e diluentes, basicamente a indústria petroleira do país[N7]. Com a retirada parcial das sanções, foi imposto que os recursos obtidos pela venda do petróleo venezuelano fossem administrados por instituições financeiras sob o controle dos Estados Unidos. Segundo a Reuters, esses fundos estão sendo mantidos no Catar. Além disso, cabe ao governo estadunidense a prerrogativa de definir se, quando e em que condições a Venezuela terá acesso a esse dinheiro. Um enorme ataque à independência do país latino-americano que remonta às práticas coloniais do século XIX.
Dentro desse cenário, uma questão central para esses credores é de como será tratado o default venezuelano e em quais termos: os títulos em default serão reconhecidos pelo novo governo? Se sim, quem terá prioridade no recebimento dos juros à medida que as receitas de petróleo voltarem a ocorrer: os bancos estatais chineses, a indústria petroleira dos Estados Unidos ou os fundos de investimento de Wall Street?
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, indicou que o plano do governo era de “estabilização, transição e recuperação”, mas o conteúdo de cada um desses momentos ainda está em disputa. Existem disputas dentro dos Estados Unidos em como prosseguir, setores ligados ao Partido Democrata, por exemplo, divergem na forma de implementação da política externa. As recentes disputas do Trump com o Federal Reserve dão um sinal disso. Elas transbordam na preocupação em relação ao papel do dólar como moeda hegemônica, bem como com os abalos ao arranjo macroeconômico neoliberal. Por outro lado, há as empresas de petróleo, que, ainda que tenham diferenças na questão dos investimentos para Venezuela, estiveram desde o início apoiando o governo trumpista.
Além disso, o default também toca nas disputas com a China, que é a principal credora individual. Os dois países elevaram sua relação ao status de parceria estratégica de longo prazo em 2023, o que significa planejamento de investimentos em infraestrutura, energia e outros setores. Ainda que tenha declinado desde 2018, a China segue com investimentos na infraestrutura crítica da Venezuela, como irrigação para a agricultura, energia, portos[N8].
Parte dos empréstimos concedidos pela China vinha sendo paga em petróleo, utilizado como forma de amortização da dívida. Mesmo com as sanções, a Venezuela continuou exportando para o país asiático, cobrando preços abaixo do mercado.
A estratégia chinesa de receber pagamentos em commodities - ou seja, pela via de contratos comerciais e sem recorrer ao dólar - não se restringe à Venezuela e vem sendo adotada em relações comerciais com diversos países. O país também prioriza acordos bilaterais de comércio e de investimento. Esse arranjo incomoda os Estados Unidos porque reduz o poder do dólar como moeda-chave nas transações internacionais.
Diante do controle dos EUA sobre a receita do petróleo venezuelano, Trump cinicamente declarou que avaliaria pessoalmente o uso desses recursos para “garantir que sejam usados para beneficiar os venezuelanos”. Também afirmou que o petróleo poderia ser vendido à China, mas a preços de mercado e em dólar. Trata-se, portanto, não apenas de uma disputa pelo controle do petróleo, mas também por esse modelo de investimento chinês adotado em diversos países.
Considerando que o ataque dos EUA expressa uma nova forma de política externa e que o governo chinês vem expandindo sua rede de países no Sul Global por meio de acordos de financiamento e empréstimos, a solução desenhada para a Venezuela torna-se central pelo precedente que abre sobre como poderão ser negociadas dívidas soberanas em casos de intervenção externa. A China pode buscar assegurar o pagamento de seus empréstimos, mas também pode enfrentar resistência. Um conflito desse tipo poderia levar Pequim a bloquear renegociações de dívida de outros países emergentes, ampliando os riscos para o sistema financeiro internacional.
Quem paga as dívidas?
O endividamento público costuma ser tratado como uma questão técnica, de finanças públicas, importante para a sustentabilidade fiscal e boa gestão estatal. No entanto, essas visões técnicas escondem o papel de instrumento político que a dívida pública possui, com profundas implicações distributivas. Um título da dívida pública garante ao seu detentor o direito sobre uma parcela da riqueza futura gerada por um país, transferindo renda dos trabalhadores e da população pobre para os credores. Não por acaso a dívida externa é historicamente um dos mecanismos centrais de pressão imperialista e de dominação entre países.
O caso venezuelano explicita esse funcionamento de forma particularmente aguda. Não apenas pela maneira como o default ocorreu, mas também porque nela pode-se ver as práticas do capital financeiro internacional e, sobretudo, a disputa entre Estados Unidos e China pelo direito às suas riquezas e renda futura.
É desenhado um caminho de entrega das enormes riquezas da Venezuela, do petróleo, dos minerais e da vasta região amazônica ao sul do país. A entrada na Venezuela é, também, uma porta de entrada para a floresta Amazônica. Esse caminho significa um neocolonialismo no continente latino-americano. E a dívida pública aqui não é consequência, mas é instrumento, pode ser o método para realizar essa entrega.
Seja na versão protetorado de Trump, seja como tutela via FMI (a saída preferida pelo mercado financeiro), seja no reordenamento pró-China com a entrega do petróleo, ou seja pela privatização interna levada a frente por Delcy Rodriguez, as saídas que dominam o debate são as que renovam e aprofundam a dependência, empurrando os custos para a população que já vive uma situação dramática no país.
O quinto caminho é outro, é de enfrentar as opções em jogo com, por exemplo, um default que seja uma decisão política de questionamento da dívida como instrumento de espoliação do país. Um default que sirva como primeiro passo para colocar a economia em função daqueles que mais precisam, não em função dos lucros privados. Não se trata apenas da Venezuela, é também o precedente aberto a todos os países dependentes. Construir esse caminho depende de uma forte solidariedade internacional para organizar e mobilizar uma resposta anti-imperialista. Esse é o desafio colocado.