A resistência das mulheres palestinas: um germe de irrupção política
O movimento nacional pela liberdade da Palestina se popularizou entre 1976 e 1981. Isso significava que, no momento em que as massas se levantam contra a ocupação sionista, as mulheres palestinas travavam uma luta em duas frentes: por um lado contra a operação imperialista e colonial do sionismo; e, por outro, pela libertação da mulher dentro de um regime colonial com práticas profundamente segregacionistas e patriarcais.
Muitos relatos expõem os espancamentos, abusos verbais e assédios sexuais às quais eram expostas, sendo o setor mais vulnerável ao uso de técnicas patriarcais estratégicas dentro da política de ocupação. A opressão às mulheres era um pilar essencial da política sionista e os corpos femininos se tornam miras de alvo: cultural e politicamente, se tornam armas de resistência, mas também armas do inimigo para controlar um povo inteiro, já que o crescimento da taxa de natalidade e crescimento da população palestina significa uma ameaça para o Estado de Israel.
A luta contra o feminicídio, a violência doméstica, o sexismo e a exploração entre as mulheres palestinas se tornam parte contundente da luta contra o sionismo, e a luta anticolonial é germe para uma luta contra a opressão de gênero entre os próprios árabes.
As palestinas na greve de 1936
A historiadora Ellen Fleischmann recolheu em sua obra The Nation and Its “new” Women: The Palestinian Women’s Movement, 1920-1948 preciosos e corajosos relatos da organização das mulheres palestinas na luta anticolonial. Em 1929, a Associação de Mulheres Árabes realizavam seu primeiro Congresso de Mulheres Árabes que reuniu mais de 200 mulheres, que criaram comitês nacionais com o intuito de debater como fortalecer a luta palestina, muitas delas casadas com homens envolvidos na luta nacionalista e que se envolviam na luta anticolonial por essa via.
Fleischmann conta que essas mulheres organizavam reuniões em que discutiam e votavam resoluções para lidar com a luta palestina, levando até o alto comissante, fazendo passeatas no caminho de volta com o intuito de apresentá-las para a população. Em um exemplo de auto-organização, elegiam comitês que eram responsáveis por aplicar as resoluções tiradas pelo Congresso.
Em 1936, uma greve geral é deflagrada:
“Foi uma greve real. Nenhuma única loja esteve aberta por seis meses, nenhuma escola, nada. Nenhum transporte a não ser se você tivesse um burro ou um cavalo… foi uma greve real que mostrou para o mundo tudo o que estava acontecendo na Palestina.”
Muitos dos rebeldes fugiam para morros e montanhas entre as batalhas que travavam contra a ocupação sionista, e eram recebidos por mulheres que garantiam ajuda médica, água e comida. Muitas delas foram mortas carregando água para os feridos ou enquanto avisavam rebeldes de ataques que vinham pelas montanhas.
As jovens estudantes discursavam em mesquitas e organizavam fortes greves estudantis, evitando que outros estudantes fossem à escola e causando tantos problemas que a polícia ameaçava fechá-las. No dia 05 de maio, organizam uma reunião de 600 meninas, que elegem um comitê executivo com meninas de diferentes locais, que decidem por invadir as escolas e boicotar produtos estrangeiros. A Associação decide por uma manifestação pacífica, mas as meninas se negam: saem em marcha pelas ruas de Jerusalém com uma bandeira árabe, cercadas por jovens que atuavam como seus guardas. Os meninos foram separados e agredidos pela polícia, mas as meninas seguiram marchando até apresentarem suas resoluções para o governo oficial.
As palestinas na Primeira Intifada
Anos depois, em 1987, os palestinos protagonizam a Primeira Intifada, a primeira a se enfrentar frontal e militarmente contra a ocupação sionista. Os primeiros seis meses foram a fase espontânea da Intifada: as mulheres ajudavam os rapazes quebrando rochas e carregando cestas para distribuí-las, discutindo com soldados israelenses para liberar os meninos presos.
Suha Sabbagh conta, em seu livro Palestinian women of Gaza and the West Bank, que esse momento marca uma nova participação das mulheres na vida política, o que as levam a questionar os valores tradicionais e o papel da mulher na família. Suas prioridades mudam: de proteger suas casas e valores para arriscar tudo para acabar com a ocupação. As mulheres palestinas foram pressionadas a deixar esses interesses de lado até a libertação, mas as mulheres que lutavam lado a lado dos homens - mas que mesmo assim tiveram pouco progresso na sua independência - decidiram que “os interesses da Palestina e os direitos das mulheres eram inseparáveis”.
Nesse período, foram protagonistas de grandes exemplos de organização da luta dos palestinos, organizando arrecadações, comitês de trabalho de mulheres, que chamavam os trabalhadores em ação quando era convocada uma greve, comitês populares, centros de pesquisa de mulheres, cooperativas de comida e cooperativas de produção organizadas inteiramente por mulheres, que produziam comidas e produtos para abastecer os palestinos frente ao boicote de produtos israelenses, em que elas eram donas de todos os estágios do processo produtivo e dividiram os lucros.
Um estudo chegou a indicar que era perigoso para os homens participar em marchas sem mulheres. Em um relato, Sabbagh conta:
“Em uma ocasião, um homem nos seus vinte e poucos anos estava sendo espancado por soldados. Uma mulher correu até ele com seu bebê nos braços e começou a gritar com ele, dizendo ‘eu te disse para não sair de casa hoje, que essa situação é muito perigosa. Mas você não ouviu, você nunca escuta’. Ela olhou com nojo para os soldados e, dizendo para que continuassem batendo nele, chorou e disse “estou cansada de você e do seu bebê, leve ele e me deixe em paz”, deixou o bebê nos braços do rapaz e correu. Os soldados saíram logo depois, confusos com a cena. Alguns minutos depois, a mulher reapareceu, pegou seu filho, e desejou ao rapaz segurança e uma recuperação rápida. Eles eram totais estranhos.”
Em março de 1988, chegaram a acontecer, semanalmente, cerca de 115 marchas de mulheres, depois de diversos abortos espontâneos causados pelos gases usados pelo Estado israelense.
As mulheres palestinas transformaram as suas responsabilidades com suas famílias em responsabilidades com toda a comunidade. Ainda assim, a mudança era mínima, e eram muito restringidas pelas famílias. Sabbagh conta o caso de uma menina que era proibida de sair de casa pela família mas, depois que é presa pelo exército israelense, isso muda. Em 1988 e 1989, as mulheres se voltam contra a obrigatoriedade do Hijab imposto pelo movimento islâmico.
Sabbagh analisa que a família palestina ainda estava intocada e hierarquizada, mas entre os fatores econômicos, a migração urbana e a entrada das mulheres no mercado de trabalho garantem maior independência para as mulheres.
Uma perspectiva estratégica para a emancipação das mulheres
As obras citadas são, decerto, contribuições para toda a classe trabalhadora internacional e a luta de todas as mulheres dos países oprimidos que todos os dias se levantam contra o imperialismo e a opressão de gênero. Os bravos relatos das jovens que organizavam os estudantes nas suas escolas, das mulheres que organizavam seus próprios meios de produção, das mães que arriscaram a vida dos próprios filhos em nome da luta anticolonial, mostram que são os que as que mais sofrem pelo velho são as que mais lutam pelo novo. Em uma história tão marcada pela morte e a opressão, elas devem ser a primeira faísca, o lampejo que é prenúncio de uma tempestade, que inspire a luta da classe trabalhadora contra a opressão e o imperialismo dos povos oprimidos de todos os países.
Essas mulheres são exemplos moleculares de como a luta é o único caminho para a emancipação das mulheres: é um exemplo prático de como a experiência unitária, de homens e mulheres que lutavam lado a lado, de mulheres que deixavam seus lares para lutar pela libertação palestina, fez avançar a consciência dos setores mais atrasados que reproduziam a opressão das mulheres. Sabbagh afirma nesse sentido que, “ao oferecer oportunidades igualitárias na luta e ao aumentar a consciência social e política, o movimento nacional permitiu um ambiente novo e mais democrático para substituir a organização familiar tradicional” (p. 118).
Os comunistas e marxistas têm muito a contribuir para essa reflexão. Clara Zetkin, em 1926, escrevia em seu texto No clube das mulheres muçulmanas sobre o clube feito pela divisão de mulheres do Partido Comunista da União Soviética, unicamente para as mulheres muçulmanas da União Soviética. Longe de acreditar que a opressão de gênero acabaria única e exclusivamente pela tomada do poder, acreditamos que esse primeiro passo é que dará as bases materiais para libertação completa delas. Zetkin relata o sentimento que sentiam o setor mais oprimido da época, e que certamente ecoará pelos corações das mulheres palestinas com a tomada do poder da classe trabalhadora internacional:
“Entre elas, estava uma jovem camarada que mal conseguia falar de emoção. Uma alegria indescritível sobre sua nova estima e posição como mulheres e sua incorporação na comunidade mundial de lutadores pela liberdade, mistura-se com uma gratidão ardente pelo trabalho redentor da revolução proletária e do sistema soviético. Juramentos sagrados que prometem a construção e proteção das repúblicas soviéticas são ouvidos, bem como o serviço à revolução mundial. Mas as lembranças de sofrimentos indescritíveis, humilhações e amarguras também emergem de suas falas. Deverá esse horror retornar e se tornar o destido esmagador da filha florescente? O público que escuta com atenção exclama apaixonadamente: ‘Melhor morrer do que sofrer tal destino mais uma vez!’”. (p. 276)