A publicação gerou artigos e colunas de opinião em tom de alerta: “os homens jovens estão cada vez mais conservadores”. Isso não seria surpreendente se já não estivéssemos lendo, há alguns anos, artigos e colunas de opinião sobre resultados eleitorais e tendências nas redes sociais; mas o mais chamativo desses “sinais de alerta” é que quase não aparecem reconhecimentos de que esse conservadorismo é, em parte, resultado de narrativas da direita e da extrema direita que vêm canalizando o descontentamento com o neoliberalismo, especialmente entre homens jovens.
Entre as respostas mais comentadas estão: um terço dos homens da geração Z (pessoas nascidas entre 1996 e 2012) acredita que a esposa deve obedecer ao marido — o dobro dos baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964), entre os quais predominam visões tradicionais sobre a tomada de decisões dentro do casamento. Essa relação se repete em questões como o fato de que 24% dos homens jovens entrevistados acreditam que as mulheres não deveriam se mostrar independentes ou autossuficientes (12% entre os boomers), ou que uma “verdadeira mulher” não deve iniciar relações sexuais (21% dos centennials contra 7% dos boomers).
A pesquisadora Heejung Chung, do King’s College, aponta para um acúmulo de frustrações e o medo dos homens de perder posições sociais, não apenas econômicas, mas também de autoridade e status. “Existe um vazio”, explica Chung, “que é preenchido por retóricas e vozes que colocam os homens jovens contra a igualdade de gênero, contra mulheres jovens e migrantes”. Essas “retóricas e vozes” são lideranças e partidos de direita, que exploram medos e frustrações — e só quando se traduzem em opções eleitorais começam a acender sinais de alerta em setores do establishment político e midiático. Trata-se de uma sequência conhecida em países tão distintos como Reino Unido, França, Espanha, Estados Unidos, Coreia do Sul ou Argentina. Com semelhanças e diferenças, os últimos anos mostraram como novas e antigas direitas canalizaram o descontentamento com governos que aplicaram políticas econômicas neoliberais enquanto se apropriavam de agendas progressistas (com algumas políticas públicas pontuais e a incorporação de discursos feministas e do movimento LGBT).
Essa apropriação (útil para legitimar agendas econômicas antipopulares) talvez explique grande parte da percepção de que a igualdade de gênero “foi longe demais” e a identificação negativa da luta contra a opressão. Mais da metade das pessoas entrevistadas (52%; 58% entre homens e 47% entre mulheres) acredita que a promoção da igualdade acabou discriminando os homens. Esse percentual médio encontra picos em países como Argentina (60%) ou Chile (65%), onde o antifeminismo alimentou a alternância eleitoral para a direita, mas também no México (66%) ou na Colômbia (61%), onde essa percepção não se traduziu da mesma forma. Essa ideia convive com outra que pode parecer contraditória: 54% acreditam que as mulheres não alcançarão a igualdade de gênero a menos que haja mais mulheres em posições de poder na política e nas empresas.
A propósito da ideia de que “as coisas foram longe demais” (em sintonia com “passaram dos limites”), a frase escolhida pelo estudo da Ipsos (“Quando se trata de dar às mulheres igualdade de direitos em relação aos homens, as coisas foram longe demais no meu país”) contribui, de certa forma, para a narrativa cujos resultados depois são apontados com preocupação. Em outro sentido, o estudo argentino do Centro de Estudos de Estado e Sociedade sobre gênero e direitos sexuais fez uma pergunta diferente: “Quanto mais você acha que ainda precisa ser feito para garantir a igualdade de direitos de todas as pessoas no país?”. Em média, 80% responderam “muito” (85% das mulheres e 75% dos homens), e o estudo apresenta vários achados nas respostas sobre o quanto o Estado deveria se envolver em temas relacionados à violência de gênero ou à saúde sexual, entre outros. Um dado importante é que o estudo foi realizado durante o primeiro ano do governo de Javier Milei, em meio a uma intensa batalha cultural antifeminista.
A forma de formular as perguntas reforça percepções que foram alimentadas durante anos, enquanto o trabalho se precarizava e as condições de vida da maioria se deterioravam. Ao se reproduzir em um contexto específico (sociedades capitalistas), a desigualdade de gênero não funciona de forma isolada das condições materiais; no entanto, narrativas de diferentes orientações costumam separá-las — seja para se apropriar de determinadas agendas, seja para transformá-las em combustível de disputas culturais. Dois exemplos que ilustram esse uso são o último governo da coalizão Frente de Todos (Argentina), que investiu em políticas simbólicas e algumas políticas públicas sobre violência com orçamentos limitados, e o governo atual de La Libertad Avanza, que expressou sua “batalha cultural” na extinção do Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade, sob o discurso “contra a casta” e o “negócio” do feminismo — tendo como principais prejudicadas as mulheres pobres, com a eliminação de um apoio econômico modesto às vítimas de violência de gênero e o esvaziamento dos canais de atendimento.
Entre a nostalgia e a incertezaO apelo de papéis de gênero e modelos de família tradicionais também canaliza grande parte da insatisfação com a vida no neoliberalismo. Discursos reacionários têm explorado de forma eficaz a ideia de que a maioria vive pior porque o feminismo e o movimento LGBT destruíram a ordem social “natural” ao questionar os papéis do homem provedor e da mulher mãe/dona de casa com a chamada “ideologia de gênero”. A partir disso, propõem um retorno a um “passado melhor”, livre dos problemas e contradições atuais (cujo responsável direto continua sendo o capitalismo, a força mais eficaz para destruir a família, parafraseando o sociólogo Göran Therborn). Mas esses discursos, que impactam especialmente os homens jovens, não surgem do nada nem são inevitáveis. Durante anos, foram incentivados (ou não combatidos) como contraposição à mobilização de mulheres, pessoas LGBT, migrantes e outros grupos oprimidos. A isso se soma a amplificação nas redes sociais e nos meios de comunicação (que muitas vezes privilegiaram vozes “outsiders” da direita por interesse comercial e político, enquanto algoritmos têm sido apontados como terreno fértil para discursos de ódio).
Nesse mesmo contexto de insatisfação com a vida contemporânea, os feminismos (com suas diferenças internas) ofereceram reflexões coletivas, espaços de debate e novas formas de pensar a identidade para mulheres e pessoas LGBT, rompendo com papéis tradicionais e questionando a naturalização da opressão de gênero. Diante dessas mesmas sociedades desiguais e violentas, os homens jovens — também afetados por estereótipos patriarcais e por papéis tradicionais em crise — passaram a encontrar algumas respostas em lideranças políticas, influenciadores e comunidades digitais conhecidas como “manosfera”.
Um breve parêntese: houve muitas discussões sobre o lugar dos homens nos feminismos. Durante anos, correntes feministas de esquerda, socialistas e anticapitalistas buscaram destacar o caráter emancipatório da luta contra a opressão e questionaram abordagens essencialistas que enfraqueciam alianças sociais. Ainda assim, apesar dessas divergências e de práticas criticadas dentro do próprio movimento, os feminismos não foram responsáveis pelo sentimento de exclusão que alimentou a simpatia por discursos reacionários. Esse sentimento decorre do próprio desenvolvimento das sociedades capitalistas, nas quais já não há espaço para o antigo papel do homem provedor (economicamente inviável) nem para o homem dominante (cuja autoridade baseada na violência é hoje questionada), ao mesmo tempo em que há escassez de modelos alternativos de masculinidade para jovens que não se identificam com o feminismo.
Foi para esses homens que falaram figuras como Andrew Tate, Jordan Peterson e versões locais como Agustín Laje, na Argentina: ofereceram respostas, explicações para suas frustrações e, sobretudo, culpados (feministas, pessoas LGBT, mulheres pobres, migrantes). Os discursos antifeministas também cresceram como reação ao que algumas narrativas apresentam como “privilégios”. No livro A vida emocional do populismo, a socióloga Eva Illouz fala de “privilégio ressentido”, uma “ferida sentida por grupos que reivindicam privilégios perdidos ou denunciam o privilégio de outros”. Para a maioria dos homens, não se trata exatamente de privilégios, mas de perda de status — individual ou coletivo —, não apenas econômico, mas também de reconhecimento e autoridade social. Essa perda está ligada à precarização do trabalho, ao desemprego e à dificuldade de sustentar o lar com uma única renda masculina.
A circulação de conteúdos antifeministas na internet ocorreu em um contexto marcado pelas mudanças nas formas de sociabilidade trazidas pela pandemia, além da precarização, destruição e privatização de espaços públicos, que favoreceram o isolamento. O enfraquecimento dos laços comunitários tornou mais fértil a recepção de discursos baseados no ódio e no ressentimento. Essas explicações se encaixaram bem na percepção de que os homens vivem pior por culpa das mulheres e de suas mobilizações — uma narrativa funcional para a reprodução de sociedades cada vez mais desiguais.
A geração Z é de direita?
A resposta fácil e reconfortante para muitos é sim: haveria apenas jovens de direita, prontos para serem conquistados por diferentes interesses. Mas a realidade é mais complexa. O que caracteriza essa geração é a polarização política, o aumento da diferença de posicionamento entre homens e mulheres e uma diversidade de fenômenos políticos. A polarização é uma marca do nosso tempo, e a geração Z não é exceção. Quando se fala em “juventude de direita”, geralmente se faz referência a fenômenos eleitorais que envolvem especialmente homens jovens — mas cujas causas vão além da influência da “manosfera”.
Sobre a diferença de gênero, o estudo da Ipsos aponta que 55% acreditam que as jovens terão uma vida melhor que a das gerações anteriores; entre os homens, porém, o otimismo é menor (40%) e vem diminuindo. A antropóloga e jornalista espanhola Nuria Alabao explica que discursos reacionários partem das dificuldades enfrentadas pelos jovens ao se tornarem adultos em um contexto de crise habitacional e precarização, o que os mantém dependentes dos pais por mais tempo. Isso se cruza com questões de gênero e com a redefinição do que significa ser homem hoje, em uma sociedade transformada pelo feminismo.
Ainda assim, essas tendências não são um destino inevitável. Há diversos exemplos de politização dessa geração, como mobilizações internacionais, protestos e participação ativa em causas sociais e políticas. Ignorar esses fenômenos — tão relevantes quanto certos resultados eleitorais — reforça a ideia equivocada de que a juventude se tornou de direita por falta de alternativas. O problema dessa visão é que ela implica abrir mão da disputa política e de ideias justamente em uma geração que cresceu vendo as promessas não cumpridas do capitalismo.