Para além dos contornos finais do que seria o encontro de negociação, o pronunciamento amistoso de Trump causou efeito imediato no país. Lula se fortalece como aquele que “não cedeu” à pressão trumpista, e agora colhe os frutos entregues por Trump, diante da pressão inflacionária da economia norte-americana (puxada também pela alta de produtos brasileiros importantes da pauta de consumo, como o café e a carne bovina).
Analistas da grande imprensa, como Merval Pereira e Guga Chacra, deram Lula como vencedor, e as hostes bolsonaristas como perdedoras da jornada. “Jair Bolsonaro não foi citado. Pior, o maior ídolo do bolsonarismo fez declarações positivas sobre Lula, maior adversário político do ex-presidente brasileiro”, disse este n’O Globo. No Valor, Maria Cristina Fernandes afirma que "Depois de perder o monopólio das ruas, o bolsonarismo agora perdeu também o monopólio da interlocução com Donald Trump". A Folha de S. Paulo anuncia que os próprios bolsonaristas enxergam a situação assim, um de cujos expoentes se expressa em termos menos sutis: “um eventual acordo comercial de Lula com Trump arrebenta de vez o Eduardo".
Eduardo Bolsonaro, lambe-botas do movimento Make America Great Again de Trump, e instigador das tarifas retaliatórias dos Estados Unidos como proteção de Bolsonaro, teve de amargar outro revés: Hugo Motta, reacionário presidente da Câmara, desautorizou sua nomeação a líder da minoria no Congresso.
Apesar dessa leitura, nada está garantido nas negociações com Trump. O imperialismo norte-americano intervém agressivamente na política latino-americana, entre navios de guerra no Mar do Caribe, auxílio financeiro ao capacho argentino Javier Milei e a crescente ameaça intervencionista no Brasil. As negociações seguirão logo após Trump acionar mais uma vez restrições de vistos e sanções financeiras da Lei Magnitsky contra alvos brasileiro. A avaliação de que o governo Trump tem interesse em um armistício, uma vez que está sendo pressionado internamente e que o mercado americano começa a cobrar uma resposta, não expressa ainda a totalidade da situação. Trump deseja aparecer como o árbitro da América Latina, contra rivais geopolíticos como a Rússia e a China. Enxerga a defesa de seus aliados regionais como algo fundamental. Referindo-se ao Brasil, disse que “eles só podem fazer bem quando estão trabalhando conosco. Sem nós, eles vão falhar, como outros falharão”. Marco Rubio segue com contínuas ameaças, nefastas, contra a soberania política do país.
A esperança em negociações pacíficas com os Estados Unidos é o canto de sereia daqueles que temem como a peste a luta independente da população pobre e trabalhadora com seus próprios métodos. Efetivamente, a luta anti-imperialista se dá nas ruas e nas greves, nos locais de trabalho e estudo, não nos saguões diplomáticos da ONU ou reuniões bilaterais com o próprio Trump.
Na Assembleia, Lula disse que “a democracia e a soberania brasileiras são inegociáveis". Pelo contrário, a manutenção das relações de submissão estrutural do Estado brasileiro pela política do governo, como a garantia fiel de pagamento da dívida pública, a permissividade às Big Techs ianques ou a oferta de acesso dos EUA aos minerais estratégicos do Brasil, facilitam as chantagens dos Estados Unidos. Mauro Vieira, chanceler brasileiro, ressaltou a significação dos investimentos dos Estados Unidos na economia brasileira, em um movimento de sedução retórica pouco convincente para quem está sendo atacado tarifariamente pelo imperialismo.
Lula também falou contra o genocídio em Gaza. Denunciou a política de extermínio de Israel. Frases corretas que, entretanto, não podem bastar quando se trata de uma limpeza étnica: dois anos de massacres do colonialismo sionista ainda não levaram o governo Lula-Alckmin a romper relações econômicas, militares e diplomáticas com o assassino Netanyahu. O que mais se espera? O petróleo brasileiro foi denunciado por Francesca Albanese e pela comissão de investigação da ONU como combustível para a máquina genocida de Israel, como também viemos denunciando no Esquerda Diário e junto ao Sindipetro-RJ. O Brasil continua exportando aço para Israel, através da empresa Villares Metals. A AEL Sistemas, subsidiária da Elbit no Brasil, segue presente em projetos universitários e de defesa.
Basta de palavras. É necessária a ruptura imediata com Israel. Os italianos mostraram o caminho: com uma das maiores greves gerais da sua história nas últimas décadas, bloquearam o país pela Palestina. Diante das menções verbais de reconhecimento nos salões das Nações Unidas, a classe trabalhadora e a juventude na Itália paralisaram trens e metrôs, universidades e portos, em Roma, Milão, Bolonha, Gênova, Livorno e em todo o país. São um exemplo. É preciso construir uma grande mobilização internacional em defesa do povo palestino, enfrentando o imperialismo.
Lula também defendeu a Amazônia e o meio ambiente, em um prelúdio da COP-30 em Belém. “Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta.” Está mais do que claro que as potências imperialistas não têm qualquer interesse em reduzir a já dramática escala de aquecimento global. Alemanha, França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos, alguns dos personagens da atual campanha de militarização mundial, agravam a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa (dióxido de carbono, metano, etc.) com sua indústria militar. As catástrofes militaristas e genocidas que organizam são responsáveis pela contaminação dos ciclos bioquímicos.
E o que dizer da proposta de Lula de exploração do petróleo na Margem Equatorial, pondo em risco a Foz do Amazonas em função dos lucros de multinacionais imperialistas como a Shell? Um programa de defesa do meio ambiente passa pela emancipação das amarras comerciais com os Estados imperialistas, o ataque profundo os interesses extrativistas do grande capital e do latifúndio internamente ao país, a expropriação das grandes propriedades agrárias e a reversão dos recursos pagos na fraudulenta dívida pública para medidas urgentes de recuperação ambiental. As greves da construção civil em Belém são um grande exemplo desse combate, assim como as lutas travadas pelas populações indígenas contra o garimpo e contra ataques como o Marco Temporal.
Lula propagou a reforma da ONU, além de mencionar a importância do multilateralismo — pauta recorrente em seus discursos durante viagens internacionais e em outras edições da assembleia. "A voz do Sul Global deve ser respeitada e ouvida. A ONU tem hoje quase quatro vezes mais membros do que os 51 que estiveram na sua fundação. Nossa missão histórica é a de torná-la novamente portadora de esperança", afirmou. Trata-se da reforma da instituição comandada pelos Estados Unidos, surgida com o início da Guerra Fria, que deu origem ao Estado sionista de Israel e que buscou afiançar as posições destrutivas do imperialismo. Não há reforma possível na ONU. Tampouco China e Rússia, Estados capitalistas rivais de Washington, comportam qualquer alternativa progressista diante da decadência hegemônica dos EUA. Na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, não encontraram nenhum momento para criticar o genocídio em Gaza e romper relações com Israel. Nem Putin, nem Xi Jinping são “aliados” no enfrentamento a Trump: são co-partícipes da desordem capitalista mundial. Enfrentar os Estados Unidos exige total independência da armadilha estadocêntrica dos blocos capitalistas rivais.
Em seu repúdio ao nefasto intervencionismo de Trump em prol de Bolsonaro, Lula disse que “Não há pacificação com impunidade”. Não há dúvida que Bolsonaro e os golpistas devem ser exemplarmente punidos. Como vimos nos importantes atos de domingo, centenas de milhares foram às ruas no país por nenhuma anistia a Bolsonaro e a todos os golpistas e contra a PEC da Blindagem. Em que pese o grande esforço das direções governistas em canalizar a insatisfação popular para fortalecer instituições do regime, as manifestações deste domingo colocam um novo signo sobre a conjuntura. Lula se apoia no clima nacional que está de fundo dessas manifestações para seguir sua retórica contra Trump, cuja mudança de discurso também não está descolada dessa conjuntura no Brasil. Entretanto, na prática a política governista está aberta a negociar uma anistia “light”, como declarou Edinho, presidente do PT. Ou seja, a política de Lula anda na contramão do anseio popular contra a impunidade à extrema direita golpista.
Mas esse combate ao golpismo e ao pacto de impunidade de militares e da extrema direita não poderá vir das mãos do Supremo Tribunal Federal. O bonapartismo judiciário foi um pilar do golpe institucional de 2016, atuou junto aos militares pela prisão arbitrária de Lula em 2018 e foi parte de aprovar reformas, como a Lei de Terceirização Irrestrita e as privatizações de Bolsonaro. Os “togados” do STF formaram maioria em favor das repugnantes escolas cívico-militares de Tarcísio de Freitas em São Paulo, tendo seus ministros votado pelo mecanismo da Reforma da Previdência que ataca a aposentadoria por invalidez. Como se não bastasse, o ministro Gilmar Mendes não se cansa de arremeter contra as leis trabalhistas (numa Corte que já aprovou a Reforma Trabalhista de 2017): a CLT estaria “ultrapassada” e os direitos trabalhistas são um entrave para a geração de empregos.
Nenhuma soberania pode ser defendida com os tribunos da agenda econômica do imperialismo estrangeiro no Brasil. Como viemos dizendo nesse Esquerda Diário, é necessário seguir levantando o principal grito das ruas: Sem Anistia! Nenhum perdão a Bolsonaro, aos militares, empresários e a todos os golpistas do Congresso! Fora Trump! Com absoluta independência política do STF e do Judiciário, a extrema direita só pode ser derrotada nas ruas, inspirados nos ares que vem da luta de classes na França, na Itália, no Nepal e nas Filipinas.
Para superar a política de desvio e garantir que a força da insatisfação popular possa se organizar e derrotar a extrema direita, é preciso exigir das centrais sindicais que organizem uma greve geral, apoiando-se nas ruas e nas lutas em curso, contra Trump, por nenhuma anistia e contra a escala 6x1, de maneira independente do governo Lula-Alckmin.
Assim, todos os temas nacionais e internacionais, presentes na intervenção de Lula, se imbricam e influenciam mutuamente. O enfrentamento a Trump e o imperialismo dos Estados Unidos exige forças sociais muito diferentes daquelas em que Lula aposta suas fichas.