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O Rei, o Prefeito e a Classe Trabalhadora na Luta por Nova York

02.11.2025

Parte da edição: 02.11.2025

O genocídio em Gaza, a crise do Partido Democrata e o curso do segundo mandato de Trump alimentaram o surgimento do fenômeno Mamdani. Sua eleição coloca uma série de novos desafios para a esquerda socialista. Publicado originalmente em inglês em 26 de outubro de 2025, no Left Voice, parte da rede internacional Esquerda Diário, nos Estados Unidos.

Zohran Mamdani está prestes a assumir o cargo em um cenário sem precedentes em relação às experiências recentes de “socialistas democráticos” autodeclarados nos Estados Unidos. Sua provável eleição — como um jovem social-democrata muçulmano, membro da maior organização socialista do país, em plena capital financeira dos EUA — provavelmente acirrará a guerra em curso travada por Donald Trump contra as cidades controladas pelos democratas, os movimentos sociais e o movimento operário. Afinal, a campanha de Mamdani representa uma ampla coalizão de pessoas que apoiam imigrantes, a Palestina e pessoas trans — exatamente os alvos dos ataques de Trump.

Trump vem alertando há meses sobre os “perigos” do prefeito “comunista” de Nova York e tem ameaçado Mamdani e a cidade a todo momento — prometendo cortar o financiamento federal caso Mamdani seja eleito, ameaçando deportá-lo pessoalmente e prometendo enviar a Guarda Nacional. Trump vem se preparando para usar a provável vitória de Mamdani como uma oportunidade para subjugar mais uma cidade “azul”, passando ao ataque contra os bastiões do Partido Democrata e, mais importante, contra os possíveis focos de resistência à sua agenda. Se as provocações de Trump em Los Angeles, Washington D.C., Portland e Chicago servirem de indicação, Mamdani e Nova York podem enfrentar sua ira já no dia seguinte à eleição.

As diferentes alas do Partido Democrata têm adotado posturas distintas diante dos ataques de Trump. Alguns governadores democratas colaboram abertamente com o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), como em Washington D.C., enquanto em Chicago o prefeito social-democrata Brandon Johnson decretou que o ICE não tem autorização para atuar em prédios federais e que seus agentes podem ser presos. Johnson também convocou uma greve geral contra Trump, resultado da enorme pressão do povo da cidade, que resiste heroicamente às batidas e deportações.

Diante de ameaças semelhantes, que posição Zohran Mamdani adotará? Irá alinhar-se com a agenda moderada de Kathy Hochul, aconselhado por AOC (Alexandria Ocasio-Cortez) a levar Trump aos tribunais enquanto colabora com o governo federal em temas essenciais, como a repressão ao movimento pró-Palestina? Ou será forçado a apoiar-se nas massas trabalhadoras e oprimidas de Nova York? Qual rumo tomará o DSA (Democratic Socialists of America), a maior organização socialista dos Estados Unidos, que agora terá um ponto de apoio dentro do governo capitalista de uma das cidades mais importantes do país? Que curso seguirão as burocracias sindicais e as burocracias dos movimentos sociais quando forem ameaçadas por Trump?

O certo é que o Partido Democrata priorizará os interesses das grandes empresas sobre os da classe trabalhadora, mesmo que seja obrigado a mobilizá-la, junto com os movimentos sociais, para conter Trump e não afastar ainda mais uma base social que demonstra nova combatividade na luta contra ele. Não podemos confiar nem no Partido Democrata nem em Mamdani para organizar a classe trabalhadora contra Trump. Este novo período na cidade de Nova York apresenta oportunidades para que essas tensões — entre um autoproclamado rei, um prefeito recém-eleito e uma classe trabalhadora inquieta — desencadeiem a mobilização, a combatividade, a criatividade e a auto-organização dos trabalhadores; e, com as novas possibilidades de luta de classes, surge novamente a urgência de construir um partido da classe trabalhadora com uma estratégia socialista, independente dos democratas.

O Rei

O segundo governo Trump vem assumindo cada vez mais as características de um bonapartismo intenso, que desafia alguns dos traços do regime bipartidário que prevaleceu durante as décadas de neoliberalismo.

Como explica Daniel Kovacs em "O Regime Político Americano em um Momento Pós-Neoliberal":

É em resposta a esse terreno em transformação — tanto de cima, por parte do Estado e suas instituições, quanto de baixo, por parte da classe trabalhadora — que a antiga ordem política e os traços emergentes deste novo momento se entrechocam, coexistindo em tensão mútua tanto no plano nacional quanto no internacional. Isso cria as condições para mudanças bruscas na situação política, tanto à direita — sob a forma de aprofundamento do bonapartismo e de medidas autoritárias — quanto à esquerda — com um grau maior de atividade da classe trabalhadora e dos oprimidos. A possibilidade de uma “desescalada”, por mais custosa e imprevisível que seja, é um ativo essencial do regime.

O bonapartismo é um conceito central no marxismo, especialmente em Leon Trotsky, que o via como um fenômeno criado pelo agravamento dos choques entre diferentes interesses sociais em um contexto de crises políticas, sociais e econômicas. Para Trotsky, o bonapartismo é a tentativa de um setor do regime — geralmente encarnado por um líder carismático — de se elevar acima desses conflitos de classe para impor uma solução coercitiva, evitando ou superando o cenário arriscado de uma “guerra civil” para as classes dominantes.

Trotsky desenvolveu sua análise do bonapartismo tendo a Alemanha como exemplo; ele identificou três camadas ou gradações de autoritarismo, que chamou de “bonapartismo preventivo”, “bonapartismo” e “bonapartismo fascista”. Para ele, todas essas formas eram transitórias, existentes nos “estertores da democracia”. A consolidação de um bonapartismo fascista seria o resultado de fortes choques entre as classes, guerra civil e grandes deslocamentos e rupturas no cenário nacional e internacional.

Trump possui traços de um bonapartismo preventivo, como argumenta James Dennis Hoff:

[O] que realmente impulsiona a guinada de Trump 2.0 para táticas tão autoritárias? A resposta é que aqueles a quem ele serve entendem que o capitalismo está estagnado. O liberalismo e o neoliberalismo entraram em colapso — e o velho mundo está morrendo sem nada para substituí-lo. É por isso que grandes setores do capital estão agora mais dispostos a aceitar que as ações radicais de Trump talvez sejam o caminho mais lucrativo para um sistema capitalista que, como Ulisses, enfrenta uma série de reveses e calamidades em sua tentativa de retornar aos dias de antiga glória. E, pelo menos no curto prazo, estão dispostos a ver como a tomada de poder de Trump pode lhes servir [...] Nosso atual momento autoritário é, na verdade, consequência de uma série de tentativas fracassadas de ambos os partidos de resolver, com a lógica capitalista, todo um conjunto de crises e contradições interconectadas que ameaçaram a estabilidade tanto do Estado quanto do sistema econômico que o sustenta.

O esgotamento do neoliberalismo foi um processo que se acelerou após a crise econômica de 2008; ele produziu tendências inéditas na situação global: a ascensão da China como uma potência imperialista emergente em competição com os Estados Unidos, o surgimento da guerra na Europa, o declínio da hegemonia imperialista norte-americana, a crise orgânica e a polarização política em diversos países do mundo, além de novos ciclos de luta de classes. Como explica Kovacs, utilizando o marco da crise orgânica dos Estados Unidos, o segundo mandato de Trump marca o início de um “momento pós-neoliberal” do qual não há “retorno” ou possível “restauração” do status quo neoliberal que moldou o regime bipartidário nas últimas décadas.

A teatralidade régia de Trump infla seu papel e seus sucessos, mas ele avançou em aspectos de sua agenda bonapartista. Em primeiro lugar, concentrou mais poder no ramo executivo do Estado norte-americano, principalmente graças à paralisia — e, em alguns casos, à colaboração — dos democratas, dos dirigentes sindicais e dos líderes de movimentos sociais. A guinada bonapartista de Trump pode ser observada na repressão virulenta de seu governo ao movimento pró-Palestina; na ofensiva anti-imigração com toda a sua crueldade racista transmitida ao vivo; no ataque agressivo aos estados e cidades “azuis” (democratas); e no aumento histórico do orçamento da ICE, que atua como uma força militar à disposição do Executivo.

Apesar disso, Trump é estrategicamente fraco. Ele não pôs fim à guerra na Ucrânia. O cessar-fogo em Gaza, que lhe trouxe uma glória passageira, está ruindo. Enfrenta uma paralisação do governo devido à sua guerra contra o Obamacare, o que vem semeando divisões dentro do próprio Partido Republicano. Os arquivos Epstein o assombram, com milhões de pessoas — inclusive dentro de sua base MAGA — questionando o governo por proteger pedófilos. Além disso, Trump enfrenta uma rejeição significativa — em certos momentos, massiva — a seu governo e a suas políticas; mais recentemente, foi humilhado pelo som de 7 milhões de pessoas nas ruas gritando “Sem reis!” em 18 de outubro.

A alma do movimento Mamdani

Por mais carismático que Mamdani seja, a alma de seu movimento não é o próprio Mamdani. A energia que envolve sua campanha é produto de novas formas vibrantes e disruptivas de pensamento entre a classe trabalhadora, a juventude e setores das classes médias em todo o mundo — uma reação à volatilidade nos âmbitos doméstico e internacional. Até agora, esse fenômeno foi canalizado por figuras e organizações neorreformistas, como a DSA, o Die Linke na Alemanha ou mesmo o Your Party no Reino Unido. Mas é claro, com um simples olhar para qualquer protesto pela Palestina ou contra a direita no último ano, que as perspectivas e aspirações desses setores estão à esquerda de sua representação política — inclusive de Mamdani.

Esse fenômeno tem potencial para ser ainda mais disruptivo do que a energia progressista em torno das campanhas de Bernie Sanders, que nunca chegaram a desafiar sua relação com o Partido Democrata. Isso se deve ao fato de que o chamado “momento Mamdani” ocorre em meio a uma crise orgânica aguda e a uma tentativa autoritária de enfrentá-la. O regime bipartidário está se transformando, e o Partido Democrata enfrenta a pior crise de sua história recente, sendo visto como o defensor do neoliberalismo que as massas desprezam.

Dados recentes apresentados por Shane Goldmacher e Jonah Smith revelam a profundidade dessa crise nas perspectivas eleitorais dos democratas:

O Partido Democrata está perdendo eleitores muito antes de eles irem às urnas. Dos 30 estados que registram filiação partidária, os democratas perderam terreno para os republicanos em todos — e, muitas vezes, de forma significativa — entre as eleições de 2020 e 2024. Essa oscilação de quatro anos a favor dos republicanos soma 4,5 milhões de eleitores, um profundo buraco político do qual os democratas podem levar anos para sair.

Segundo relatórios sobre filiação partidária em 30 estados, essa queda dramática de eleitores democratas ocorre tanto em estados azuis quanto vermelhos.

A base de Mamdani, composta por uma coalizão social de trabalhadores organizados e não-organizados, imigrantes, estudantes, jovens desempregados, pequenos empresários e até setores da alta classe média, aderiu à “agenda populista de esquerda” que Mamdani representa — uma reação ao aumento do custo de vida em Nova York. Mas o entusiasmo deles por Mamdani vai além disso, questionando não apenas o Partido Republicano e a ganância corporativa, mas o próprio Partido Democrata. Um setor central de sua campanha e de seus apoiadores considera o partido submisso aos super-ricos e “brando” com Trump; há ainda um setor radicalizado da juventude profundamente indignado com o genocídio do povo palestino e que considera AOC e outros políticos “socialistas” como traidores.

Contrariamente ao que muitos articulistas da revista Jacobin argumentaram por anos, o descontentamento com o Partido Democrata não cresceu porque a classe trabalhadora achou que os democratas estavam “excessivamente focados” em políticas de identidade. Mamdani tem sido contundente na defesa dos direitos trans e dos direitos dos imigrantes — longe de alienar sua base, isso é uma força de sua campanha.

Além disso, o impulso e o alcance de Mamdani entre os jovens e a classe trabalhadora nova-iorquina estão ancorados na causa palestina, uma expressão de uma ruptura histórica com o sionismo, que cada vez mais desafia a ideia até então inquestionável de que o Estado de Israel tem o direito de existir com base no deslocamento e na limpeza étnica do povo palestino — uma legitimidade garantida pelas potências imperialistas desde a Nakba.

Segundo uma pesquisa divulgada em julho pelo Data for Progress (antes das imagens da fome forçada por Israel ganharem grandes manchetes):

não apenas a imensa maioria dos eleitores nas primárias democratas de Nova York concordou com a plataforma de Mamdani em defesa dos direitos palestinos, como também sua posição pró-Palestina pode ter mobilizado novos eleitores e servir de modelo para o Partido Democrata no futuro.

A pesquisa mostrou que 78% dos nova-iorquinos acreditam que Israel está cometendo genocídio em Gaza, 79% apoiam restringir o envio de armas a Israel e 63% defendem a prisão de Netanyahu caso ele visite Nova York. Segundo a Critical Issues Poll, pela primeira vez, uma leve maioria da população dos Estados Unidos se mostra mais simpática à Palestina do que a Israel.

Aqui vemos a verdadeira alma do movimento Mamdani, que se encaixa de forma muito incômoda no campo democrata. Embora os democratas possam ajustar seu discurso para apaziguar eleitores, o partido sionista do imperialismo jamais lutará pelo fim da ocupação. Já vimos isso refletido na forma como Mamdani suavizou sua posição sobre Israel, reafirmando seu “direito de existir e se defender”. Isso cria uma tensão significativa nas tentativas de Mamdani de reconduzir esse nascente sentimento anti-imperialista ao Partido Democrata.

O prefeito

O prefeito Mamdani enfrentará muitos desafios, mas é possível que sua primeira tarefa seja lidar com provocações crescentes de Trump, incluindo a ameaça de envio da Guarda Nacional e o aumento das batidas da ICE.

Observando como os ataques de Trump contra outras cidades se desenrolaram até agora, tem havido caminhos de desescalada dessas ameaças diante da resistência vinda de baixo. E o Partido Democrata tenta se posicionar no meio dessas tensões para lucrar politicamente. Trump e seus assessores entendem que, quanto mais atacarem Mamdani, mais forte ele poderá se tornar — não apenas como figura local, mas como um novo rosto do Partido Democrata.

A isso se soma o espaço aberto pela crise do Partido Democrata para o surgimento de novas figuras em suas fileiras; isso expressa a profunda crise de representação da classe trabalhadora desiludida com os democratas, bem como uma resposta à guinada bonapartista do regime. Novos líderes do partido podem ascender ao topo e se tornar figuras nacionais “anti-Trump”, como Brandon Johnson, pela esquerda, ou Gavin Newsom, pelo establishment. Em outras palavras, em um contexto em que o Partido Democrata não tem tomado a iniciativa política há algum tempo — exceto pela paralisação do governo, que pode não se resolver imediatamente a seu favor — novos setores começam a tomar a dianteira política.

Encurraladas pelos ataques de Trump às instituições do Partido Democrata e aos seus bastiões, essas figuras podem ter de reorientar sua relação com a luta de classes. Como escreve Madeleine Freeman, polemizando com os articulistas da Jacobin Meyer e Abbott:

[N]o cenário atual, em que está paralisado por sua própria defesa das instituições desgastadas do neoliberalismo, o Partido Democrata pode muito bem ser forçado a mudar de rumo, como pensadores como Meyer e Abbott aconselham, orientando-se mais fortemente em direção à classe trabalhadora e às suas instituições; pode apoiar-se mais em seus aliados fora do partido, como os dirigentes sindicais que oscilam entre o Partido Democrata e Trump, a fim de mobilizar sua base para aproveitar o sentimento anti-Trump. Mas esse possível caminho — passar do papel histórico do partido de desmobilizar a luta de classes para, em parte, garantir sua mobilização — corre o risco de atiçar as chamas da luta de classes. E embora os democratas possam muito bem encontrar uma forma de domesticar essa energia em políticas que ofereçam alívios limitados em um cenário econômico conturbado, essas chamas também podem se espalhar além de seu controle.

Começamos a ver isso acontecer em Chicago, com Johnson conclamando abertamente a classe trabalhadora a se mobilizar contra o envio da Guarda Nacional. Os ataques de Trump contra os estados “azuis” estão forçando um setor não negligenciável do Partido Democrata a adotar uma relação com as massas com o objetivo estratégico de conter a luta de classes: uma relação que busca mobilizar para canalizar essa energia em direção às eleições de meio de mandato, evitando ações independentes de luta de classes que possam desafiar não apenas Trump, mas o próprio regime.

A ala esquerda do Partido Democrata, especialmente em Chicago, está desenvolvendo uma política mais forte de colaboração de classes, com o objetivo de construir uma coalizão social liderada pelo governo capitalista que se apoie nas organizações e na atividade da classe trabalhadora para responder à ameaça representada por Trump e pela extrema direita.

Essas tendências embrionárias que se desenvolvem em Chicago são potencialmente disruptivas devido à combinação, de um lado, da disposição das massas para lutar contra Trump e, de outro, do afrouxamento do controle da classe trabalhadora por parte do governo municipal com o objetivo de contê-la. Apesar da vontade dos dirigentes democratas, abre-se uma janela para que a classe trabalhadora e os oprimidos assumam a luta contra Trump com suas próprias mãos, expulsando a ICE da cidade e desenvolvendo uma luta de classes de uma forma que o Partido Democrata não deseja e não pode controlar. Mas essa janela só poderá se abrir mais se a base dos sindicatos e dos movimentos sociais forçar suas lideranças a construir resistência contra Trump e a se unir a outros setores.

Em Nova York, veremos se Trump optará por retaliar agressivamente contra a eleição de Mamdani no curto prazo; a situação permanece em aberto. Ainda assim, o desafio e a ameaça continuam os mesmos: a esquerda socialista não pode intervir escondendo-se na sombra da ala esquerda do Partido Democrata. Qualquer reforma que possa, de alguma forma, afetar negativamente os interesses das grandes corporações — mesmo de maneira limitada, como Mamdani propõe — enfrentará a consternação e o desafio não apenas de Trump, mas também de membros de seu próprio partido, como a governadora Kathy Hochul, que representa os verdadeiros líderes de Nova York: Wall Street, as companhias de seguro, os incorporadores imobiliários, os proprietários, o lobby sionista, a Igreja e a polícia.

Como escreve Shamus Cooke, do Tempest:

A oligarquia nova-iorquina sofreu um golpe, mas é provável que a eleição apenas a tenha despertado para o perigo real. Embora tenham gasto milhões de dólares contra ele nas primárias, a oligarquia capitalista não permitirá silenciosamente que Mamdani implemente seu programa às suas custas. Supondo que Mamdani sobreviva à campanha frenética de difamação e vença a eleição geral, a sobrevivência de sua plataforma continuará em dúvida — congelar aluguéis, aumentar salários, transporte gratuito, creches gratuitas, mercearias públicas, taxar os ricos, etc. As tentativas de implementar esse programa irão radicalizar ainda mais a elite nova-iorquina contra ele e desencadear uma enxurrada de obstáculos sérios para destruir seu mandato como prefeito.

Os socialistas devem defender Mamdani de qualquer ataque antidemocrático da extrema direita, de Trump ou do establishment — incluindo a recente enxurrada de insultos racistas lançados contra ele por Cuomo. Devemos defender a luta por qualquer reivindicação progressista que beneficie a classe trabalhadora e que Mamdani possa propor. Fazer isso, porém, requer ancorar essa defesa na luta de classes, ao mesmo tempo em que travamos uma luta aberta por nosso próprio programa anticapitalista, nossas táticas e organizações independentes.

A classe trabalhadora e a luta pela unidade

Em 18 de outubro, o movimento “No Kings” ["Sem Reis"] reuniu 200 mil pessoas em Nova York, segundo os organizadores. A calma tensa dos meses anteriores, marcada pelos ataques bonapartistas de Trump e pela repressão ao movimento estudantil pró-Palestina, foi rompida com uma manifestação massiva e festiva que rejeitou o autoritarismo e expressou profunda solidariedade com imigrantes e com a Palestina.

É inegável que essas manifestações de massa minam a autoridade de Trump e demonstram que a extrema direita está longe de possuir hegemonia política, ideológica ou cultural; não será fácil conquistar esse espaço, nem será simples vencer a guerra econômica que Trump e o movimento MAGA travam contra a classe trabalhadora e os oprimidos. Há uma rejeição massiva ao futuro distópico que Trump e o MAGA estão criando — um futuro em que bilionários da tecnologia controlam o que assistimos; crianças são algemadas por agentes da ICE em plena luz do dia; mulheres não têm direitos reprodutivos; pessoas trans precisam se esconder; trabalhadores não têm assistência médica nem sindicatos; e o discurso de ódio contra os mais oprimidos é considerado “liberdade de expressão”, enquanto protestar contra o genocídio é “antissemita”.

Dito isso, embora as manifestações massivas “Sem Reis” possam ser suficientes para derrotar Trump nas eleições de meio de mandato, esses protestos sozinhos não podem derrotar a guinada bonapartista nem a agenda da extrema direita. Isso exigiria que a classe trabalhadora e o movimento sindical organizado assumissem a dianteira e organizassem as lutas que virão — cujas sementes já estão sendo plantadas em diversos chamados por uma greve nacional em vários setores. Tal ação exigiria a mobilização de amplos setores da classe trabalhadora diversa e multirracial de Nova York, desde os depósitos de Canarsie e os centros de distribuição de Maspeth até os trabalhadores do metrô e dos ônibus da MTA.

O “Sem Reis” em Nova York revelou os limites da resistência emergente a Trump e o papel que o movimento sindical desempenha ao reforçar esses limites. O movimento sindical organizado, inclusive sua ala esquerda, manteve por dez meses um pacto tácito com Trump, permitindo demissões de servidores públicos, leis anti-trans em estados republicanos e, em alguns casos, defendendo a agenda protecionista de Trump.

A ala direita do movimento sindical em Nova York, representada pela liderança nacional dos Teamsters, vem colaborando com Trump desde antes da eleição presidencial. A direção dos Teamsters, que atualmente tenta sindicalizar a Amazon, falhou em defender os trabalhadores imigrantes dos armazéns, cujos vistos foram revogados por Trump e que foram sumariamente demitidos pela empresa.

Nesse contexto, quando os trabalhadores e suas organizações estão na mira de Trump, a presença do movimento sindical organizado na Marcha “Sem Reis” foi fraca. Ainda assim, um contingente de cerca de 2 mil sindicalistas — organizado pela PSC-CUNY, UAW, SEIU, UFT e por organizações intersindicais como Labor for Palestine — marchou centrando sua intervenção no genocídio na Palestina, no imperialismo e nos ataques aos trabalhadores e imigrantes.

Em outras palavras, embora um grande contingente de trabalhadores organizados tenha estado ausente, uma vanguarda sindical esteve presente — um setor representativo dos fenômenos mais avançados que a luta sindical produziu nos últimos anos em uma cidade conhecida como uma “cidade sindical”. Havia professores da UFT organizando-se em defesa de alunos imigrantes, assim como contingentes de sindicatos do ensino superior organizados com a UAW, unindo reivindicações contra a exploração no trabalho e contra o genocídio. Também estava presente a PSC, que luta contra ataques macarthistas para reintegrar quatro professores demitidos por protestarem contra o genocídio em Gaza, junto de docentes que se organizam contra a presença da ICE em suas escolas.

Essas tendências dentro do movimento sindical podem ser o ponto de partida de uma plataforma que unifique a luta contra Trump e prepare a classe trabalhadora e os oprimidos de Nova York para combater a invasão da ICE e as deportações em massa com seus próprios métodos — piquetes, manifestações de massa e greves —, somando-se à desobediência civil que já se desenvolve em cidades como Portland ou Chicago. Imagine se os sindicatos nova-iorquinos assumissem essa luta, com milhares de trabalhadores organizados na UFT ou na UAW, por exemplo, lançando campanhas ambiciosas para reagir contra qualquer ameaça à cidade e aos seus trabalhadores. Os trabalhadores de base devem exigir que seus sindicatos coloquem toda a sua energia na organização da luta contra Trump em seus locais de trabalho e nas ruas. No entanto, isso não poderá acontecer sem uma luta dentro dos próprios sindicatos. As lideranças sindicais não irão unificar o movimento por iniciativa própria — como vimos, tenderão a dividir as demandas dos diferentes setores ou a se abster de mobilizar suas bases. E, se forem forçadas a fazê-lo, tentarão manter essas ações dentro do marco do “negócio como de costume”.

A ala esquerda do movimento operário — por exemplo, aqueles vinculados ao Labor Notes e outros que fazem parte de sindicatos e organizações combativas —, junto à esquerda socialista ligada ao trabalho, deve estar na linha de frente da organização da base contra essa ofensiva.

Devemos levar nossos sindicatos à luta, enfrentando a passividade das lideranças sindicais, para que possamos usar as armas mais poderosas que temos, como a greve. A tarefa urgente dos socialistas na base, em outras palavras, é exigir publicamente que as lideranças sindicais organizem a resistência a Trump construindo uma frente única com os movimentos sociais, unificando-se em torno de um programa de ação para o aqui e agora — não para 2028.

Lutar pela frente única — tanto para se defender de Trump quanto para fortalecer a luta da classe trabalhadora por melhores condições de vida — implica necessariamente enfrentar a estratégia predominante da esquerda reformista, que se amarra ao Partido Democrata e situa o poder da luta de classes e das reformas na possibilidade de pressionar autoridades governamentais. As lideranças da corrente Bread and Roses da DSA sabem que impor a agenda de Mamdani exige um apoio massivo e organizado que vai muito além do que a DSA pode mobilizar sozinha. Em um artigo publicado em agosto na The Nation, que abriu um importante debate dentro da DSA, Eric Blanc, Emily Lemmerman e Wen Zhuang colocam a questão em seus próprios termos:

“O que será necessário para transformar a agenda de Mamdani por uma Nova York acessível em realidade? Em nossa visão, é preciso uma campanha de massas que aproveite momentos de alta visibilidade — como a noite vitoriosa da eleição de novembro — para recrutar um grande número de voluntários, manter uma organização ampla depois do dia da eleição e formar lideranças da classe trabalhadora capazes de analisar o poder de seus oponentes e desenvolver uma estratégia direcionada para pressionar os representantes eleitos resistentes a financiar as propostas de Mamdani. Mamdani já demonstrou sua capacidade de construir um movimento de massas. Mais de 50 mil pessoas se voluntariaram para ajudá-lo a se eleger. Ao expandir e aprofundar essa máquina de base após novembro, Mamdani pode forjar uma luta popular organizada suficientemente poderosa para obrigar Hochul e Albany a financiar sua agenda central.”

O instinto por trás dessa proposta é correto. De fato, precisamos organizar um movimento que permaneça ativo após a eleição. Precisamos unificar sindicatos, organizações de base e a esquerda em torno de um esforço centralizado para lutar pelos trabalhadores de Nova York, como sugerem Blanc, Lemmerman e Zhuang:

“Em vez de dissolver sua enorme máquina de voluntários após 4 de novembro — como é o costume nas campanhas eleitorais —, a equipe de Mamdani poderia transformá-la em um aparato organizativo mais amplo para garantir sua agenda sob a bandeira de uma nova campanha ampla, algo como um Movimento por uma Nova York Acessível (MANY). Núcleos do MANY em locais de trabalho e bairros poderiam coordenar abaixo-assinados, organizar encontros comunitários e desenvolver formas criativas de alcançar seus pares.”

O que não podemos concordar, contudo, é com a lógica que sustenta essa proposta ou com suas implicações mais profundas. Na concepção dos autores, a luta de classes desempenha um papel secundário e baseia-se na falácia de que nossa unidade pode ser construída através do Partido Democrata. A corrente Bread and Roses da DSA propõe um movimento para organizar os apoiadores de Mamdani como uma base de manobra para pressionar o governo a financiar sua agenda.

Em nenhum momento os autores sugerem que o movimento deva se organizar de forma independente do aparato do governo municipal para defender Nova York da ofensiva de Trump e da extrema direita. E, apesar de suas duras palavras contra o establishment democrata, eles não defendem o enfrentamento e a ruptura com o partido para organizar uma verdadeira organização de trabalhadores, inquilinos e estudantes independente do governo. Isso ocorre porque subestimam a necessidade de construir novas instituições da classe trabalhadora, não controladas pelo Estado ou pelo Partido Democrata, capazes de intervir para desenvolver consciência e luta de classes.

O Partido Democrata não é um aliado na construção de uma frente única contra Trump e a extrema direita; na verdade, atua ativamente contra essa unidade, buscando canalizar a luta de classes e a energia da classe trabalhadora de volta para o apoio a um partido que representa os interesses do imperialismo e dos patrões. O objetivo é esvaziar as organizações de inquilinos, as vigílias contra o ICE nos bairros e as organizações de trabalhadores de seu verdadeiro poder de luta e organização, redirecionando tudo para as urnas.

Mas, para aqueles de nós que compreendem que a forma mais eficaz de combater a extrema direita é através da unidade entre o movimento operário e os movimentos sociais, é preciso deixar claro que fomentar essa unidade implica enfrentar o Partido Democrata, que organiza grande parte de nossa classe. Temos de disputar esse poder para realmente impor nossa unidade. E estaríamos em melhor posição para fazê-lo se tivéssemos um partido socialista — mesmo que pequeno, formado por milhares de socialistas lutando em cada armazém, fábrica, escola e bairro — que incentivasse e participasse da criação de novos organismos de auto-organização de trabalhadores, inquilinos e membros da comunidade organizados em torno de seus próprios interesses.

Esse é o tipo de movimento independente e combativo que pode realmente conquistar suas demandas — um movimento composto por organismos autônomos da classe trabalhadora e dos oprimidos que possa defender os interesses das massas trabalhadoras da cidade e não fique subordinado às negociações hierárquicas que ocorrerão dentro do governo municipal e entre este e Albany. Esse movimento poderia construir seu próprio programa, sua própria agenda, elaborada a partir da experiência real das massas — debatendo o caminho a seguir em assembleias, reuniões, comitês ou qualquer outra forma de auto-organização em cada armazém, fábrica, escola, universidade e bairro, do Bronx a Staten Island. E, nesse contexto, a esquerda socialista pode levar seu próprio programa à mesa.

Um Programa de Luta

Nossas demandas já nos unificam nas ruas — nas manifestações em massa e nos atos de desobediência civil que se espalham de Los Angeles a Chicago e Portland. Elas são entoadas por trabalhadores nos blocos sindicais, por pessoas comuns nas marchas “Sem Reis”, pelo movimento pró-Palestina, por organizações de imigrantes e por inquilinos e vizinhos. Cartazes dizendo “Parem a ajuda dos EUA a Israel e ao genocídio” e “ICE fora de Nova York” podem ser vistos em cada protesto, ao lado de palavras de ordem pelo fim da repressão ao movimento pró-Palestina e pela reintegração de quem foi demitido ou perseguido na CUNY e em outras universidades da cidade por exercer sua liberdade de expressão.

A esquerda do movimento operário em Nova York, a ala esquerda da DSA e o restante da esquerda socialista e das organizações de base que já lutam contra os proprietários, a repressão e o ICE devem exigir uma frente única e ajudar a construí-la de baixo, com uma plataforma e um chamado comum à ação — independentemente do que aconteça em 4 de novembro.

Central nessa plataforma de unidade está a defesa dos imigrantes, que são parte essencial de nossas comunidades e responsáveis pelo funcionamento da cidade. As pessoas exigem direitos plenos para quase um milhão de trabalhadores indocumentados em Nova York, incluindo moradia, saúde, educação e emprego. Os centros de detenção na cidade devem ser fechados e suas instalações transformadas em centros comunitários administrados pelas próprias comunidades.

Feministas e organizações LGBTQ+ vêm lutando tenazmente pelo direito ao aborto gratuito e sob demanda para todas as pessoas em Nova York, e pelos direitos plenos das pessoas trans. Militantes das ruas e sindicatos de inquilinos compreendem que todas as pessoas sem-teto ou em situação de insegurança habitacional devem ser alojadas imediatamente, e que precisamos de um plano emergencial de moradia pública e empregos, controlado por trabalhadores e inquilinos, para garantir moradia segura e emprego a todos os residentes da cidade, independentemente de status migratório, etnia ou gênero.

Trabalhadores dos cinco distritos exigem há anos um salário mínimo de US$ 30 para compensar o aumento do custo de vida. Profissionais de saúde, assistentes sociais e pacientes reivindicam um sistema público de saúde gratuito e universal para todos os residentes de Nova York. O cancelamento imediato das dívidas estudantis aliviará o peso dos estudantes que não conseguem continuar seus estudos. Creches públicas, gratuitas e universais são uma demanda urgente das famílias trabalhadoras. Educação pública gratuita, universal, científica, laica e crítica em todos os níveis, do pré-K ao ensino superior, é uma reivindicação de professores e pais que defendem o ensino público. O movimento operário precisa levantar a necessidade de revogar a Taylor Law para que os servidores públicos recuperem o direito de greve, além de lutar pelo fim das práticas antissindicais e pelo direito imediato de todo trabalhador nova-iorquino ter um sindicato.

A classe trabalhadora e os oprimidos de Nova York sabem que é preciso exigir que os ricos paguem impostos progressivos sobre as fortunas acumuladas pela exploração do nosso trabalho e pelos benefícios fiscais milionários garantidos tanto pelos democratas quanto pelos republicanos.

Um programa de unidade só pode ser construído democraticamente pela base do movimento operário e dos movimentos sociais.

Um Caminho para a Esquerda Socialista

Um programa de ação pode ajudar a forjar a unidade de que precisamos na luta, mas não é um programa socialista — tampouco o programa de Mamdani. Um programa socialista não é um conjunto de ideias que as massas abraçarão fora dos processos vitais de luta de classes que precipitam rápidas mudanças de consciência.

A auspiciosa guinada à esquerda de amplos setores de jovens e trabalhadores cada vez mais anticapitalistas em Nova York, expressa na campanha de Mamdani, abriu uma enorme oportunidade para a esquerda falar de socialismo em seus próprios termos. É claro que não existe socialismo em um município, cidade ou país isolado. O socialismo é um projeto cuja possibilidade de existir, se desenvolver e se expandir se baseia na luta da classe trabalhadora e dos oprimidos para pôr fim a uma sociedade fundada no lucro e na exploração e para expandir o poder da classe trabalhadora em escala internacional. O governo de Mamdani, mesmo que consiga aprovar algumas reformas, será uma administração dentro do marco de um governo capitalista.

O mais disruptivo em ter um prefeito que se autodenomina “socialista” não é o conteúdo do governo de Mamdani em si, mas a grande oportunidade para a esquerda socialista falar de socialismo e lutar por sua perspectiva nas lutas que se desenrolarão. Nossa tarefa é construir uma ponte entre as demandas que alimentaram a campanha de Mamdani — que não são apenas suas, mas expressam as aspirações das massas trabalhadoras de Nova York — e as reivindicações, palavras de ordem e propostas que desafiam cada vez mais a dominação do capital sobre a cidade.

Temos a tarefa de apresentar uma visão positiva de uma Nova York realmente administrada pelos trabalhadores — não um governo capitalista progressista como o de Mamdani, mas um governo em que as lideranças sejam os próprios trabalhadores. Tal governo só pode ser resultado de uma insurreição revolucionária; mas a combinação de potencial de luta de classes e abertura às ideias socialistas durante a experiência com o governo Mamdani criará melhores condições para que nossas ideias e programa alcancem setores mais amplos.

Até agora, não houve um desafio organizado, intencional e sério à estratégia da DSA de atuar dentro do Partido Democrata e tentar reformá-lo. Já conhecemos os argumentos, pois a ala direita da DSA vem repetindo-os desde a vitória de Mamdani. Em uma entrevista recente com Melissa Naschek, da Jacobin, Vivek Chibber respondeu à pergunta sobre se o Partido Democrata poderia “retornar” à sua suposta “orientação pró-classe trabalhadora” do New Deal:

“Em princípio, sim. Existem duas opções agora disponíveis. Uma é descartar tudo e construir novos partidos, começar do zero. Essa tem sido a bandeira da extrema esquerda há muito tempo — ‘todo o sistema é ruim, precisamos de um novo partido’. Mas é realmente muito difícil criar novos partidos. Se fosse fácil, já teriam sido criados centenas de vezes. É muito difícil.”

Ninguém diz que é fácil construir um partido. Mas nada é mais difícil do que transformar o Partido Democrata em um instrumento da classe trabalhadora. Não é apenas difícil — é impossível. É possível que haja um Partido Democrata mais progressista, mais amigável à classe trabalhadora, especialmente quando o sistema tem condições de conceder algo ou quando seus objetivos imperialistas exigem novos níveis de produção dos trabalhadores, como foi o caso durante o New Deal. Mas, em um contexto de ascensão da extrema direita, crise econômica e declínio hegemônico, o que os capitalistas oferecem à classe trabalhadora é austeridade, repressão, ataques aos sindicatos e políticas anti-imigração.

Sabemos que construir um partido é difícil, mas também sabemos que é nossa melhor chance de lutar contra as tentativas dos capitalistas de resolver suas crises às nossas custas — portanto, devemos começar a construí-lo agora.

A ala esquerda da DSA, as organizações socialistas que dizem lutar pela independência de classe — como Tempest e Socialist Alternative — e muitas outras em Nova York devem desafiar a política da ala direita da DSA com um chamado amplo e vigoroso para organizar um debate vibrante sobre o caminho para um partido da classe trabalhadora que lute pelo socialismo. Não podemos nos contentar em ter essa conversa apenas entre nós, mas devemos alcançar a base de Zohran Mamdani, os elementos radicais do movimento operário, estudantes e professores que lutam pela Palestina e contra a repressão, organizações de base como Labor for Palestine, e muitas outras.

É inegável que as organizações socialistas ainda são fracas, mas atuamos em um momento em que as ideias socialistas têm ressonância e as pessoas anseiam por organização. Evitar a organização desses setores em processo de radicalização apenas atrasará nossa capacidade de apresentar uma alternativa à estratégia do “dentro para sempre”.

Precisamos de um partido cujo centro de gravidade seja a luta de classes, mas que veja as eleições como uma forma de projetar essas lutas em uma plataforma nacional (e internacional), e que seja orgulhosamente anti-imperialista em sua essência.

A tarefa de tal organização em Nova York — junto com a de ajudar a organizar a frente única e a defesa da cidade — é lutar pela revogação de todas as leis estaduais e locais que impedem a participação eleitoral da classe trabalhadora, dos oprimidos e de partidos independentes. Assim como os socialistas alemães lutaram contra as leis antissocialistas promulgadas em 1878 pelo chanceler Otto von Bismarck, que proibiam a classe trabalhadora de participar das eleições, ou como a FIT-U na Argentina atualmente enfrenta as tentativas de Javier Milei de restringir a participação eleitoral da esquerda, nosso movimento deve romper com o conservadorismo e desafiar cada uma das leis que nos impedem de construir um partido dos trabalhadores com uma perspectiva socialista.

Uma nova organização socialista só surgirá das duras batalhas da luta de classes e da capacidade da esquerda e da vanguarda de encontrar formas criativas de participação independente.