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Os desafios estratégicos da revolta estudantil na França

Por Juan Chingo |
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Artigo publicado originalmente em espanhol no dia 12/10/2026 no Ideas de Izquierda Argentina

A juventude dos bairros operários franceses conseguiu ampliar sua luta e frustrar as tentativas do governo de criminalizar sua revolta. Essa nova geração se nutre das experiências de uma década de luta de classes e reivindica o direito de viver de outra maneira. A auto-organização e a consolidação de uma aliança com o movimento operário podem transformar esse impulso em uma contraofensiva contra Macron e sua agenda de austeridade.

Seis meses antes das eleições presidenciais, enquanto as classes dirigentes confiavam no calendário eleitoral para tentar resolver a crise política francesa, a revolta estudantil colocou a luta social em primeiro plano. A partir das escolas secundárias dos subúrbios parisienses, uma geração de jovens, a quem haviam dito que deveriam esperar pacientemente, continuar seus estudos e aceitar seu destino, impôs suas reivindicações e seu próprio calendário de ação. O dia 6 de outubro marcou um ponto de inflexão nesse processo, com a união de estudantes, pais, professores e representantes sindicais, frustrando a tentativa do governo de isolar os estudantes do ensino médio e tratar seu movimento como um episódio de “violência urbana”.

Assim, a repressão não conseguiu pôr fim ao conflito, mas contribuiu para sua propagação e transformou a situação educacional dos jovens dos bairros desfavorecidos em uma questão política nacional. Nesse sentido, o dia 6 de outubro representou um primeiro revés para a tentativa do governo de Macron de sufocar a revolta por meio da repressão. Isso representa uma ruptura com a abordagem bonapartista de Macron, que, ao longo de seus dois mandatos, buscou compensar a erosão de sua autoridade política por meio de táticas institucionais de mão dura e da repressão policial.

O surgimento de um movimento de solidariedade contra a repressão aos estudantes do ensino médio

As autoridades começaram desacreditando os jovens e questionando a legitimidade de sua mobilização. Em seguida, tentaram desviar o debate para os confrontos, os danos ao patrimônio e a manutenção da ordem. As reivindicações relativas à falta de professores, às más condições das escolas, às desigualdades educacionais e aos critérios seletivos de ingresso na universidade foram, assim, relegadas a segundo plano, atrás de uma narrativa típica de um Estado policial.

Essa resposta não é nenhuma novidade. Ela é coerente com uma política consolidada durante a presidência de Macron e implementada, por exemplo, durante o movimento dos Coletes Amarelos, na qual o uso da força, as detenções, as mutilações e a criminalização buscam aterrorizar aqueles que se mobilizam e elevar o custo da participação nos movimentos sociais. Diante de estudantes do ensino médio, muitos deles menores de idade, o caráter autoritário dessa política ficou evidente. Uma faixa resumia a contradição: “Jovens demais para serem ouvidos, velhos demais para não receberem gás lacrimogêneo”.

Mas a repressão se deparou com uma resposta que o governo não conseguiu conter. Os pais saíram para proteger seus filhos, os professores se organizaram ao lado de seus alunos e os sindicalistas intervieram para formar cordões humanos e defender os estudantes do ensino médio da repressão: a defesa dos jovens adquiriu uma dimensão democrática que ultrapassou os estabelecimentos de ensino envolvidos. Pouco a pouco, formou-se um amplo movimento contra a repressão e em defesa do direito dos estudantes do ensino médio de se defenderem. A violência policial, cujo objetivo era isolá-los, converteu-se em um novo motor de mobilização e confrontou o governo com uma solidariedade social mais ampla.

Os bairros operários estão agora ocupando um lugar central

A força do movimento reside em seu ponto de partida. Jovens de escolas desfavorecidas desafiaram as desigualdades que o funcionamento cotidiano do sistema educacional apresenta como normais. A falta de recursos, os processos seletivos e a incerteza em relação ao futuro deixaram de ser percebidos apenas como dificuldades individuais para se tornarem um problema político, vinculado a todo o contexto em que se insere a situação desses jovens. Embora existam precedentes de mobilizações estudantis em torno das condições materiais de estudo nos bairros operários, como em 1990 e 1998, a novidade do movimento atual reside em sua magnitude, em sua profunda politização e em sua capacidade de ultrapassar as barreiras sociais que habitualmente separam as escolas.

A solidariedade entre os estudantes de colégios públicos de prestígio e também de institutos privados parisienses é particularmente significativa. “A mesma escola pública de [da periferia de] Saint-Denis a Paris!”, entoavam os alunos do prestigiado liceu parisiense Henri-IV na semana passada. No Massillon, um colégio privado, os estudantes reconhecem seus privilégios e expressam seu apoio àqueles que estudam em circunstâncias muito mais difíceis. A mobilização chegou até mesmo ao Instituto Católico de Paris (ICP), onde “é a primeira vez na história recente que ocorre um evento desse tipo”. Essa solidariedade também se baseia em referências culturais e preocupações compartilhadas entre adolescentes de diferentes origens sociais. Sem apagar essas desigualdades, a mobilização permite reconhecê-las como um problema comum e desafiar a hierarquia educacional que as perpetua. Ela também pode refletir, em certa medida, a composição social em transformação de muitos desses colégios, onde pais de famílias modestas se esforçam enormemente para matricular seus filhos devido ao declínio do sistema de ensino público.

Esses atos de solidariedade desafiam a competição entre estudantes e a distância entre aqueles que se beneficiam de melhores perspectivas e aqueles que precisam lutar para obtê-las. A reivindicação de uma educação melhor adquire uma dimensão igualitária, na qual melhorar a própria situação exige reconhecer a situação dos outros. Essa solidariedade abre a possibilidade de construir uma luta comum em torno das necessidades dos setores mais desfavorecidos.

Uma década de lutas para dar forma a uma nova geração

Os estudantes do ensino médio irromperam em um momento marcado pela expectativa em torno das próximas eleições. Com a extrema direita ganhando terreno e as condições de vida se deteriorando, amplos setores da população sentiam-se condenados a observar as próximas eleições como meros espectadores. A revolta reavivou a possibilidade de uma intervenção imediata na situação.

Embora o movimento atravesse toda uma geração, seu conteúdo político é muito mais complexo. Nas palavras de ordem, nos símbolos e nas práticas dos estudantes do ensino médio, encontram-se ecos de dez anos de luta de classes no país. Como descreve Carlotta Benvegnu: “Os Coletes Amarelos, que conheceram quando crianças, quando às vezes se manifestavam nos pátios das escolas entoando ‘Macron renuncia’, reaparecem na forma de bandeiras tricolores, bloqueios e da Marselhesa, que voltou a se tornar um hino de batalha. Os protestos por Nahel, assassinado pela polícia em Nanterre em 2023, manifestam-se por meio de uma estética tumultuada e de palavras de ordem contra a violência policial. As mobilizações contra a reforma da Previdência também deixaram sua marca, e aqueles que protestavam contra o genocídio em Gaza encheram barricadas e manifestações escolares com bandeiras palestinas (…)”.

Esses jovens vivenciaram algumas dessas lutas durante a infância, enquanto outros participaram diretamente delas. Essas experiências lhes proporcionaram lições de solidariedade, enfrentamento do Estado, derrota e resistência. Essa experiência acumulada ajuda a explicar uma politização que refuta as caricaturas de uma geração individualista, incapaz de se organizar ou simplesmente absorta nas redes sociais. Nesse contexto, a revolta pode favorecer encontros entre setores que, durante a última década, lutaram separadamente: trabalhadores e jovens dos subúrbios, o movimento operário organizado, jovens que sofrem violência policial e ativistas anti-imperialistas. Esse potencial é uma de suas maiores forças.

Uma aspiração ofensiva: estudar e viver de outra maneira

Ao contrário dos movimentos juvenis tradicionais, que costumavam se organizar em torno da revogação de uma reforma, a revolta atual surge de condições intoleráveis de vida e estudo e de um sentimento de exclusão social. Seu objetivo vai além da mera preservação do status quo e exige uma educação melhor, tempo para viver e um futuro promissor. Embora os jovens reivindiquem professores, recursos e oportunidades reais de acesso à universidade, também questionam o esgotamento e a pressão do sistema escolar, a jornada escolar das 8h às 18h, a plataforma racista de admissão universitária Parcoursup, a segregação social e as perspectivas limitadas que lhes são oferecidas.

Essa combinação confere à luta um alcance que ultrapassa as reivindicações educacionais e desafia o lugar reservado aos jovens nesta sociedade. Esse caráter combativo é uma força, pois permite conectar problemas que costumam ser tratados separadamente e questionar suas causas subjacentes. Como observa o cientista político Paolo Stuppia: “A Geração Z está imersa naquilo que se denomina uma ‘policrise’: ela enfrenta uma multiplicidade de crises que não se excluem mutuamente, mas, pelo contrário, reforçam umas às outras. A COVID-19, por exemplo, mas também a explosão das desigualdades, a saúde mental, a situação geopolítica, a crise ambiental… Os jovens vivenciaram essas crises e continuam a vivenciá-las diariamente (…). Isso leva os estudantes do ensino médio, e os jovens em geral, a ter uma visão muito mais sistêmica de sua luta do que seus antecessores”.

Isso, contudo, coloca um desafio: como transformar as diversas reivindicações em objetivos comuns que permitam organizar o enfrentamento. A criatividade do movimento reflete sua busca por respostas a esse desafio. O humor, as referências culturais e a ironia transformam as experiências cotidianas em uma crítica ao poder. Uma palavra de ordem como “Queremos o baccalauréat, não o BAC” — um jogo de palavras em que bac, em minúsculas, é a abreviação de baccalauréat (o exame de conclusão do ensino médio), enquanto BAC, em maiúsculas, é a sigla da polícia de choque — resume, em poucas palavras, a distância entre as reivindicações dos jovens e a resposta do governo. Os sindicatos, as organizações políticas e os coletivos que participam da mobilização devem partir dessa reflexão, enriquecê-la e contribuir para lhe dar uma expressão coletiva. Isso exige colocar sua experiência a serviço do movimento, mas também ouvir as ideias da nova geração para dialogar com ela sobre como fortalecer a mobilização e construir uma correlação de forças.

Uma revolta que está abalando o fim do mandato de Macron

A revolta atingiu um Poder Executivo desgastado por quase dez anos de ataques e crises sucessivas. A crise do regime e o enfraquecimento de Macron e do governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu reduziram sua capacidade de conter a mobilização e isolar as diversas reivindicações que começam a convergir em torno do movimento dos estudantes do ensino médio. A reunião convocada no Palácio do Eliseu após a jornada de 6 de outubro demonstra a importância política que a mobilização adquiriu. O governo precisa responder a reivindicações que colocam em xeque suas prioridades orçamentárias, em um momento em que a França está no centro da desconfiança dos mercados financeiros e sua posição se enfraquece no âmbito europeu. Nesse contexto, Lecornu tenta manter o controle da situação, combinando o apoio às forças de segurança, promessas de consulta e anúncios de medidas parciais, como as relacionadas aos combustíveis ou aos 3.000 professores substitutos. Também tentou recuperar a iniciativa organizando debates em cada estabelecimento de ensino para forçar a retomada das aulas.

O objetivo é ganhar tempo e chegar às férias escolares com uma mobilização enfraquecida. Mas, enquanto as respostas não atenderem às reivindicações, esses procedimentos não contribuirão para resolver a crise, como demonstra a indignação provocada pelo anúncio do ministro da Educação sobre os professores substitutos e as críticas, inclusive entre diretores de estabelecimentos de ensino, à ideia de organizar “sessões democráticas” [de debate nas escolas para tentar evitar os bloqueios e as manifestações]. Para os jovens, o desafio consiste em dar um passo importante em sua organização para oferecer uma resposta coletiva. A fragilidade do governo abre oportunidades, mas, para obrigá-lo a ceder, é necessário construir uma força capaz de sustentar e ampliar o enfrentamento.

Auto-organizar-se para construir uma direção própria e abrir outro caminho

A revolta se depara com uma contradição: sua politização e expansão avançaram mais rapidamente do que seus mecanismos de tomada de decisões, organização e centralização. Certamente, pesquisadores como Paolo Stuppia assinalam que o movimento se caracteriza por “uma nova forma de auto-organização, criada e amplificada pela tecnologia digital”, implementada por “uma geração extremamente engenhosa, nascida com essas ferramentas, que sabe muito bem como utilizá-las para organizar suas ações”. Essas práticas foram um dos pontos fortes do movimento, permitindo a rápida coordenação de ações locais, ampliando a mobilização e dificultando seu controle hierárquico. No entanto, por si sós, elas não resolvem a questão de como desenvolver uma direção comum e controlar os representantes e os compromissos assumidos em nome do movimento.

O desafio atual, portanto, consiste em desenvolver, a partir dessas redes e da experiência da luta, órgãos democráticos capazes de tomar decisões e implementá-las. Surgiram assembleias e grupos de protocoordenação, mas seu desenvolvimento é desigual e ainda incipiente. Em algumas escolas, a continuidade depende de poucos organizadores; em outras, os jovens têm dificuldade para debater coletivamente seus objetivos e decidir quem pode representá-los. Para resolver essa contradição, é necessário desenvolver uma democracia genuína no interior do movimento. As assembleias devem eleger delegados com mandato definido e passíveis de revogação, e os grupos de coordenação devem se basear em escolas efetivamente mobilizadas e ser responsáveis por suas decisões. A proclamação do caráter “nacional” de um grupo de coordenação não garante sua representatividade. É fundamental saber como seus delegados foram eleitos, qual mandato possuem e como comunicam as decisões a seus pares. Esses mecanismos permitiriam aos jovens, estejam eles organizados em partidos, sindicatos ou coletivos estudantis, debater abertamente e decidir sobre os diferentes rumos do movimento.

O Sindicato Estudantil, organização estreitamente vinculada à França Insubmissa (La France Insoumise — LFI), [partido de Jean-Luc Mélenchon], contribuiu para impulsionar a mobilização. No entanto, sua abordagem consiste em decidir as reivindicações, as negociações e o calendário da luta “de cima para baixo”, limitando assim a capacidade da juventude mobilizada de determinar sua própria estratégia. As assembleias e quaisquer órgãos de coordenação ficam, então, subordinados a decisões que não podem debater nem controlar. Essa abordagem é coerente com a lógica institucional da LFI, que considera as eleições presidenciais como o desfecho político das lutas. A revolta, contudo, poderia abrir outro caminho: uma contraofensiva no terreno da luta de classes, uma vez que as reivindicações educacionais levantaram questões mais amplas: quem decide as prioridades do Estado? Como enfrentar a repressão? E qual força social pode impor a mudança?

Existem, entretanto, outros tipos de obstáculos à auto-organização. Por exemplo, a exaltação da espontaneidade leva alguns grupos a se oporem à criação de espaços de tomada de decisões, apresentando essa estruturação como uma tarefa secundária, como uma política que enfraqueceria o caráter radical do movimento ou como uma fachada para que as organizações políticas respaldem orientações predefinidas. Essas críticas ocultam a necessidade de permitir que todos os componentes do movimento debatam e decidam uma direção comum, além de correrem o risco de fazer com que a indignação expressa nas últimas duas semanas se dissipe sem que sejam fornecidos os meios para unificá-la com base em perspectivas claras. A verdadeira auto-organização, contudo, pode desempenhar um papel fundamental nesse sentido.

As reflexões de Trotsky sobre os comitês de ação, órgãos de coordenação da luta, resumem a lógica que deve prevalecer: “Os comitês de ação tomarão suas decisões por maioria simples, com total liberdade para que os partidos e as facções se reagrupem em seu interior. Os comitês de ação, em relação aos partidos, podem ser considerados parlamentos revolucionários: os partidos não são excluídos, muito pelo contrário, pois são considerados necessários; mas, ao mesmo tempo, são controlados em sua atuação, e as massas aprendem a se libertar da influência dos partidos corruptos”. Em outras palavras, no interior de estruturas de auto-organização que reúnam ativistas organizados e não organizados, as organizações políticas que apoiam a luta podem participar, defender suas propostas e buscar a maioria, sem deixar de estar submetidas ao controle dos mobilizados. A democracia do movimento exige a liberdade de confrontar diferentes orientações e mecanismos que permitam a tomada coletiva de decisões. É por meio dessa experiência que os jovens mobilizados poderão avaliar as diferentes opções disponíveis, questioná-las e substituí-las.

A experiência da luta contra o precarizante CPE (Contrato do Primeiro Emprego), em 2006, ilustra essa perspectiva. As assembleias e a coordenação estudantil nacional dotaram o movimento da capacidade de desenvolver uma linha de ação, estabelecer um calendário e exercer pressão sobre os sindicatos. A vitória foi possível graças a essa mobilização juvenil e à sua aliança com os trabalhadores. Precisamos retomar essa tradição! Sua importância vai além do conflito atual: uma coordenação juvenil democrática poderia demonstrar a outros setores que é possível controlar a representação e organizar lutas pela base, como ocorreu no final dos anos 1980 com o movimento contra a Lei Devaquet (reforma do sistema de ensino superior), que posteriormente inspirou enfermeiros, trabalhadores ferroviários e numerosas outras lutas trabalhistas. No entanto, ao longo da última década, as principais mobilizações operárias foram prejudicadas pela falta de organizações capazes de desafiar eficazmente a direção sindical. A experiência juvenil poderia contribuir para reabrir essa possibilidade. Por isso, juntamente com Révolution Permanente e Le Poing Levé, consideramos a auto-organização uma questão estratégica e queremos defender nossas propostas para o movimento em espaços representativos e democráticos, nos quais seja possível desenvolver uma orientação independente para a mobilização, condição para futuras vitórias.

De 13 a 17 de outubro: unificar as lutas e impor um plano para derrotar Macron

Os próximos dias colocarão em pauta a questão de como transformar a mobilização ampliada ocorrida em 6 de outubro em uma força capaz de passar à ofensiva. Para isso, a jornada de luta deste 13 de outubro deve servir para ampliar as assembleias e preparar o terreno para o dia 17 de outubro, quando jovens e outros setores que expressam sua rejeição ao governo e à deterioração das condições de vida poderão convergir nas ruas. Os chamados de numerosos estudantes do ensino médio e jovens trabalhadores, assim como as expectativas que suscitaram, ainda não se traduziram em ações concretas.

Embora a dimensão do dia 17 de outubro ainda esteja por ser definida, as assembleias de estudantes do ensino médio e universitários podem desempenhar um papel importante na preparação dessa jornada, estabelecendo pontos de encontro, organizando delegações para visitar os locais de trabalho e apoiando as mobilizações. Os jovens, contudo, precisam da participação dos trabalhadores para transformar a solidariedade em uma força capaz de paralisar a produção, o transporte e o fluxo de mercadorias, aumentando assim a pressão sobre o governo. Por conseguinte, os sindicatos e os trabalhadores mobilizados devem organizar reuniões, ações conjuntas e greves que deem força concreta a essa convergência.

Isso exige questionar a direção da cúpula sindical. O chamado interprofissional [dos principais sindicatos] para uma ação somente em 5 de novembro faz com que se percam semanas cruciais. Após várias semanas de silêncio, a secretária-geral da CGT, Sophie Binet, reconheceu que “o aumento dos protestos em direção ao dia 17 de outubro demonstra a dimensão da indignação e, portanto, onde houver condições adequadas, a CGT estará presente”. Mas, na hora de propor iniciativas concretas para unir a indignação dos jovens e da classe trabalhadora, ela evita a questão, delegando a mobilização a decisões locais, em vez de convocar a construção de um movimento interprofissional, envolvendo todos os sindicatos, para o dia 17 de outubro. Nas instituições de ensino, nos locais de trabalho e nas estruturas sindicais, devemos exigir apoio efetivo às próximas ações e impor um plano de ação sério, debatido e controlado por aqueles que se mobilizam.

Por outro lado, este dia 17 deve se tornar um momento decisivo para definir os próximos passos, com novas ações, a organização de greves que se estendam para além dos setores mobilizados em 6 de outubro e a coordenação entre instituições de ensino e locais de trabalho. Para isso, é necessário unificar a indignação em torno de objetivos comuns: recursos maciços para a educação e os serviços públicos, aumentos salariais, condições de vida dignas, rejeição à repressão e expropriação da petroleira Total sob controle operário [diante dos aumentos permanentes dos combustíveis]. Embora a luta contra o CPE (Contrato do Primeiro Emprego) tenha demonstrado como a juventude poderia contribuir para a construção de uma correlação de forças capaz de obrigar o governo a ceder, maio de 1968 nos permite vislumbrar um horizonte mais amplo: o de um levante estudantil que abra caminho para uma intervenção massiva da classe trabalhadora e para uma greve geral que desafie toda a ordem social. As referências a esse episódio crucial da luta de classes no país, assim como as referências revolucionárias evocadas em torno do dia 17 de outubro, demonstram a existência dessas aspirações. O avanço nessa direção, contudo, depende de decisões concretas que superem as divisões entre os setores e a sucessão de jornadas de luta isoladas.

Essa experiência poderia representar uma grande vantagem na luta contra a extrema direita. A solidariedade entre jovens de diferentes origens, a mobilização conjunta diante da repressão e a organização democrática contribuem para desenvolver as capacidades necessárias para combatê-la. Se forem alcançadas vitórias e demonstrado que existe uma saída coletiva para a decadência social, o movimento poderá ter um impacto profundo no país. Uma coisa é certa: os jovens abriram uma brecha no sistema autoritário e devolveram a confiança a setores abalados por derrotas anteriores. Sua união com o movimento operário pode agora transformar esse impulso em uma contraofensiva: impondo um plano de batalha, avançando rumo à possibilidade de uma greve geral e construindo a força capaz de derrotar Macron e sua agenda de austeridade, contrária à juventude e à classe trabalhadora.